sábado, 16 de maio de 2009

José Saramago

Até quando?

Fonte: O Caderno de Saramago


Há uns dois mil e cinquenta anos, mais dia menos dia, a esta hora ou outra, estava o bom Cícero clamando a sua indignação no senado romano ou no foro: “Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”, perguntou ele uma vez e muitas ao velhaco conspirador que o quis matar e fazer-se com um poder a que não tinha qualquer direito. A História é tão pródiga, tão generosa, que não só nos dá excelentes lições sobre a actualidade de certos acontecidos outrora como também nos lega, para governo nosso, umas quantas palavras, umas quantas frases que, por esta ou aquela razão, viriam a ganhar raízes na memória dos povos. A frase que deixei acima, fresca, vibrante, como se tivesse acabado de ser pronunciada neste instante, é sem dúvida uma delas. Cícero foi um grande orador, um tribuno de enormes recursos, mas é interessante observar como, neste caso, preferiu utilizar termos dos mais comuns, que poderiam mesmo ter saído da boca de uma mãe que repreendesse o filho irrequieto. Com a enorme diferença de que aquele filho de Roma, o tal Catilina, era um traste da pior espécie, quer como homem, quer como político.

A História de Itália surpreende qualquer um. É um extensíssimo rosário de génios, sejam eles pintores, escultores ou arquitectos, músicos ou filósofos, escritores ou poetas, iluminadores ou artífices, um não acabar de gente sublime que representa o melhor que a humanidade tem pensado, imaginado, feito. Nunca lhe faltaram catilinas de maior ou menor envergadura, mas disso nenhum país está isento, é lepra que a todos toca. O Catilina de hoje, em Itália, chama-se Berlusconi. Não necessita assaltar o poder porque já é seu, tem dinheiro bastante para comprar todos os cúmplices que sejam necessários, incluindo juízes, deputados e senadores. Conseguiu a proeza de dividir a população de Itália em duas partes: os que gostariam de ser como ele e os que já o são. Agora promoveu a aprovação de leis absolutamente discricionárias contra a emigração ilegal, põe patrulhas de cidadãos a colaborar com a polícia na repressão física dos emigrantes sem papéis e, cúmulo dos cúmulos, proíbe que as crianças de pais emigrantes sejam inscritas no registo civil. Catilina, o Catilina histórico, não faria melhor.

Disse acima que a História de Itália surpreende qualquer um. Surpreende, por exemplo, que nenhuma voz italiana (ao menos que haja chegado ao meu conhecimento) tenha retomado, com uma ligeira adaptação, as palavras de Cícero: “Até quando, ó Berlusconi, abusarás da nossa paciência?” Experimente-se, pode ser que dê resultado e que, por esta outra razão, a Itália volte a surpreender-nos.


quarta-feira, 13 de maio de 2009

Argemiro Ferreira

Gripe suína expõe outra tragédia

O jornalista Mauro Santayana, no Jornal do Brasil, e, no último domingo, o jornal Washington Post divulgaram suspeitas graves sobre o surto de gripe suína e que, por alguma razão, não eram citadas nas notícias da nossa mídia. As suspeitas referem-se às denúncias feitas há anos por comunidades mexicanas afetadas por unidades industriais que operam com lagoas de excremento e urina, de mais de um milhão de porcos, que contaminam os lençóis freáticos da região. O artigo é de Argemiro Ferreira e publicado pela Carta Maior, 11-05-2009.
Fonte: UNISINOS


Quando da mudança do nome da gripe suína para Gripe-A, há uma semana, o jornalista Mauro Santayana, em sua coluna do Jornal do Brasil, divulgou dados relevantes e suspeitas graves que, por alguma razão, não eram citados nas notícias de nossa mídia. No último domingo eles afinal chegaram também à primeira página do jornal Washington Post, destacados em três colunas.

Enviada da cidade de La Gloria, no México, onde fica gigantesca fazenda de criação de porcos, a reportagem de Steve Fainaru, da editoria internacional do Post, referiu-se às denúncias feitas há anos por comunidades afetadas por unidades industriais como aquela, sobre os efeitos das lagoas de excremento e urina, de mais de um milhão de porcos, que contaminam os lençóis freáticos da região.

No segundo parágrafo da reportagem o jornal ressalvou que “as autoridades de saúde não encontraram conexão entre as granjas de criação de porcos e a gripe suína”. E as autoridades da Organização Mundial da Saúde fizeram mais do que isso, como Santayana registrara. Aparentemente sob pressão das multinacionais de porcos, inventaram o nome novo - e neutro - para distanciar os porcos da doença.

Desde o primeiro momento o artifício lembra o complô da indústria de cigarro, durante mais de meio século, para negar a conexão entre seu produto e o câncer. A indústria negava haver “prova conclusiva”. É o se faz agora, segundo o Post. Atribuiu-se ao prefeito de Perote, sede do condado onde fica La Gloria, esta afirmação: “Para desfazer o mito, ou mesmo para reconhecê-lo como realidade, precisamos de mais estudos”.

Como o NAFTA abriu o caminho

Segundo o prefeito Guillermo Franco Vázquez, na jurisdição do condado há 22 comunidades afetadas por tais fazendas. La Gloria é uma delas, no estado de Veracruz, sudeste do país. “Desde o final de março, quando misteriosa doença respiratória infectou 616 residentes, tornou-se o centro da crise da gripe suína”. O primeiro caso do novo vírus, tinha relatado Santayana, foi Edgar Hernández, de 4 anos.

Como boa parte dos dados da reportagem do jornal dos EUA já estava a 6 de maio na coluna do jornalista brasileiro, é estranho ter ficado fora dos jornais. Em especial o que já se sabe sobre a companhia Granjas Carroll de Mexico, dona das fazendas de porcos - e subsidiária da corporação transnacional Smithfield Foods, sediada no estado da Virgínia e cujos dirigentes negaram-se a falar ao Post.

Santayana citou declaração do deputado mexicano Atanasio Durán, segundo a qual as Granjas Carroll foram expulsas de dois estados americanos, Virginia e Carolina do Norte, devido aos danos ambientais que causavam. A salvação para elas foi o NAFTA, Acordo de Livre Comércio da América do Norte. Graças ao tratado, as Carroll foram transferidas em 1994 para o país vizinho, com apoio do governo mexicano.

O NAFTA permitiu à corporação transnacional dos EUA ficar fora do controle das autoridades do México - detalhe que encorajou a transferência. O jornalista destacou:
“É o drama dos países dominados pelo neoliberalismo: sempre aceitam a padridão que mata”.
Mesmo assim, a reportagem do Post destaca: as relações agora entre a Smithfield e os residentes das comunidades próximas tornaram-se insustentáveis.

Os protestos da população afetada repetem-se desde 2007. Manifestações às vezes até bloqueiam uma rodovia federal na região. E a resposta da Smithfield/Carroll consistiu em mobilizar a própria polícia local contra os manifestantes, alguns dos quais são alvos de processos criminais instigados pela transnacional. Um pequeno fazendeiro de 66 anos contou ao Post ter sido obrigado a vender sua plantação de milho para pagar sua defesa.

Prisão para punir as vítimas

Bertha Crisostomo, autoridade municipal de La Gloria citada no Post e na coluna de Santayana, foi acusada pela Smithfield. Atualmente está em liberdade sob fiança. Em fevereiro ela denunciara a contaminação do subsolo pelos tanques de urina e excrementos da Carroll. Hoje ela acha que a companhia escolhe certos alvos deliberadamente - parte de um processo de intimidação para silenciar os descontentes.

Assim, a gravidade da gripe suína - ou Gripe-A, Influenza-A, ou que nome tenha - está servindo para amplificar um problema que já era sério para os residentes da área e continua a crescer devido à expansão da atividade da transnacional, ameaçando ainda mais a saúde e o meio ambiente. Apesar de favorável a investimentos na região, Crisostomo acha que não se pode negociar com a saúde das pessoas.

A julgar pelo que relatou o Post, a posição das autoridades mexicanas parece ambígua. Originalmente a Smithfield chegou como uma joint venture com a mexicana Agroindustrias Unidas, trazendo o método da “integração vertical” - que amontoa milhares de porcos em estábulos idênticos cobertos por telhados de metal. Ali os porcos comem, crescem, urinam e defecam - até serem mortos.

Excrementos e urina são captados e seguem em condutos para depósitos-tanques a céu aberto do tamanho de dois campos de futebol - chamados pela companhia de “lagoas”. Alega-se que são à prova de vazamento, mas os residentes contestam. Instalações agroindustriais desse tipo, em larga escala, são riscos graves para a saúde da população porque podem contaminar os lençóis freáticos e transmitir vírus, inclusive novos.

Uma batalha sempre desigual

Pessoas da região queixam-se há anos de doenças de pele, garganta inflamada e outros efeitos. As “lagoas” são abertas e sem cercas, de cor avermelhada, opaca. O mau cheiro faz as pessoas se sentirem tão mal que mal conseguem comer. As 16 fazendas da Smithfield na área produzem, segundo a própria companhia, um milhão e 200 mil porcos por ano.

Fazendas podem surgir da noite para o dia, a poucas centenas de metros de casas habitadas por famílias da área. Como contou ao Post o fazendeiro Fausto Limón, que planta soja e milho. “Nunca pensamos que iriam criar uma aqui perto, mas vieram. Então começamos a vomitar, ter dores de cabeça, olhos lacrimejantes. Tivemos de sair à procura de outro lugar, longe daquele mau cheiro”.

Outro efeito é a praga dos cachorros que se alimentam de restos de porcos mortos descartados nas proximidades das instalações. Além disso, sempre há pedaços espalhados. Quando Soube que se planejava a instalação de outra fazenda perto de sua casa, não teve dúvida: uniu-se a outros residentes e organizou mais um grupo ativista Pueblos Unidos, atuantes na região.

