quarta-feira, 25 de março de 2009

1% detém 40% da riqueza mundial

Um por cento da população mundial detém 40% das riquezas do planeta. O dado foi publicado ontem pela Universidade das Nações Unidas, que lançou o que considera ser o maior projeto internacional para pesquisar a desigualdade no mundo e as disparidade sociais.



A notícia é do jornal O Estado de S. Paulo, 25-03-2009.

A riqueza ainda está concentrada em alguns países. Das pessoas que fazem parte da elite mundial, 64,3% (ou a parcela de 1% dos mais ricos) estão nos Estados Unidos e Japão. O Brasil tem apenas 0,6% desses indivíduos. A pobreza também está concentrada: 25%, com patrimônio inferior a US$ 178, vive na Índia. Na China, 6% e no Brasil, 2,2%.

Fonte: UNISINOS

terça-feira, 24 de março de 2009

Nicolas Ridoux

Por uma vida mais frugal

“Devolver o protagonismo à pessoa, restaurar o espírito crítico frente ao modelo dominante do ‘cada vez mais’ e abrir o debate sobre a nossa forma de viver e seus limites, saber tomar tempo para manter uma relação equilibrada com os outros, esse é o caminho proposto pela filosofia do decrescimento. Trata-se de substituir o crescimento estritamente econômico por um crescimento ‘em humanidade’”, escreve Nicolas Ridoux em artigo publicado pelo jornal espanhol El País, 21-03-2009. A tradução é do Cepat. Fonte: UNISINOS



Na origem da atual grave crise há uma nova manifestação da falta de limites, da busca infinita de onipotência. As empresas e entidades financeiras estavam perseguindo a obtenção de lucros em crescimento perpétuo. Nesta busca incessante do “cada vez mais”, os mercados existentes não bastavam, e foi preciso criar mercados inclusive onde não existiam. As consequências de tudo isso na economia real serão infelizmente de grande alcance, e afetarão especialmente os mais fracos. Como consequência desta crise, a maioria dos nossos dirigentes, antes neoliberais, de repente parece ter descoberto o Lord Keynes. Pois bem, o que é que Keynes nos diz? “A dificuldade não é tanto conceber novas ideias como saber livrar-se das antigas”.

É isso que pretende o movimento do “decrescimento”, que propõe uma crítica construtiva, argumentada, pluridisciplinar, de recusa dos limites que constrangem as nossas sociedades contemporâneas, para assim poder livrar-nos desse “cada vez mais”. A filosofia do decrescimento trata de explicar que em muitas ocasiões “menos é mais”.

O que exatamente está acontecendo em nossos dias? Não estamos sofrendo uma crise, mas um conjunto delas: crise ecológica (energética, climática, perda da biodiversidade, etc.); crise social (individual e coletiva, aumento das desigualdades entre as nações e no interior delas, etc.); crise cultural (inversão de valores, perda dos referenciais e das identidades, etc.); a isso que acrescenta agora a dupla crise financeira e econômica. Todas elas não são crises isoladas, mas o resultado de um problema estrutural, sistêmico, cuja origem está na ausência de limites e na busca obsessiva do “cada vez mais”.

O que se pode dizer sobre a crise econômica do ponto de vista daqueles que somos “objetores do crescimento”? Que ninguém se equivoque, porque decrescimento não é sinônimo de recessão. Como escrevi há mais de dois anos: “Não é preciso escolher entre crescimento ou decrescimento, mas entre decrescimento e recessão. Se as condições ambientais, sociais e humanas impedem que o crescimento prossiga, devemos antecipar-nos e mudar de direção. Se não o fizermos, o que nos espera é a recessão e o caos”.

Agora entramos em recessão, mas que ninguém se engane, não em uma sociedade de “decrescimento”. Para começar, não mudamos a nossa organização social, e na atual organização todas as instituições e mecanismos redistributivos se alimentam da ideia de crescimento. Numa sociedade assim, quando o crescimento falha, a situação é inevitavelmente dramática. O decrescimento é algo totalmente diferente. Significa crescer em humanidade, isto é, tendo em conta todas as dimensões que constituem a riqueza da vida humana.

O decrescimento não é um crescimento negativo, nem propugna uma recessão, nem uma depressão; seria ridículo tomar nosso atual sistema e colocá-lo pelo avesso e dessa maneira tentar superá-lo. O decrescimento supõe que devemos desacostumar-nos com a nosso vício ao crescimento, descolonizar o nosso imaginário da ideologia produtivista, que está desconectada do progresso humano e social. O projeto do decrescimento passa pela mudança de paradigma, de critérios, por uma profunda modificação das instituições e uma melhor distribuição da riqueza.

É claro que o crescimento econômico pretende aliviar a sorte dos mais desfavorecidos sem tocar muito as rendas dos mais ricos, para não enfrentar a sua reação política. Nesse sentido, o decrescimento passa necessariamente por uma redistribuição (restituição) da riqueza.

Num mundo de recursos limitados, as coisas não podem crescer de maneira indefinida. Por isso, “a objeção ao crescimento” fala da necessidade de compartilhar o retorno da sobriedade, em particular para aqueles que consomem demais. Fazemos nossas estas palavras de Evo Morales, presidente da República da Bolívia, que no dia 24 de setembro de 2008 afirmou na Assembleia da ONU: “Não é possível que três famílias tenham rendas superiores à soma dos PIBs dos 48 países mais pobres (...) Os Estados Unidos e a Europa consomem, em média, 8,4 vezes mais que a média mundial. É necessário que baixem seu nível de consumo e reconheçam que todos somos hóspedes da mesma Terra”.

É preciso acabar com a ideia de que “o crescimento é progresso” e a condição sine qua non de um desenvolvimento justo. O crescimento é adornado por seus defensores com todas as virtudes, por exemplo, em matéria de emprego. Contudo, como disse Juan Somavia, diretor-geral da OIT, em seu relatório de 2007: “Dez anos de forte crescimento tiveram apenas um leve impacto – e só num pequeno punhado de países – na redução do número de trabalhadores que vivem na miséria junto com suas famílias. Assim como também não fez nada para reduzir o desemprego”.

Com efeito, os lucros empresariais foram tão grandes que nem sequer um forte crescimento foi capaz de criar empregos, daí a persistência do desemprego. A recessão agrava brutalmente este problema. Mas é ilusório pensar que, para que todo o mundo tenha trabalho, é preciso restaurar o crescimento econômico e aumentar cada vez mais as quantidades produzidas; esta superprodução não faz nenhum sentido, não atinge o pleno emprego e, acima de tudo, compromete gravemente as condições de sobrevivência do planeta.

Voltamos a Keynes, mesmo que não àquele que relança as economias moribundas graças à intervenção do Estado, mas àquele que escrevia no seu artigo Perspectivas econômicas para nossos netos (1930) que seus netos (quer dizer, a nossa geração) deveriam libertar-se da coação econômica, trabalhar 15 horas semanais e tender a uma maior solidariedade que permitisse compartilhar o nível de produção já alcançado. Caso contrário, segundo ele, cairíamos numa “depressão nervosa universal”.

A filosofia do decrescimento hoje diz que devemos trabalhar menos para viver melhor. Não ter o olhar posto no poder aquisitivo (que, frequentemente, é enganoso e reduz o ser humano à exclusiva dimensão de consumidor), mas buscar o poder de viver. Trata-se de mudar a atual organização da produção e distribuir melhor o trabalho: utilizar os lucros obtidos para que todos trabalhem moderadamente e todas as pessoas tenham um emprego. Esta reorganização deve ir acompanhada de uma revisão das escalas salariais. Não é aceitável que alguns empresários ganhem vários centenas ou milhares de vezes mais do que o salário de seus próprios trabalhadores.

Reduzir a quantidade de trabalho permitiria assim mesmo que pudéssemos levar uma vida mais equilibrada, que nos realizássemos através de coisas que não sejam exclusivamente a atividade profissional: vida familiar, participação na dinâmica do bairro, vida associativa, e também atividade política, prática das artes...

Um modo de vida mais frugal, que tomasse a sério os valores humanistas e tivesse em conta a beleza, levaria a produzir menos, mas com melhor qualidade. Uma produção de qualidade pede habilidade e tempo, e ofereceria numerosos empregos e mais gratificantes. Supõe não recorrer sistematicamente ao poder industrial (exige sobriedade energética), o que melhoraria a necessidade de força de trabalho (como se observa ao comparar a agricultura intensiva, altamente mecanizada, grande consumidora de petróleo, mas parca em mão-de-obra, com a agricultura biológica). Desta maneira, talvez também se pudesse equilibrar melhor o trabalho intelectual e trabalho manual, e combater ao mesmo tempo a epidemia da obesidade que ataca as nossas sociedades muito sedentárias.

Devolver o protagonismo à pessoa, restaurar o espírito crítico frente ao modelo dominante do “cada vez mais” e abrir o debate sobre a nossa forma de viver e seus limites, saber tomar tempo para manter uma relação equilibrada com os outros, esse é o caminho proposto pela filosofia do decrescimento. Trata-se de substituir o crescimento estritamente econômico por um crescimento “em humanidade”. É uma tarefa estimulante, um desafio que vale a pena tentar.

sábado, 21 de março de 2009

Carta de Leandro Fortes dirigida a jornalistas brasileiros

Gilmar Mendes censurou programa da TV Câmara, denuncia jornalista

Jornalista da revista Carta Capital denuncia que programa da TV Câmara que tratava das supostas revelações contidas no computador apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha, foi retirado da página da TV a pedido do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. Leandro Fortes escreveu carta dirigida a jornalistas brasileiros relatando o caso e protestando contra a censura. O jornalista Leandro Fortes, da revista Carta Capital, escreveu uma carta aberta aos jornalistas brasileiros denunciando a prática de censura por parte do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. Segue a íntegra da carta. Trechos do programa mencionado por Leandro Fortes estão disponíveis no Youtube.
Fonte: Agência Carta Maior


"No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado Comitê de Imprensa, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha.

Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do Comitê de Imprensa, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.

Nesta carta, contudo, falo somente por mim.

Durante a gravação, aliás, em ambiente muito bem humorado e de absoluta liberdade de expressão, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalistas, discutimos abertamente questões relativas à Operação Satiagraha, à CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, às ações contra Protógenes Queiroz e, é claro, ao grampo telefônico – de áudio nunca revelado – envolvendo o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Em particular, discordei da tese de contaminação da Satiagraha por conta da participação de agentes da Abin e citei o fato de estar sendo processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas páginas da revista Carta Capital, os muitos negócios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.

Terminada a gravação, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de programação pré-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na internet, na página eletrônica da TV Câmara. Lá, qualquer cidadão pode acessar e ver os debates, como cabe a um serviço público e democrático ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia, realmente, rendeu audiência, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites da blogosfera.

Qual foi minha surpresa ao ser informado por alguns colegas, na quarta-feira passada, dia 18 de março, exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada nenhuma explicação. Aliás, nem a mim, nem aos contribuintes e cidadãos brasileiros. Apurar o evento, contudo, não foi muito difícil: irritado com o teor do programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, do PMDB de São Paulo, e pediu a retirada do conteúdo da página da internet e a suspensão da veiculação na grade da TV Câmara. O pedido de Mendes foi prontamente atendido.

