sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Entrevista - Oded Grajew

Mais do que nunca, Fórum Social pode influenciar e mudar a política

por Gabriel Brito e Valéria Nader
Fonte: Correio da Cidadania


Encerrado no último dia 1, o Fórum Social Mundial (FSM), desta vez realizado em Belém do Pará, encontra-se em um momento que pode ser uma grande oportunidade para começar a provocar mudanças no modelo de desenvolvimento global, arruinado com a presente crise econômica e cada vez mais contestado pelas populações. Para analisar tal contexto, e também fazer um pequeno balanço de sua nona edição, Oded Grajew concedeu esta entrevista ao Correio da Cidadania, destacando que mais do que nunca as proposições do FSM se justificam. O que para o presidente da organização Nossa São Paulo, e um dos idealizadores do encontro, torna importante a presença de políticos dispostos a ouvir novas propostas de superação do neoliberalismo e do mercado auto-regulado. Após refutar a opinião de quem vê o FSM mais elitizado, pois daria espaço maior a entidades mais expressivas socialmente, Grajew afirma que os processos políticos são mudados somente, ou mais eficazmente, através da articulação da sociedade civil e organizada. O empresário ainda acredita ser falsa a divisão entre partidários de ações concretas e aqueles que vêem o Fórum apenas como mesa de discussões. Afinal, todos querem que dali saiam idéias que sejam levadas à prática pelos governos. "Trata-se de uma falsa dicotomia. Que eu saiba, ninguém pensa que se deva apenas debater, sem pensar em ações, ou, por outra, fazê-las às cegas, sem antes discutir nada".


Correio da Cidadania: Qual o sentido de um evento como o Fórum Social Mundial na atual conjuntura, à luz dos objetivos e conjuntura inicial na qual foi idealizado e realizado? Reforçou-se o significado desse evento ou, porventura, estaria perdendo algo de sua essência?

Oded Grajew: O FSM foi criado como contraponto ao Fórum Econômico de Davos, que é o defensor do atual modelo de desenvolvimento, que a nosso ver gera desigualdade social, destruição ambiental ameaçadora à nossa existência e conflitos, por se basear na competição econômica e no mercado, que por sua vez tem necessidade até de vender armas para se manter em pé.

Nada disso mudou, pelo contrário, esse modelo se aprofundou, inclusive provocando e aumentando as diferenças entre ricos e pobres, promoveu guerras ainda mais agudas e a degradação ambiental está mais presente do que nunca, já que longe de ser revertida foi aprofundada. Por conta disso, Belém, na Amazônia, foi escolhida para abrigar o Fórum pelo significado simbólico daquela região, onde se vê presente muita riqueza cultural, ambiental, social, ao mesmo tempo em que esse enorme patrimônio da humanidade sofre ameaças.

Portanto, mais do que nunca, é necessário tal tipo de mobilização, porque o atual modelo de desenvolvimento causa todas as degradações citadas e escasseia os recursos naturais. Estamos correndo contra o tempo, pois já há muitas previsões alertando que, se em 15 anos não houver uma reversão drástica desse modelo predador, o processo se tornará irreversível. É como um câncer: você pode tratar até certo ponto, mas uma hora ele pode se tornar irreversível. Dessa forma, mais do que nunca, esse tipo de mobilização é necessário.

CC: Tem havido algumas observações salientando uma possível ‘elitização’ na organização do Fórum, com variadas dificuldades de acesso por parte de grupos sociais, comunidades menos organizados. Como é o diálogo e o espaço que o Fórum oferece a estes grupos, a seu ver, ainda que menos representativos socialmente?

OG: O comitê organizador do Fórum não trata de nada que não seja a abertura de espaço a quem queira organizar suas atividades, pois não há inscrição oficial. O comitê não escolhe os participantes e, além do mais, não é necessário pedir licença para participar. Basta concordar com a carta de princípios e inscrever a atividade. A única coisa que resta é alocar espaços para as atividades. A organização se registra, informa o tema e a expectativa de público, para que a partir disso tente se designar um local para sua apresentação.

Não sei o que significa essa elitização. Não é preciso apresentar recursos nem nada. Em segundo lugar, qualquer entidade, bairro ou região pode organizar o seu fórum social. Não precisa pagar taxa, preencher requerimentos. Qualquer lugar pode organizar seu fórum. Belém foi o encontro anual unificado, mas ao longo do ano podem ser feitos diversos encontros.

Portanto, não compreendo essa história de elitização. Não é um grupo de Estados que se reúne, convida quem quer e faz o que quer. Essa é a diferença do Fórum, um espaço aberto autogestionado. E cada organização faz do seu jeito.

CC: Tocando nesse ponto da organização, como você avalia o funcionamento, no sentido logístico, do Fórum? Muita gente reclamou das dificuldades de deslocamento, que complicavam por demais a chegada aos locais de atividades.

OG: A maior dificuldade foi a falta de informação. Realmente, tivemos problemas de informação quanto à localização de cada espaço, programações falhas que apontavam lugares equivocados de eventos, e que às vezes mudavam de local no último momento etc. De fato, houve falhas nesse sentido e claro que precisam ser corrigidas.

CC: É correta a impressão de que o Fórum estaria muito influenciado por políticos, carismáticos inclusive, e que isso tiraria o foco dos reais objetivos do encontro?

OG: Quem convida governos, políticos, são as organizações sociais participantes. Os governos não fazem nenhuma atividade, comparecendo apenas como convidados.

E é bom que estejam lá, pois o objetivo, evidentemente, da sociedade civil – e quem está na coordenação são entidades dessa sociedade civil, sendo que algumas convidam políticos – é influenciar as políticas de governo. Melhorar a educação, saúde, distribuição de renda, sistema fiscal e tributário, o modelo econômico, cada item passa por políticas públicas. E para efetuá-las é necessário influenciar políticos.

Sendo assim, o Fórum Social Mundial não é um fim em si mesmo, mas, sim, um meio. Se quiser influenciar nas políticas, é bom que receba políticos.

CC: Existem condições efetivas para que as proposições do Fórum se massifiquem e, de fato, influenciem mais em nossa política - de alguma forma, portanto, adquirindo concretude?

OG: Sim, vejo essas condições. Até porque só acredito que as coisas mudem através da articulação da sociedade civil, que passa por políticas públicas, evidentemente. A maioria de nossos políticos tem levado em conta os interesses dos financiadores de campanha, não os da população. E a única maneira de se contrapor a isso é a mobilização da sociedade.

Desde que o Fórum se iniciou aqui no Brasil mesmo, o mapa político da América Latina, de 2001 para cá, mudou muito. Vários presidentes de hoje eram freqüentadores do Fórum. E cada um, à sua maneira, incorporou idéias aqui discutidas.

Portanto, várias coisas aconteceram em termos de mudança na América Latina, além da resistência à guerra, que influenciou muito a Alemanha e a França em suas participações na invasão do Iraque. Vale registrar a presença da delegação norte-americana, também muito grande no Fórum. Não à toa nos EUA se viu um presidente eleito muito por conta do movimento da sociedade civil, como foi o caso de Obama, que era azarão até para ganhar as prévias do Partido Democrata, sendo que não venceria se dependesse dos votos tradicionais. E há ainda a questão ambiental, pois cresceu muito a preocupação com o tema, que entrou fortemente na agenda internacional nos últimos anos.

Creio que tudo tem a ver com processos da sociedade civil, para os quais o FSM é um dos espaços.

CC: Há uma polêmica, já de longa data instaurada, entre aqueles que consideram que o Fórum deve ser um espaço de debates, sem necessariamente caminhar para o estabelecimento de proposições concretas, e outros que vêem como imperativo – especialmente considerando o atual cenário de crise econômica internacional – que se caminhe para objetivos reais a serem atingidos. O que você pensa desse ‘conflito’?

OG: Nunca houve esse debate. Existe um debate de formação de consciência e para planejar ação, o que, aliás, é muito importante mesmo que pareça supérfluo, pois é através de discussões e troca de informações que as pessoas formam suas consciências. E é o que fazemos neste momento: tentamos formar consciência para que esta possa inspirar ações.

No entanto, o que não falta são propostas (ações são feitas depois) das articulações da sociedade civil. Entrando no site do Fórum, podem ser vistos uns 30 documentos que foram resultantes de várias assembléias. O que não faltam são propostas e calendários de ação e mobilização resultantes do FSM.

Trata-se de uma falsa dicotomia. Que eu saiba, ninguém lá pensa que se deve apenas debater sem pensar em ações, ou, por outra, fazê-las às cegas, sem antes discutir nada. Qualquer ação demanda uma preparação.

CC: O FSM caminha para uma alternativa socialista a seu ver?

OG: O Fórum é social mundial, ou seja, o social predomina. E dentro disso, existem modelos diversos, defendidos por diferentes correntes, com suas respectivas visões de sociedade.

De toda forma, a ênfase mais forte é no social; há os que defendem o modelo social-democrata; os partidários do modelo dos países escandinavos (o que não estaria mal); e outros são favoráveis à eliminação da propriedade e da empresa privada.

Enfim, há de tudo. E tamanha diversidade constitui uma das grandes riquezas do Fórum.

Cassiano Terra Rodrigues

As razões superficiais de Woody Allen
Rodrigues é professor de Filosofia na PUC-SP e não gosta de sentimentalismos de auditório; prefere os mais instintivos.
Fonte:
Correio da Cidadania


Eis que em plena era da ciência, da tecnologia e da objetividade a todo custo aparecem quatro loucos que proclamam (como a voz no deserto): Melhor não confiar na razão, ela nos engana; melhor confiar nos instintos, nos nossos sentimentos, que nos enganam muito menos. Como assim? Quem são esses malucos?

Um deles é Woody Allen. Em "O Escorpião de Jade" (The Curse of the Jade Scorpion, EUA, 2001), além de dirigir, ele também atua como C. W. Briggs, bem-sucedido investigador de uma companhia de seguros que, seguindo seus instintos e conversando com falsos cegos de rua, desvendou muitos mistérios e contraiu muitas dívidas com apostas. Sua vida começa a se complicar quando tem de enfrentar a objetividade científica dos métodos mais modernos de investigação, trazidos à companhia por Betty Ann Fitzgerald (Helen Hunt). Além disso, claro, há um tão hilário quanto mais absolutamente inverossímil enredo de suspense e amor, numa paródia-homenagem aos filmes noir das décadas de 1940 e 1950, com alguns detalhes menos óbvios.

Primeiro: será que a oposição entre razão e sentimento é tão definida quanto nos parece? Ora, a fria objetividade científica de "Fitz" é na verdade uma máscara, por trás da qual há sentimentos vivos, ações contraditórias e nem tão frias – afinal, logo por quem ela foi se apaixonar?! Essa mesma objetividade, quando adotada na investigação dos crimes, mostra-se ineficaz. A ponto de descobrir a verdade, chegar até a porta dela, mas não conseguir vê-la além das aparências.

Segundo: C. W. Briggs devia ser o investigador frio, objetivo e que nunca se envolve sentimentalmente, mas é justamente o contrário disso. Nervoso, instável, desconfiado dos indícios mais plausíveis, apegando-se às pistas mais ilógicas, ele é o oposto do personagem eternizado por Humphrey Bogart (não nos surpreende que, ao subverter a lógica dos filmes noir, certa crítica, junto com boa parte do público, tenha torcido o nariz ao filme nos EUA). Apontando para a cabeça, ele diz: Isto aqui é só massa cinzenta pensando; o coração é vida, é sangue correndo, fluindo!. Ele quer dizer que, mais importante do que pensar, é seguir os instintos - se ficarmos pensando, duvidaremos de tudo e não faremos nada. Aliás, é seguindo os instintos que C. W. consegue provar a insuficiência dos métodos racionais e científicos.