É principalmente contra os Pueblos Unidos - cuja ação parece semelhante à dos Sem Terra do Brasil - que a Smithfield/Carroll atua, mobilizando como pode a polícia e a Justiça, graças a seus largos recursos e um exército de advogados. Estes, com a certeza de que são imbatíveis, movimentam-se com desembaraço também junto às autoridades nos vários níveis - local, estadual e federal.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Leonardo Boff

Essa sociedade merece sobreviver?

Fonte: Adital




O atual Presidente da Assembleia Geral da ONU, Miguel d’Escoto Brockmann, ex-chanceler da Nicarágua sandinista, está conferindo rosto novo à entidade. Tem criado grupos de estudo sobre os mais variados temas que interessam especialmente à humanidade sofredora como a questão da água doce, a relação entre energias alternativas e a seguridade alimentar, a questão mundial dos indígenas e outros. O grupo talvez mais significativo, envolvendo grandes nomes da economia, como o prêmio Nobel Joseph Stiglitz é aquele que busca saídas coletivas para a crise econômico-financeira. Todos estão conscientes de que os G-20, por mais importantes que sejam, não conseguem representar os demais 172 países onde vivem as principais vítimas das turbulências atuais. D’Escoto pretende nos dias 1, 2 e 3 de junho do corrente ano reunir na Assembléia da ONU todos os chefes de estado dos 192 países membros para juntos buscarem caminhos sustentáveis que atendam à toda a humanidade e não apenas aos poderosos.

O mais importante, entretanto, reside na atmosfera que criou de diálogo aberto, de sentido de cooperação e de renúncia a toda a violência na solução dos problemas mundiais. Sua sala de trabalho está coberta com os ícones que inspiram sua vida e sua prática: Jesus Cristo, Tolstoi, Gandhi, Sandino, Chico Mendes entre outros. Todos o chamam de Padre, pois continua padre católico, com profunda inspiração evangélica. Ele é homem de grande bondade que lhe vem de dentro e que a todos contagia.

Foi sob sua influência que o Presidente da Bolívia Evo Morales pôde propor à Assembleia Geral que se votasse a resolução de instaurar o dia 22 de Abril como o Dia Internacional da Mãe Terra, o que foi aceito unanimemente. Foi honroso para mim poder expor aos representantes dos povos os argumentos científicos, éticos e humanísticos desta concepção da Terra como Mãe.

Tudo isso parece natural e óbvio e de um humanismo palmar. Entretanto - vejam a ironia - representantes de países ricos acham o comportamento do Padre muito esquisito. Apareceu há pouco tempo um artigo no Washington Post fazendo eco a esta qualidade. Dizia o articulista que Miguel d’Escoto fala de coisas estranhíssimas que nunca se ouvem na ONU tais como solidariedade, cooperação e amor. Em seus discursos saúda a todos como irmãos e irmãs (Brothers and Sisters all). Mais estranho ainda, diz o articulista, é o fato de que muitos representantes e até chefes de estado como Sarkosy estão assumindo a mesma linguagem estranha.

Meu Deus, em que nível do inferno de Dante nos encontramos? Como pode uma sociedade construir-se sem solidariedade, cooperação e amor, privada do sentimento profundo expresso na Carta dos Direitos Humanos da ONU de que somos todos iguais e por isso irmãos e irmãs?

Para um tipo de sociedade que optou transformar tudo em mercadoria: a Terra, a natureza, a água e a própria vida e que coloca como ideal supremo ganhar dinheiro e consumir, acima de qualquer outro valor, acima dos direitos humanos, da democracia e do respeito ao ambiente, as atitudes do Presidente da Assembleia da ONU parecem realmente estranhíssimas. Elas estão ausentes no dicionário capitalista.

Devemos nos perguntar pela qualidade humana e ética deste tipo de sociedade. Ela representa simplesmente um insulto a tudo o que a humanidade pregou e tentou viver ao longo de todos os séculos. Não sem razão está em crise que mais que econômica e financeira é crise de humanidade. Ela representa o pior que está em nós, nosso lado demens. Até financeiramente ela se mostrou insustentável, exatamente no ponto que para ela é central.

Esse tipo de civilização não merece ter futuro nenhum. Oxalá Gaia se apiede de nós e não exerça sua compreensível vingança. Mas se por causa de dez justos, consoante a Bíblia, Deus poupou Sodoma e Gomorra, esperamos também ser salvos pelos muitos justos que ainda florescem sobre a face da Terra.

sábado, 9 de maio de 2009

Zygmunt Bauman

'A arte da vida'. O novo livro de Zygmunt Bauman


O jornal italiano La Repubblica, 07-05-2009, antecipou um trecho do novo livro do sociólogo Zygmunt Bauman, publicado na Itália com o título "L'arte della vita" [A arte da vida, em tradução livre] (Editora Laterza), que aborda as relações do mundo líquido com a felicidade. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS



Cada um de nós é artista da própria vida: sabendo ou não, querendo ou não, gostando ou não. Ser artista significa dar forma e estrutura ao que, de outra forma, seria informe e indefinido. Significa manipular probabilidades. Significa impor uma "ordem" ao que, caso contrário, seria "caos": "organizar" um conjunto de coisas e de eventos que, de outra forma, seria caótico (casual, fortuito e, portanto, imprevisível), tornando mais provável assim a verificação de certos eventos em vez de outros.

Em que devemos nos inspirar para saber como organizar (e organizar-nos), senão nos profissionais, em quem é responsável por aquelas entidades que se chamam "organizações"?

Até muito pouco tempo atrás, o conceito de "organização" havia começado a fazer parte do uso comum associado a gráficos, diagramas, organogramas, departamentos, cronogramas, regulamentos, à vitória da ordem (de um estado em que se faz com que alguns eventos sejam muito mais prováveis do que quaisquer outros) sobre o caos (sobre um estado em que cada coisa tem a mesma probabilidade ou uma probabilidade incalculável de acontecer).

Escrevi "até muito pouco tempo atrás" porque hoje, entrando na sede central de uma organização, é possível sentir os ventos da mudança soprarem. Há alguns anos, Joseph B. Pine e James H. Gilmore publicaram um livro, "L'economia delle esperienze" [A economia das experiências, em tradução livre], cujo título (seguramente graças também à ajuda das credenciais da Harvard Business School) acendeu imediatamente a fantasia dos estudantes de Economia empresarial, elevando o atual modo de pensar de diretores e presidentes de empresas a um novo paradigma dos estudos de organizações.

Em um livro de ensaios estimulantes publicado pela Copenhagen Business School Press, os organizadores Daniel Hjorth e Monika Kostera delinearam, em termos gerais e com notável riqueza de particulares, o percurso do velho paradigma organizativo, baseado no "management" e na prioridade do controle e da eficiência, ao paradigma emergente, que se refere, sobretudo, ao espírito empreendedor e destaca as "características mais vitais da experiência: imediaticidade, espírito lúdico, subjetividade e performatividade".

Niels Akerstrom, professor da Copenhagen Business School, compara a atual situação do funcionário de uma organização àquela que se vive hoje por casais ou companheiros. A análise de Akerstrom sobre a tendência de redefinir as organizações segundo um esquema semelhante ao das relações de amor nos remete a uma transformação ainda mais vasta, que está provavelmente na base da "mudança de paradigma": na transformação profunda do papel desempenhado no contexto líquido-moderno pelos vínculos humanos, particularmente pelas relações de amor e, mais geralmente, de amizade.

A sua força de atração alcança hoje, segundo todos dizem, níveis sem precedentes, mas é inversamente proporcional à capacidade de desempenhar o papel esperado e desejado, que era e continua sendo a causa principal daquela atração. É justamente porque estamos disponíveis para "amizades e uniões profundas", justamente porque as desejamos mais forte e desesperadamente do que nunca, que as nossas relações são cheias de rumores e furores, cheias de angústia e em perene alerta.

Queremos a mão disponível de uma pessoa amiga, confiável, fiel, "até-que-a-morte-nos-separe", que seja estendida com segurança, prontamente e de bom grado, em qualquer momento que for necessário, que seja como a ilha para o náufrago ou o oásis para quem se perdeu no deserto: são essas as mãos que nos são necessárias, que queremos ao nosso redor, quanto mais numerosas melhor.

Porém, no nosso ambiente líquido-moderno, a fidelidade para toda a vida é uma graça, inseparável de várias desgraças. O que fazer se as ondas mudam de direção, se surgem novas oportunidades que transformam os confiáveis pontos fortes de ontem em ameaçadoras fraquezas de hoje; os bens que há um tempo nos mantinham unidos, em pesos cansativos; os coletes salva-vidas, em cinturões de chumbo?

"Onde fica a fronteira entre o direito à felicidade pessoal e a um novo amor, e o egoísmo inconseqüente disposto a desintegrar a família e talvez prejudicar os filhos?", pergunta-se Ivan Klíma. Traçar esse limite com precisão pode ser doloroso, mas podemos estar certos de uma coisa: essa fronteira, onde quer que seja, é violada no momento em que o ato de estreitar e soltar laços entre os homens é declarado moralmente indiferente e neutro, liberando a priori os autores da responsabilidade das recíprocas consequências daquilo que fazem: daquela mesma responsabilidade incondicional que o amor promete, nos momentos bons e ruins, e que luta para construir e conservar. "A criação de uma relação boa e duradoura", em clara oposição à busca de prazer por meio de objetos de consumo, "requer um esforço enorme".