Sem levar em conta o ridículo da situação (o programa já havia sido veiculado seis vezes pela TV Câmara, além de visto e baixado por milhares de internautas), esse episódio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discussão pura e simples dos limites de atuação do ministro Gilmar Mendes. Diante desta submissão inexplicável do presidente da Câmara dos Deputados e, por extensão, do Poder Legislativo, às vontades do presidente do STF, cabe a todos nós, jornalistas, refletir sobre os nossos próprios limites. Na semana passada, diante de um questionamento feito por um jornalista do Acre sobre a posição contrária do ministro em relação ao MST, Mendes voltou-se furioso para o repórter e disparou: “Tome cuidado ao fazer esse tipo de pergunta”. Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro Gilmar Mendes? Até onde, nós, jornalistas, vamos deixar essa situação chegar sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco às liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judiciário? Onde estão a Fenaj, e ABI e os sindicatos?

Apelo, portanto, que as entidades de classe dos jornalistas, em todo o país, tomem uma posição clara sobre essa situação e, como primeiro movimento, cobrem da Câmara dos Deputados e da TV Câmara uma satisfação sobre esse inusitado ato de censura que fere os direitos de expressão de jornalistas e, tão grave quanto, de acesso a informação pública, por parte dos cidadãos. As eventuais disputas editoriais, acirradas aqui e ali, entre os veículos de comunicação brasileiros não pode servir de obstáculo para a exposição pública de nossa indignação conjunta contra essa atitude execrável levada a cabo dentro do Congresso Nacional, com a aquiescência do presidente da Câmara dos Deputados e da diretoria da TV Câmara que, acredito, seja formada por jornalistas.

Sem mais, faço valer aqui minha posição de total defesa do direito de informar e ser informado sem a ingerência de forças do obscurantismo político brasileiro, apoiadas por quem deveria, por dever de ofício, nos defender.

Leandro Fortes
Jornalista

Brasília, 19 de março de 2009

Foram enviadas cópias desta carta para Sérgio Murillo de Andrade, presidente da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj); Maurício Azedo, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e Romário Schettino, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF).

quinta-feira, 19 de março de 2009

Entrevistas - Jacques Le Goff

Roma, alimento e paralisia da Idade Média


Entrevista concedida por e-mail, ditada por Le Goff à sua assessora, Mme. Christine Bonnefoy, que a transcreveu e enviou as respostas à IHU On-Line. Nascido em 1924, em Toulon, França, Le Goff tem saúde frágil, mas mantém-se intelectualmente ativo. Pertencente ao supra-sumo da elite intelectual francesa, estudou na Escola Normal Superior de Paris, centro de formação dos quadros do magistério francês, depois de ter completado os primeiros anos escolares no não menos famoso Liceu Louis-le Grand, onde também estudou Sartre.


Le Goff é considerado um dos maiores medievalistas do mundo e pertence à velha tradição francesa que une a história à greografia. Inspirado por Fernand Braudel e Maurice Lombard, tornou-se uma das figuras-chave da escola dos Annales por ter conseguido integrar à reflexão sobre o espaço e o tempo a dimensão humana. Em 1972, sucedeu Braudel na École des Hautes Études em Sciences Sociales onde permaneceu até 1977, deixando espaço para François Furet. De suas inúmeras obras, destacamos: O imaginario medieval. Lisboa: Estampa, 1994; Os intelectuais na Idade Média. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1995; São Francisco de Assis. São Paulo: Record, 2001; A civilização do Ocidente medieval. EDUSC: São Paulo, 2005, traduzida para o português por José Rivair de Macedo e Dicionário temático do Ocidente medieval. Bauru/São Paulo: EDUSC/Imprensa Oficial do Estado, 2002, organizado em parceria com Jean-Claude Schmitt e trauzido por Hilário Franco. "
Fonte: UNISINOS



IHU On-Line – O senhor afirma em A civilização do Ocidente Medieval que a Idade Média nasceu das ruínas do mundo romano. Por que Roma foi “seu alimento e sua paralisia”?


Jacques Le Goff – Eu penso que Roma foi o alimento e a paralisia do mundo medieval, porque a cultura antiga junto com a Bíblia foi a base da cultura medieval, porém o constante cuidado dos homens da Idade Média em ressuscitar a Antigüidade freou bastante sua evolução para a modernidade.


IHU On-Line – A convergência do mundo romano com o bárbaro criou o mundo medieval. Que tipo de sociedade emerge dessa fusão? Que traços do mundo clássico e germânico persistiram? Quais seriam as continuidades e rupturas que podem ser verificadas na passagem da Antigüidade para a Idade Média?


Jacques Le Goff – O politeísmo cedeu ao monoteísmo. Instituições essenciais do mundo romano desapareceram, como, por exemplo, as termas, o circo e o teatro. A escravidão, sem desaparecer, foi abandonada e se desfez lentamente. A sociedade se ruralizou com um vigoroso surgimento das cidades entre os séculos X e XIII. A Idade Média tomou as artes liberais da Antigüidade, mas construiu uma nova filosofia impregnada de teologia: a escolástica. Tardia no Ocidente, a promoção da Virgem Maria favoreceu a promoção da mulher. A difusão do moinho nascido na Antigüidade permitiu um vivo crescimento econômico.


IHU On-Line – Qual foi o papel da Igreja na construção da sociedade medieval? Com base em que a Igreja construiu a noção de Diabo que sobrevive até os dias de hoje?


Jacques Le Goff – O Diabo provém do desenvolvimento do personagem apresentado no Novo Testamento como tentador de Jesus e da continuidade ou do ressurgimento das crenças populares num chefe maléfico dos demônios.


IHU On-Line – Quais seriam as principais conseqüências da crise da Cristandade, ocorrida nos séculos XIV e XV?


Jacques Le Goff – A crise da cristandade nos séculos XIV e XV se manifestou por uma diminuição da população, pelo desencadear das guerras e das violências, mas também pelo desenvolvimento do espírito crítico.


IHU On-Line – Por que razão Boécio, Cassiodoro, Isidoro de Sevilha e Beda podem ser chamados de “fundadores” da Idade Média?


Jacques Le Goff – Boécio , Isidoro , Cassiodoro de Sevilha e Beda podem ser chamados de fundadores da Idade Média porque se apoiaram na filosofia e na cultura antigas para criar uma França cristã.





Mil anos de paixões secretas. A relação prazer-pecado

Entrevista feita por Pietro Del Re, publicada no jornal La Repubblica, 15-03-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS

Professor, o que sabemos sobre o comportamento sexual daqueles séculos obscuros?

Quase nada, porque, salvo as expressões literárias ou artísticas, temos poucos documentos que nos permitam compreender o que realmente ocorreu no segredo da alcova.
Depois do casamento medieval, junto ao homem e à mulher no leito nupcial estava também Deus. O coito conjugal era legítimo ou era apenas uma concessão à procriação?

O casamento se torna sacramento só depois do quarto Concílio Lateranense, em 1215. Até então, não havia conseguido se distinguir daquilo que era a antiguidade romana: um contrato. Porém, mesmo se se casava fora da Igreja, para ser válido também aos olhos do clero e, portanto, aos olhos de Deus, o casamento deveria ser consumado.

Mas gozar é sempre pecado?

Geralmente sim. No século XII, justamente quando a Igreja inventa o Purgatório, para arrancar o homem da tradicional oposição Inferno-Paraíso, São Tomás de Aquino nega que possa haver uma parte legítima de prazer na realização do ato sexual, mesmo que no âmbito do matrimônio.

Nessa época, o pecado original era assimilado como carnal, e a imagem do inferno era muitas vezes representada como o sexo feminino. Pode-se dizer que, na Idade Média, o mal era uma mulher?

Sim, mas até certo ponto. Contrariamente ao que ocorria em Bizâncio, até o século XI o culto da Virgem Maria não era celebrado pela Igreja. A partir desse momento, se desenvolveu, pelo contrário, com força extraordinária. É também graças ao culto mariano que a mulher foi reavaliada nas sociedades medievais.

Contra a infâmia da luxúria e do adultério, estavam previstas punições corporais duríssimas. Estas tornavam o homem medieval mais "puro" do que o homem moderno?

O castigo, sem dúvida, contribuiu para manter a luxúria escondida, mesmo que os teólogos e os pregadores dissessem que Deus via tudo, inclusive o que se fazia na sombra. Porém, na margem dos manuscritos da época, frequentemente são representadas cenas de luxúria, que não hesitaria em definir como pornográficas: um bispo sodomita, uma mulher que colhe falos de uma árvores ou cenas de sexo entre homens e animais. A Idade Média admitia o mal, desde que se manifestasse à margem da sociedade, distante do seu centro sacro. Antes de querer erradicá-lo totalmente, o cristianismo sempre buscou limitar o mal por meio da confissão e do arrependimento.

As prostitutas eram toleradas pela Igreja?

Sim, a prostituição era permitida. Quanto o rei moralista Luís IX, dito São Luís, quer vetá-la, o bispo de Paris lhe disse que era "um mal necessário".

O amor cortês que sublima a mulher é sempre um amor platônico?

Sobre esse problema, os medievalistas se dividem. Eu acredito que o amor cortês é puramente imaginário. Existem apenas na literatura. O que não significa que o amor real sempre esteja em estado brutal, que sempre haja uma violenta dominação do homem sobre a mulher. Mas o amor em que a mulher se torna o senhor, e o cavalheiro, o seu servo, nunca existiu. Nem mesmo nas classes superiores da sociedade. Dito isso, a Idade Média durou do século V ao século XV, e, em mil anos, muitas coisas mudaram. A mudança essencial se produziu no século XII, quando os valores do céu descem sobre a Terra. Desde aquele momento, a felicidade não está reservada só para o lado de lá. Há o início de uma possível satisfação do prazer também para nós, mortais. Aparecem, por exemplo, os primeiro tratados de gastronomia. O trabalho, que era considerado uma punição do pecado original, se torna, pelo contrário, um valor. De resto, é nessa época que se começa a dizer que o home foi criado à imagem de Deus.

O que muda com o Renascimento?

Há a exaltação da beleza e, em particular, da nudez. A Igreja medieval rejeitava a nudez e, com ela, a maior parte da arte antiga, que, sobretudo na escultura, representava corpos nus. Com o Renascimento na Europa, sobretudo no século XV, ocorre a redescoberta dos nus. Os mesmos que antes eram representados nos afrescos das basílicas, apenas nas cenas da ressurreição dos corpos.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Excomungamos...

Pe. Alfredo é assessor das Pastorais Sociais
Fonte: ADITAL


Excomungamos todos aqueles que multiplicam sua renda através da especulação financeira, principais responsáveis pela crise atual, com todos os males que ela provoca, tornando mais miseráveis os pobres e mais poderosos os ricos...

Excomungamos todos os "paraísos fiscais", onde o trabalho da imensa multidão anônima se converte em ouro, em dólares e em capital para uso de poucos...