Ah! Há a hipnose, que revela o segundo louco: Sigmund Freud. O leitor poderá agora assistir ao filme e, além de descobrir que esse tal escorpião de Jade não é tão venenoso assim, se perguntar se a razão consegue viver sem os sentimentos e se os sentimentos bastam para nos guiar a conduta – afinal, esses seus mesmos instintos também não o fizeram fracassar nas apostas?!?

Certo, no início do texto está lá escrito: quatro loucos. E os outros dois? O terceiro é Charles Sanders Peirce, mais conhecido pela semiótica e pelo pragmatismo. Nascido em 1839 (mesmo ano de Machado de Assis), falecido em 1914, Peirce também preferia os instintos: "São os instintos, os sentimentos, que fazem a substância da alma. A cognição é somente a superfície, seu local exato de contato com o que lhe é externo". Ou ainda: "Em tópicos de importância vital o raciocínio está deslocado (...) Assim, o conhecimento puramente teorético, ou ciência, nada tem a dizer diretamente com respeito a questões práticas, e não tem nada em absoluto aplicável a crises vitais. A teoria é aplicável a casos práticos menores; mas questões de importância vital devem ser deixadas ao sentimento, isto é, ao instinto".

Peirce é um irracionalista? Não, é um sentimentalista, assim como C.W. Briggs. A razão é a faculdade que desenvolvemos para medir, pesar e adivinhar as coisas – para descobrir. Onde ela se apóia, quais suas bases? Ora, ela só pode se apoiar naquilo que já sabemos e consideramos fora de dúvida, certo e estabelecido – ou seja, naquela experiência que chamamos de instinto. Quem, ao ouvir um grito de socorro, pararia para pensar 'É um grito de socorro que ouço?'? Ou então, num barco em perigo em meio ao mar revolto, em quem confiar: no marinheiro experiente ou no recém-formado engenheiro naval? É claro, podemos estar errados, mas, naquela hora H, agimos ou abrimos um inquérito para saber se estamos errados? Naquela hora H, "agimos por instinto"; depois, se sobrevivermos, pensaremos em como aprender com o erro.

Certos sentimentos que chamamos de instintivos são considerados os mais valiosos: o amor da mãe, a coragem espontânea, a verdadeira modéstia. Você não ouve o homem corajoso jactar-se da própria coragem, ou a mulher modesta gabar-se de sua modéstia, ou os realmente leais emplumarem-se com a própria honestidade. Aquilo de que estão convencidos é sempre algum dote insignificante de beleza ou habilidade. Eis o problema: é muito difícil ouvir o coração e não ser enganado pelo que pensamos ser o certo.

E o quarto louco? Este dizia que a moral é a filosofia do instinto de conservação; escreveu um livro – não uma paródia, mas uma recriação – chamado "O discípulo de Emaús." Ali, imprimiu: "O homem terá de fazer tudo desde o princípio; deverá antes de mais nada redescobrir o sentimento". Chamava-se Murilo Mendes e, em tempos de guerras frias e geladeiras automáticas, preferia escrever versos.

Cordiais saudações.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Entrevista - István Mészàros

Em 1971 István Mészàros ganhou o Prêmio Deutscher pelo seu livro A Teoria da Alienação em Marx e desde então tem escrito sobre o marxismo. Em janeiro deste ano, ele conversou com Judith Orr e Patrick Ward, da Socialist Review, sobre a atual crise econômica.

Socialist Review: A classe dominante sempre é surpreendida por crises econômicas e fala delas como fossem aberrações. Por que você acha que as crises são inerentes ao capitalismo?

István Mészàros – Eu li recentemente Edmund Phelps, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia, em 2006. Phelps é um tipo de neokeynesiano. Ele estava, é claro, glorificando o capitalismo e apresentando os problemas atuais como apenas um contratempo, dizendo que “tudo o que devemos fazer é trazer de volta as idéias keynesianas e a regulação.”

John Maynard Keynes acreditava que o capitalismo era ideal, mas queria regulação. Phelps estava reproduzindo a idéia grotesca de que o sistema é como um compositor musical. Ele pode ter alguns dias de folga nos quais não pode produzir tão bem, mas se você olhar no todo verá que ele é maravilhoso! Pense apenas em Mozart – ele deve ter tido o velho e esquisito dia ruim. Assim é o capitalismo em crise, como dias ruins de Mozart. Quem acredita nisso deveria ter sua cabeça examinada. Mas, no lugar de ter sua cabeça examinada, ele ganhou um prêmio.

Se nossos adversários têm esse nível de pensamento – o qual tem sido demonstrado, agora, ao longo de um período de 50 anos, não é apenas um escorregão acidental de economista vencedor de prêmio – poderíamos dizer, “alegre-se, esse é o nível baixo do nosso adversário”. Mas com esse tipo de concepção você termina no desastre de que temos experiência todos os dias. Nós afundamos numa dívida astronômica. As dívidas reais neste país (Inglaterra) devem ser contadas em trilhões.

Mas o ponto importante é que eles vêm praticando orgias financeiras como resultado de uma crise estrutural do sistema produtivo. Não é um acidente que a moeda tenha inundado de modo tão adventista o setor financeiro. A acumulação de capital não poderia funcionar adequadamente no âmbito da economia produtiva.

Agora estamos falando da crise estrutural do sistema. Ela se extende por toda parte e viola nossa relação com a natureza, minando as condições fundamentais da sobrevivência humana. Por exemplo, de tempos em tempos anunciam algumas metas para diminuir a poluição. Temos até um ministro da energia e da mudança climática, que na verdade é um ministro do lero lero, porque nada faz além de anunciar uma meta. Só que essa meta nunca é sequer aproximada, quanto mais atingida. Isso é uma parte integral da crise estrutural do sistema e só soluções estruturais podem nos tirar desta situação terrível.

SR - Você descreveu os EUA como levando a cabo um imperialismo de cartão de crédito. O que você quer dizer com isso?

IM – Eu lembro do senador norte-americano George McGovern na guerra do Vietnã. Ele disse que os EUA tinham fugido da guerra do Vietnã num cartão de crédito. O recente endividamento dos EUA está azedando agora. Esse tipo de economia só avança enquanto o resto do mundo pode sustentar sua dívida.

Os EUA estão numa posição única porque tem sido o país dominante desde o acordo de Bretton Woods. É uma fantasia que uma solução neokeynesiana e um novo Bretton Woods resolveriam qualquer dos problemas dos dias atuais. A dominação dos EUA que Bretton Woods formalizou imediatamente depois da Segunda Guerra era realista economicamente. A economia norte-americana estava numa posição muito mais poderosa do que qualquer outra economia do mundo. Ela estabeleceu todas as instituições econômicas internacionais vitais com base no privilégio dos EUA. O privilégio do dólar, o privilégio aproveitado pelo Fundo Monetário Internacional, pelas organizações comerciais, pelo Banco Mundial, todos completamente sob a dominação dos EUA, e ainda permanece assim hoje.

Não se pode fazer de conta que isso não existe. Você não pode fantasiar reformas e regulações leves aqui e acolá. Imaginar que Barack Obama vai abandonar a posição dominante de que os EUA dispõe, nesse sentido – apoiada pela dominação militar – é um erro.

SR – Karl Marx chamou a classe dominante de “bando de irmãos guerreiros”. Você acha que a classe dominante vai trabalhar junta, internacionalmente, para encontrar uma solução?

IM – No passado o imperialismo envolveu muitos atores dominantes que asseguraram seus interesses mesmo às custas de duas horrendas guerras mundiais no século XX. Guerras parciais, não importa o quão horrendas são, não podem ser comparadas ao realinhamento do poder e da economia que seria produzido por uma nova guerra mundial.

Mas imaginar uma nova guerra mundial é impossível. É claro que ainda há alguns lunáticos no campo miliar que não negariam essa possibilidade. Mas isso significaria a destruição total da humanidade.

Temos de pensar as implicações disso para o sistema capitalista. Era uma lei fundamental do sistema que se uma força não pudesse ser assegurada pela dominação econômica você recorreria à guerra.

O imperialismo global hegemônico tem sido conquistado e operado com bastante sucesso desde a Segunda Guerra Mundial. Mas esse tipo de sistema é permanente? É concebível que nele não surjam contradições, no futuro?

Algumas pistas vem sendo dadas pela China de que esse tipo de dominação econômica não pode avançar indefinidamente. A China não será capaz de seguir financiando isso. As implicações e consequencias para a China já são bastante significantes. Deng Xiaoping uma vez disse que a cor do gato – seja ele capitalista ou socialista – não importa, desde que ele pegue o rato. Mas e se, no lugar da caçada feliz do rato se termine numa horrenda infestação de ratos de desemprego massivo? Isso está acontecendo agora na China.

Essas coisas são inerentes nas contradições e antagonismos do sistema capitalista. Portanto, temos de pensar em resolvê-los de uma maneira radicalmente diferente, e a única maneira é uma genuína transformação socialista do sistema.

SR - Não há em parte alguma do mundo econômico desacoplamento dessa situação?

IM- Impossível! A globalização é uma condição necessária do desenvolvimento humano. Desde que o sistema capitalista se tornou claramente visível Marx teorizou isso. Martin Wolf, do Financial Times tem reclamado de que há muitos pequenos, insignificantes estados que causam problemas. Ele argumenta que seria preciso uma “integração jurisdicional”, em outras palavras, uma completa integração imperialista – um conceito fantasia. Trata-se de uma expressão das contradições e antagonismos insolúveis da globalização capitalista. A globalização é uma necessidade, mas a forma em que é exequível e sustentável é a de uma globalização socialista, com base nos princípios socialistas da igualdade substantiva.

Ainda que não haja desacoplamento na história do mundo, é concebível que isso não signifique que em toda fase, em todas as partes do mundo, haja uniformidade. Muitas coisas diferentes estão se desenvolvendo na América Latina, em comparação com a Europa, para não mencionar o que eu já assinalei sobre a China, o Sudeste Asiático e o Japão, que está mergulhado em problemas mais profundos.

Vamos pensar no que aconteceu há pouco tempo. Quantos milagres tivemos no período do pós-guerra? O Milagre Alemão, o Milagre Brasileiro, o Milagre Japonês, o Milagre dos cinco Tigres Asiáticos? Engraçado que todos esses milagres tenham se convertido na mais terrível realidade prosaica. O denominador comum de todas essas realidades é o endividamento desastroso e a fraude.

Um dirigente de um fundo hedge foi supostamente envolvido numa farsa envolvendo 50 bilhões de dólares. A General Motors e outras estavam pedindo ao governo norte-americano somente 14 bilhões de dólares. Que modesto! Eles deveriam ter dado 100 bilhões. Se um fundo hedge capitalista pode organizar uma suposta fraude de 50 bilhões, eles devem chegar a todos os fundos possíveis.

Um sistema que opera nesse modo moralmente podre não pode provavelmente sobreviver, porque é incontrolável. As pessoas chegam a admitir que não sabem como isso funciona. A solução não é desesperar-se, mas controlá-lo em nome da responsabilidade social e de uma radical transformação da sociedade.

SR – A tendência inerente do capitalismo é exigir dos trabalhadores o máximo possível, e isso é claramente o que os governos estão tentando fazer na Grã Bretanha e nos EUA.

IM – A única coisa que eles podem fazer é advogar pelos salários dos trabalhadores. A razão principal pela qual o Senado recusou a injetar 14 bilhões de dólares nas três maiores companhias de automóveis é que não puderam obter acordo sobre a drástica redução dos salários. Pense no efeito disso e nos tipos de obrigações que esses trabalhadores têm – por exemplo, repagando pesadas hipotecas. Pedir-lhes que simplesmente passem a receber metade de seus salários geraria outros tipos de problemas na economia – de novo, a contradição.