Em resumo: o amor não é algo que se possa encontrar, não é um "objet trouvé" ou um "ready-made". É algo que requer que seja criado e recriado a cada dia, a cada hora; que precisa ser constantemente ressuscitado e reafirmado; e requer atenção e cuidado. Alinhado com a crescente fragilidade dos laços humanos, com a impopularidade dos compromissos de longo prazo, com a eliminação dos "deveres" pelos "direitos" e a transgressão de toda obrigação que não seja "voltada para si mesmo" ("eu preciso", "eu mereço" e assim por diante), tende-se a ver no amor algo que é perfeito ou falho desde o início, e que, por isso, é melhor abandonar e substituir com exemplares "novos e melhorados", que, espera-se, sejam verdadeiramente perfeitos. Um amor semelhante não sobreviverá à primeira pequena discussão e muito menos ao primeiro sério desacordo e confronto.

A felicidade – para recordar o diagnóstico de Kant – não é um ideal da razão, mas da imaginação. E o próprio Kant advertiu que, do lenho torto da humanidade, nunca se poderia tirar nada reto e direito. John Stuart Mill pareceu reunir ambas as noções em uma advertência: pergunta-te se és feliz e deixarás de sê-lo. Os antigos provavelmente já o suspeitavam, mas, guiados pelo princípio "Dum spiro, spero" – até que haja vida, há esperança –, sustentavam que, sem trabalho duro, a vida não ofereceria nada que tivesse valor. Dois mil anos depois, essa sugestão não perdeu, de fato, a sua atualidade.

Para ler mais:



Jair Rattner

Crise abre possibilidade de uma nova moeda internacional, diz Stiglitz

Para Nobel de Economia, Joseph Stiglitz o sistema baseado no dólar está caindo aos pedaços e a crise vai abrir caminho para o surgimento de uma nova moeda internacional, com um banco central global. Segundo ele, o Brasil tem uma situação privilegiada em relação aos outros países para sair da crise. A reportagem é de Jair Rattner, e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 9-05-2009.
Fonte: UNISINOS



Joseph Stiglitz



Para o Nobel de Economia Joseph Stiglitz, o Brasil tem espaço de manobra na política monetária devido à política de juros altos realizada até agora. Falando nas Conferências do Estoril, que têm como tema a globalização, Stiglitz disse que o País está em condições de impulsionar o crescimento econômico com a queda dos juros.

"Uma grande vantagem que o Brasil tem, curiosamente, é que o Banco Central era excessivamente restritivo na política monetária. Uma das vantagens de ter altas taxas de juro é que você pode baixá-las", disse Stiglitz.

Ao contrário do Brasil, a Europa e os Estados Unidos não têm essa possibilidade: "Quando se chega ao zero, não se tem para onde ir. Portanto, o Brasil tem espaço de manobra na política monetária de uma forma que os Estados Unidos e a Europa não têm."

Segundo Stiglitz, o Brasil tem uma situação privilegiada em relação aos outros países porque pode utilizar as exportações como impulso para sair da crise. "O Brasil é um dos poucos casos em que a recuperação vai depender em algum grau da retomada das exportações. Mas o Brasil é uma economia de grandes dimensões e as exportações tem um peso relativo." Ele disse que, ao contrário das crises anteriores, a maior parte dos países não vai poder basear a saída da crise no aumento das exportações porque os mercados não estão comprando.

Stiglitz acredita que a crise vai abrir caminho para o surgimento de uma nova moeda internacional, com um banco central global. A proposta foi formulada pelas autoridades chinesas. "O sistema baseado no dólar está caindo aos pedaços. Sou o presidente da comissão das Nações Unidas para a reforma do sistema financeiro e estamos discutindo os mecanismos através dos quais isso pode acontecer." Para ele, a reunião do G-20 realizada em abril deveria ter discutido o assunto. "Não foi um dos pontos de discussão do G-20 e isso foi uma grande desilusão da reunião."

Ele explicou por que a proposta surgiu a partir da China. "Países que conseguiram acumular grandes quantidades de dólares enfrentam agora riscos enormes porque o valor do dólar pode cair. Portanto, há boas razões para a insegurança." Ele considera que a falta de uma nova moeda e de um sistema financeiro que a sustente pode atrasar a recuperação econômica devido à falta de confiança no dólar, resultado das dívidas dos EUA.

Para Stiglitz, a crise atual é uma derrota do pensamento de direita. Ele disse que a derrocada do mercado subprime e de derivativos foi a prova de que a ideia de que o mercado se regula sozinho provou que estava errada. Segundo Stiglitz, outra ideia conectada com a direita que não funcionou foi a do darwinismo econômico: "Eles acreditavam que havia uma seleção natural, que os mais aptos sobreviviam, não foi o que se viu entre os bancos americanos."

Eric Hobsbawm

Socialismo fracassou, capitalismo quebrou: o que vem a seguir?

A prova de uma política progressista não é privada, mas sim pública. A prioridade não é o aumento do lucro e do consumo, mas sim a ampliação das oportunidades e, como diz Amartya Sen, das capacidades de todos por meio da ação coletiva. Isso significa iniciativa pública não baseada na busca de lucro. Decisões públicas dirigidas a melhorias sociais coletivas com as quais todos sairiam ganhando. Esta é a base de uma política progressista, não a maximização do crescimento econômico e da riqueza pessoal. A análise é do historiador britânico Eric Hobsbawm em artigo publicado no jornal The Guardian.
Fonte: Agência Carta Maior



Seja qual for o logotipo ideológico que adotemos, o deslocamento do mercado livre para a ação pública deve ser maior do que os políticos imaginam. O século XX já ficou para trás, mas ainda não aprendemos a viver no século XXI, ou ao menos pensá-lo de um modo apropriado. Não deveria ser tão difícil como parece, dado que a idéia básica que dominou a economia e a política no século passado desapareceu, claramente, pelo sumidouro da história. O que tínhamos era um modo de pensar as modernas economias industriais – em realidade todas as economias -, em termos de dois opostos mutuamente excludentes: capitalismo ou socialismo.

Conhecemos duas tentativas práticas de realizar ambos sistemas em sua forma pura: por um lado, as economias de planificação estatal, centralizadas, de tipo soviético; por outro, a economia capitalista de livre mercado isenta de qualquer restrição e controle. As primeiras vieram abaixo na década de 1980, e com elas os sistemas políticos comunistas europeus; a segunda está se decompondo diante de nossos olhos na maior crise do capitalismo global desde a década de 1930. Em alguns aspectos, é uma crise de maior envergadura do que aquela, na medida em que a globalização da economia não estava então tão desenvolvida como hoje e a economia planificada da União Soviética não foi afetada. Não conhecemos a gravidade e a duração da atual crise, mas sem dúvida ela vai marcar o final do tipo de capitalismo de livre mercado iniciado com Margareth Thatcher e Ronald Reagan.

A impotência, por conseguinte, ameaça tanto os que acreditam em um capitalismo de mercado, puro e desestatizado, uma espécie de anarquismo burguês, quanto os que crêem em um socialismo planificado e descontaminado da busca por lucros. Ambos estão quebrados. O futuro, como o presente e o passado, pertence às economias mistas nas quais o público e o privado estejam mutuamente vinculados de uma ou outra maneira. Mas como? Este é o problema que está colocado diante de nós hoje, em particular para a gente de esquerda.

Ninguém pensa seriamente em regressar aos sistemas socialistas de tipo soviético, não só por suas deficiências políticas, mas também pela crescente indolência e ineficiência de suas economias, ainda que isso não deva nos levar a subestimar seus impressionantes êxitos sociais e educacionais. Por outro lado, até a implosão do mercado livre global no ano passado, inclusive os partidos social-democratas e moderados de esquerda dos países do capitalismo do Norte e da Australásia estavam comprometidos mais e mais com o êxito do capitalismo de livre mercado.

Efetivamente, desde o momento da queda da URSS até hoje não recordo nenhum partido ou líder que denunciasse o capitalismo como algo inaceitável. E nenhum esteve tão ligado a sua sorte como o New Labour, o novo trabalhismo britânico. Em suas políticas econômicas, tanto Tony Blair como Gordon Brown (este até outubro de 2008) podiam ser qualificados sem nenhum exagero como Thatchers com calças. O mesmo se aplica ao Partido Democrata, nos Estados Unidos.

A idéia básica do novo trabalhismo, desde 1950, era que o socialismo era desnecessário e que se podia confiar no sistema capitalista para fazer florescer e gerar mais riqueza do que em qualquer outro sistema. Tudo o que os socialistas tinham que fazer era garantir uma distribuição eqüitativa. Mas, desde 1970, o acelerado crescimento da globalização dificultou e atingiu fatalmente a base tradicional do Partido Trabalhista britânico e, em realidade, as políticas de ajudas e apoios de qualquer partido social democrata. Muitas pessoas, na década de 1980, consideraram que se o barco do trabalhismo não queria ir a pique, o que era uma possibilidade real, tinha que ser objeto de uma atualização.

Mas não foi. Sob o impacto do que considerou a revitalização econômica thatcherista, o New Labour, a partir de 1997, engoliu inteira a ideologia, ou melhor, a teologia, do fundamentalismo do mercado livre global. O Reino Unido desregulamentou seus mercados, vendeu suas indústrias a quem pagou mais, deixou de fabricar produtos para a exportação (ao contrário do que fizeram Alemanha, França e Suíça) e apostou todo seu dinheiro em sua conversão a centro mundial dos serviços financeiros, tornando-se também um paraíso de bilionários lavadores de dinheiro. Assim, o impacto atual da crise mundial sobre a libra e a economia britânica será provavelmente o mais catastrófico de todas as economias ocidentais e o com a recuperação mais difícil também.

É possível afirmar que tudo isso já são águas passadas. Que somos livres para regressar à economia mista e que a velha caixa de ferramentas trabalhista está aí a nossa disposição – inclusive a nacionalização -, de modo que tudo o que precisamos fazer é utilizar de novo essas ferramentas que o New Labour nunca deixou de usar. No entanto, essa idéia sugere que sabemos o que fazer com as ferramentas. Mas não é assim.