Excomungamos o sistema capitalista de produção e sua filosofia liberal que, ao longo da história, se nutre da exploração dos recursos naturais, do trabalho humano e do patrimônio cultural dos povos...

Excomungamos todos aqueles que acumulam fazenda sobre fazenda, casa sobre casa, criando imensos latifúndios improdutivos ou mansões vazias, ao lado de milhões de pessoas famintas e sem terra e sem teto...

Excomungamos os responsáveis pelos assassinatos no campo e na cidade, não somente os que empunham a arma do crime, mas com maior razão os que pagam para matar...

Excomungamos todos os políticos que, apoiados pelo voto popular, usam do poder em benefício próprio e de seus apadrinhados, traindo aqueles que o elegeram e corrompendo os canais da participação popular...

Excomungamos todo Estado que alimenta um exército de soldados e burocratas e, ao mesmo tempo, deixa cada vez mais precários os serviços públicos, substituindo-os com políticas compensatórias...

Excomungamos todos os traficantes de droga, de pessoas humanas ou de órgãos humanos, que mercantilizam a vida e causam a destruição da família e de todos os laços fraternos de solidariedade...

Excomungamos todas as milícias paramilitares e a "banda podre" das polícias porque, a cada ano, ceifam a vida de milhares de jovens e adolescentes...

Excomungamos todos os tiranos que a ferro e fogo ainda reinam sobre a face da terra, assentados em tronos de ouro, construídos com o sangue, o suor e as lágrimas de seus súditos...

Excomungamos todos os mega-projetos, agro e hidro negócios, que devastam a natureza, contaminam o ar e as águas e, no afã de acumular poder e riqueza, reduzem drasticamente a biodiversidade sobre o planeta Terra...

Excomungamos todos os pedófilos, estupradores, sequestradores e seus cúmplices que não só escandalizam os inocentes, mas os convertem em objeto de prazer e de lucro...

Excomungamos a violência do homem sobre a mulher e as crianças, não raro encoberta pela inviolabilidade do lar e da família e que, aos milhões, esconde hematomas, cicatrizes e traumas sem remédio...

Excomungamos os que fazem de seus carros uma arma que fere, mutila e mata e que seguem impunes pelas ruas com suas máquinas velozes e letais...

Excomungamos todo tipo de exploração do trabalho humano, transformando mulheres e homens em peças descartáveis de uma engrenagem que se alimenta de carne humana...

Excomungamos todo sistema prisional que, pela superlotação, pelos abusos e pela tortura, avilta a pessoa humana e faz da prisão uma verdadeira escola do crime...

Excomungamos todas injustiças e assimetrias realizadas em nome da "democracia liberal", pois a história tem sido testemunha de que essas duas expressões são incompatíveis...

terça-feira, 10 de março de 2009

Ir. Ivone Gebara

O cisma da hierarquia católica

Ivone Gebara é doutora em Filosofia pela PUC-SP, doutora em Ciências Religiosas pela Universidade Católica de Louvain - Bélgica, e lecionou durante 17 anos no Instituto Teológico do Recife, até sua dissolução decretada pelo Vaticano em 1989. Vive e escreve em Camaragibe - Pernambuco, e percorre o Brasil e diferentes partes do mundo ministrando cursos, proferindo palestras sobre Hermenêutica feminista, novas referências éticas e antropológicas e os fundamentos filosóficos do discurso religioso. É autora de vários artigos e livros, como As águas do meu poço, O que é Teologia, O que é Teologia Feminista.


Os últimos acontecimentos envolvendo a interrupção da gravidez da menina de nove anos em Pernambuco evidenciaram um fato que já estava presente desde muito tempo na vida da Igreja Católica Romana. Os bispos perderam o senso de governarem unidos aos desafios da história e à fé da comunidade e julgam-se mais fiéis ao Evangelho de Jesus do que a própria comunidade. Por manterem uma compreensão centralizadora e anacrônica de sua função e da teologia que lhe corresponde desviaram-se de muitos sofrimentos e dores concretas das pessoas, sobretudo das mulheres. Passaram a ser defensores de princípios abstratos, de incertas hipóteses futuríveis e pretenderam até ser advogados de Deus. A este acontecimento de distanciamento chamo de cisma. Os bispos tanto a nível nacional quanto internacional e aqui incluo também o Papa, como bispo de Roma, tornaram-se cismáticos em relação à comunidade de cristãos católicos, isto é, romperam com grande parte dela em várias situações. O incidente em relação a proibição da interrupção da gravidez da menina do qual Dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife foi um dos protagonistas é um exemplo irrefutável. Sem dúvida há muitas pessoas e grupos que pensam como eles e que reforçam seu cisma. Faz parte do pluralismo no qual sempre vivemos.

A hierarquia da Igreja, servidora da comunidade dos fiéis não pode em certas questões separar-se do sentido comum e plural da vivência da fé. Não pode igualmente para certos assuntos de foro pessoal e mesmo grupal substituir-se à consciência, às decisões e ao dever das pessoas. Pode emitir sua opinião, mas não impô-la como verdade de fé. Pode expressar-se, mas não forçar pessoas a assumir suas posições. Nesse sentido, não pode instaurar uma guerra santa em nome de Deus para salvaguardar coisas que julga serem vontade e prerrogativa de Deus. A tradição teológica na linha mais profética e sapiencial nunca permitiu que nenhum fiel mesmo bispo falasse em nome de Deus. E isto porque o deus do qual falamos fala em nosso nome e tem a nossa imagem e semelhança. O Sagrado Mistério que atravessa tudo o que existe é inacessível aos nossos julgamentos e interpretações. O Mistério que em tudo habita não precisa de representantes dogmáticos para defender seus direitos. Nossa palavra é nada mais e nada menos do que um balbuciar de aproximações e de idéias mutáveis e frágeis, inclusive sobre o inefável mistério. É nessa perspectiva que também não se pode obrigar que a Igreja hierárquica torne, por exemplo, a legalização do aborto sua bandeira, mas simplesmente que não impeça que uma sociedade pluralista se organize conforme as necessidades de suas cidadãs e cidadãos e que estes tenham o direito de decidir sobre suas escolhas.

As comunidades cristãs assim como as pessoas são plurais. Num mundo tão diverso e complexo como o nosso não podemos admitir que apenas a opinião de um grupo de bispos, homens celibatários e com uma formação limitada ao registro religioso, seja a expressão do seguimento da tradição do Movimento de Jesus. A comunidade cristã é mais do que a igreja hierárquica. E, a comunidade cristã é na realidade múltiplas comunidades cristãs e estas são igualmente muitas pessoas cada uma com sua história, suas escolhas e decisões próprias diante da vida.

Impressiona-me o anacronismo das posturas filosóficas e éticas episcopais começando pelos bispos brasileiros e continuando nas instâncias romanas como se pode ler na entrevista que o cardeal Giovanni Batista Re, presidente da Congregação para os bispos, deu a revista italiana Stampa concordando com a postura dos bispos brasileiros. Os tempos mudaram. Urge, pois, que a teologia dos bispos saia de uma concepção hierárquica e dualista do Cristianismo e perceba que é na vulnerabilidade às múltiplas dores humanas que poderemos estar mais próximos das ações de justiça e amor. É claro que sempre poderemos errar inclusive querendo acertar. Esta é a frágil condição humana.

Creio que nossas entranhas sentem em primeiro lugar as dores imediatas, as injustiças contra corpos visíveis e é a eles que temos o primeiro dever de assistir. A consternação e a comoção em relação ao sofrimento da menina de nove anos foram grandes. E isto porque é a esta vida presente e atuante, a esta vida de menina feita mulher violada e violentada em nosso meio que devemos o respeito e o cuidado primeiros. Por isso como membro da comunidade cristã, louvo a atitude do Dr. Rivaldo Mendes de Albuquerque e da equipe do CISAM de Recife assim como da mãe da menina e de todas as organizações e pessoas que acudiram a ela neste momento de sofrimento que certamente deixará marcas indeléveis em sua vida.

Dirão alguns leitores que minha postura não é a postura oficial da Igreja Católica Romana. Entretanto, o que significa hoje a palavra oficial? O que é mesmo Igreja oficial? A instituição que se arvora como representante de seu deus e ousa condenar a vida ameaçada de uma menina? A instituição que se considera talvez a melhor seguidora do Evangelho de Jesus?

Não identifico a Igreja à hierarquia católica. A hierarquia é apenas uma parte ínfima da Igreja.

A Igreja é a comunidade de mulheres e homens espalhada pelo mundo, comunidade dos que estão atentos aos caídos nas estradas da vida, aos portadores de dores concretas, aos clamores de povos e pessoas em busca de justiça e alívio de suas dores hoje. A Igreja é a humanidade que se ajuda a suportar dores, a aliviar sofrimentos e a celebrar esperanças.

Continuar com excomunhões, inclusões ou exclusões parece cada vez mais incentivar o crescimento de relações autoritárias desrespeitosas da dignidade humana, sobretudo, quando surgem de instituições que pretendem ensinar o amor ao próximo como a lei maior. De quem Dom José Cardoso e alguns bispos se fizeram próximos nesse caso? Dos fetos inocentes, dirão eles, aqueles que precisam ser protegidos contra o "Holocausto silencioso" cometido por algumas mulheres e seus aliados. Na realidade, fizeram-se próximos do princípio que defendem e se distanciaram da menina agredida e violentada tantas vezes. Condenaram quem levantou a menina caída na estrada da vida e salvaguardaram a pureza de suas leis e a vontade de seu deus. Acreditam que a interrupção da gravidez da menina seria uma lesão ao senhorio de Deus. Mas as guerras, a crescente violência social, a destruição do meio ambiente não seriam igualmente lesões que mereceriam denúncia e condenação maior? Perdoem-me se, sem querer acabo julgando pessoas, mas diante da inconsistência de certos argumentos e da insensibilidade aos problemas vividos pela menina de nove anos uma espécie de ira solidária me assola as entranhas.

De fato um cisma histórico está se construindo e tem crescido cada vez mais em diferentes países. A distancia entre os fiéis e uma certa hierarquia católica é marcante. O incidente em relação à interrupção da gravidez da menina pernambucana é apenas um entre os tantos atos de autoritarismo e desconhecimento da complexidade da história atual que a hierarquia tem cometido.

Na medida em que os que se julgam responsáveis pela Igreja se distanciam da alma do povo, de seu sofrimento real estarão sendo os construtores de um novo cisma que acentuará ainda mais o abismo entre as instituições da religião e a simples vida cotidiana com sua complexidade, desafios, dores e pequenas alegrias. As conseqüências de um cisma são imprevisíveis. Basta aprendermos as lições da história passada.

Termino este breve texto lembrando do que está escrito no Evangelho de Jesus de diferentes maneiras. Estamos aqui para viver a misericórdia entre nós. E todos nós necessitamos dessa misericórdia, único sentimento que nos permite não ignorar a dor alheia e nos ajudarmos a carregar os pesados fardos uns dos outros.

Fonte: ADITAL

domingo, 8 de março de 2009

Entrevista - Cecília Pires

“A mulher, talvez, até nem precisasse de um dia especial”.