Capital e contradições são inseparáveis. Temos de ir além das manifestações superficiais dessas contradições e de suas raízes. Você consegue manipulá-las aqui e ali, mas elas voltarão com uma vingança. Contradições não podem ser jogadas para debaixo do tapete indefinidamente, porque o carpete, agora, está se tornando uma montanha.

SR – Você estudou com Georg Lukács, um marxista que retomou o período da Revolução Russa e foi além.

IM – Eu trabalhei com Lukács sete anos, antes de deixar a Hungria em 1956 e nos tornamos amigos muito próximos até a sua morte, em 1971. Sempre nos olhamos nos olhos – é por isso que eu queria estudar com ele. Então aconteceu que quando eu cheguei para estudar com ele, ele estava sendo feroz e abertamente atacado, em público. Eu não aguentei aquilo e o defendi, o que levou a todos os tipos de complicações. Logo que deixei a Hungria, fui designado sucessor, na universidade, ensinando estética. A razão pela qual deixei o país foi precisamente porque estava convencido de que o que estava acontecendo era uma variedade de problemas muito fundamentais que o sistema não poderia resolver.

Eu tentei formular e examinar esses problemas em meus livros, desde então. Em particular em "A Teoria Alienação em Marx" e "Para Além do Capital" (*). Lukács costumava dizer, com bastante razão, que sem estratégia não se pode ter tática. Sem uma perspectiva estratégica desses problemas você não pode ter soluções do dia-a-dia. Então eu tentei analisar esses problemas consistentemente, porque eles não podem ser simplesmente tratados no nível de um artigo que apenas relata o que está acontecendo hoje, ainda que haja uma grande tentação de fazê-lo. No lugar disso, deve ser apresentada uma perspectiva histórica. Eu venho publicando desde que meu primeiro ensaio justamente substancial foi publicado, em 1950, num periódico literário na Hungria e eu tenho trabalhado tanto como posso, desde então. À medida de nossos modestos meios, damos nossa contribuição em direção da mudança. Isso é o que tenho tentado fazer ao longo de toda minha vida.

SR- O que você pensa das possibilidades de mudança neste momento?

IM – Os socialistas são os últimos a minimizar as dificuldades da solução. Os apologistas do capital, sejam eles neokeynesianos ou o que quer que sejam, podem produzir todos os tipos de soluções simplistas. Eu não penso que podemos considerar a crise atual simplesmente da maneira que o fizemos no passado. A crise atual é profunda. O diretor substituto do Banco da Inglaterra adimitiu que esta é a maior crise econômica na história da humanidade. Eu apenas acrescentaria que esta não é apenas a maior crise na história humana, mas a maior crise em todos os sentidos. Crises econômicas não podem ser separadas do resto do sistema.

A fraude e a dominação do capital e a exploração da classe trabalhadora não podem continuar para sempre. Os produtores não podem ser postos constantemente e para sempre sob controle. Marx argumenta que os capitalistas são simplesmente personificações do capital. Não são agentes livres; estão executando imperativos do sistema. Então, o problema da humanidade não é simplesmente vencer um bando de capitalistas. Pôr simplesmente um tipo de personificação do capital no lugar do outro levaria ao mesmo desastre e cedo ou tarde terminaríamos com a restauração do capitalismo.

Os problemas que a sociedade está enfrentando não surgiram apenas nos últimos anos. Cedo ou tarde isso tem de ser resolvido e não, como o vencedor do Prêmio Nobel deve fantasiar, no interior da estrutura do sistema. A única solução possível é encontrar a reprodução social com base no controle dos produtores. Essa sempre foi a idéia do socialismo.

Nós alcançamos os limites históricos da capacidade do capital controlar a sociedade. Eu não quero dizer apenas bancos e instituições financeiras, ainda que eles não possam controlá-las, mas o resto. Quando as coisas dão errado ninguém é responsável. De tempos em tempos os políticos dizem: “Eu aceito total responsabilidade”, e o que acontece? Eles são glorificados. A única alternativa exequível é a classe trabalhadora, que é a produtora de tudo o que é necessário em nossa vida. Por que eles não deveriam controlar o que produzem? Eu sempre enfatizei em todos os livros que dizer não é relativamente fácil, mas temos de encontrar a dimensão positiva.

Fonte: Carta Maior

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Fonseca Neto

Fonseca Neto é professor do Departamento de Geografia e História da Universidade Federal do Piauí.
Fonte: CCHL-UFPI


Li nestes dias alguém chamando assim a Helder Pessoa Câmara, este padre dos pobres, bispo da esperança. E como o centenário de seu nascimento tem despertado em muitos a lembrança desse caminheiro fraterno.

Os limites espaço-temporais de sua vida comum são a Fortaleza cearense de fevereiro de 1909 e a Olinda recifense de agosto de 1999. Em 90 e mais dez, até 2009, são 100 anos de luz intensa sobre o juízo da humanidade.

Neste 7 de fevereiro, há um turbilhão de falas evocativas de sua vida e exemplo, nas igrejas, na rede mundial, nos círculos ativos da vivência cristã das ruas descalças.

O que mais necessário lembrar-se dele nesta hora?

Ainda há humanos caindo aos pedaços pelos esgotos a céu aberto; esgotos espraiando misérias pelas ruas dos desesperados; ruas bloqueadas ao livre caminhar da Liberdade; o caminhar do mundo ameaçado ante a porteira do poder-fausto de poucos; a porteira do latifúndio criando a fome, nutrindo o capital da morte.

Poder que esse Dom da Paz, maior entre os Nobel aclamados, assustou, somente por sair por aí andando e pregando que aquele jovem galileu é um amigo dos pobres. Poder que tentou calar-lhe a voz, subtrair-lhe o chão sem chão de terra dos mocambos por onde trilhou junto aos oprimidos.
Ainda que fora dos cânones, padre Helder é um são Helder no coração dos sofredores. No campo celeste onde habitam outros que se fizeram santos do povo pela opção dedicada aos que sofrem sob o jugo das opressões, está junto a mártires, tal Sebastião, caminheiros do bem, tal Francisco, pais da caridade, tal Vicente de Paulo.

O Brasil do padre Helder, ordenado em 1931, politicamente, é aquele do integralismo contra o getulismo estadonovista, da redemocracia de 45, da ditadura de 64, da nova redemocracia de 85. Em todos esses tempos, seu partido é a igreja, que a quer e sustenta como norte do povo, a comunhão fraternal como ato libertador.

A Roma vaticana de João XXIII, conciliar, flagra Helder, já um bispo, imerso nas favelas cariocas, e o nomeia para a Sé arquiepiscopal ludovicense do Maranhão; toma posse, todavia, em Olinda-Recife, em 12 de abril de 1964 –seu pastoreio pernambucano, assim, é inaugurado sob as labaredas vivas da ditadura imposta ao país há apenas doze dias.

Interessante essa conjunção de destinos, disjuntos: um padre libertário assumindo o sólio secular olidense, na hora extrema em que o chão da pátria, em brasa, movia-se para dobrar, em sua história, uma esquina esperançosa de justiça e paz. E aquele padreco-bispo, logo em Pernambuco, solo fecundado com o sangue de frei Amor Divino. Pernambuco de gente valente, praieira e sertã, em 64 tão vítima dos golpistas de março, porque terra de desafinadores do coro dos contentes (TN): M. Arraes, F. Julião, P. Freire, J. Castro, A. Suassuna.

Parece que ali pousara padre Helder naquele instante como que para ecoar a voz e temperar os signos da militância desses líderes e de milhões de deserdados comuns na hora em que o ferrão das oligarquias lhes calava covardemente a fala. Helder não ergueu este papel, em si e para si, mas seria desde então um dos maiores obstáculos a que a Ditadura obscurantista de 64 consumasse suas iniqüidades contra as liberdades; aniquilasse os amigos dos pobres.

Que armas usou abrindo caminhos à liberdade? “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei a vocês”: a palavra do evangelho cristão semeada entre o povo, germinando em ação real e frutificando além da retórica pregada do ambão.

O regime militar e as oligarquias reiteradas, daqui e dalhures, estremeciam ante o exemplo dele, pequeno-grande padre de fala mansa, naquele instante em que as batinas pretas das catedrais de ouro ficavam brancas sob a luz, mãe da vida.

Aliás, canhões e bombas traduzem o poder dos fracos. Em Teresina, na posse de Falcão, Helder deixou vazia, com graça, a mão oficial que se levantara a levar sua maleta; e foi, bispo vermelho, dizer missa na Vermelha, na vermelhidão matutina.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Entrevista - José Oscar Beozzo

Dom Helder, pastor da libertação em terras de muita pobreza

Ao se completarem os 100 anos de nascimento de Dom Helder Câmara, neste sábado, 07 de fevereiro, a Igreja do Brasil tem muito a agradecer e a se inspirar na vida e na obra do querido “Dom”, como ficou conhecido. Nesta entrevista especial, concedida por e-mail à IHU On-Line, padre José Oscar Beozzo, um dos maiores historiadores da Igreja na América Latina, comenta alguns traços da vida do grande arcebispo de Olinda e Recife, um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Entrevista concedida a Moisés Sbardelotto. Fonte: UNISINOS.

José Oscar Beozzo é padre e teólogo, com mestrado em Sociologia da Religião, pela Université Catholique de Louvain (Bélgica) e doutorado em História Social, pela Universidade de São Paulo (USP). Faz parte do Centro de Estudos de História da Igreja na América Latina (CEHILA-Brasil), filiado à Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina e no Caribe (CEHILA). Também é sócio fundador da Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (Adital). É autor de inúmeros livros, entre os quais "A Igreja do Brasil" (Vozes, 1993).


IHU On-Line – Há 100 anos, nascia Helder Pessoa Câmara, o futuro arcebispo de Olinda, reconhecido mundialmente pelo seu trabalho voltado a uma igreja mais simples, em contato com os pobres e pela não-violência. Quais foram os grandes passos que levaram aquele pequeno menino a ser um bispo católico reconhecido mundialmente, tendo recebido dezenas de prêmios internacionais, com quatro indicações ao prêmio Nobel da Paz?

José Oscar Beozzo – Os passos de Dom Helder não podem ser desconectados de algumas conjunturas nacionais, latino-americanas e internacionais que o interligaram com pessoas e eventos excepcionais.

Desde os tempos do seminário, interessou-se pela imprensa, tornando-se propagandista de O Nordeste, jornal da diocese, para o qual angariava assinaturas, o que lhe valeu memorável encontro com o Pe. Cícero, no Juazeiro. Começou também a publicar artigos na imprensa de Fortaleza, escondido por pseudônimo, até ser proibido pelo reitor do seminário. Posteriormente, imprensa escrita, rádio e televisão foram sempre instrumentos que manejava com maestria para passar adiante seus ideais, valores e mensagem.

O diácono Helder é ordenado padre em 1929, no turbilhão e desmoronamento do mundo econômico liberal na crise daquele ano. No ano seguinte, com as eleições presidenciais e a revolução de 1930, é o Brasil das oligarquias que rui. Entram em cena novos atores sociais no panorama político: os Estados da federação, de modo particular do Nordeste e do Norte, mais Rio Grande do Sul, até então excluídos da partilha do poder, concentrado em São Paulo e Minas Gerais, pela aliança café-com-leite; as classes médias urbanas; a classe operária; os tenentes do Exército, mas também a Igreja Católica alijada dos jogos do poder pelo laicismo republicano. Getúlio Vargas liquidou com a república velha e seu modelo agrário exportador, dando lugar a um projeto de desenvolvimento nacionalista, apoiado na industrialização do país e num pacto populista que uniria o empresariado nacional e os operários, sob a proteção, mas também controle direto, do Estado.