Por um lado, não sabemos como superar a crise atual. Não há ninguém, nem os governos, nem os bancos centrais, nem as instituições financeiras mundiais que saiba o que fazer: todos estão como um cego que tenta sair do labirinto tateando as paredes com todo tipo de bastões na esperança de encontrar o caminho da saída.

Por outro lado, subestimamos o persistente grau de dependência dos governos e dos responsáveis pelas políticas às receitas do livre mercado, que tanto prazer lhes proporcionaram durante décadas. Por acaso se livraram do pressuposto básico de que a empresa privada voltada ao lucro é sempre o melhor e mais eficaz meio de fazer as coisas? Ou de que a organização e a contabilidade empresariais deveriam ser os modelos inclusive da função pública, da educação e da pesquisa? Ou de que o crescente abismo entre os bilionários e o resto da população não é tão importante, uma vez que todos os demais – exceto uma minoria de pobres – estejam um pouquinho melhor? Ou de que o que um país necessita, em qualquer caso, é um máximo de crescimento econômico e de competitividade comercial? Não creio que tenham superado tudo isso.

No entanto, uma política progressista requer algo mais que uma ruptura um pouco maior com os pressupostos econômicos e morais dos últimos 30 anos. Requer um regresso à convicção de que o crescimento econômico e a abundância que comporta são um meio, não um fim. Os fins são os efeitos que têm sobre as vidas, as possibilidades vitais e as expectativas das pessoas.

Tomemos o caso de Londres. É evidente que importa a todos nós que a economia de Londres floresça. Mas a prova de fogo da enorme riqueza gerada em algumas partes da capital não é que tenha contribuído com 20 ou 30% do PIB britânico, mas sim como afetou a vida de milhões de pessoas que ali vivem e trabalham. A que tipo de vida têm direito? Podem se permitir a viver ali? Se não podem, não é nenhuma compensação que Londres seja um paraíso dos muito ricos. Podem conseguir empregos remunerados decentemente ou qualquer tipo de emprego? Se não podem, de que serve jactar-se de ter restaurantes de três estrelas Michelin, com alguns chefs convertidos eles mesmos em estrelas. Podem levar seus filhos à escola? A falta de escolas adequadas não é compensada pelo fato de que as universidades de Londres podem montar uma equipe de futebol com seus professores ganhadores de prêmios Nobel.

A prova de uma política progressista não é privada, mas sim pública. Não importa só o aumento do lucro e do consumo dos particulares, mas sim a ampliação das oportunidades e, como diz Amartya Sen, das capacidades de todos por meio da ação coletiva. Mas isso significa – ou deveria significar – iniciativa pública não baseada na busca de lucro, sequer para redistribuir a acumulação privada. Decisões públicas dirigidas a conseguir melhorias sociais coletivas com as quais todos sairiam ganhando. Esta é a base de uma política progressista, não a maximização do crescimento econômico e da riqueza pessoal.

Em nenhum âmbito isso será mais importante do que na luta contra o maior problema com que nos enfrentamos neste século: a crise do meio ambiente. Seja qual for o logotipo ideológico que adotemos, significará um deslocamento de grande alcance, do livre mercado para a ação pública, uma mudança maior do que a proposta pelo governo britânico. E, levando em conta a gravidade da crise econômica, deveria ser um deslocamento rápido. O tempo não está do nosso lado.

Emir Sader

O indissolúvel nexo entre teoria e prática no marxismo

No segundo texto da série "Marxismo e Século XXI", Emir Sader trata das relações entre teoria e prática no contexto da obra e do legado de Marx.
Fonte: Agência Carta Maior







“Não se pode separar mecanicamente as questões políticas das questões de organização”.

(Lênin, Discurso de encerramento do 11° Congresso do Partido Comunista da Rússia, citado por Lukacs no encabeçamento do seu ensaio “Notas metodológicas sobre as questões de organização”, em “História e consciência de classe”)

O marxismo foi concebido como teoria transformadora da realidade. Por essa razão, suas primeiras grandes expressões – Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Gramsci, – foram, ao mesmo tempo, indissoluvelmente, teóricos e dirigentes revolucionários. Suas analises e denúncias estavam comprometidas com captar o nervo do real com suas contradições como motores da realidade, para poder compreendê-la na sua dinâmica e decifrar suas alternativas. Seu trabalho teórico estava intrinsecamente comprometido com projetos de transformação concreta e radical da realidade. Daí essa identidade indissolúvel entre trabalho teórico e direção política revolucionária, prática intelectual e trabalho partidário, as fronteiras entre suas atividades como teóricos e como dirigentes revolucionários eram tênues, a ponto que a primeira sistematização da idéia do comunismo – o Manifesto Comunista – foi encomendada politicamente e serviu como documento básico do primeiro partido internacional dos trabalhadores.

A partir do fenômeno que Perry Anderson chamou de “marxismo ocidental” (Nota: in Anderson, Perry, Afinidades seletivas, Boitempo Editorial), - resultado da combinação negativa da stalinização dos partidos comunistas e da repressão fascista - passou a haver uma ruptura entre teoria e prática, retornando, agora sobre o marxismo, a imagem do intelectual desvinculado da prática política, com a correspondente autonomização do discurso teórico. As estruturas partidárias, hegemonizadas pelo stalinismo, bloqueavam elaborações e debates teóricos e políticos alternativos, fazendo com que se produzisse uma nova figura no marxismo: o intelectual desvinculado da prática política. Seu correlato foi a prática política partidária desvinculada da elaboração teórica.

Inevitavelmente a analise e a denúncia passaram a predominar sobre as propostas, as alternativas. Houve um deslocamento dos temas, mas também um deslocamento a favor da teoria desvinculada da prática política. Prática política sem teoria, teoria sem prática – os dois problemas passaram a pesar comum um carma sobre o marxismo e a esquerda. A prática política da esquerda tendeu ao realismo, ao possibilismo, ao abandono da estratégia, enquanto a teoria marxista tendeu ao intelectualismo, a visões especulativas, de simples denúncia, de polêmicas ideológicas em torno os princípios, sem desdobramentos práticos.

Nas décadas mais importantes até aqui da sua trajetória – dos anos 20 do século passado em diante -, a esquerda não pôde contar com a articulação entre seus melhores intelectuais para elaborações que contribuíssem diretamente para enriquecer sua prática política e, ao mesmo tempo, um período de extraordinária riqueza na elaboração teórica do marxismo, não esteve diretamente articulada com a prática, enriquecida por ela e apontando temas e relações concretas de força.

A afirmação de Lênin que encabeça este artigo remete exatamente a isso: não existe um momento de elaboração teórica e depois um momento de aplicação concreta das conclusões teóricas. O marxismo articula intrinsecamente a política e as questões de organização, como uma das expressões da articulação entre teoria e prática. Uma analise marxista que não se articule com projetos de transformação revolucionária, castra o marxismo da sua diferença específica em relação a todas as outras teorias. Um intelectual que se diz marxista e não articula seu pensamento com a prática político-partidária, não assume o marxismo como pensamento dialético, como motor da prática política concreta. Corre todos os riscos de autonomizar a teoria, de desprezar as relações de força políticas, de não captar os movimentos reais da história. Foi o que afetou o marxismo ocidental, que não pôde aliar a imensa criatividade teórica dos autores que podem ser incorporados nessa categoria, à transformação dessa teoria em força material, pela penetração nas massas – conforme a afirmação de Marx. Perdeu a teoria sua dimensão transformadora, perdeu a prática política a imensa capacidade analítica da teoria.

Esse descolamento é politicamente grave, sendo responsável por um forte e reiterado sentimento de parte dos intelectuais, que se reivindicam legítimos representantes da teoria, que pretendem expressar em estado puro, que tem razão contra o abastardamento da política. (O próprio Lukacs expressou isso de forma consciente no novo prefácio de História e consciência de classe, quando confessa que sentia que sempre tinha tido razão e sempre tinha perdido politicamente, deduzindo que devia afastar-se da política.) Que, na realidade, entre a teoria e a realidade – sempre heterodoxa – ficam com a teoria e se isolam da prática, dos caminhos reais da história concreta.

Essa distância se torna ainda mais grave quando o mundo vive situações inéditas – hegemonia capitalista e imperial global, junto a exibição clara de suas debilidades e de retrocesso dos chamados fatores subjetivos da construção de alternativas anticapitalistas -, em que a reflexão teórica articulada com a prática política se torna ainda mais indispensável. O refúgio de setores da intelectualidade na denuncia de capitulações políticas, sem capacidade de propor alternativas, e a trajetória empírica, de adaptação correlações de força desfavoráveis por parte de forças políticas, constitui um quadro negativo, desfavorável à construção de soluções superadoras da enorme crise hegemônica que vivem nossos países e o mundo globalizado.

O exemplo dramático da Venezuela é muito significativo, em que um processo político inovador, corajoso, se choca com a oposição frontal de quase que a totalidade da intelectualidade universitária. Enquanto esta se divide entre um denuncismo de esquerda, sem ingerência política e capacidade propositiva alternativa, o processo político ressente de uma capacidade reflexiva vinculada á sua prática para contribuir a encarar seus dilemas e a definir seu futuro.

Mas o fenômeno se estende, de maneira mais ou menos similar, a todo o continente. Um brilhante pensamento critico não costuma estar acoplado à prática política, enquanto forças políticas novas tem dificuldades para encarar os novos desafios políticos, em suas dimensões teóricas. Se trata de valorizar a reflexão teórica, acoplada organicamente à prática política, e de enriquecer a prática política, iluminada pela reflexão teórica. Exemplos da articulação entre capacidade de elaboração teórica e de direção política fora, na América Latina, o chileno Luis Emilio Recabarren, o cubano Julio Antonio Mella, o peruano José Carlos Mariategui e, mais recentemente, o brasileiro Ruy Mauro Marini e o boliviano Alvaro Garcia Linera – demonstrando a factibilidade dessa articulação e de como ela fertiliza tanto a criação teórica, quanto a prática política.