Transformações, fortalecimentos e lutas marcam a vida das mulheres há muitos séculos. Pelas batalhas que travou e pelas dificuldades e desigualdades que enfrenta ainda hoje, a mulher ganhou um dia, o dia 8 de março. Para a filósofa Cecília Pires, em entrevista concedida à IHU On-Line, essa é uma data que nem precisaria existir se as pessoas voltassem a si mesmos e recompusessem um processo de integração com a sua humanidade.

A partir da sua própria história como filósofa num campo onde o homem tem maior presença e destacando exemplos de mulheres que contribuem para o fortalecimento da cultura da mulher, ela nos concedeu essa entrevista para repensarmos o que é ser mulher, atualmente.

Graduada em Filosofia, Pires é especialista em Orientação Educacional e mestre em Filosofia, pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Cursou doutorado em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com a tese O ISEB e a questão do nacionalismo. É pós-doutora pela Universidade Paris I, França. Professora nos cursos de graduação e pós-graduação de Filosofia da Unisinos, escreveu, entre outros, Reflexões sobre Filosofia Política (Santa Maria: Pallotti, 1986) e Ética da Necessidade e outros desafios (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2004). Organizou Vozes silenciadas. Ensaios de Ética e Filosofia Política (Ijuí: Editora UNIJUÍ, 2003).
Fonte: UNISINOS


IHU On-Line – Quem é a mulher hoje?

Cecília Pires – Essa é uma pergunta que exige algumas identificações. A mulher hoje se traduz por ser um sujeito de forte consciência de si mesmo, de sua identidade e seus direitos e perspectivas de vida, trabalho e realização. Penso que toda essa questão da comemoração do 8 de março (que tem a ver com a chacina que foi feita com as tecelãs de uma fábrica de Nova Iorque) mostrou uma evolução grande do papel da mulher no mundo, em todos os aspectos, desde a família, trabalho, lazer, vida política e religião. Penso, contudo, que em determinadas culturas a mulher ainda tem um papel secundário, submetida a vários processos de humilhação e exclusão social, e que as coisas vividas por ela ainda não são plenas. A mulher hoje é um sujeito que chegou a um lugar social histórico de reconhecimento. Ainda há, contudo, muitas coisas a serem resolvidas.

IHU On-Line – Quais são suas maiores conquistas e seus maiores desafios?

Cecília Pires – O desafio da mulher hoje é uma compreensão do equilíbrio e da paz no mundo. Não que a mulher tenha que ser um eixo desse equilíbrio e paz, e falo isso do ponto de vista da minha subjetividade. Acredito que o mundo hoje precisa de muita paz, serenidade e equilíbrio, e o sujeito masculino da espécie é muito agressivo, belicoso, sai muito à caça, à dominação, talvez fazendo sofisticadamente no momento contemporâneo aquilo que já se fazia antes. A mulher cuidava da prole e o homem saia à caça. Esses papéis não se inverteram necessariamente. Eles se reproduziram de forma diferente.

Mas o desafio do equilíbrio no mundo hoje para a mulher é a questão maior, sobretudo quando vemos mulheres em lugares de destaque na política nacional e internacional. A questão da serenidade e da delicadeza, que fazem parte do universo feminino, sem qualquer tipo de discriminação à figura do masculino, que também pode ser delicado e equilibrado, é o grande desafio: junto com os companheiros homens, pensar a paz no mundo. As guerras, agressões e conflitos já se deram de todas as formas.

Lucidez e cumplicidade

É triste vermos nas manchetes dos jornais dois casos cruéis no Brasil, um no Nordeste, outro aqui no Sul, de meninas grávidas, violadas por padrastos e, quem sabe, com a cumplicidade da própria mãe. Ainda assim, um ou outro líder da igreja local condena o aborto feito em cumprimento da lei, pois havia risco de vida para a menina e a gravidez era oriunda de estupro. Com isso, não estou defendendo o aborto, até porque sou contra ele. Mas esses são casos de absoluta exceção. É muito triste que em pleno século XXI esses fatos acontecem em nosso país. Então, nos perguntamos sobre a lucidez ou cumplicidade que as mulheres envolvidas nesses processos tiveram sobre essas crianças vítimas da violência masculina, e ainda pior, vinda pessoas de dentro de casa.

Sobre as conquistas das mulheres, se pensarmos em relação ao modo de produção capitalista que seguimos, todos tem que ter trabalho. Então menciono as conquistas no mundo do trabalho, e os direitos inclusive em consequência relacionados a esse mundo do trabalho. Nesse aspecto, há que se destacar o próprio reconhecimento profissional. Em décadas passadas, sobretudo até 1980, havia muita diferença entre salários femininos e masculinos. Havia empresas, como nossa Petrobras, que buscava poucas engenheiras, e mais engenheiros. Penso que essa questão discricionária está sendo superada em algumas situações. Infelizmente, ainda há muitas situações a serem resolvidas. Vamos pensar sobre a Lei Maria da Penha, criada exatamente como um protesto jurídico político sobre a violação de uma mulher. Seria muito melhor que não precisássemos dessa lei, já que a justiça não deveria ter um sexo, e deveria trabalhar com equilíbrio. Mas não é isso que acontece. Há, portanto, muitas lacunas, ainda, e pouco entendimento. Outro exemplo é que, às vezes, alguns setores da sociedade são muito discricionários com a questão da mulher e trata a questão das pessoas que lutam pela emancipação feminina com deboche. Esse respeito ainda precisa ser conquistado. Talvez a mulher até nem precisasse de um dia especial. A questão seria os humanos se voltarem a si mesmos e se recomporem num processo de integração de sua própria humanidade. Como isso não acontece, fazemos várias situações de identificação específica, como o dia do idoso, da criança, da mulher. Na verdade, a sociedade precisaria evoluir mais em relação a isso. Esse é o maior desafio.

IHU On-Line – Como percebe o poder e o pensamento feminino no mundo contemporâneo?

Cecília Pires – Esse poder e pensamento estão bastantes presentes no mundo de hoje. Há situações hoje, em que lideranças femininas cresceram de uma forma mais sólida, mas vinculada a representações como as mulheres do movimento negro, do Movimento Sem Terra, nas lutas sindicais, nas representações parlamentares, nas situações de governabilidade e representando vários segmentos sociais. Vejo que sempre parece uma espécie de destaque e esse destaque me parece pejorativo em relação à forma como a mulher se trata e se apresenta. Por exemplo, a mídia, em suas manchetes, fez várias observações um pouco irônicas, mordazes, sobre as cirurgias que a ministra Dilma Roussef [1] teria feito. Isso é absolutamente secundário na vida política do país. Se fôssemos pensar em inúmeros deputados, senadores e presidentes da República, inclusive, que fizeram essas cirurgias faciais, perceberemos que as manchetes dos jornais não tiveram o mesmo encaminhamento, fazendo esse tipo de declaração mordaz.

IHU On-Line – E por que a senhora acha que a mídia faz isso?

Cecília Pires – A mídia é muito estimulada por um espírito mesquinho, de um certo primitivismo de pensamento, pragmático, pobre. Ao invés de mostrar o que as pessoas como sujeitos sociais e políticos estão fazendo, ou não fazendo, tecendo críticas a partir de situações consolidadas, efetivadas, comprovadas, falam de detalhes sobre o corte de cabelo, o botox do rosto, o tipo de saia. A mídia quer alimentar um certo tipo de público que gosta disso.

IHU On-Line – De certa forma a mulher, que tem um papel de formadora de opinião, contribui para isso?

Cecília Pires – Não penso que isso poderia ser colocado na generalidade. Penso que há algumas mulheres filósofas, sociólogas, escritoras, religiosas, líderes populares que contribuem muito para a formação de opinião. Mas é numa outra área, num outro viés da questão, não é simplesmente na questão estético-cultural. Não que essa não seja uma questão importante, a beleza é uma condição que construímos e gostamos, mas essa coisa de padrões de beleza, de estrutura corporal, de formas de se vestir e de se portar valendo como um modelo, fica parecendo um rito de estátua. Penso que a vida de uma mulher pública é muito invadida, devassada, e que às vezes é muito ruidoso tudo isso, e em nada contribui para o convívio social. Ainda que do ponto de vista do universo masculino isso também possa acontecer, não é de uma forma tão mordaz e caricata quanto é feito em relação à mulher.

São coisas de uma tibieza de espírito, de pessoas que não conseguiram ver as coisas em uma totalidade de significados, com maior envolvimento para a humanidade e consigo mesmos. Isso é algo que deixa a desejar, no meu ponto de vista. A feminilidade e a masculinidade são características dos seres vivos da espécie e que tinham que ser respeitadas nessas condições, tais como se apresentam. Penso que tudo isso não contribui para a paz, e sim para a violência, para a competição. Claro que talvez haja muitas mulheres que até estimulam esse tipo de comportamento, podem até gostar de estar na mídia dessa forma, mas acho que não são todas as mulheres públicas que se enquadram nesse quesito.

IHU On-Line – Quais são os maiores preconceitos que persistem em torno das mulheres?

Cecília Pires – Um dos preconceitos que persistem é, de um modo geral, acerca da inteligência da mulher e da sua emocionalidade. Por mais que as mulheres se esforcem e lutem, escrevam, pesquisem, investiguem, isso é colocado com certo destaque, com uma espécie de espanto, e não como uma compreensão normal de que é própria do ser humano a inteligência. E a questão da sensibilidade também persiste. Permanece aquela estrutura cartesiana de uma divisão entre razão e sensibilidade, em que o homem é todo razão e a mulher é toda sensibilidade. Isso não é verdadeiro. O homem também sofre, sente, chora. Essas não são prerrogativas femininas. Mesmo assim, há situações, leituras, interpretações que vivenciam esse tipo de preconceito: que a mulher chora, faz charme, faz uso de sedução para conquistar as coisas, cativar os homens. Isso, colocado de uma forma pejorativa, pouco nobre. O ser humano em geral é sensível, sedutor, inteligente, bem como bruto, terrível, agônico, violento. Não existe uma dimensão de coisa perfeita que seja de coisa de homem, ou coisa de mulher. O problema é a forma como é colocado esse tipo de coisa.

Há preconceito até contra a mulher que dirige. A violência do trânsito está evidente. E há homens que, quando veem uma mulher ao volante, buzinam, tomam atitudes pouco educadas, para dizer o mínimo. Se formos fazer uma coletânea dos ditos, anedotas, isso fica patente. É algo imenso do ponto de vista do preconceito. Infelizmente há coisas que não avançaram em várias situações. Há lugares que parece que são dados apenas ao mundo masculino. A humanidade ainda terá que caminhar e avançar muito nesse sentido, inclusive no Ocidente. Entra aí a questão dos mitos, de que atrás de todo grande homem há uma grande mulher, de que a mulher foi tirada da costela de Adão. Isso virou brincadeira, sarcasmo, e sempre se coloca a mulher em papel secundário. Acho isso desnecessário, porque homens e mulheres se completam, se amam e interagem exatamente porque são diferentes. A mulher não busca uma identidade física e emocional masculina, e nem o homem busca uma identidade física e emocional feminina. Os seres humanos buscam a felicidade, sonhos conjuntos, e nesse sentido buscam um convívio, uma partilha. Aliás, a partilha é outro desafio, dos olhares, das compreensões a partir de caminhos que se afastam e se encontram.