No Ceará, a Liga Eleitoral Católica (LEC) funcionou quase como partido político, tendo na sua coordenação o jovem Pe. Helder Câmara, que se aproximou dos integralistas de Plínio Salgado, abraçando seu ideário político. Em 1935, foi convidado pelo novo governador para assumir uma secretaria de governo, como diretor geral da instrução pública, no que seria hoje a secretaria de educação, num claro sinal desse retorno das hostes católicas ao jogo político. No final desse ano, atritos com o governador, na condução da política educacional, levam-no a pedir demissão e partir do Ceará para o Rio de Janeiro.

Funcionário público e discípulo de Dom Leme

No Rio de Janeiro, foi acolhido pelo conterrâneo Lourenço Filho no Ministério da Educação, dirigido por Gustavo Capanema. Em 1939, passou em concurso público para funções técnicas no Ministério. Na Igreja do Rio, foi recebido pelo Cardeal Dom Sebastião Leme. O Cardeal representou, internamente para a Igreja Católica, um contraponto ao projeto político de Vargas.

Leme tentou superar a atomização da Igreja e o isolamento das dioceses entre si, buscando estabelecer uma estratégia clara de ação e uma articulação do Episcopado para implementá-la. Reuniu os bispos em torno de si em maio e outubro de 1931 e depois para o Concílio Plenário Brasileiro, em 1939, com o intuito de traçar linhas de ação comuns. Tirou a Igreja da defensiva em que fora encurralada pela República Velha, trazendo-a para uma agenda propositiva, numa jornada em que foi auxiliado pela combatividade de Jackson de Figueiredo, da revista Ordem, do Centro Dom Vital, e pela densidade cultural, capacidade de escuta e articulação de Alceu Amoroso Lima à frente das instituições fundadas por Jackson de Figueiredo, da Liga Eleitoral Católica e depois da Ação Católica Brasileira (ACB).

Leme criou ainda, em 1935, a ACB, com abrangência nacional, mobilizando o laicato para uma atuação mais aguerrida nas estruturas sociais, políticas e culturais do país. Na capital da república, Helder trabalhou ainda como técnico do Ministério da Educação, entrando em contato com todo o debate sobre os rumos da educação no Brasil e a crescente atuação governamental nesse campo. Esse trabalho rendeu-lhe preciosos conhecimentos e contatos em toda a estrutura governamental. Essas relações seriam fundamentais no campo das relações entre a Igreja e o Estado, em sua posterior trajetória como bispo auxiliar no Rio de Janeiro e como secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Os leigos e as responsabilidades nacionais e internacionais

Através da Ação Católica de Pio XI, leigos e leigas foram seus mestres de vida, para a atuação no mundo e para uma espiritualidade longe dos ranços clericais. No Rio, o então Pe. Helder Câmara prosseguiu com seu envolvimento com os leigos, iniciado no Ceará com a Juventude Operária Católica, a Legião Cearense do Trabalho e a Liga dos Professores Católicos. Em 1950, tornou-se Assistente da nova ação católica especializada, convertendo em nacional seu raio de ação até então limitado ao Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano de 1950, suas funções de assistente nacional da Ação Católica levaram-no por primeira vez a Roma, para o Congresso Internacional da Ação Católica. Essa viagem propiciou-lhe o primeiro contato com Mons. Giovanni Baptista Montini, principal auxiliar do Papa Pio XII, a quem propusera a criação da Conferência dos Bispos do Brasil.

A criação da CNBB, em 1952, replicou em nível episcopal a plataforma de atuação nacional em que havia operado em nível do laicato. O papel de articulação que havia cumprido Dom Leme, pessoalmente, como cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, até sua morte prematura em 1942, passou a ser cumprido institucionalmente, de certa maneira, pela Ação Católica, mas, sobretudo, pela CNBB. O motor era, porém, o próprio Dom Helder, recém nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro e que assumiu a Conferência como seu primeiro secretário-geral, permanecendo nessa posição estratégica durante 12 anos, até 1964. Sua amizade com o Núncio Armando Lombardi, com quem se reunia a cada sábado, permitiu que uma legião de padres envolvidos na Ação Católica, com trabalhos valiosos na pastoral e na formação, fosse promovida ao episcopado, compondo um novo rosto da Igreja brasileira, mais próxima do povo, mais comprometida em suas lutas por superação da pobreza e por justiça e dignidade.

O XXIX Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro, em 1955, projetou Dom Helder como o grande organizador desse evento internacional e da I Conferência Geral do Episcopado Latino-americana, realizada logo em seguida. Da Conferência, resultou a criação do Conselho Episcopal Latino-americano, o CELAM. Em 1959, Dom Helder foi eleito um dos seus vice-presidentes.

O Congresso Eucarístico deu-lhe oportunidade para transformar a grande mobilização para organizá-lo, em iniciativas sociais de grande vulto, como a Cruzada São Sebastião, que pretendeu erradicar as favelas do Rio de Janeiro. Dom Helder constataria tempos depois, com certo desalento, que as favelas renasciam logo à frente, mais numerosas e esquálidas. A infra-estrutura humana do Congresso ensejou-lhe a promoção da Feira e do Banco da Providência, retaguarda para inúmeras iniciativas no campo social. O CELAM ofereceu-lhe uma plataforma continental para sua atuação e para a difusão de suas idéias e projetos, em perfeita sintonia com seu entranhado amigo, Dom Manuel Larraín, bispo de Talca, no Chile. O Concílio Vaticano II abriu para os dois – mas de modo particular para Dom Helder, com sua retórica inflamada e sua imaginação e audácia sem limites – a cena internacional.

IHU On-Line – O que caracterizou o trabalho de Dom Helder Câmara como bispo e arcebispo de Olinda? Quem foi o pastor Dom Helder, tanto para a Igreja local quanto para a Igreja do Brasil?

José Oscar Beozzo – Olinda e Recife fizeram, por primeira vez de Dom Helder, o pastor com inteira responsabilidade, de uma porção concreta do povo de Deus, no coração do Nordeste, em terras de muita pobreza, mas também de tradição, lutas e esperança.

No Rio de Janeiro, como bispo auxiliar e depois como arcebispo, mas sempre auxiliar, teve sua ação cada vez mais cerceada pelo Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, cujas visões de Igreja e de sociedade foram cada vez mais se distanciando.

Dom Helder chega ao Recife em 11 de abril, sob o estigma de opositor do novo regime militar apenas instalado com o golpe de 31 de março de 1964. Logo depois, em outubro, é despojado da liderança institucional de secretário-geral da CNBB.

"Olinda e Recife fizeram de Dom Helder o pastor de uma porção concreta do povo de Deus, no coração do Nordeste, em terras de muita pobreza, mas também de tradição, lutas e esperança"
Recife e o Nordeste tornam-se então sua trincheira de onde fala ao Brasil, mas também à América Latina e ao mundo. Mantém um contato diário com seu povo, pela Rádio Olinda, com meditações diárias; anima a criação de grupos de reflexão, leitura bíblica, oração, solidariedade e ação social, apelidados de Encontro de Irmãos.

Lança a Operação Esperança, levando a reforma agrária às terras da arquidiocese e toma outras iniciativas no campo pastoral: noites de encontro com intelectuais e artistas, mas também com sindicalistas, estudantes secundários e universitários. Percorre os bairros, mocambos e favelas do Recife e do interior em contato direto com a população mais pobre.

De Recife, apoiado por um bom número de bispos do Nordeste e superiores religiosos provinciais e articulado por Dom Helder, partiu o primeiro grito mais consistente de crítica social e política ao regime militar, com o Manifesto de 1973: “Ouvi os clamores de meu povo”. O documento, considerado subversivo pelo regime, só pode se espalhar clandestinamente em edições mimeografadas e prontamente recolhidas pelos militares e pela polícia quando encontradas.

Dom Helder foi calado pelo regime militar e colocado no mais rigoroso ostracismo, mormente após o AI-5, em 1968. Foi proibido pela censura que rádios, jornais e televisões de todo o país retransmitissem suas mensagens ou até escrevessem ou pronunciassem seu nome. Só no exterior podia ele falar livremente a multidões cada vez mais numerosas e entusiastas, num sem número de países, mormente na Europa, Estados Unidos e Canadá. Sua forte presença internacional incomodou alguns episcopados, regimes políticos e finalmente Roma, que também cerceou e limitou suas viagens e pronunciamentos.

Nesse sentido, valeu por uma reabilitação, o abraço do Papa João Paulo II a Dom Helder, quando de sua visita ao Brasil em 1980. Ao descer do avião no aeroporto de Guararapes no Recife, ao mesmo tempo em que abraçava o arcebispo banido, exclamou, diante de todos os meios de comunicação do país: “Dom Helder, irmão dos pobres, meu irmão”!

IHU On-Line – Qual foi o papel de Dom Helder dentro do Concílio Vaticano II? Como ele colaborou para que as discussões e mudanças ocorridas em Roma chegassem até o Brasil?

José Oscar Beozzo – No Concílio Vaticano II, Dom Helder cumpriu um duplo papel, de animador e incentivador de propostas e iniciativas corajosas e proféticas, e de articulador incansável da maioria conciliar.

Valendo-se da posição estratégica que ocupava no terceiro maior episcopado mundial, como secretário-geral da CNBB e de sua função de vice-presidente do CELAM, que estreitava laços e de algum modo representava os 600 bispos latino-americanos e caribenhos, quase um quarto do episcopado mundial, Dom Helder mobilizou a ambos os episcopados para uma iniciativa audaciosa. Semanalmente na Domus Mariae, local de residência, durante o Concílio, dos bispos do Brasil, Dom Helder, junto com Larrain do CELAM e Etchegaray, secretário da Conferência Episcopal francesa, com o apoio do Cardeal Suenens, um dos moderadores do Concílio, passou a reunir representantes das conferências episcopais da Europa, Ásia, África, Oceania e Américas.

Essas reuniões influenciaram a agenda, as votações e os conteúdos do Concílio, por sua capacidade de refletir, avaliar, propor e articular uma ação concertada dos principais episcopados, vertebrando de certo modo a assembléia conciliar.

Dom Helder participou igualmente de algum dos grupos informais mais atuantes no Concílio, como o Grupo da Igreja dos Pobres, que reunia bispos dos vários continentes preocupados com o compromisso da Igreja com os pobres e com suas lutas para superar os males da pobreza e da miséria, por meio de maior justiça e de um desenvolvimento integral que atingisse a todos, de modo particular, os mais empobrecidos enquanto países e classes sociais.

Articulou o nascimento do Opus Angeli, grupo que acertou uma forma organizada de teólogos e especialistas nas diferentes ciências humanas e sociais de prestarem uma assessoria qualificada ao episcopado brasileiro. Essa colaboração foi estendida depois a outros episcopados e, sobretudo, às conferências episcopais articuladas entre si no Grupo da Domus Mariae.

Em relação ao episcopado brasileiro, tomou iniciativa e incalculável alcance o ciclo de Conferências, que passou a ser organizado na Domus Mariae a partir da primeira sessão conciliar e que se ampliou e a diversificou nas três sessões subseqüentes. Ali, para cada um dos temas em discussão na Aula Conciliar, foram convidados os melhores teólogos e especialistas dos vários países para falar aos bispos do Brasil, qualificando o episcopado brasileiro para uma participação cada vez mais consciente e fundamentada nos debates, propostas e votações conciliares. Fez assim, da CNBB, um verdadeiro Fórum de debates de todos os temas e assuntos conciliares, por mais difíceis e delicados que fossem.

Essa longa e enriquecedora convivência romana ao longo das quatro sessões conciliares fez da CNBB o episcopado que melhor se preparou para a recepção conciliar, o único a sair de Roma com um plano de aplicação do Concílio, pensado, debatido e votado no seu conjunto e detalhes e que foi batizado de PPP: Plano de Pastoral de Conjunto.