A imagem do marxista universitário, desvinculado da prática política é uma contradição em termos, uma incoerência, da mesma forma que dirigentes políticos marxistas que não sejam ao mesmo tempo intelectuais revolucionários. O ponto de vista do marxismo é um ponto de vista de partido, desde um partido, desde a acumulação de forças para um objetivo estratégico, programático. Não se trata defender a teoria como cânone teórico intocável, mas de resgatar o marxismo como metodologia – sua única dimensão ortodoxa, segundo Lukacs -, de crítica e de superação da realidade existente.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Jessé Souza

‘Vivemos numa sociedade que naturaliza a desigualdade’


Jessé Souza é doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha) e professor titular da Universidade Federal de Juiz de Fora. Artigo publicado em O Estado de S. Paulo, 06-07-2008.
Fonte: UNISINOS




O debate sobre programas assistenciais à população mais pobre no Brasil se perde, muitas vezes, na miopia da conjuntura política e das querelas partidárias. É como se não existisse "política" fora dos partidos e de suas respectivas propagandas. Eu gostaria de mudar o foco de análise, dado que ele é falso e condenado a atacar espantalhos e nunca os problemas reais. Na verdade, é a "sociedade" e não o "Estado", ao contrário do que pensam o senso comum e as teorias "científicas" que apenas reproduzem o senso comum em linguagem erudita, o verdadeiro local da formação dos consensos, quase nunca articulados conscientemente, que monta todo o fundamento do horizonte do possível em todas as questões políticas fundamentais.

Esses consensos sociais inarticulados são construídos a partir de idéias e concepções de mundo que logram se tornar hegemônicas em dado contexto histórico. A forma como a sociedade brasileira percebe, hoje em dia, sua abissal desigualdade social é "colonizada" por uma visão "economicista" da realidade social. O economicismo é, na realidade, um subproduto do liberalismo como visão de mundo hoje dominante em todo o planeta, a qual tende a reduzir todos os problemas sociais à lógica da acumulação econômica. Entre nós, no entanto, o economicismo, de tão hegemônico, transformou-se na única linguagem social compreensível por todos, de tal modo que nossos graves problemas sociais são todos superficialmente percebidos e amesquinhados a questões de "gestão de recursos". Com isso, cria-se a falsa impressão de que conhecemos os nossos problemas sociais e o que falta é apenas uma "gerência" eficiente - a crença fundamental de toda visão tecnocrática do mundo - quando, na verdade, nem sequer se sabe o que se está combatendo.

Senão, vejamos. A crença fundamental do economicismo é a percepção da sociedade como sendo composta por um conjunto de homo economicus, ou seja, agentes racionais que calculam suas chances relativas na luta social por recursos escassos com as mesmas disposições de comportamento e as mesmas capacidades de disciplina, autocontrole e auto-responsabilidade. Nessa visão distorcida do mundo, o marginalizado social é percebido como se fosse alguém com as mesmas capacidades e disposições de comportamento do indivíduo da classe média. Por conta disso, o miserável e sua miséria são sempre percebidos como contingentes e fortuitos, um mero acaso do destino, sendo sua situação de absoluta privação facilmente reversível, bastando para isso uma ajuda passageira e tópica do Estado para que ele possa "andar com as próprias pernas". Essa é a lógica de todas as políticas assistenciais entre nós.

É esse mesmo raciocínio economicista, que abstrai sistematicamente os indivíduos de seu contexto social, que transforma a escola, pensada abstratamente e fora de seu contexto, em remédio para todos os males de nossa desigualdade. Na realidade, a escola, pensada isoladamente e em abstrato, vai apenas legitimar, com o "carimbo do Estado" e anuência de toda a sociedade, todo o processo social opaco de produção de indivíduos "nascidos para o sucesso", de um lado, e dos indivíduos "nascidos para o fracasso", de outro. Afinal, o processo de competição social não começa na escola, como pensa o economicismo, mas já está, em grande parte, pré-decidido na socialização familiar pré-escolar produzido por "culturas de classe" distintas.

Como toda visão superficial e conservadora do mundo, a hegemonia do economicismo serve ao encobrimento dos conflitos sociais mais profundos e fundamentais da sociedade brasileira: sua nunca percebida e menos ainda discutida "divisão de classes". O economicismo liberal, assim como o marxismo tradicional, percebe a realidade das classes sociais apenas "economicamente", no primeiro caso como produto da "renda" diferencial dos indivíduos e no segundo caso como "lugar na produção". Isso equivale, na verdade, a esconder e tornar invisíveis todos os fatores e pré-condições sociais, emocionais, morais e culturais que constituem a renda diferencial. Esconder os fatores não econômicos da desigualdade é, na verdade, tornar invisível tanto a gênese quanto a reprodução da desigualdade no tempo.

Para se compreender como as classes sociais são diferencialmente produzidas é necessário perceber como os "capitais impessoais" que constituem a hierarquia social e permitem a reprodução da sociedade moderna - o capital cultural e o capital econômico - são também diferencialmente apropriados. O capital cultural, sob a forma de conhecimento técnico e escolar, é fundamental para a reprodução tanto do mercado quanto do Estado modernos. É essa circunstância que torna as "classes médias", que se constituem historicamente precisamente pela apropriação diferencial do capital cultural, uma das classes dominantes desse tipo de sociedade. A classe alta se caracteriza pela apropriação, em grande parte pela herança de sangue, de capital econômico, ainda que alguma porção de capital cultural esteja sempre presente.

O processo de modernização brasileiro constitui não apenas as novas classes sociais que se apropriam diferencialmente dos capitais cultural e econômico. Ele constitui também uma classe inteira de indivíduos não só sem capital cultural nem econômico, mas desprovida, esse é o aspecto fundamental, das pré-condições sociais, morais e culturais que permitem essa apropriação. É essa classe social que designo em meus trabalhos de "ralé" estrutural, não para "ofender" essas pessoas já tão sofridas e humilhadas, mas para chamar a atenção, provocativamente, para nosso maior conflito social: o abandono social e político, "consentido por toda a sociedade", de toda uma classe de indivíduos "precarizados" que se reproduz há gerações enquanto tal. Essa classe social, que é sempre esquecida enquanto uma classe com uma gênese e um destino comum, só é percebida no debate público como um conjunto de "indivíduos" carentes ou perigosos, tratados fragmentariamente por temas de discussão superficiais, dado que nunca chegam sequer a nomear o problema real, tais como "violência", "segurança pública", "combate à fome", etc.

Afinal, a produção de indivíduos "racionais" e "calculadores", os tais que poderiam com a ajuda passageira do Estado depois "caminhar com as próprias pernas", não é um dado "natural", "caído do céu", como pensa o economicismo dominante, o qual, aliás, não é "privilégio" de economistas. Ele é produto de capacidades e habilidades transmitidas de pais para filhos por mecanismos de identificação afetiva por meio de exemplos cotidianos assegurando a reprodução de privilégios de classe indefinidamente no tempo. Disciplina, capacidade de concentração, pensamento prospectivo (que enseja o cálculo e a percepção da vida como um afazer "racional") são capacidades e habilidades da classe média e alta que possibilitam primeiro o sucesso escolar de seus filhos e depois o sucesso no mercado de trabalho. O que vai ser chamado de "mérito individual" mais tarde e legitimar todo tipo de privilégio não é um milagre que "cai do céu", mas é produzido por heranças afetivas de "culturas de classe" distintas, passadas de pais para filhos. A ignorância, ingênua ou dolosa, desse fato fundamental é a causa de todas as ilusões do debate público brasileiro sobre a desigualdade e suas causas e as formas de combatê-la.

Na realidade, essa classe, que soma 1/3 da população brasileira, é produzida e reproduzida como classe precarizada, pela não-incorporação dos pressupostos indispensáveis à apropriação nem de capital cultural nem de capital econômico. Ela é literalmente reduzida a "corpo" e é explorada pelas classes média e alta como "corpo" vendido a baixo preço, seja no trabalho das empregadas domésticas, seja como dispêndio de energia muscular no trabalho masculino desqualificado, seja ainda na realização literal da metáfora do "corpo" à venda, como na prostituição. Os privilégios da classe média e alta advindos da exploração do trabalho desvalorizado dessa classe são insofismáveis. Se pensarmos apenas nas empregadas domésticas, temos uma idéia de como a classe média brasileira, por comparação com suas similares européias, por exemplo, tem o singular privilégio de poder poupar o tempo das repetitivas e cansativas tarefas domésticas que podem ser investidas em trabalho produtivo e reconhecido fora de casa.

Além de se reproduzir como mero "corpo", incapaz de atender às demandas de um mercado cada vez mais competitivo baseado no uso do conhecimento útil para o mercado, essa é a classe também da escola (pública) brasileira de segunda classe e do serviço de saúde (público) de segunda classe. Essa é também a classe que é transformada em delinqüente e perigosa e julgada por outra classe (cuja truculência e insensibilidade social podem ser perfeitamente percebidas no magistral filme Juízo, de Maria Augusta Ramos). Essa é a nossa "luta de classes" intestina, cotidiana, invisível e silenciosa que só ganha as manchetes sob a forma "novelizada" da violência transformada em espetáculo e alimentada pelos interesses comerciais da imprensa.