IHU On-Line – A filosofia é machista? Por que tão poucas mulheres são reconhecidas e respeitadas por seu pensamento, enquanto filósofas?

Cecília Pires – Essa é uma pergunta recorrente. Costumo dizer que na história da filosofia são poucas as mulheres que se apresentam e são reconhecidas como pensadoras. Se recorrermos à história da filosofia antiga, isso é quase nulo. Menciona-se a mulher de Sócrates, apenas. O que percebo é que o mundo do pensamento ficou muito associado ao mundo masculino, ao mundo do poder. Vimos toda a história da humanidade como se processou, a história da dominação masculina sobre o mundo feminino e é claro que isso se refletiu na história da igreja e da humanidade. O século XX, nesse sentido, recompôs essa situação, e as mulheres tiveram mais condições de trabalho, estudo e investigação e aí, nas universidades, abriram-se lugares para as mulheres. Contemporaneamente, não se pode dizer que existe propriamente uma discriminação das mulheres na filosofia. As mulheres estão presentes na filosofia como professoras, escritoras, investigadoras. A Unisinos é um exemplo disso. No nosso colegiado do PPG, somos em três mulheres [2]. O número de homens é maior, mas isso é uma contingência.

Em outras universidades que trabalhei onde eu era a única mulher professora de filosofia e quando me aposentei, foram feitos vários concursos e até hoje não tenho notícia de que entrou uma mulher sequer nesse local. Então, fico me perguntando se realmente não houve inscrições de candidatas mulheres. É impossível que não tenha havido, com tantas mestres e doutoras formadas nesse tempo todo. Mas fica a interrogação: por que a predominância do elemento masculino? Penso que esses espaços, contudo, estão se abrindo mais, embora também aí haja preconceito. Já tive professores enquanto eu fazia minha formação, que perguntavam “como você vai ser uma pesquisadora tendo quatro filhos?”, como se meu processo de gestação de filhos pudesse impedir meu processo de geração de conhecimento. Sempre vivi e enfrentei muito esse tipo de comentário.

Mulheres filósofas

São poucas as mulheres filósofas que o público conhece: Hannah Arendt [3], Edith Stein [4], Simone Weil [5], por conta inclusive pela forma com que algumas conseguiram chegar ao mundo público e ter suas obras recebidas, acolhidas e debatidas. Penso que daqui para frente as coisas podem ser mais profícuas, mais efervescentes. Sem dúvida, passaram-se muitos séculos de silenciamento da mulher, de renúncias. Sabemos de casos de outras universidades no Brasil onde essa questão do masculino e do feminino no mundo do pensamento ainda é conflitiva. Ouvimos falar dos embates públicos entre mulheres filósofas e homens filósofos. Eu não saberia, entretanto, dizer se isso ocorre por conta do machismo, do preconceito ideológico, das reticências culturais, da má formação compreensiva acerca do que é o humano. Talvez todas essas razões juntas poderiam identificar esse problemas.

IHU On-Line – Autores como Kant e Nietzsche demonstraram misoginia em partes de sua obra. Qual é o fundamento dessa postura, partindo de pensadores que ocupam posições tão elevadas no pensamento contemporâneo?

Cecília Pires – Penso que a misoginia desses autores é algo que não se explica pela racionalidade e pelo brilhantismo filosófico de seus pensamentos. Acredito, isso sim, que há muito um componente cultural que poderia estar atrelado talvez até a problemas pessoais desses filósofos, e tantos outros. Rousseau [6] também tem vários preconceitos relacionados à mulher, por exemplo. Tenho uma amiga que é estudiosa da questão feminina, a professora Maria da Penha Carvalho [7], da Universidade Gama Filho. Ela faz vários estudos e textos filosóficos sobre a forma como a mulher é tratada. É algo impressionante. Embora haja filósofos como Stuart Mill [8], por exemplo, que tem um excelente reconhecimento sobre o pensamento e compreensão da mulher, de sua vida como profissional. Mas essa questão pode ser atribuída a preconceito, talvez porque também nessa condição cultural e preconceituosa foi atribuído à mulher o papel de cuidar da prole e fazer todo o zelo doméstico. Com isso, ela não teria tempo para reflexão, amadurecimento, porque se envolve com outras coisas. Felizmente, participo de uma geração em que os companheiros não foram ausentes no cuidado com os filhos e o cuidado com a família com a mesma responsabilidade feminina. Mas sei se várias colegas que não conseguiram construir sua carreira de investigação e pesquisa por conta de não ter o apoio do seu companheiro.

Voltando à misoginia de Kant e Nietzsche, mesmo sem ter formação psicanalítica, penso que ela está muito ligada às suas personalidades. Nietzsche teve problemas com sua mãe, e sua irmã o oprimia. Kant viveu a vida toda sozinho, não porque não se casou, mas parece que suas relações de afeto não se consolidavam. Assim, penso que se as pessoas são mal amadas, mal resolvidas, para usar uma expressão bem popular e conhecida, elas se tornam feias por dentro, e por isso produzem uma cólera acerca do mundo, e uma ira acerca da outra parte da humanidade que não é ele mesmo.

IHU On-Line – Atualmente, no Brasil e no exterior, que expoentes femininas se destacam no campo filosófico?

Cecília Pires – No Brasil, eu destacaria Marilena Chauí [9]. Penso que ela é uma excelente pesquisadora, uma pessoa séria, comprometida politicamente e que, na realidade, talvez tenha vivido preconceito e situações machistas dentro da própria USP. Fazer filosofia é criar, não é ser repetitivo. Fazer filosofia simplesmente repetindo o que os filósofos já disseram sem um processo de acréscimo, de construção e compreensão do novo a partir das categorias já estudadas também é problemático. É evidente que não se está reconstruindo a roda e reinventando a ciência. Não podemos desconhecer o que já foi feito antes de nós, mas não podemos ser apenas repetidores das coisas já ditas e já lidas. Um dos sintomas grandes da nossa inteligência é a capacidade de criar, a partir inclusive desse caminho compartilhado que é o da ciência, da filosofia. E nesse aspecto Chauí se destaca.

Penso que hoje há várias mulheres que discutem a questão feminina, como na Espanha, México, na América Latina como um todo. No ano passado, saiu um livro, organizado por um professor cubano que vive na Alemanha, Raul Betancourt [10], que fez um estudo sobre o pensamento e o trabalho feminino na América Latina. Ele destaca várias pessoas nesse sentido. Eu comentava com o próprio autor dessa obra o quanto era singular o fato de um homem tomar essa iniciativa. Ele coloca a mim e a professora Magali de Menezes [11], da Feevale, como pessoas que tem um trabalho filosófico na América Latina, o que me honra muito.

IHU On-Line – Mulheres como Dorothy Stang [12]e Simone de Beauvoir contribuíram, cada uma do seu modo, para quebrar estereótipos e lutaram por suas causas. Como seu legado nos ajuda a compreender melhor o papel das mulheres na sociedade?

Cecília Pires – Dorothy e Simone tiveram um papel exponencial na afirmação dum feminino como projeto efetivo de liberdade. Quando Simone diz que não se nasce mulher, mas torna-se mulher, ela vai mostrar isso com a afirmação cultural do feminino. Penso que as coisas que se apresentam nesses casos são o grande enfrentamento e autonomia que elas tiveram diante de preconceitos. Várias idéias de Simone fez são atribuídas a Sartre, o que de certa forma é uma injustiça, pois se aprofundarmos e investigarmos sua vida, como venho fazendo, pois sou pesquisadora de Sartre [13], muitos insights do que ele escrevia vinham de ideias e discussões que tinha com sua companheira. O originário era muito mais dela, do que dele. Ele era a pessoa que, de certa forma, publicizava mais, pois escrevia mais, ocupava o lugar social da produção e da editoração dos seus textos.

Já a irmã Dorothy teve todo um compromisso efetivo com a questão social, dos oprimidos e vitimados. Há várias mulheres que também foram líderes, desde Madre Teresa de Calcutá [14] até líderes indígenas da América Latina. Essas pessoas mostram que, quando tomada por uma idéia, a mulher tem uma coerência quase que absoluta. Ela vai em frente, e muitas vezes viram vítimas. Esse é um legado que mostra para as gerações novas que as coisas são possíveis de serem feitas. Quando falo de que o grande desafio hoje é da paz, penso que devemos desejar a paz. Falamos muito em ética, e a grande revolução que a humanidade precisa é uma revolução ética, que deve ter como pilares a justiça e a paz. Talvez a mulher tenha um grande papel aí, superando as desigualdades, necessidades, para que possamos viver, efetivamente, num mundo de liberdade. Por que enquanto estivermos envolvidos com a necessidade, não atingimos a plenitude e a liberdade. Isso se apresenta na história dos povos de modo mais, ou menos intenso.

Notas:

[1] Dilma Vana Rousseff Linhares é economista. Foi a primeira mulher a ser nomeada ministra-chefe da Casa Civil. Foi secretária de Minas e Energia durante o governo Alceu Collares no Rio Grande do Sul e retornou ao cargo durante o governo Olívio Dutra. Hoje, Dilma também é gerente do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), plano que visa ao crescimento econômico do Brasil.

[2] O curso de filosofia da Unisinos conta hoje com as professora Cecília Pires, Anna Carolina Regner e Sofia Albornoz Stein.

[3] Hannah Arendt foi uma teórica política alemã, muitas vezes descrita como filósofa, apesar de ter recusado essa designação. Emigrou para os Estados Unidos durante a ascensão do nazismo na Alemanha e tem como sua magnum opus o livro "Origens do Totalitarismo".

[4] Edith Theresa Hedwing Stein foi uma religiosa alemã, a última de onze irmãos de uma família judia que professava o Judaísmo. Faleceu aos 51 anos asfixiada numa câmara de gás, em 1942, no campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. Foi professora de Filosofia, sendo discípula de Edmund Husserl e secretária particular desse filósofo.

[5] Simone Adolphine Weil foi uma escritora, mística e filósofa francesa, tornou-se operária da Renault para escrever sobre o cotidiano dentro das fábricas, lutou na Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicanos e morreu em greve de fome, protestando contra as condições em que eram mantidos os prisioneiros de guerra na França ocupada.

[6] Jean-Jacques Rousseau foi um filósofo suíço, escritor e teórico político. Uma das figuras marcantes do Iluminismo francês, Rousseau é também um precursor do romantismo. Ao defender que todos os homens nascem livres, e a liberdade faz parte da natureza do homem, Rousseau inspirou todos os movimentos que buscaram uma busca pela liberdade. Inclui-se aí as Revoluções Liberais, o Marxismo e o Anarquismo.

[7] Maria da Penha Maia Fernandes é uma biofarmacêutica brasileira que lutou para que seu agressor viesse a ser condenado. Com 60 anos e três filhas, hoje ela é líder de movimentos de defesa dos direitos das mulheres, vítima emblemática da violência doméstica.