Dom Helder, que nunca falou na Aula Conciliar, tornou-se um dos mais ouvidos e respeitados padres conciliares. Sua voz que não se fez ouvir na Basílica de São Paulo estava quase que diariamente presente nos meios de comunicação social, com inumeráveis entrevistas e conferências, que eram retransmitidas pelas rádios e televisões de todo o mundo.

Sua grande tribuna conciliar foram os meios de comunicação social, tendo-se tornado um amigo de centenas de jornalistas que cobriram regularmente o Concílio de 1962 a 1965. Isso ajuda a explicar e enorme audiência internacional de Dom Helder, também nos anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II.

IHU On-Line – Muito se comenta sobre o "Pacto das Catacumbas", documento assinado por cerca de 40 padres, nas catacumbas de Domitila, em Roma, durante o Concílio, que teve grande influência na Teologia da Libertação. Poderia contar-nos mais detalhes sobre esse pacto?

José Oscar Beozzo – O Pacto das Catacumbas foi firmado pelos bispos pertencentes ao grupo Igreja dos Pobres. Quase 500 outros bispos aderiram ao documento, cujo título era: "O Pacto da Igreja pobre e servidora", explicando assim seu impacto em praticamente toda a Igreja, indo da Europa, passando pela Ásia, África e chegando a América Latina, onde se encontrava o grupo mais numeroso de bispos comprometidos com essa linha de pensamento e ação.

O Pacto se desdobrava em 13 compromissos assumidos conjuntamente pelos seus signatários no sentido de viverem pobremente, quanto à habitação, vestuário, alimentação e meios de locomoção.

Isso explica porque Dom Helder, assim que pode, deixou o Palácio Episcopal de Manguinhos e foi viver pobremente na sacristia da Igreja das Três Fronteiras, no Recife, ou que nunca tenha tido um automóvel ou motorista ou ainda que usasse sua surrada batina branca, com apenas uma cruz de madeira, como insígnia episcopal.

A entrega das terras da arquidiocese a camponeses pobres que ali trabalhavam, empenhando-se em dar-lhes assistência técnica, jurídica e social para que conquistassem autonomia e cidadania, enquadrava-se nos compromissos do Pacto das Catacumbas que propunha ainda:

“Achando a colegialidade dos bispos sua realização mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral – dois terços da humanidade – comprometemo-nos:

- a participar, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
- a requerermos juntos, ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não fabriquem nações proletárias num mundo, cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres, saírem de sua miséria”.

O Pacto propunha também uma mudança radical das relações entre os bispos e os leigos e leigas, sacerdotes e religiosos/as:

“Comprometemo-nos a partilhar na caridade pastoral, nossa via com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosas e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço. Assim:

- esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida com eles”;
- suscitaremos colaboradores para serem mais animadores, segundo o Espírito, do que chefes, segundo o mundo;
- procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;
- mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião”.

IHU On-Line – A partir da assinatura do Pacto, qual a relação de Dom Helder com a Teologia da Libertação?
José Oscar Beozzo – Em relação à Teologia da Libertação, Dom Helder instaurou em sua vida e em sua ação pastoral local e internacional, práticas profundamente libertadoras. Tanto no Concílio, como de modo particular em Medellín e Puebla, foi um dos inspiradores e realizadores da opção preferencial pelos pobres.

Sua prática libertadora serviu de inspiração e estímulo à reflexão teológica, e seu Instituto Teológico em Recife, o ITER, foi um dos principais laboratórios e centros de produção de uma teologia da libertação colada à prática das comunidades eclesiais de base e aos movimentos populares.

Dom Helder foi um bispo e um pastor da libertação, não se considerando ele mesmo um teólogo, e sim um inspirador e animador da reflexão teológica libertadora.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Dom Demétrio Valentini

Dom Helder à luz de Aparecida

Homenagem da Cáritas Nordeste II a D. Helder Camara, por ocasião dos cem anos do seu nascimento.

Introdução

Estamos para inaugurar o Ano Centenário de D. Helder. É uma iniciativa que chega carregada de simbolismo, e prenhe de esperança.

O Ano Centenário se destina a resgatar a memória de D. Helder, a força do seu testemunho, o vigor do seu profetismo.

O seu grande exemplo de cidadão do mundo e de apóstolo da Igreja de Cristo!

Para personagens de dimensão histórica, a roupagem adequada é a dos séculos. No contexto do século que acolheu a existência de D. Helder emerge melhor sua grandeza e a atualidade do grande legado que ele nos deixou.

1- Os sonhos de D. Helder

A grandeza de ânimo e a generosidade de espírito encontram nos sonhos a forma adequada de expressarem suas utopias.

Ao se aproximar o ano 2000, o espírito de D. Helder fervilhou de ousadia, sonhando como ele desejava ver o mundo, e como desejava ver a Igreja, no novo milênio que estava despontando.

Como Moisés, que não pôde entrar na terra prometida, e só a enxergou do alto do Monte Nebo, assim D. Helder não entrou no "novo milênio". Ele faleceu em 1999, a 27 de agosto, como todos sabemos. Deus o chamou a entrar na eternidade, antes que o alvorecer do milênio despontasse na manhã do ano 2000.

Moisés não deixou dúvidas do rumo a seguir para entrar na terra prometida. Precisamos descobrir as sendas que nos conduzem aos sonhos que D. Helder cultivou para este prosaico milênio que vem repetindo guerras e produzindo a miséria que D. Helder denunciou com tanto vigor.

Pois bem, para este novo milênio D. Helder teve dois sonhos:
Para a humanidade, UM MUNDO SEM MISÉRIA E SEM FOME
Para a Igreja: A CONVOCAÇÃO DO SEGUNDO CONCÍLIO DE JERUSALÉM!
Sonhos grandes, sonhos audazes, sonhos generosos.
Um mundo justo, solidário, fraterno.
Uma Igreja aberta ao Espírito, pobre e servidora do Reino.
No sonho para a Igreja se revela a criatividade, e a perspicácia de D. Helder, que sabia apresentar suas idéias, deixando o espaço aberto para que fossem acolhidas com inteligência e responsabilidade.

Para entender a força do sonho de um "segundo concílio de Jerusalém", é preciso saber o que significou o primeiro, descrito na Bíblia e realizado no começo da Igreja. Os apóstolos se congregaram em Jerusalém e perceberam a universalidade do Evangelho de Cristo, que precisava romper os limites estreitos do judaísmo e de quaisquer outras amarras culturais e religiosas, para ser levado a toda a humanidade, que o aguardava como terra sedenta, pronta para produzir os frutos do Reino de Deus.

Agora, um segundo "concílio de Jerusalém" implicaria a predisposição da Igreja em rever sua caminhada, e o convite ao mundo para se abrir ao Evangelho de Cristo, superando preconceitos e confrontos inúteis, e abrindo caminho para um novo tempo de reconciliação e de paz mundial.

Vamos ficar hoje à noite com estes dois sonhos de D. Helder, como senha de acesso à figura deste grande cidadão do mundo e cidadão da Igreja, que foi D. Helder.

Vamos sonhar com ele. Mas como José, queremos sentir a urgência de acordar, e de colocar mãos à obra, para os esses sonhos se tornem realidade. Assim faz sentido lembrar a figura de D. Helder.

2- Dom Helder à luz de Aparecida - Ou Aparecida à luz de D. Helder

Pareceria carecer de razão o confronto entre D. Helder e a Conferência de Aparecida, que a seguir passaremos a fazer com brevidade.

Na verdade, podemos afirmar, sem receios e sem rodeios, que em Aparecida reconhecemos preciosos frutos da Igreja da América Latina, cujas sementes foram lançadas por D. Helder.

Fazendo este confronto entre D. Helder e a Quinta Conferência do Episcopado Latinoamericano e Caribenho, tornamos viva a atuação de D. Helder, e à luz do seu testemunho potenciamos melhor a riqueza da mensagem de Aparecida, e percebemos a conveniência de termos D. Helder como referência providencial para a caminhada da Igreja em nosso continente.

ESTÁ NA HORA DE COLOCAR DOM HELDER PESSOA CAMARA COMO PADROEIRO DESTA INCOMPREENDIDA IGREJA LATINOAMERICANA, E PROCLAMÁ-LO SANTO PROTETOR DO NOSSO CONTINENTE.

3- O sábio arquiteto da Igreja Latino Americana

Quando mergulhamos nos meandros das Conferências Latino Americanas, encontramos D. Helder presente em todas as esquinas, percorrendo todos os corredores.

As Conferências Gerais do Episcopado Latino Americano sinalizam a caminhada histórica da Igreja Latinoamericana, e nesta caminhada D. Helder deixou suas marcas que são reconhecidas com muita clareza.

Particularmente, a Conferência de Aparecida se assemelha à Conferência de Medellín. Ambas significaram, respectivamente, a consciência da importância da caminhada própria que a Igreja de nosso continente precisava fazer, e a consciência da retomada desta caminhada, como aconteceu em Aparecida.

A Conferência de Medellín foi fermentada já durante a realização do Concílio Vaticano Segundo. Foi D. Helder, junto com D. Larrain do Chile, que reiteradas vezes colocaram ao Papa Paulo VI a necessidade de trazer o Concílio para a América Latina, adaptando-o à realidade do nosso continente, através de uma "Conferência Geral do seu Episcopado", de que já tinham tido uma primeira experiência na Conferência do Rio de Janeiro em 1955.

Medellín foi imaginada por D. Helder e por D. Larrain. Com certeza, D. Helder terá vibrado de alegria celeste, ao ver que Aparecida retomou os caminhos de Medellín!

Mas é importante assinalar outro fato decisivo, ao recordamos as "Conferências Gerais Latino Americanas". Elas não teriam sido possíveis, se não contassem providencialmente com uma estrutura que as viabilizou. Sem a criação da CNBB em 1952, e a criação do CELAM em 1955, não teria havido o suporte indispensável para a realização destes eventos eclesiais.

E aí identificamos a importância providencial de D. Helder. Foi ele que intuiu a fundação da CNBB, em 1952. Ele a imaginou a partir de sua atuação junto à Ação Católica Brasileira.

E foi de novo D. Helder, junto com D. Larrain do Chile, que arquitetaram o CELAM, fundado em 1955, por ocasião do Congresso Eucarístico Internacional no Rio de Janeiro, que propiciou a realização da primeira Conferência Geral.

Hoje à noite nos cabe aqui recordar outra importante iniciativa de D. Helder, a fundação da Cáritas Brasileira, a 12 de novembro de 1956.

Em 1952 a CNBB, em 1955 o CELAM, em 1956 a Cáritas!

Assim, como São Paulo, ele poderia dizer: "Como sábio arquiteto, coloquei os fundamentos. Agora outro constrói sobre eles. Mas veja cada um como constrói" (1Cor 3, 10).

Estas iniciativas de D. Helder tiveram repercussões muito além do que à primeira vista possa parecer.

A Igreja no Brasil e a Igreja na América Latina foram as únicas que entraram no Concílio com uma estrutura adequada para acolher as suas propostas de renovação.

Pelas suas Conferências Gerais, a Igreja da América Latina foi a única que abraçou o Concílio de maneira orgânica e global. E nisto D. Helder tem muitos méritos.

4- O espírito de D. Helder em Aparecida

Mesmo relativizando as semelhanças, poderíamos imaginar em quem D. Helder "incorporou" o seu espírito em Aparecida. Os santos, com certeza, têm sua liberdade de atuação nos acontecimentos humanos, que precisam de sua intercessão. Não cabe a nós descobrir estes segredos.