Que o leitor não me entenda mal. É muito melhor assistencialismo do que nada, até mesmo um assistencialismo de curto prazo e míope como é inevitável com os pressupostos do economicismo. Mas isso só vai conseguir melhorar as condições de reprodução da "ralé" enquanto "ralé". Só vai "empurrar com a barriga" o grande drama histórico da sociedade brasileira desde o início de seu processo de modernização: a continuação da reprodução de uma sociedade que "naturaliza" a desigualdade e aceita produzir "gente" de um lado e "subgente" de outro. Isso não é culpa de governos. São os consensos sociais vigentes que elegem os temas dignos de debate na esfera pública assim como elegem a forma de (não) compreendê-los. No nosso caso, "escolhemos" debatê-los superficialmente e torná-los invisíveis. Nossa ojeriza histórica de nunca perceber e admitir conflitos sociais já teve várias causas e vários nomes. Hoje em dia é o economicismo hegemônico que esconde sistematicamente, mesmo para os setores potencialmente mais críticos de nossa classe média e alta, nosso conflito social mais fundamental, que é também a fonte de todos os nossos reais desafios como sociedade.

Entrevista - David Le Breton

'Tudo o que está no mundo passa pelo corpo'


David Le Breton, sociólogo e antropólogo francês, participará de um seminário intensivo de doutorado na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires e, apresentará seu livro "El sabor del mundo. Una antropología de los sentidos" na Feira do Livro. A reportagem é de Alina Mazzaferro, publicada no jornal Página/12, 04-05-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS




O interesse que sua obra suscitou – pelo menos a que foi traduzida e publicada na Argentina, composta de sete livros de uma extensa produção que inclui mais de 20 – revela o crescente atrativo de um campo de estudo que há duas décadas tinha poucos adeptos: a sociologia do corpo. Porque Le Breton, sociólogo e psicólogo de formação, se dedica há mais de 15 anos ao estudo da corporalidade humana, à qual entende não como mera biologia, mas, pelo contrário, como "fenômeno social e cultural, matéria simbólica, objeto de representações e de imaginários".

Para ele, não há nada natural no corpo: os gestos e as posturas corporais, o modo em que cada um vê, ouve e percebe o mundo que o rodeia, as maneiras pelas quais sofre e aproveita, as formas de se relacionar e de se comunicar com os outros, até as emoções e todo o conjunto das expressões corporais são modelados pelo contexto social e cultural em que cada ator se encontra submergido.

Assim, Le Breton se encarregou de estudar as diferentes concepções do corpo da sociedade tradicional e moderna, segundo múltiplos pontos de vista: desde os ritos de interação em diferentes sociedades e épocas, até os jogos da sedução e os modos diferenciais em que o homem e a mulher expressam seus sentimentos; desde as práticas do piercing e da tatuagem, até a arte contemporânea que envolve o corpo como material estético; desde o corpo do deficiente, até os homogêneos corpos cinematográficos e televisivos; desde a bulimia e a anorexia, até todo o conjunto de preocupações atuais com a beleza, a saúde e a aparência.

Todo um campo de estudo se abre diante de seus olhos a partir da consideração do corpo como matéria simbólica no lugar de pura biologia. "Antropología del cuerpo y Modernidad" (Nueva Visión, 1995), o primeiro de seus livros publicado na Argentina e o mais conhecido no país, é para o autor uma espécie de "caixa de ferramentas" que lhe permitiu desenvolver o resto da sua obra. Ali, apresenta em cada capítulo as temáticas que abordará depois em profundidade nos livros posteriores: o estudo dos sentidos é desenvolvido em "El sabor del mundo..." (Nueva Visión, 2007); "As Paixões ordinárias. Antropologia das emoções" (Vozes, 2009) se ocupa das emoções; a dor e o sofrimento é objeto de análise em "Antropología del dolor" (Seix Barral, 1998); a invenção moderna do corpo enquanto objeto separado do ser que o carrega e a história da anatomia são trabalhados em "La chair au vif" (Em carne viva, em tradução livre); o tema do rosto e da máscara é estudado em "Des visages. Essai d’antropologie" (Os rostos. Ensaio de antropologia); enquanto os corpos de um mundo voltado cada vez mais sobre a tecnologia são analisados em "Adeus ao corpo. Antropologia e sociedade" (Papirus, 2003).

Além disso, Le Breton publicou uma breve e esquemática mas útil genealogia das teorias que se ocupam do corpo – "A sociologia do corpo" (Vozes, 2008) – em que percorre todas as correntes sociológicas, filosóficas e antropológicas que, histórica, implícita ou explicitamente, abordaram as lógicas sociais e culturais do corpo, os imaginários em torno dele, o controle político da corporalidade (trabalhado especialmente por Michel Foucault) ou os vínculos entre o corpo e as classes sociais (tarefa encarada principalmente pela sociologia de Pierre Bourdieu a partir da sua noção de habitus).

O que é certo é que a abordagem de Le Breton está nos antípodas da obra de Foucault, Bourdieu ou de autores pós-marxistas, que encararam o estudo do corpo a partir de sua situação de classe. Le Breton desconfia da microfísica do poder, que suporia um controle invisível e disseminado em todos os âmbitos do social das ações corporais. Também não crê na existência de um habitus de classe (essas disposições que, com o tempo, vamos adquirindo a partir da experiência).

Para uma boa parte da intelectualidade argentina, essas suspeitas e descartes podem ser incômodos, levando-se em consideração a atração que esses autores ainda têm aqui. Mas Le Breton vem de outro ambiente acadêmico. Nessas duas semanas em Buenos Aires, conquistou um público e incomodou outro para o qual a experiência humana só tem sentido em termos de classe. Le Breton disse inscrever-se em uma corrente de pensamento muito diferente, de tradição norte-americana: o interacionismo simbólico, representado pelo sociólogo Erving Goffman, considerado o pai da microsociologia. Porque interessa a Le Breton estudar indivíduos e não classes fechadas e homogêneas, e essa teoria lhe permite dar conta da heterogeneidade do mundo social contemporâneo. Assim ele se expressou em uma extensa e profunda conversa com Página/12.

Como o senhor começou a se preocupar pelo corpo?

Escrevi sobre o corpo porque eu era um jovem que se sentia mal em sua própria pele. Estava começando a realizar a minha tese doutoral sobre a constituição social e cultural do corpo, quando decidi partir para o Brasil, com a vontade de me perder, de desaparecer. Estive ali durante meses, viajando a pé e em barco, atravessando todo o país, inclusive o Amazonas, até que finalmente decidi voltar para a França para terminar minha tese de sociologia. Foi nessa época que comecei a escrever sobre as condutas de risco dos jovens e também sobre o corpo.

Nesse momento, a sociologia não prestava atenção ao corpo?

O corpo havia sido objeto de análise de Michel Foucault, mas de um ponto de vista mais histórico. O etnólogo François Loux já havia trabalhado sobre o corpo na sociedade popular francesa, mas em geral a pesquisa sobre o corpo não era valorizada nessa época. Para muitos de meus colegas, o corpo não era mais do que uma forma biológica sobre a qual não havia nada para se dizer. Obviamente, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, havia um certo número de sociólogos e antropólogos que já trabalhavam esse tema, mas eram os inícios. Eu tentei aplicar os critérios de análise da antropologia cultural à questão do corpo.

Como se aborda uma antropologia do corpo?

Tenta-se interrogar-se. Dou um exemplo: a questão das cores. Poderíamos pensar que, para vê-las, só seria preciso usar os olhos. Mas, na realidade, uma criança vai aprendendo a reconhecê-las progressivamente. Primeiro aprende a reconhecer o rosto de sua mãe, de seu pai, dos objetos que lhe são próximos, depois o jardim e a rua e o mundo que o rodeia. Se seu pai o estimular a reconhecer as formas das aves, ele o fará. O que significa que nosso olhar está orientado, do mesmo modo que o nosso ouvido e o nosso paladar.

Então, não há nada natural, tudo é construído culturalmente...

Exato. Tudo é construído culturalmente por meio da interação de uma criança com seus pais. Uma criança que sempre come o mesmo prato de arroz terá pouco sentido do paladar. Em troca, se uma criança aprende a preparar e a temperar pratos ao lado de sua mãe, será uma grande cozinheira, com um grande sentido do sabor.

Essa é a tese do livro que o senhor veio apresentar na Feira do Livro?

Em "El sabor del mundo...", dediquei-me a compreender como vivemos no mundo, porque tudo o que está nele passa pelo corpo: devemos escutar o mundo, tocá-lo, cheirá-lo, senti-lo. Não há mundo mais do que através do corpo. Aproximamo-nos do mundo por meio da mediação dos sentidos. E não só dos cinco sentidos que conhecemos, que são os que herdamos da tradição grega, mas também de outros sentidos. Porque há outras sociedades humanas com outras percepções sensoriais.

Acontece algo semelhantes com as emoções?

Em "As paixões ordinárias...", tento demonstrar que todas as emoções provêm da cultura. Quer dizer que há uma cultura afetiva dentro da qual crescemos e dentro da qual vamos nos situar, com nossos modos pessoais de ser, obviamente, porque não somos clones nem robôs. Sempre há uma variável pessoal no emocional, mas, quando passamos de uma cultura a outra, vemos claramente como a cultura afetiva muda, a maneira em que os sujeitos sentem e demonstram as emoções varia. Há sociedades em que os sujeitos permanecem estóicos diante da dor, porque a ritualização da dor implica em guardar o sofrimento para si. E há outras em que as pessoas choram, gemem, gritam diante da dor.

E por que o "Adeus ao corpo"?

Não sou eu que digo adeus ao corpo! Nesse livro, tento analisar o imaginário do corpo no mundo de hoje, que considera que o corpo é insuficiente, imperfeito, que nos faz perder tempo, sobre ele recai a morte e a enfermidade. Então, crê-se que se pudéssemos nos desfazer dele seria melhor. Crê-se que a tecnologia poderá nos libertar da morte, nos dará uma juventude eterna, uma crença que substitui hoje a que propunha a existência de um Deus e de uma eternidade no paraíso. Tento compreender o porquê dessa exigência de transformar o corpo no mundo contemporâneo, por que sempre é preciso fazer regime e esportes, por que não temos mais direito de ser nós mesmos e de estar com gosto em nossa pele.