[8] John Stuart Mill foi um filósofo e economista inglês, e um dos pensadores liberais mais influentes do século XIX. Foi um defensor do utilitarismo, a teoria ética proposta inicialmente por seu padrinho Jeremy Bentham.

[9] Marilena de Sousa Chaui é uma historiadora de filosofia. Professora de Filosofia Política e História da Filosofia Moderna da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

[10] O filósofo e teólogo cubano Raúl Fornet-Betancourt é figura de ponta da filosofia da libertação latinoamericana, professor na Universidade de Bremen e professor honorário de filosofia na Universidade de Aachen, diretor do Departamento Latino-americano do Istituto de Missionologia de Aachen, Alemanha.

[11] Magali de Menezes é uma filósofa brasileira.

[12] Dorothy Mae Stang foi uma religiosa estadunidense naturalizada brasileira. Pertencia às Irmãs de Nossa Senhora de Namur, congregação religiosa fundada em 1804 por Santa Julie Billiart e Françoise Blin de Bourdon. Dorothy estava presente na Amazônia desde a década de setenta junto aos trabalhadores rurais da Região do Xingu. Sua atividade pastoral e missionária buscava a geração de emprego e renda com projetos de reflorestamento em áreas degradadas, junto aos trabalhadores rurais da área da rodovia Transamazônica. Seu trabalho focava-se também na minimização dos conflitos fundiários na região. Foi assassinada, com seis tiros, um na cabeça e cinco ao redor do corpo, aos 73 anos de idade, no dia 12 de fevereiro de 2005 em uma estrada de terra de difícil acesso, à 53 quilômetros da sede do município de Anapu, no Pará.

[13] Jean-Paul Charles Aymard Sartre foi um filósofo francês, escritor e crítico, conhecido representante do existencialismo. Acreditava que os intelectuais têm de desempenhar um papel ativo na sociedade. Era um artista militante, e apoiou causas políticas de esquerda com a sua vida e a sua obra.

[14] Madre Teresa de Calcutá foi uma missionária católica albanesa, nascida na República da Macedônia e naturalizada indiana beatificada pela Igreja Católica. Considerada a missionária do século XX, concretizou o projeto de apoiar e recuperar os desprotegidos na Índia. Através da sua congregação "Missionárias da Caridade", partiu em direção à conquista de um mundo que acabou rendido ao seu apelo de ajudar o mais pobre dos pobres.

terça-feira, 3 de março de 2009

É uma guerra de resistência; temos que segurar o manche e aguentar

Maria da Conceição Tavares

A professora Maria da Conceição Tavares ainda nem tomou o café da manhã da segunda-feira, 2 de março. Mas já devorou os dados do noticiário sobre a crise e passa rapidamente deles para conversar com Carta Maior sobre os eixos da palestra que fará nesta quinta-feira, dia 5 de março, às 14h30min. Conceição abre nesse dia a primeira mesa de debates do Seminário Internacional sobre o Desenvolvimento que acontece em Brasília.

Organizado pelo Conselhão, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, da Secretaria de Assuntos Institucionais do Governo, o seminário tem tudo para ser um importante contraponto de densidade ao enfoque ora alarmista, ora epidérmico que contamina muitas análises da crise mundial e, sobretudo, de seu impacto no Brasil.

Inagurado oficialmente pelo Presidente Lula às 9 hs da manhã, o seminário internacional tem a coordenação do ministro José Múcio que convocou duas dezenas de intelectuais, autoridades e lideranças - do Brasil e do exterior - para um balanço daquele que já é reconhecido como o maior colapso da história do capitalismo desde 1929.

A TV Carta Maior transmitirá ao vivo os debates, com cobertura completa das mesas programadas para a quinta e sexta-feira.

Por ser a reflexão de uma das economistas mais respeitadas do país, a fala da professora Maria da Conceição certamente esticará linhas que vão interligar o conjunto das discussões.

Há precedentes que justificam essa expectativa. Veio da “implacável lucidez” da economista, para emprestar o elogio de um de seus muitos admiradores, Carlos Lessa, algumas das reflexões seminais que ajudaram a compreender a evolução da economia brasileira no século XX. Reunidas num livro lançado no início dos anos 70 ("Da substituição de importações ao capitalismo financeiro”) essas intervenções figuram ainda hoje como um ponto de passagem obrigatório para quem pretende entender a dinâmica do desenvolvimento capitalista no país.

Pela primeira vez na história, o Brasil enfrenta uma crise mundial sem ter que carregar o setor público nas costas.

Veja bem, diz Conceição quando perguntada sobre qual seria agora o foco principal de sua análise na exposição da quinta-feira, ”estamos diante de uma tempestade global. Não é apenas a violência que assusta; é, principalmente, o fato de que a sua origem financeira torna tudo absolutamente opaco no horizonte da economia internacional. Mente quem disser que sabe o que virá e quanto vai durar. Minha percepção mais clara é de que será uma guerra de resistência; e que o Brasil tem condições de segurar o manche, e agüentar.

Conceição não é propriamente uma poliana acostumada a distribuir cálices de bondades nos salões da política brasileira. Tampouco ganhou o respeito ecumênico que desfruta em círculos intelectuais e acadêmicos por irradiar otimismo panglossiano. A adversária temida e respeitada do conservadorismo nativo na verdade nunca poupou de sua metralhadora crítica nem o governo Lula, sobretudo no primeiro mandato, quando a macroeconomia adotada pelo ex-ministro Antonio Palocci gozava unanimidade na mídia e no seu braço político-eleitoral, o tucanato.

Um de seus ex-alunos diz que a garganta de Henrique Meirelles, o presidente do BC, ainda emite ganidos de dor quando a professora de 74 anos dardeja, sem piedade, a política monetária que dá ao Brasil o campeonato mundial de juro do planeta. O que estou dizendo não é fruto de otimismo, pontua essa admiradora confessa de Celso Furtado. A luta será dura. Mas pela primeira vez na história, o Brasil enfrenta uma crise mundial sem ter que carregar o setor público nas costas. Isso é inédito: nesta crise o Estado não está afundado em dívida externa, para não dizer totalmente quebrado, como ocorreu nos anos 90. Significa mais do que não ter um peso morto; significa um Estado em condições de amparar o investimento, o emprego e o capital de giro da economia.

A taxa de juro mais alta do mundo finalmente mostra para que serve: serve para ser corrigida agora

Conceição brinca enquanto dispara sem dó: Desta vez, temos ainda uma vantagem paradoxal; e aí devemos reconhecer o serviço prestado pela ortodoxia: há um enorme espaço macroeconômico para 'flexibilizar a política monetária’, como eles gostam de dizer, ironiza a professora com um sorriso e aciona de novo o gatilho: A taxa de juro mais alta do mundo finalmente mostra para que serve: serve para ser corrigida agora na crise. Basta que façam isso e o país já ganhará um substancial reforço na capacidade fiscal para implementar ações anti-cíclicas. Cada ponto a menos na taxa de juro reduz em uma dúzia de bilhões o custo da dívida pública.

A ex-deputada federal pelo PT listará no CDES algumas vantagens que distinguem o Estado brasileiro atual daquele pé-de-chumbo pró-ativo da era FHC, quando, ao contrário de hoje, ajudava a empurrar a economia para o buraco. Hoje, o governo tem fôlego financeiro suficiente para acionar a demanda e o investimento através de uma engrenagem de quatro patas: as políticas sociais; a nova política habitacional – que deve encomendar um milhão de unidades ao setor da construção civil; as obras do PAC – que alavancam a conjuntura e corrigem as desigualdades da estrutura regional; e as licitações da Petrobrás – a Petrobrás, sozinha, meu filho, é uma nação; uma nação que nos dá auto-suficiência em óleo, o que não tínhamos nas outras crises; ao mesmo tempo mantém encomendas que podem sustentar faixas do parque industrial.

Mas, acima de tudo, a professora gosta de salientar uma diferença crucial em relação à carpintaria neoliberal dos anos 90, quando o Brasil bateu três vezes no guichê do FMI: Hoje temos um tripé de bancos estatais revigorados, que cumprem papel estratégico reconhecido pela política econômica. Com o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal o Brasil pode, de fato, gerar contrapesos à contração do crédito internacional, propiciar capital de giro e investimentos com contrapartida de garantia de emprego. Basta ter determinação política.

Os dois maiores bancos dos EUA agonizam; baixas dessa magnitude não tivemos nem em 1929

Conceição, porém, não minimiza as dificuldades dos dias que virão. Sem dúvida o colapso financeiro internacional é dramaticamente mais sério que aquele de 29. A crise atual ainda não alcançou a proporção daquela, mas você tem o núcleo financeiro dos EUA carcomido, - veja bem, pontua a professora didaticamente, é o núcleo, os grandes bancos, não as franjas. Os maiores deles, o City e o Bank of América, praticamente agonizam. Baixas dessa magnitude não tivemos nem em 1929, adverte com entonação diferente na voz.

Conceição enxerga uma estatização branca em andamento no setor financeiro norte-americano; percepção corroborada pelo noticiário matinal da segunda-feira que informa um novo round na agonia da seguradora AIG. A maior seguradora do mundo ganhou o epíteto agora de maior prejuízo da história do capitalismo americano. Na segunda-feira, receberia nova transfusão de recursos do Tesouro, mais US$ 30 bi sobre anteriores US$ 150 bi que não bastaram para afastá-la da ladeira da liquidação.

Conceição não considera que a política de socorro e mitigação pontual adotada por Obama seja suficiente para reverter a espiral que se espalha. Ajuda pontual não permite ao governo intervir de fato nas instituições; os conselhos e acionistas mantém o comando; não deixam realizar prejuízos; a agonia se arrasta. A conclusão que extrai dessa convergência entre colapso e hesitação ideológica é que teremos uma crise de longa duração, uma guerra de resistência. Conceição reporta ao exemplo japonês para justificar seu ceticismo. Na crise do Japão, nos anos 90, o setor financeiro foi abalado; nunca se recuperou de fato. O resultado é o que estamos vendo hoje; a economia japonesa desaba porque não tem solidez na perna financeira. Sem essa perna fica muito difícil enxergar a luz no fim do túnel americano. A maior economia do planeta pode patinar por anos a fio, vaticina.

Minha dúvida é se a China, que até agora foi o grande comprador de títulos norte-americanos, continuará a fazê-lo

Inúmeras incertezas se acumulam nesse horizonte de longo curso. Mas a principal delas, no entender de Maria da Conceição, argüi a sobrevivência da endogamia sino-americana que sustentou a expansão internacional pré-crise. Sem crédito o capitalismo não sobrevive, reitera a professora como que a martelar um avariável que não pode ser esquecida jamais pelos seus ouvintes. A política norte-americana de socorro e mitigação gera déficits e desequilíbrios crescentes. Os EUA têm um poder quase ilimitado de emitir dívida para se financiar, mas é preciso que o mundo continue disposto a adquiri-la, como tem feito até aqui. Minha dúvida é se a China, que até agora foi o grande comprador de títulos do Tesouro, terá fôlego para sustentar esse papel.