Mas, em homenagem ao amigo chileno D. Larrain, recordamos a eficiente e sensata articulação feita em Aparecida pelo Presidente do CELAM, o cardeal Errasuris. E se nós brasileiros evocássemos a figura de D. Luciano, que também já não estava mais em Aparecida, poderíamos recordar outro jesuíta, o Cardeal Bergoglio, de Buenos Aires, que também soube conduzir muito bem o seu ofício de coordenador da comissão de redação, coisa que D. Luciano fez de maneira exímia em Puebla e Santo Domingo.

Mas, mais do que estas semelhanças externas, podemos agora, com brevidade, identificar coincidências fecundas entre D. Helder e Aparecida, associando as grandes intuições de Aparecida com os grandes sonhos de D. Helder.

5- Intuições de Aparecida e sonhos de D. Helder

5.1. Primeira intuição: o tema de Aparecida: Discípulos e missionários de Jesus Cristo

O sonho de D. Helder: retomar o impulso original do Evangelho de Jesus Cristo.

A Conferência de Aparecida começou acertando o passo com a oportunidade do tema escolhido. Ele, na verdade, expressa a síntese dinâmica do Evangelho. O que foi que fez Jesus? Ele chamou discípulos, que transformou em missionários do seu Evangelho.

Com certeza, D. Helder, se vivo fosse, estaria vibrado de entusiasmo com este tema de Aparecida. Pois coincide em cheio com seu sonho de retornar ao vigor e à força da Igreja Primitiva.

Mesmo sem o encanto da utopia do "Segundo Concílio de Jerusalém", Aparecida não deixa de ser uma concretização verdadeira do sonho de D. Helder. Talvez Aparecida não chegou a Jerusalém. Mas não há dúvida de que ela aponta para a sua direção!

5.2. Segunda intuição: A Igreja a serviço da vida

Outra riqueza fecunda de Aparecida, foi desdobrar o seu tema central, dando-lhe uma finalidade surpreendente: a conseqüência do seguimento e da missão dos cristãos deve ser a vida dos povos!

Ora, esta intuição bate de cheio com o sonho de D. Helder, de um mundo justo, e de uma Igreja a serviço da vida de todos.

É bom perceber como os sonhos ousados podem encontrar terreno firme e propício para se concretizarem.

5.3. A retomada da identidade própria da Igreja da América Latina e do Caribe

Esta é outra das intuições fundamentais de Aparecida. Retomar e reafirmar a validade da caminhada própria da Igreja Latinoamericana. Vale a pena citar a passagem que a reafirma de maneira clara e contundente:
"A Quinta Conferência do Episcopado Latino Americano e Caribenho é novo passo no caminho da Igreja, especialmente a partir do Concílio Vaticano II. Ela dá continuidade, e ao mesmo tempo recapitula o caminho de fidelidade, renovação e evangelização da Igreja latino-americana ao serviço dos seus povos, que se expressou oportunamente nas Conferências Gerais anteriores..." (DA 9).

Pois bem, a vida toda de D. Helder encarna esta causa de afirmação da identidade própria da Igreja Latino Americana, como fruto da fecundidade do Evangelho, que suscita por toda parte novas expressões eclesiais, em sintonia profunda com a inesgotável graça de Deus.

5.4. Retomada da renovação eclesial iniciada pelo Concílio Vaticano II

De maneira muito oportuna, a Conferência de Aparecida reafirmou a validade, e a urgência, da renovação eclesial desencadeada pelo Vaticano II:
"fiel à Igreja de sempre, (a Igreja Latino Americana prosseguirá) a renovação iniciada pelo Concílio Vaticano II, impulsionada pelas Conferências Gerais anteriores, e para assegurar o rosto latino americano e caribenho de nossa Igreja..."(DA n. 100 h).

Pensando agora em D. Helder, é evidente a coincidência de sua vida com esta causa lembrada por Aparecida. Ele soube mais que ninguém valorizar o Concílio, que ele vivenciou como uma graça excepcional, a quem dedicou o melhor de sua atuação.

5.5. A reafirmação da opção preferencial pelos pobres (DA 391-398)

A Conferência de Aparecida não só reafirmou a opção preferencial pelos pobres, como o fez de maneira tranqüila e bem fundamentada, como se pode deduzir desta breve citação:
"A opção preferencial pelos pobres é uma das peculiaridades que marcam a fisionomia da Igreja latino americana e caribenha." (DA, n. 391.
"A opção pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza" (DA n. 32)

D. Helder foi um dos signatários do "Pacto das Catacumbas", através do qual, dezenas de bispos se comprometiam a abandonar todos os sinais de ostentação episcopal, e viver pobremente, a serviço do Evangelho. D. Helder viveu este compromisso de maneira coerente e emocionante. Viveu pobre, e morreu pobre, para edificação de todos nós.

5.6. As Comunidades Eclesiais de base (DA 178-179).

Temos aqui outra pérola de Aparecida, a afirmação clara e serena da importância das CEBs.:
"elas recolhem a experiência das primeiras comunidades, como estão descritas nos Atos dos Apóstolos, (Cfr At 2, 42,47. Medellín reconheceu nelas uma célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização (DA 178).

A atuação pastoral de D. Helder era coerente com seu sonho de reviver hoje a mesma experiência de comunhão eclesial realizada pelas comunidades da Igreja Primitiva.

5.7. A recuperação do método Ver, Julgar e Agir

Foi surpreendente constatar o que Aparecida conseguiu: reverter o desvio de rota praticado pela Conferência de Santo Domingo, que tinha abandonado o método, que Aparecida retoma e justifica:
"Em continuidade com as Conferências Geais anteriores do Episcopado Latino americano, este documento faz uso do método "ver, julgar e agir"... este método tem colaborado para que vivamos mais intensamente nossa vocação e missão na Igreja: tem enriquecido nosso trabalho teológico e pastoral, e em geral tem-nos motivado a assumir nossas responsabilidades diante das situações concretas de nosso continente." (DA n. 19).

Podemos imaginar o entusiasmo que teria tomado conta de D. Helder ao constatar que o método que ele tinha visto dar tantos frutos na Ação Católica era agora retomado, com convicção, pela Igreja Latinoamericana.

5.8. A Igreja toda em estado de missão

Para concluir, podemos citar ainda esta outra grande intuição, e decisão assumida em Aparecida: uma Igreja voltada para fora de si mesma, ao serviço da missão que Cristo lhe confiou:
"Este despertar missionário, na forma de Missão Continental... procurará colocar a Igreja em estado permanente de missão... Recobremos, portanto o ‘fervor espiritual’. Conservemos a doce e confortadora alegria de evangelizar... recuperemos o ardor e a audácia apostólicos". (DA n. 551).

Se colocássemos estas palavras na boca de D. Helder, sentiríamos como elas sairiam direto do seu coração, em plena coincidência com o Espírito Santo que as iluminou para serem assumidas pela Conferência de Aparecida.

Conclusão

A conferência de Aparecida nos mostra como os sonhos de D. Helder ainda continuam vivos em nossa Igreja. A lembrança dele nos ajuda a perceber como podemos colocar em prática estes sonhos.

O Ano Centenário se destina a recuperar a memória de D. Helder, mostrando quanto ela ainda é oportuna.

Fonte: ADITAL

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Frei Betto

Mensagem de Dom Helder Camara

De: HelderCamara@ceu.com

Para: amigos e amigas

Queridos: estivesse entre vocês, a 7 de fevereiro comemoraria 100 anos de idade. Quis o bom Deus, entretanto, antecipar-me a glória de desfrutar Sua visão beatífica. Aliás, o Céu nada tem daquela imagem idílica que se faz na Terra. Nada de anjos harpistas e nuvens cor-de-rosa, embora a música de Bach tenha muita audiência.

Entrar na intimidade das três Pessoas divinas é viver em estado permanente de paixão. Arrebatado por tanto amor, o coração experimenta uma felicidade indescritível.

A propósito, outro dia, Buda, de quem sou vizinho, me contou esta parábola que bem traduz o caminho da felicidade: numa feira da Índia, entre tantos restos de frutas e legumes, uma mulher fitava detidamente o chão. Viram que procurava algo. Um e outro perguntaram o quê. "Uma agulha". Não deram importância. Porém, quando ela acrescentou que se tratava de uma agulha de ouro, multiplicou o número dos que a auxiliavam na busca.

Súbito, um deles perguntou: "A senhora não tem ideia de que lado da feira a perdeu?" "Não foi aqui na feira", respondeu a mulher, "perdi-a em casa". Todos a olharam indignados. "Em casa?! E vem procurar aqui fora?" A mulher fitou-os e retrucou: "Sim, como vocês procuram a felicidade nas coisas exteriores, mesmo sabendo que ela se encontra na vida interior".

O Céu é terno, o que não impede que experimentemos indignações. Jesus não fez a fome e a sede de justiça figurar entre as bem-aventuranças? Quando olho daqui para a Igreja Católica confesso que sinto, não frustração, mas uma ponta de tristeza. O papa Bento XVI não transmite alegria e esperança. Faltam-lhe o profetismo de João XXIII e a empatia de João Paulo II.

Padres cantores atraem mais discípulos do que aqueles que se dedicam aos pobres, aos lavradores sem-terra, às crianças de rua, aos dependentes químicos. Nas showmissas os templos ficam superlotados, enquanto nos seminários o ensino de filosofia e teologia costuma ser superficial.

A vida de oração não é estimulada, muitos buscam o sacerdócio para obter prestígio social e, por vezes, o moralismo predomina sobre a tolerância, o triunfalismo supera o espírito ecumênico. Até quando homossexuais serão discriminados por quem se considera discípulo de Jesus?

Alegra-me, porém, saber que as Comunidades Eclesiais de Base estão vivas e se preparam para realizar o seu 12o encontro intereclesial, em Rondônia, no próximo julho. Dou graças a Deus ao constatar que o CEBI - Centro de Estudos Bíblicos - conta com mais de 100 mil núcleos espalhados pelo Brasil, integrados por gente simples interessada em ler a Bíblia pela ótica libertadora.

Preocupa-me, entretanto, a polêmica entre os irmãos Boff. Tanto Leonardo quanto Clodovis são teólogos de sólida formação. Não considero justa a acusação feita por Clodovis de que a Teologia da Libertação teria priorizado o pobre no lugar do Cristo. O próprio Evangelho nos mostra Cristo identificado com os pobres, como ocorre na metáfora da salvação em Mateus 25, 31-46.

Francisco de Assis, com quem sempre me entretenho em bons papos, lembra que sem referência ao pobre, sacramento vivo de Deus, Cristo corre o risco de virar um mero conceito devocional legitimador de um clericalismo que nada tem de evangélico ou profético.

Tenho dito a são Pedro que sonho com uma Igreja em que o celibato seja facultativo para os sacerdotes e as mulheres possam celebrar missa. Uma Igreja livre das amarras do capitalismo, e na qual os oprimidos se sintam em casa, alentados na busca de justiça e paz.

Quanto ao mundo, lamento que a fome, por cuja erradicação tanto lutei, ainda perdure, ameaçando a vida de 950 milhões de pessoas e causando a morte de cerca de 23 mil pessoas por dia, a maioria crianças.

Por que tantos gastos em formas de ceifar vidas, como armamentos, e investimentos que degradam o meio ambiente, como pesticidas, desmatamentos irresponsáveis e cultivo de transgênicos? Por que tão poucos recursos para tornar o alimento - dom de Deus - acessível à mesa de todos os humanos?

Ao comemorarem meu centenário, lembrem-se dos princípios e objetivos que nortearam a minha vida. Malgrado calúnias e perseguições, vivi 91 anos felizes, pois jamais esqueci do que disse meu pai quando comuniquei a ele minha opção pela vida sacerdotal: "Filho, egoísmo e sacerdócio não podem andar juntos".