Quais são os problemas que essa crença a favor da tecnologia nos trará no futuro?

Vejo uma grande iniqüidade entre as sociedades mais ricas e as mais pobres. A tecnologia do ciborg e a robotização se desenvolverá entre os mais ricos. Dentro de vários anos, assistiremos a essa fusão entre a tecnologia e a carne, o desenvolvimento da clonagem, um mundo em que escolheremos o nosso filho em uma revista. Um mundo profundamente injusto, porque as tecnologias serão para os ricos e contribuirão com a iniquidade.

Para ler mais:



Francisco Valdean

Os muros das favelas

Francisco Valdean é morador da Maré, fotógrafo e estudante de Ciências Social da UERJ
Fonte: Observatório de Favelas




Com um argumento bem intencionado, o governador Sergio Cabral pretende cercar 11 favelas da cidade do Rio de Janeiro com um muro de três metros de altura. Vestindo-se de branco o projeto alardeia aos quatro ventos sua intenção: conter a expansão das favelas que avançam sobre a mata atlântica, salvando a natureza, dos favelados sem consciência ambiental. Se o projeto fosse original e não tivesse uma concepção excludente, a sua intenção explícita até poderia ser aceita.

Além das 11 favelas localizadas na zona sul, o muro poderá ser erguido em outras favelas da cidade. O único problema é que o argumento terá que mudar, pois em grande parte da cidade a mata atlântica já não existe há muito tempo. É inegável que a ocupação urbana desordenada cause problemas ao meio ambiente, mas não é verdade que as construções nas favelas sejam as vilãs da degradação ambiental dos grandes centros urbanos.

Quando os colonizadores aqui chegaram a mata atlântica tinha uma área equivalente a 1,3 milhões de km². 7% é o que resta. Ao que parece, a participação dos pobres sem moradia neste processo de degradação foi mínima. A incômoda verdade sobre o fenômeno da favelização é que esta cresce e se agrava por não existirem iniciativas que realmente visem combatê-la. As iniciativas existentes são tímidas, incipientes e não atacam o cerne da questão.

Quem não é cego politicamente verá na história que a favelização é o resultado de um sistema excludente que empurra os pobres para os morros e áreas periféricas das cidades. Se assim quisermos, podemos dizer que o tal sistema gera muros: visíveis e invisíveis. Os visíveis caem com força bruta. Já os invisíveis são mais terríveis, pois agem no porão frio e escuro da desigualdade social e não ruirão com força física.

Qualquer um com o mínimo de sensibilidade e um pouco de consciência social sabe que o crescimento das favelas não será barrado com muros, grades ou qualquer outro tipo de contenção física. A questão da favelização aloja-se no interior dos muros invisíveis da sociedade e só será combatida, se primeiro derrubarmos a golpes de marretas esses muros que a circundam. Políticas públicas sérias na área habitacional e um projeto satisfatório de redistribuição de renda poderiam ser passos iniciais.

A favelizaçao é fruto de um sistema desumano que se alimenta da exploração. Esse alimento rico em energia humana o faz engordar silenciosamente e a gordura excedente ameaça a saúde social dos hipócritas. Admitem a terrível anomalia e são cúmplices dos combates físicos empregados nas favelas. Combatê-la de fato significaria cortar o cordão umbilical transportador do alimento gorduroso que mantém o sistema funcionando.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Antônio Gois

Pagamento para deficientes e idosos supera o Bolsa Família


Enquanto o Bolsa Família prioriza as atenções da sociedade, um outro programa de transferência de renda, o BPC (Benefício de Prestação Continuada), cresce aceleradamente e seus gastos já representam 0,48% do PIB em 2008. Em 2001, representavam 0,21%. A reportagem é de Antônio Gois e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 05-05-2009.
Fonte: UNISINOS








O benefício consiste no pagamento de um salário mínimo a idosos e deficientes com renda per capita familiar inferior a um quarto de salário mínimo. Em 2008, o governo gastou com o programa R$ 13,8 bilhões - mais do que os R$ 10,6 bilhões do Bolsa Família - para atender 1,5 milhão de deficientes e 1,4 milhão de idosos.

O maior crescimento do programa tem acontecido pelo aumento de idosos beneficiados - de 469 mil em 2001 para 1,4 milhão em 2008-, um crescimento bastante superior ao da população idosa, que aumentou 30% de 2001 até 2007.

Para a economista Sonia Rocha, que analisou esses dados e publicou um estudo comparando o BPC ao Bolsa Família, o crescimento na concessão dos benefícios em um ritmo superior ao demográfico sugere que é preciso controlar melhor os critérios de elegibilidade do programa.

Uma auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União) reforça essa impressão. Apesar de considerar que o programa é bem focalizado - a maioria dos beneficiados são pessoas realmente pobres, o que tem impacto significativo na redução da pobreza dessas famílias -, o TCU estima que ao menos 10% receberam irregularmente o benefício.

Um cruzamento no cadastro do BPC com o de proprietários de automóveis, por exemplo, identificou que 104 mil eram donos de carros.

Há também 14 mil com imóveis rurais, 1.400 sócios de empresas e 7,7 mil deficientes com emprego formal (o programa é pago apenas a deficientes incapacitados para o trabalho).

Revisões

O tribunal sugere ao Ministério do Desenvolvimento Social - gestor do programa- que aperfeiçoe os mecanismos de identificação de erros e fraudes e que faça mais revisões.

Até 2007, segundo o relatório do TCU, 5,7 milhões de revisões deveriam ter sido feitas, mas apenas 1,8 milhão de benefícios foram selecionados para serem revistos.

Além do aperfeiçoamento dos mecanismos de controle do benefício, a economista Sonia Rocha chama a atenção para outro detalhe: por se tratar de um benefício constitucional, o governo tem pouca margem de manobra para controlar os gastos, diferentemente do que faz, por exemplo, com o Bolsa Família, cujo valor do benefício pode ser aumentado ou diminuído com mais facilidade.

No caso do BPC, no entanto, a cada aumento do salário mínimo, crescem os gastos com o programa. Além disso, a economista lembra que, em muitos casos, o benefício é concedido por via judicial, e não por requisição direta da pessoa ao INSS.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento Social, 1 milhão de beneficiários foram incluídos no programa nos últimos três anos. Desses, 87 mil (aproximadamente 9% do total) ganharam o benefício por determinação da Justiça.

Especificamente no ano passado, 15% dos deficientes que entraram no programa o fizeram pela via judicial. Entre idosos, o percentual é menor: 3% receberam o BPC após recorrer ao Judiciário. Analisando ano a ano, o aumento nas concessões judiciais foi de 24.189 em 2006 para 32.197 em 2008.

De acordo com o ministério, contribuem para esse aumento a vigência de liminares em ações civis públicas, a ampliação de unidades da Justiça Federal nos Estados e iniciativas do Judiciário de percorrer o interior em procedimentos como o da Justiça itinerante.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Ulrich Beck

A revolta da desigualdade

Para o sociólogo e professor da Universidade de Munique e da London School of Economics, Ulrich Beck, o enriquecimento rápido converteu muitos em dependentes da droga do dinheiro emprestado. Agora, os ricos possuem um pouco menos, mas os pobres não têm o suficiente para viver. A situação é (pré-) revolucionária. O artigo foi publicado no jornal El País, 04-05-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS



A revolta da desigualdade sacode o mundo inteiro: de Moscou a Helsinki, de Londres a Washington e de Berlim a Buenos Aires. Na Internet, encontramos páginas que convidam a queimar ou a pendurar os banqueiros. O centro mundial das finanças em Londres aconselha as empresas que exortem os seus trabalhadores a não passear mais de terno e gravata para evitar riscos. Aqueles que pareciam exercer um controle irrevogável sobre as finanças mundiais são agora percebidos e qualificados depreciativamente de "extraterrestres", são considerados pessoas de outro planeta. Quando se obstinam em seguir cobrando juros e obtendo privilégios, então são executados, pelo menos moralmente, nos debates televisivos. E provavelmente isso só está no começo.

A partir de diversos componentes, obtém-se assim uma explosiva mistura política e social. Não só aumenta a desigualdade, tanto no marco nacional quanto no global, mas também, antes de tudo, o rendimento e o ingresso já se desacoplaram completamente aos olhos da sociedade. Ou, pior ainda: no contexto do desmoronamento das finanças mundiais, produziu-se um acoplamento perverso, nas esferas mais altas do poder, entre gestão ruinosa e indenizações milionárias. O pequeno segredo, que não faz mais do que agudizar a amargura, consiste em que esse enriquecimento cobiçoso se realizou de forma absolutamente legal, mas atenta, por sua vez, contra todo princípio de legitimidade.

A ira popular se acende por causa dessa contradição entre legalidade e legitimidade com a qual a elite financeira incrementou fabulosamente sua riqueza. Mas essa ira se acende ainda mais, justamente, porque essa desproporção enganou todas as medições dos rendimentos, e porque as leis vigentes seguem encobrindo tão clamorosas desigualdades. Aqui também aparecem contradições na apreciação. Uns dizem: precisamos de mais impostos para os que ganham mais, já que o mercado não está em condições de corrigir os seus próprios excessos. Outros consideram, segundo o velho esquema, que isso não é mais do que uma política da inveja e exigem direitos que não se afastam das leis.