Conceição não acredita que a China possa reciclar facilmente seu dínamo exportador para uma expansão calcada no mercado interno. Eles já estão fazendo investimentos impressionantes na economia doméstica; não creio que exista espaço para ir além e assim compensar a perda inevitável do lado do comércio exterior. Daí a pergunta para a qual não tenho resposta: até quando terão condições de absorver títulos da dívida dos EUA?

O ativismo keynesiano de Obama ainda não marca a derrota definitiva do neoliberalismo; no Brasil isso será decidido em 2010

A economista encerra com uma advertência política: Nada do que estamos vendo configura, ainda, a derrota definitiva do neoliberalismo. É um passo. Mas não podemos festejar o defunto sob as ruínas dos mercados financeiros. O que vemos hoje é apenas luta pela sobrevivência; não há lugar para a ideologia na luta desesperada pela sobrevivência. O ativismo keynesiano de Obama, entre outros, é apenas isso, um recurso à mão, nada mais. Provavelmente, essa opacidade ideológica persistirá até 2010. No Brasil, então, será a hora da verdade. Serra se diz um desenvolvimentista - de boca, porque sua aliança preferencial é com os Democratas, cuja agenda dispensa apresentações. A sociedade brasileira terá que escolher o projeto e o arcabouço de valores para conduzir o país na reordenação pós-crise. Tomara que não recue , conclui a professora Maria da Conceição Tavares.

Fonte: Agência Carta Maior

Paul Krugman

A vingança do excesso

Artigo de Paul Krugman, colunista do New York Times e publicado no jornal O Globo, 03-03-2009. Fonte: UNISINOS



O discurso, intitulado “A abundância global da poupança e o atual déficit em conta corrente dos EUA”, ofereceu uma nova explicação para o rápido crescimento do déficit comercial americano no início do século XXI. As causas, argumentou Bernanke, não estavam nos EUA, mas sim na Ásia.

Em meados dos anos 90, destacou ele, as economias emergentes da Ásia eram grandes importadoras de capital, pegando emprestado no exterior para financiar seu desenvolvimento.

Porém, após a crise financeira asiática de 1997-1998, esses países começaram a se proteger acumulando grandes quantidades de ativos estrangeiros, na prática exportando capital para o resto do mundo.

O resultado foi uma inundação de dinheiro fácil no mundo, procurando algum lugar para ir. A maior parte desse dinheiro foi para os EUA — daí o enorme déficit comercial, pois o déficit comercial é o outro lado da moeda do fluxo de capital.

Bernanke citou “a profundidade e a sofisticação dos mercados financeiros americanos (o que, entre outras coisas, permitiu às famílias fácil acesso ao mercado imobiliário)”.

Profundidade, sim. Mas sofisticação? Bem, pode-se dizer que os banqueiros americanos, fortalecidos por um quarto de século de frenesi desregulatório, guiaram o mundo na busca de formas sofisticadas de ficarem ricos, camuflando riscos e enganando investidores.

A solta regulação do sistema financeiro marcou muitos dos outros recipientes de grandes fluxos de capital.

Isso pode explicar a correlação entre a exaltação conservadora de dois ou três anos atrás e o desastre econômico hoje. “As reformas tornaram a Islândia um tigre nórdico”, declarou um ensaio do Cato Institute.

“Como a Irlanda se tornou um tigre celta” foi o título de um artigo do Heritage Foundation; “O milagre econômico da Estônia” foi o título de outro. Todas as três nações vivem agora uma profunda crise.

Por um período, a inundação de capital criou a ilusão de riqueza nesses países, assim como fez com os mutuários americanos: os preços dos ativos estavam subindo, as moedas estavam fortes e tudo o mais parecia bem. Mas as bolhas sempre estouram, cedo ou tarde, e as economias do milagre de ontem se tornam os casos fracassado de hoje.

Se você quer saber de onde veio a crise global, então, veja a coisa dessa forma: estamos vendo a vingança do excesso. Foi assim que nos atolamos nesse caos. E ainda estamos procurando uma saída.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

José Luis Fiori

Os economistas e a crise

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Fonte: Agência Carta Maior


Finalmente, no dia 17 de fevereiro de 2009, o presidente Barack Obama sancionou seu pacote de estímulo à economia americana, no valor de US$ 787 bilhões. Uma semana antes, seu secretário do Tesouro, Timothy Geithner, anunciara um outro pacote de medidas que podem chegar aos US$ 2 trilhões, para reativar o crédito e salvar o sistema financeiro americano. Mas, apesar do volume de recursos envolvidos, não se sabe exatamente quando, onde e como serão gastos, nem tampouco se sabe se a sua utilização produzirá os efeitos desejados.

No meio desta confusão, só existem duas coisas que podem ser ditas com toda certeza: a primeira, é que faça o que faça o governo americano, será absolutamente decisivo para a evolução da crise no resto do mundo; e a segunda, que apesar das incertezas, todos os governos envolvidos estão fazendo a mesma aposta e adotando as mesmas políticas de redução das taxas de juros e adoção de sucessivos pacotes fiscais de ajuda ao sistema financeiro e estímulo à produção e ao emprego, além de defender a re-regulação dos mercados.

Muitos consideram esta convergência uma vitória da "economia keynesiana", mas do nosso ponto de vista ela não tem a ver com nenhum tipo de vitória ou derrota, no campo da teoria econômica. Trata-se de uma reação emergencial e pragmática frente à ameaça de colapso do poder dos Estados e dos bancos e, como consequência, dos sistemas de produção e emprego. Foi uma mudança de rumo inesperada e inevitável que foi imposta pela força dos fatos, independente da ideologia econômica dos governantes que estão aplicando as novas políticas "intervencionistas".

Na verdade, o que se está assistindo é uma versão invertida da famosa frase da Sra. Thatcher: "There is no alternative". Só que agora, depois de setembro de 2008, a nova convergência aconteceu sem maiores discussões teóricas ou ideológicas e sem nenhum entusiasmo político, ao contrário do que ocorreu com a grande onda e hegemonia do pensamento liberal-conservador, dos anos 1980/90, que atravessou os planos da vida política, econômica e intelectual das sociedades capitalistas. A teoria econômica ortodoxa não previu e não sabe explicar a crise atual e, assim, não tem nada para dizer nem propor neste momento. São apenas lamentos e exclamações morais contra os "vícios privados" e os "excessos públicos", por consequência, as teses ortodoxas e a ideologia liberal saíram do primeiro plano, mas não morreram nem desapareceram, pelo contrário, permanecem atuantes em todos as frentes e trincheiras de resistência às políticas estatizantes que estão em curso. Uma resistência que tem crescido a cada hora que passa, dentro e fora dos EUA.

Do outro lado da trincheira, quase todos economistas keynesianos interpretam esta crise mundial seguindo o argumento clássico de Henry Minsky (Minsky, P.H., 1975, "The Modeling of Financial Instability: An Introduction", 1974, Modelling and Simulation; John Maynard Keynes, 1975, e "The Financial Instability Hypothesis: A Restatement", 1978, Thames Papers on Political Economy), sobre a tendência endógena das economias monetárias à "instabilidade financeira", às bolhas especulativas e aos períodos de desorganização e caos provocados pela expansão desregulada do crédito e do endividamento, momentos em que se impõe a intervenção pública e a regulação dos mercados. Apesar de suas divergências internas, a respeito de valores, procedimentos e velocidades, todos os keynesianos acreditam na eficácia, e estão propondo uma intervenção massiva do Estado para salvar o sistema financeiro e reativar o crédito, a produção e a demanda efetiva.

O problema é que a teoria de Minsky explica a origem imediata da crise do mercado imobiliário americano, mas não é suficiente para entender e prever a complexidade do seu desenvolvimento posterior. Por isto, os keynesianos também não sabem o que vem pela frente, nem têm como garantir antecipadamente o sucesso de suas recomendações. Neste ponto, existe um paradoxo que em geral é escondido pela teoria econômica: o fato dos keynesianos compartilharem com os economistas liberais uma espécie de "erro liberal invertido" e complementar: os liberais acreditam na possibilidade e na eficácia da eliminação do poder político e do Estado do mundo dos mercados; enquanto os keynesianos acreditam na possibilidade e na eficácia da intervenção corretiva do estado no mundo econômico.

Mas tanto ortodoxos, quanto keynesianos, trabalham com a mesma idéia de um Estado homogêneo e externo ao mundo econômico, que num caso é capaz de se retirar e ficar na porta do mercado, cuidadoso e atento como um guarda florestal, ou então, no outro caso, é capaz de formular políticas econômicas sábias e eficazes a cada nova crise, como um Papai Noel à espera do próximo Natal, para distribuir seus presentes. Por isto, ortodoxos e keynesianos compartilham a mesma posição e a mesma dificuldade liberal de compreender e incluir nos seus modelos e recomendações as contradições e as lutas políticas próprias do mundo econômico. Não conseguem entender, por exemplo, que na origem financeira da atual crise econômica mundial não houve um erro ou "déficit de atenção" do poder público dos EUA, onde a desregulamentação dos mercados financeiros e as "bolhas" ou "ciclos de ativos" cumpriram - nos anos 80/90 - um papel decisivo na financeirização capitalista e no enriquecimento privado, mas também no fortalecimento do poder fiscal e creditício do Estado e da moeda americanos. Como consequência, agora, os passivos que estão realimentando a própria crise não são uma "massa podre homogênea", pelo contrário, eles têm nome e sobrenome, individual, corporativo, partidário e nacional, e envolvem interesses contraditórios que estão travando uma luta ferrenha em todos os planos e instâncias nacionais e internacionais.

O Estado e o capital financeiro americanos foram sócios no fortalecimento do poder político e econômico americano nos década de 80/90, e agora se defenderão à morte a cada novo passo e a cada nova arbitragem que imponha seu enfraquecimento dentro e fora dos EUA. Por isto, esta crise não tem uma solução técnica e não existe possibilidade de um acordo político à vista entre os grupos de poder americanos e entre as grandes potências. Os economistas e as autoridades governamentais de todo o mundo estão num vôo cego. A crise começou como um tufão, mas deverá se prolongar e aprofundar na forma de uma "epidemia darwinista".

(*) Artigo publicado originalmente no Valor Econômico.

Olgária Mattos

O Leitor

Olgária Mattos é filósofa, professora titular da Universidade de São Paulo
Fonte: Agência Carta Maior




“O Leitor” é um filme sobre o amor em tempos sombrios. Na Alemanha dos anos 1950, Michael, um adolescente, vive um encontro com Hanna, uma mulher mais velha, e passa a ler para ela os livros que estuda na escola. De Homero a Tchekov, de Chardelos de Laclos às aventuras de Tintin, o amor nasce misturado à ficção. Essa “mentira que diz a verdade” é, em “O Leitor”, transmitida, na alternância das gerações, pelo ensino da literatura e seu cânone.

Diversamente da simples convenção, sua exemplaridade preserva, como um dom, “grandes obras”, aquelas capazes de comover e ensinar. Pois “que saberíamos do amor e do ódio, dos sentimentos éticos e, em geral, de tudo o que chamamos de si mesmo”, pergunta Paul Ricoeur, “se isso tudo não tivesse passado à linguagem, articulado pela literatura?”