Fonte: ADITAL

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Luiz Carlos Bresser-Pereira

O pequeno herói

Artigo publicado na Folha de São Paulo, em 2 de fevereiro de 2009.



EXCEÇÃO feita das histórias juvenis, os heróis são raros. Em um mundo materialista no qual o neoliberalismo ensina que a única motivação humana é o autointeresse, ninguém está disposto a reconhecer os heróis -os homens e as mulheres que têm a coragem de agir de acordo com seus ideais humanos e cívicos arriscando sua vida para enfrentar a violência das forças naturais e principalmente a ganância dos poderosos. Quando os reconhecemos, isso decorre de uma ação isolada -de alguém que, em certo momento, salva uma criança da morte ou, como o piloto americano, amerissa com sucesso no rio Hudson e salva 150 passageiros.

Neste mundo desencantado em que vivemos, porém, a última coisa que nos dispomos a reconhecer é um político herói. Podemos até admitir que determinado político seja um estadista, mas um herói... Nosso modelo de herói é o de Davi enfrentando Golias, e é difícil pensar em um político -alguém dotado de poder- como um Davi.

Não obstante, eu estou hoje convencido de que há um pequeno e admirável herói na política mundial: o presidente da Bolívia, Evo Morales. Não estou seguro de que ele terá êxito em sua missão -a de criar uma democracia social na Bolívia- porque é muito difícil governar democraticamente países pobres e, ainda por cima, divididos em termos étnicos -e aquele país sofre dos dois males. Em países pré-industriais, como a Bolívia, a apropriação do excedente econômico não se realiza principalmente no mercado, mas por meio do controle direto do Estado, de forma que as oligarquias locais estão sempre dispostas a derrubar governantes que não se amoldem a elas. Para eles, a solução mais simples é aderir aos poderosos locais -aos proprietários de terras "brancos" de Santa Cruz e Beni- e aos países poderosos ao seu redor: o Brasil e os Estados Unidos. Com algumas exceções, foi isso o que os presidentes bolivianos fizeram no passado, esquecendo-se dos índios e dos pobres, que são a grande maioria. Assim, não promoveram nem o desenvolvimento econômico nem a diminuição da desigualdade, e vários nem sequer conseguiram evitar que fossem derrubados.

Morales não se deixa atemorizar.

É o primeiro presidente índio eleito na Bolívia e tem mostrado coragem para ser fiel ao seu mandato. Em seguida à sua eleição chegou a ser ameaçado pelas elites dos Departamentos mais ricos e menos povoados por índios, porque desejava definir uma nova Constituição para seu país. Em certo momento, avançou o sinal e tentou aprová-la com maioria simples -o que deu argumentos à oposição conservadora.

Para resolver o impasse, buscou negociar e aceitou arriscar a revogação de seu mandato presidencial em um referendo. Ganhou-o com 67% dos votos -o que não impediu que os governadores dos Departamentos mais ricos continuassem seu movimento separatista. Agora, a nova Constituição foi referendada por quase 60% dos eleitores, mas as elites locais já exigem sua revisão.

Morales teve também a coragem de nacionalizar a exploração e o refino de petróleo -o que causou a ira de nossas elites, que, de repente, tornaram-se nacionalistas. Felizmente, o presidente Lula as ignorou. Mas o nosso pequeno Galahad enfrentará ainda muitos obstáculos. O graal não existe a não ser para os heróis.

Pe. Alfredo J. Gonçalves

E agora Obama?

Escrito por Pe. Alfredo Gonçalves - assessor das pastorais sociais da CNBB.

Fonte: Correio da Cidadania







A festa acabou, os holofotes se apagaram, as bandeiras se encolheram, as lágrimas secaram, o povo silenciou e a multidão sumiu... E agora Obama? Tomando de empréstimo o poema de Carlos Drummond de Andrade, essa pergunta é feita hoje pelo cidadão norte-americano que, em proporção inédita, compareceu à festa da tomada de posse; pelas comunidades negra, hispânica e migrante, no desejo de mudanças substanciais; por uma multidão incalculável de pessoas espalhadas por todo o planeta, de olhos voltados à possibilidade de uma inflexão mais positiva na política externa dos Estados Unidos; enfim, por uma série de políticos e analistas, acreditando ou não em relações mais amigáveis com a maior potência do planeta. E agora Obama?

Sobraram as promessas sobre uma economia em crise e com muito mais problemas e perguntas do que soluções e respostas. Sobraram milhares de soldados no Iraque e no Afeganistão, em guerras insanas, desejosos de retornar para casa. Sobrou um peso de anos da era Bush, onde os Estados Unidos, unilateralmente, comandavam as regras do jogo político internacional. Sobraram aspirações, ansiedades e expectativas populares, cuja resolução está muito acima da capacidade de um governo e de um presidente, por mais dinâmico e poderoso que seja. Mas sobrou, sobretudo, um imenso vazio de poder em nível mundial, uma liderança internacional fortemente arranhada pela crise financeira e que agora terá de dividir com outros países as grandes tomadas de decisão.

Os Estados Unidos hoje têm telhado de vidro e pés de barro. Constituem um gigantesco organismo vivo, cuja nudez exposta revela chagas e fissuras por todos os poros. O discurso de posse foi marcado por uma tonalidade fortemente messiânica. Remetendo-se aos fundadores da América, à Bíblia e ao próprio Deus, Obama apresenta os Estados Unidos como a nação que haverá de salvar o mundo, levando a paz, a democracia e a liberdade a todos os povos e nações, incluindo os muçulmanos. A esperança foi a pedra fundamental de suas palavras emocionadas e eletrizantes. Mas essa atitude costuma levantar expectativas de mudanças muito acima da capacidade de realização. A médio e longo prazo, isso pode significar frustração e desencanto. Resta saber como essas palavras irão traduzir-se em ações nos próximos quatro anos! Aliás, seus antecessores não fizeram praticamente o mesmo?

Nos tempos da guerra fria a política internacional adquiriu uma natureza claramente bipolar. Ao redor de dois pólos – EUA e URSS – giravam como planetas os demais países. Depois da queda do muro de Berlim, tal política toma um caráter unipolar, com forte liderança norte-americana. Agora, com a queda do "muro financeiro" da economia mundial, o mundo transita para uma liderança multipolar, tanto do ponto de vista econômico quanto político. Nela, os Estados Unidos pouco mais são do que um parceiro entre outros. Como se comportará Obama neste momento de transição? O que fará para recuperar a liderança de seu país, como insistiu em seu discurso de posse? Entre a pressão interna e externa, qual será sua linha de ação? Há ainda espaço geopolítico para que os Estados Unidos voltem a ser o piloto da nave chamada planeta Terra?

Os mesmos holofotes que antes se concentravam festivamente sobre o presidente aureolado de bandeiras e emoção daqui para frente irão focalizá-lo com olhos críticos. E os cidadãos estadunidenses também. E o mundo inteiro não fará outra coisa. Todos torcem por mudanças no panorama mundial! Convém ter presente que uma sociedade conservadora como a estadunidense não muda do dia para a noite. Os Estados Unidos constituem um elefante, não um tigre. O tigre se move com impressionante versatilidade e rapidez. O paquiderme não! Tem passos lentos, pesados, demora para mudar o rumo de seu trajeto. A burocracia e os interesses dominantes o amarram à tradição. E agora, Obama?

Entrevista - Ivo Poleto

O novo está no fato de reconhecer a Terra como um ser vivo

Convidado a refletir sobre a posição de alguns analistas sobre os 25 anos do MST, o cientista social Ivo Poletto falou à IHU On-Line, por e-mail, sobre o movimento neste momento de aniversário. Ivo Poletto é assessor de pastorais e movimentos sociais. Trabalhou durante os dois primeiros anos do governo Lula como assessor do Programa Fome Zero e foi o primeiro secretário-executivo da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Autor, entre outros, do livro Brasil, oportunidades perdidas – Meus dois anos no governo Lula (Rio de Janeiro: Garamond, 2005), é filósofo, teólogo, cientista social e educador popular.
Fonte: UNISINOS



IHU On-Line - Qual a avaliação geral que o senhor faz do MST hoje, considerando seus 25 anos de história? O movimento mudou muito? Ainda cumpre seu papel?

Ivo Poletto - É claro que o MST é diferente, se comparado com a forma de organização assumida em seu nascimento. Na época, havia ainda ditadura militar e uma real militarização da questão agrária, como adequadamente definia o professor José de Souza Martins. Havia, é verdade, o Movimento Diretas Já, mas, ao mesmo tempo, havia a migração oportunista de José Sarney do PDS para o PMDB, visando, como aconteceu, ser candidato a vice-presidente numa eleição indireta - medidas impostas pela ditadura em derrocada e aceitas pelo partido de tradicional oposição consentida. Eram tempos diferentes, e a luta pela terra e pela reforma agrária eram bandeiras ainda temidas como renascimento do comunismo, tanto que os grandes proprietários se organizaram e armaram, através da UDR, para impedir que o movimento dos empobrecidos forçasse o Estado a democratizar a estrutura da propriedade de terra.

Os 25 anos do MST quase coincidem com o período da Nova República, ou do processo de redemocratização que se seguiu aos 20 anos de ditadura. Tendo presente a complexa trajetória da sociedade brasileira nesse período, é importante não fazer um juízo superficial da fidelidade ou não do MST aos seus objetivos. A convivência e enfrentamento com governos comandados por José Sarney, Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, necessariamente exigiu mudanças nas estratégias de ação e nas formas de organização. Mas isso não significa abandono dos objetivos norteadores de sua criação: a democratização da terra, através de um processo real de reforma agrária, e a transformação da sociedade brasileira, para que nela pudessem viver com dignidade todos os brasileiros e brasileiras. Estes objetivos foram clara e solenemente reassumidos no Congresso celebrativo dos 25 anos.

IHU On-Line - Como o senhor reage, de forma geral, diante das posições de José de Souza Martins, Antônio Cechin e Dom Tomás Balduíno em relação ao MST?

Ivo Poletto - Concordo com o amigo Antônio Cechin que seria muito importante o MST não esquecer do que ele considera os “tempos de profecia”. É sempre perigoso celebrar a história a partir dos atos de institucionalização: corre-se o risco de imaginar, no caso, que a luta pela terra tenha começado na data de nascimento da instituição MST. Na verdade, pode-se dizer que, não fosse a coragem dos Kaingang e, muito mais contraditoriamente, não fosse a construção da hidrelétrica de Itaipu, e, evidentemente, a resistência e as ações dos atingidos, não haveria o MST. Aliás, não fossem as já existentes e diversificadas lutas pela terra em todas as regiões, difícil seria sequer imaginar o enraizamento do MST em praticamente todo o território brasileiro. E se, nesses tempos, não existissem cristãos que dedicaram suas vidas em apoio aos camponeses, certamente teria sido mais difícil avançarem até a criação do MST. Por isso, se ele considerasse melhor a riqueza deste “tempo germinal”, provavelmente teria melhores condições de ser um “movimento de movimentos de Sem-Terra”, contribuindo mais para uma unidade em rede capaz de conquistar a transformação política que é a reforma agrária.

Concordo com Dom Tomás sobre a importância estratégica do MST nos tantos anos de sua existência: é uma, e muito significativa, referência das lutas dos povos, classes e setores sociais desclassificados politicamente pelas elites dominantes e suas instituições, e mesmo pelos partidos políticos. São esses povos “condenados a cinco séculos de extermínio” – como repete o presidente Evo Morales em relação aos povos ancestrais de seu país e das Américas – que estão produzindo novidades políticas e culturais na América Latina; e estão forçando mudanças profundas no modo de “fazer economia”, abrindo caminhos que toda a humanidade deverá seguir se quiser evitar o estresse final do planeta Terra.