Grandes obras e grandes autores são aqueles sem os quais o mundo seria incompleto.

Sem despedir-se, Hanna subitamente abandona a cidade; mais tarde, Michael, agora estudante de direito, iria acompanhar os processos dos crimes de guerra, quando a revê, responsabilizada pela morte de prisioneiras judias durante um bombardeio. Aos poucos vão-se esclarecendo as razões da partida e os motivos pelos quais renuncia à defesa. Na época em que os campos de extermínio sucederam aos de concentração, Hanna desiste da fábrica em que trabalha, de onde, por seu desempenho, fôra promovida ao setor de escritório. Como analfabeta e no ímpeto de escondê-lo, resta-lhe o trabalho de carceragem em um Lager de então.

Hanna sente vergonha por não ler. Mas não por temor do desdém ou da humilhação pública. Não sendo externa, essa vergonha decorre do desejo íntimo do mundo mágico do qual está excluída, das fantasias que eternizam as experiências dos homens, resistem ao esquecimento e caminham em sentido contrário ao da morte. Como na obra primeira escrita no Ocidente: a Ilíada e Homero ressuscitaram Tróia da qual até mesmo as ruínas haviam desaparecido.

O amor de Michael permaneceu incólume à passagem do tempo. Seu casamento durou pouco; e a melancolia da perda de Hanna se confronta, agora, com a culpabilidade alemã e o genocídio. Pedida a prisão perpétua, a pena é agravada quando a protagonista aceita a acusação de ter assinado o documento que a incrimina, mas de que não poderia ser autora. Michael não intervém, mesmo quando descobre seu segredo. Nada diz aos acusadores sobre o que poderia diminuir a pena. Na prisão, Hanna é visitada por Micahel, que não deixou de amá-la, mas não consegue aceitar seu comprometimento no campo, no conflito entre o sentimento e a lógica da punição.

Em diálogo com G.Grecco - e no âmbito de uma dificuldade semelhante -Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, diversamente do personagem, se esquiva em imputar a todos os que viveram esses anos: “sempre me recusei a formular um juízo geral sobre o homem. Mesmo sobre os nazistas. Para mim, o único processo que se pode instruir, e com todas as precauções necessárias, é o dos indivíduos.” De resto era o preconizado pelo professor com quem Michael freqüenta o tribunal.

Hanna não libertou as prisioneiras. Também escolhera, no campo, algumas que teriam a morte adiada, tempo durante o qual liam romances para ela. Sua resposta evocava a “lei do dever”. Como Eichamnn. Este afirmava cumprir ordens e se orientar pelo imperativo categórico kantiano. Considerava-se “culpado diante de Deus, mas não “responsável diante dos homens”; também Hanna diz não ter podido agir de outro modo. Devolvendo,porém, a questão aos juízes pergunta sobre o que eles próprios fariam se estivessem em seu lugar. Michael, ao visitá-la, espera uma retratação que não vem. Indaga se ela nada aprendera com a prisão, a que se segue : “aprendi a ler”.

Nada se aprende em situações de trauma. Choque paralisador da vida, o trauma bloqueia o pensamento. Michael pressupõe a autonomia moral no interior do Lager. Hanna testemunha, ao contrário, que, no campo, a vida se encontra em estado de exceção. Assim, Primo Levi narra ter furtado o chapéu de um outro prisioneiro, quando o seu desaparecera – o que acarretava a pena de morte, sentindo horror por si mesmo. Também os “muçulmanos” dos campos se encarregam do extermínio de outros judeus ao conduzi-los às câmaras de gás. Primo Levi e Hanna revelam que, em Auschwitz, carrasco e vítima confundidos, a violência é nua. No universo concentracionário não há dignidade nem liberdade .

Sem ser compreendida por Michael, tampouco aceita, desfaz-se, para ela, o laço tênue de amor aos livros e à vida. Seu suicídio atesta que, no pós-guerra, as ruínas não são materiais, mas morais e existenciais. Os amantes, fatalizados pelo nazismo, viveram um tempo condenado em que foi “meia-noite na História”.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Frei Betto

Sejamos solidários

Quarta-feira de Cinzas, 25 de fevereiro de 2009

Querido(a) amigo(a),

Quaresma é tempo de partilha e solidariedade. Como muitos sabem, todo ano, nesta época, promovo campanha de apoio a uma obra social que acompanho pessoalmente. São iniciativas idealistas, até heróicas, quase sempre carentes de respaldo do poder público.

Este ano a obra escolhida é a Escola Nossa Senhora do Carmo, em Bananeiras (PB), município que dista 140km de João Pessoa e abriga cerca de 22 mil habitantes. Trata-se de uma escola do e no campo, destinada a famílias de lavradores e pequenos agricultores.

Estive lá em agosto passado. Trata-se de um educandário sui generis: não é privado porque nada cobra dos alunos; não é público porque não é bancado pelo governo. Eventualmente recebe alguma contribuição do poder público, como a inclusão das turmas de EJA (educação de jovens e adultos) em programas do governo federal; a gratificação de professores e técnicos do EJA pelo governo estadual; e, da parte do poder municipal, o salário de uma professora, o transporte noturno e pequena ajuda na merenda escolar.

Eis o que escrevem as religiosas do Carmelo de Bananeiras, fundadoras da escola:

"O objetivo maior da escola é a educação do ser humano como um todo, partindo de sua realidade histórica, atingindo a sua espiritualidade como filho de Deus e seu semelhante, mormente a sua integração no meio social como agente atuante e transformador responsável pelo crescimento comunitário e social.

"Como pertencemos ao Carmelo, cujo estilo de vida é contemplativo e de clausura, essa vida própria das monjas nos impede assumir diretamente esse trabalho no dia-a-dia ao lado dos pobres; por isso contamos com a colaboração do grupo de amigos do nosso Carmelo que, comungando do nosso sonho, assume generosamente, com empenho e responsabilidade, todo o trabalho que a nossa clausura nos impossibilita fazer."

Fundada em 2003, a escola obteve terreno e construção graças a donativos dos irmãos maristas, do MEC, da Fundação Banco do Brasil (BB Educar) e do grupo de amigos(as) do Carmelo. Inaugurada com apenas oito alunos, tendo como sala de aula o acanhado cômodo da casa de um aluno-lavrador, hoje ela abriga cerca de 200 alunos de educação infantil, ensino fundamental e EJA, oriundos de 540 famílias de baixo poder aquisitivo.

A escola funciona nos três períodos, de segunda a sábado; a diretora e algumas professoras trabalham em regime de voluntariado; e atualmente dispõe de telecentro (inclusão digital, extensivo a pessoas da comunidade) e oficinas de arte (desenho, pintura, música, teatro etc). Entre os projetos a serem realizados figuram oficinas de teatro e música; cursos profissionalizantes, para favorecer a geração de renda às famílias dos alunos; e hortas comunitárias segundo os princípios da economia solidária.

O educandário ocupa área de 1.200 m2 com pátio (área de lazer) e cinco salas (diretoria, secretaria, professores, telecentro e leitura); oito salas de aula; quatro banheiros; refeitório e cozinha.

O orçamento de 2008 foi de R$ 141.191,00, assim distribuídos: manutenção R$ 5.400; material didático e expediente R$ 2.976; material de limpeza R$ 1.176; merenda R$ 15.774 (há doações de alimentos das famílias dos alunos); e recursos humanos (23 funcionários) R$ 115.865 (técnico agrícola, cozinheira, coordenador pedagógico etc). Ano passado, as contribuições dos governos municipal e estadual somaram R$ 1.745,00. Não houve contribuição do governo federal.

Em carta ao ex-governador Cássio Cunha Lima - a quem Chico Pinheiro, Ricardo Kotscho e eu temos recorrido em prol da escola, sem até agora obter resposta efetiva -, as irmãs do Carmelo escreveram:

"A procura dos pais por uma vaga na escola tem sido enorme, bem como tem crescido nossas necessidades, tais como:

1) Merenda escolar: distribuída nos três turnos, para muitos se constitui como a única refeição do dia. Por isso, nosso compromisso em lutar para oferecer uma merenda de qualidade que supra as necessidades nutricionais dos nossos alunos. Hoje, temos uma pequena ajuda do município, que não é suficiente para 10 dias, e é doada sem regularidade periódica, embora sejamos sempre gratos por essa ajuda. Este ano (2008), recebemos alimentos duas vezes.

2) Pagamento dos funcionários: na escola temos merendeiras e auxiliares de serviços gerais; algumas recebem gratificações, outras são voluntárias (...); agora temos a necessidade de pagar os professores dos anos finais de ensino fundamental, implantados na escola a partir deste ano (2008) por demanda da comunidade.

3) Transporte Escolar: a escola trabalha com nove comunidades de seu entorno, e grande tem sido a necessidade de um transporte escolar como condução para os alunos; muitas crianças andam uma distância, em média, de quatro quilômetros para chegar à escola, o que no tempo das chuvas se torna um grande transtorno, devido aos lamaçais. Temos dificuldade de levar as crianças para aulas de campo; e os professores para visitas às comunidades, de modo a conhecerem a realidade e o universo dos alunos com quem trabalham. Hoje, temos uma ajuda do município no transporte escolar para os alunos da EJA, mas também de forma irregular; sempre que há eventos municipais não temos transporte; já houve mês de ter menos de 50% por cento da freqüência escolar por conta da falta do transporte.

4) Fardamento: a identificação do alunado torna-se necessidade básica de manutenção.

5) Material didático/expediente e energia elétrica: temos uma despesa mensal em torno de R$ 746,00; fazemos campanha de arrecadação para a manutenção, e nem sempre conseguimos todo o necessário.

6) Material lúdico/pedagógico: temos uma grande necessidade de brinquedos educativos para trabalhar o lúdico na sala de aula, como recurso metodológico.

7) Construção: pela demanda da educação e trabalho desenvolvidos, há necessidade de terminar a construção da escola, onde temos a estrutura pronta para construirmos mais três salas de aula, que seriam destinadas a uma sala de recursos, biblioteca e brinquedoteca. Também há necessidade da construção de um ginásio de esporte; não há nenhum nas proximidades."

Se você se sente sensibilizado por esta obra, qualquer contribuição é bem-vinda, ainda que R$ 1. O valor pode ser depositado no Banco do Brasil, Agência 0527-4; Conta Poupança: Carmelo Sagrado Coração de Jesus/ Escola - número 10059897-8.

Para quem precisa de recibo, entrar em contato com a diretora Profa. Leila Rocha Sarmento Coelho: leilarscoelho@yahoo.com.br ou (83) 93059010.

Se puder divulgar a seus amigos(as), agradeço. Deus lhe pague!

Meu abraço com amizade e paz, e votos antecipados de Feliz Páscoa.


Projeto Excelências


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Estranha metamorfose: os economistas e jornalistas que defenderam, durante décadas, as supostas qualidades do mercado, agora camuflam suas posições. Ou — pior — viram a casaca e, para não perder terreno, fingem esquecer de tudo o que sempre disseram. Para ler, clicar na figura.

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