IHU On-Line - Acredita que a visão de reforma agrária do MST continua a mesma, ou realmente está mais voltada para o mercado do que para a terra?

Ivo Poletto - Não acho que a leitura de José de Souza Martins seja crítica no sentido que a ciência social se propõe fazer. Parece que, como o MST não quis ser o tipo de “movimento social” que o autor acha ser o correto, não valeria mais nada. Posso até questionar determinadas opções do MST e alguns de seus rituais de manifestação grupal, mas não consigo ver como se possa afirmar que sua referência seria, hoje, o mercado, e não mais a terra. O que se percebe, e positivamente, é que o MST se deu conta de que o desafio dos que conquistam terra é, hoje, mais complicado do que foi no período inicial. Para que alcançar terra: para repetir o que faz o agronegócio? Para provar que os “pequenos” sabem produzir mais? Não mais. O sentido do cultivo da terra, hoje, deve estar ligado ao direito universal à alimentação – e, portanto, comprometido com a derrota da fome -, e a uma alimentação que seja saudável para todas as pessoas e para a própria Terra. Esta é, hoje, a bandeira da Via Campesina mundial, e vai se tornando, cada dia mais, a bandeira do MST: o agronegócio e as empresas transnacionais de insumos químicos, de sementes transgênicas e de especulação com commodities agrícolas não servem à humanidade, porque não produzem alimentos, e sim lucro, e porque envenenam a Terra; as diferentes comunidades camponesas, desde que tenham terra garantida e seu trabalho seja reconhecido e apoiado, têm condições de produzir alimentos saudáveis para a humanidade e contribuir na recuperação da vitalidade da Terra. O que muda é o argumento político em favor da reforma agrária e da produção camponesa, mas não a urgência da reforma agrária e o sentido da terra. Aliás, essa nova visão dá força aos povos indígenas e ao mundo camponês tradicional como portadores de conhecimentos e modos de se relacionar com a Terra que são fundamentais se a humanidade não quer afundar-se em sua submissão ao que se impõe como ciência das empresas, cujo objetivo é fazer negócios controlando a vida no Planeta.

IHU On-Line - O senhor também pensa que a utopia socialista tem sido reafirmada pelo MST?

Ivo Poletto - Está cada dia mais difícil definir o que seja “utopia socialista”, mas se ela estiver ligada à construção de sociedades em que todas as pessoas tenham o necessário para viver com dignidade e simplicidade – sem consumismo e concentração de riquezas; em que as pessoas possam ser artistas – através do trabalho livre e da criação artística; em que todas as pessoas se governem através da prática da democracia participativa – também elegendo e controlando governantes; em que se promovem relações de cuidado, cultivo e cooperação com a Terra; em que se convive respeitosamente com povos e sociedades diferentes, enriquecendo-se com suas culturas; se o socialismo desejado tiver essas e outras qualidades, estou convencido que o MST continua comprometido com ele. É claro que, como todos os e as militantes que lutam por este socialismo, também os/as militantes do MST deverão estar abertos para avaliar suas práticas, visando corrigir o que não será semente dele e aprendendo novas formas de ser mais humano, para ser mais socialista.

IHU On-Line - Como o senhor avalia a relação do MST hoje com o governo Lula e com o PT? Quais as consequências, para os rumos do movimento, de uma postura próxima ao rompimento com essas instituições?

Ivo Poletto - Há militantes do MST que são membros do PT e de outros partidos políticos; isso é opção livre de cidadãos. Como movimento, o MST procura manter sua autonomia, não permitindo que partidos e governos determinem o que deve fazer e como deve agir e organizar-se. Mas é evidente que, numa luta em que se enfrenta com o latifúndio tradicional e a moderna grande propriedade capitalista, articulados com o agronegócio, com as multinacionais de grãos e com especuladores de todo tipo, é normal que o MST procure agir no sentido de que forças sociais, bem como partidos políticos, se posicionem favoravelmente a suas propostas e lutas; é normal também que, diante de governos assentados sobre a ilusão da convivência pacífica entre as classes e comprometidos com o crescimento econômico capitalista, estabeleça relações com áreas governamentais abertas às suas reivindicações. Isto significa submissão ao governo ou a partidos? Não vejo assim. São relações de ordem tática, necessárias dentro das condições políticas existentes. Minha percepção vai no sentido de que, se houvesse uma articulação de forças sociais capaz de exigir dos governos que assumam as propostas dos movimentos sociais, o MST seria parte importante dela. Portanto, o desafio que está posto é a construção desta força, deste poder popular democratizante.

IHU On-Line - Compartilha da visão de Dom Tomás Balduíno, de que o MST está mais voltado para suas atividades internas, está mais “para dentro”? Isso é bom ou ruim?

Ivo Poletto - Todos reconhecem a contribuição do MST no campo da educação, da superação do analfabetismo, bem como destacam a capacidade de organização e a geração de novas lideranças, e ainda a capacidade de recuperar áreas esgotadas, de produzir sementes crioulas, de organizar frentes de comercialização para dar viabilidade aos assentamentos conquistados. É fácil realizar tudo isso? E se não for feito, não ganha alento a acusação de que os assentamentos conquistados não passam de “favelas rurais”? E fazer tudo isso com que recursos? Alguém poderia contrapor: mais isso é “papel” de um movimento social de luta pela terra? Não devia ser parte da responsabilidade do governo, ao promover a reforma agrária? É claro que é bom sonhar com esse tipo de governo, mas nunca houve. Como diz Dom Tomás, mesmo Lula tem sido uma decepção em relação a isto.

O MST vive e sofre os efeitos dessa decepção, mas ele precisa, ao mesmo tempo, suprir o que o governo não garante em relação aos assentados e manter a luta pela terra, com propostas de áreas desapropriáveis, com pressões, com ocupações, com acampamentos, com mobilizações amplas... É possível que, na hora em que faltam recursos para fazer tudo, seja necessário salvar o essencial – como acontece no corpo agredido por algo estranho, que orienta o sangue a salvar o coração, os pulmões, o cérebro, o fígado, os rins, mesmo com o risco de necrose nos pés, nas mãos, nas orelhas... Em outras palavras, quem deseja que o MST mantenha igual ou maior capacidade de luta direta pela terra e, ao mesmo tempo, prove que “seus” assentados estão indo bem, produzindo alimentos saudáveis e cuidando da Terra, precisa estar, como Dom Tomás, disposto a apoiá-lo, com recursos e/ou com cidadania militante. O movimento social não substitui a sociedade; cabe a ele mobilizá-la para alcançar o que é do interesse dela.

IHU On-Line - O que o senhor entende pela “luta pela terra como um novo modo de ser”?

Ivo Poletto - Acho que o exemplo da Bolívia nos ajuda: as forças sociais que desejam e decidiram, com uma Constituinte e com o Referendo à nova Constituição, refundar a Bolívia, querem que as pessoas e os povos se relacionem com a terra de um modo diferente, que assumam um novo modo de ser; ao contrário, as forças que combatem a nova constituição defendem o modo de ser padrão no mundo ocidental: a terra dividida em propriedade privadas, pois a Terra não passa de um depósito de minerais, madeiras, fósseis, e de um espaço em que se pode produzir mercadorias por meio de uso de técnicas. A luta pela terra, hoje, não pode visar apenas substituir os grandes proprietários por muitos outros, menores, mas com a mesma mentalidade; o que se busca é um novo modo de ser, que já está presente nos povos indígenas ancestrais, nos quilombolas e em outras comunidades tradicionais, e que pode ser reinventado em formas cooperativas de trabalho na terra. O novo está no fato de reconhecer a Terra como um ser vivo, de quem os seres vivos vieram e dependem para continuar com vida; por isso, trata-se de conviver com ela, e não de explorá-la, de cultivá-la com cuidado e respeito, e não de agredi-la. Nesse sentido, terra não é só o solo; é solo e água, é subsolo e atmosfera, é vegetação e animais, é diversidade de berços de vida, de biomas, em que vivem diferentes povos com diferentes histórias, culturas, religiões, valores. Lutar pela terra é lutar para que ela seja reencantada como mãe de tudo que é vivo e de todos os povos que constituem a humanidade.

IHU On-Line - Como o senhor interpreta a crescente redução do número de assentamentos e de famílias militantes?

Ivo Poletto - Há muitas causas para isso. Provavelmente a principal está na experiência conhecida de que o governo federal atual não prioriza a reforma agrária, nem mesmo para assentar quem está acampado em luta por um pedaço de chão. Na verdade, ele não se envergonha nem de deixar pessoas humanas durante anos vivendo em barracas, não cumprindo com compromissos publicamente assumidos. É claro que ele tem sempre desculpas para tentar justificar-se, mas o fato é que a geração de dólares pelo agronegócio o encantou mais do que a produção de alimentos através da multiplicação de assentamentos, mesmo sabendo que isso seria uma política séria de enfrentamento da miséria e da pobreza e de desmonte de uma das bases do poder oligárquico. Pior: em vez de garantir e promover o direito à alimentação de milhões de pessoas reduzidas à miséria com um programa educativo e mobilizador de suas capacidades, a política implementada acaba desmotivando e desmobilizando muita gente a lutar diretamente pela terra. Por outro lado, a diminuição de recursos de apoio para a luta direta pela terra completa o que já estaria sendo mais difícil. Resta torcer para que o MST consiga colocar em prática o que assumiu como compromisso para 2009: aumentar a luta direta pela terra, pressionando o presidente que prefere “ser amigo dos inimigos do MST”, segundo um de seus coordenadores. E com o desemprego em expansão, certamente aumentará o número de candidatos à luta direta por terra para viver, trabalhar, gerar renda.

IHU On-Line - Como avalia a presença da Igreja dentro do MST, da Teologia da Libertação e o próprio trabalho da Pastoral da Terra?
Ivo Poletto - Há relações de cooperação e há tensões entre setores das igrejas cristãs e o MST. No geral, mesmo que se anuncie o apoio à luta pela reforma agrária, há um refluxo na disposição de apoiar iniciativas diretas dos Sem-Terra. A CPT, como serviço evangélico ecumênico, continua comprometida com a luta pela terra, mas creio que deixa a desejar em sua atuação no campo de sua origem: as igrejas. Na verdade, já é tempo de retomar o embate teológico e pastoral com os setores que propõem uma religião cristã de acomodação, intimista, sem compromisso com a prática da justiça, da solidariedade libertadora de todas as formas de opressão – portanto, uma vida religiosa que pouco ou nada tem a ver com a prática e o evangelho de Jesus Cristo.

Junto com o apoio e a cooperação com o MST e com outros movimentos de luta pela terra, que pode e deve também passar pela crítica construtiva, quando necessária; junto com uma presença realmente evangelizadora nos acampamentos e assentamentos, alimentando uma espiritualidade cristã que contribua para dar profundidade à mística da luta pela terra; junto com isso, é urgente ocupar o espaço aberto para o debate sobre o sentido e a importância insubstituível da luta popular e democratizante pela terra: ela é uma das formas de amar a Terra, que é Criação amorosa de Deus, destinada a todos os seres vivos e ao ser humano, sua imagem e semelhança, mas que foi e continua sendo maltratada, explorada até o ponto de levá-la ao estresse, a um desequilíbrio que a impede de continuar sendo um ambiente favorável à vida. Ligar a vida cristã ao enfrentamento do aquecimento do planeta e ligar a luta libertadora da Terra e de seus filhos como uma forma de amar ao Criador são duas frentes de debate, de meditação, de motivação pastoral e de mobilização dos seguidores e seguidoras de Jesus Cristo a serviço da vida, realizando a missão de Jesus: “eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância” (Jo,10,10).

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