A consequência disso é que o grito de dor socialista que exige a igualdade é proferido justamente do centro ferido da sociedade e encontra repercussão em toda parte. Mas essa consciência da igualdade agora não faz mais do que alimentar as desigualdades sociais de um modo politicamente explosivo. As desigualdades sociais se convertem em material conflitivo que se inflama com facilidade, não só porque os ricos sempre são mais ricos, e os pobres, mais pobres, mas sobretudo porque se propagam normas de igualdade que estão reconhecidas, e porque, em todas as partes, se levantam expectativas de igualdade, mesmo que, no final, sejam frustradas.

Uma quinta parte da população mundial, a que se encontra em pior situação (possui, em conjunto, menos que a pessoa mais rica do mundo), carece de tudo: alimentação, água potável e um teto onde se abrigar. Qual foi a causa para que essa ordem global de desigualdades mundiais, nestes últimos 150 anos, se mostrasse, apesar de tudo, legítima e estável? Como é possível que as sociedades do bem-estar na Europa tenham podido organizar custosos sistemas financeiros de transferência em seu interior com base em critérios de necessidade e pobreza nacionais, enquanto boa parte da população mundial vive sob a ameaça de morrer de fome?

A resposta é que esse é – ou era – o princípio de eficiência que legitimava as desigualdades nacionais. Quem se esforçar será recompensado com bem-estar, rezava a promessa. Por sua vez, o Estado-nação procurava que as desigualdades globais se mantivessem encobertas e que parecesse que fossem legítimas e inalteráveis. Porque, até então, as fronteiras nacionais separavam nitidamente as desigualdades politicamente relevantes das irrelevantes. Quem se preocupa com as condições de vida em Bangladesh ou no Camboja? A legitimação das desigualdades globais está baseada assim na dissimulação do Estado-nação. A perspectiva nacional se exime de olhar a miséria do mundo.

As democracias ricas portam a bandeira dos direitos humanos até o último rincão do planeta, sem se darem conta de que, desse modo, as fortificações fronteiriças das nações, que pretendem interromper os fluxos migratórios, perdem sua base legítima. Muitos imigrantes levam a sério a igualdade pregada como direito à liberdade de movimento, mas se encontram com países e Estados que, justamente pela pressão das crescentes desigualdades internas, querem dar fim à norma de igualdade em suas fronteiras blindadas.

A revolta contra as desigualdades realmente existentes se alimenta assim dessas três fontes: do desacoplamento entre rendimento e ganhos, da contradição entre legalidade e legitimidade, assim como das expectativas mundiais de igualdade. Essa é uma situação (pré-) revolucionária? Absolutamente. Ela carece, no entanto, de sujeito revolucionário, pelo menos até agora. Porque os protestos procedem dos lugares mais diversos. A esquerda radical acusa os diretores dos bancos e o capitalismo. A direita radical acusa mais uma vez os imigrantes. Ambas as partes corroboram mutuamente que o sistema capitalista imperante perdeu sua legitimidade. Em certo sentido, são os Estados-nação os que deslizaram involuntariamente para o papel de sujeito revolucionário. Agora, de repente, estes colocam em prática um socialismo de Estado só para ricos: apoiam o grande banco com quantidades inconcebíveis de milhões, que desaparecem como se fossem absorvidos por um buraco negro. Ao mesmo tempo, aumentam a pressão sobre os pobres. Tal estratégia é como querer apagar o fogo com fogo.

Esse processo só foi possível porque as décadas anteriores geraram, em muitos âmbitos da economia, uma espécie de espírito de super-homem nietzscheano. Pequenas empresas locais eram transformadas em potências globais por super-homens da economia, e estes mudaram adequadamente as regras do poder em vigor. Levaram as finanças à esfera do incalculável, que ninguém, nem eles mesmo, podia entender. Mas sua atuação parecia se justificar ao elevarem a cotas inauditas seus benefícios, seu poder e seus ingressos.

A ideologia pregava que qualquer um podia triunfar. Isso era válido tanto para o comprador de baixos ingressos, que obtinha sua primeira propriedade, como para o malabarista que ignora os riscos incalculáveis. O paraíso na terra consistia em que o primeiro podia comprar com dinheiro emprestado, e o segundo podia se fazer ainda mais rico, também com dinheiro emprestado. Essa era, e segue sendo agora, a fórmula da irresponsabilidade organizada da economia global. Agora, na queda livre da crise financeira, ambos saem perdendo, mesmo que não exatamente da mesma maneira. Enquanto os ricos possuem um pouco menos, os pobres apenas conseguem viver. Depois de ter subido, agora o elevador volta a descer. Mas isso não amortiza a capacidade explosiva da revolta da desigualdade que se produz hoje.

Pelo contrário. As demandas de mais igualdade, que encontram sua expressão nos atuais protestos, alcançam a autoconsciência do Ocidente em seu núcleo neoliberal. Nas décadas passadas, se falsificou o sonho americano e suas promessas de liberdade e de igualdade de oportunidades pela promessa cínica de enriquecimento privado. Na realidade, esse espírito converteu muitas e muito diferentes sociedades em dependentes da droga de viver com dinheiro emprestado. A rotina diária das pessoas se baseava na obtenção de dinheiro rápido e barato, assim como na disponibilidade ilimitada de combustível fóssil.

A vida mesmo perdeu o controle nesse desejo permanente de obter cada vez mais e mais. Agora, cabe perguntar-se: onde estão os movimentos sociais que esboçam uma modernidade alternativa? Trata-se de coisas tão concretas como das novas formas de energia regenerativa, mas também de fomentar um espírito cívico que supere as fronteiras nacionais. E de qualidades como a criatividade e a autocrítica, para que temas chave como a pobreza, as mudanças climáticas ou civilizar os mercados tenham um lugar central.

Para ler mais:


sábado, 2 de maio de 2009

Eduardo Galeano

A linguagem, as coisas e seus nomes

Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública. O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado. O imperialismo se chama globalização. As vítimas do imperialismo se chamam países em via de desenvolvimento, que é como chamar de meninos aos anões. O oportunismo se chama pragmatismo. A traição se chama realismo. Os pobres se chamam carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos.
Fonte: Agência Carta Maior


Na era vitoriana era proibido fazer menção às calças na presença de uma senhorita. Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública:

O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado;

O imperialismo se chama globalização;

As vítimas do imperialismo se chamam países em via de desenvolvimento, que é como chamar de meninos aos anões;

O oportunismo se chama pragmatismo;

A traição se chama realismo;

Os pobres se chamam carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos;

A expulsão dos meninos pobres do sistema educativo é conhecida pelo nome de deserção escolar;

O direito do patrão de despedir sem indenização nem explicação se chama flexibilização laboral;

A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria;

em lugar de ditadura militar, se diz processo.

As torturas são chamadas de constrangimentos ilegais ou também pressões físicas e psicológicas;

Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões, são cleoptomaníacos;

O saque dos fundos públicos pelos políticos corruptos atende ao nome de
enriquecimento ilícito;

Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos motoristas de automóveis;

Em vez de cego, se diz deficiente visual;

Um negro é um homem de cor;

Onde se diz longa e penosa enfermidade, deve-se ler câncer ou AIDS;

Mal súbito significa infarto;

Nunca se diz morte, mas desaparecimento físico;

Tampouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares: os mortos em batalha são baixas e os civis, que nada têm a ver com o peixe e sempre pagam o pato, danos colaterais;

Em 1995, quando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: “Não gosto da palavra bomba. Não são bombas. São artefatos que explodem”;

Chama-se Conviver alguns dos bandos assassinos da Colômbia, que agem sob proteção militar;

Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade o maior presídio da ditadura uruguaia;

Chama-se Paz e Justiça o grupo militar que, em 1997, matou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, que rezavam numa igreja do povoado de Acteal, em Chiapas.

(Do livro De pernas pro ar, editora L&PM)

Joel Birman

Hipocondria e a epidemia do medo


Joel Birman, psicanalista, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo,02-05-2009.
Fonte: UNISINOS




Se diversas cenas sombrias sobre a gripe suína se condensam principalmente no México e nos EUA, fontes do vírus da gripe em questão, elas se internacionalizam imediatamente e começam a se alastrar com a ameaça da pandemia.

A globalização, ao nos colocar num mundo sem fronteiras, cria as vias de facilitação para tornar presente a ameaça do mal em escala internacional. É o temor da morte que se atualiza de maneira inevitável, pois para interromper as trilhas de sua transmissão necessário seria suspender o trafico aéreo internacional. O que, convenhamos, é no limite impossível, principalmente se considerarmos a existência atual da recessão econômica global. Porem, é inevitável que a economia já sofra os efeitos da pandemia, em diferentes setores das atividades produtivas. No entanto, o que está em pauta é o medo. É esse o que principalmente se dissemina, com uma rapidez infinitamente maior do que o vírus. O "apocalipse now" se inscreve no imaginário coletivo de forma inequívoca. Os temores ancestrais da ordem humana se colocam em cena, minando todos os sistemas de segurança construídos pelo longo processo civilizatório. Se não existe vacina contra o vírus da gripe A (H1N1), e o Tamiflu não é o medicamento infalível para combatê-la de maneira eficaz, os limites do discurso da ciência face ao mal absoluto se tornam evidentes para todos. Ao lado disso, as autoridades políticas orientadas pela medicina não conseguem também nos oferecer garantias para nossa segurança ontológica.

Medicalização

Foi graças à expansão do discurso da ciência e a medicalização maciça que ele promoveu do espaço social desde o final do século XVIII que passamos a acreditar que poderíamos dominar inteiramente a natureza e nos confrontarmos com o mal de maneira triunfante.

Com isso, o modelo moderno centrado na peste substituiu o modelo antigo centrado na lepra. Passamos a combater diretamente o mal com uma série de medidas sanitárias no interior do espaço social, ao invés de isolá-lo e procurar circunscrevê-lo na periferia das cidades, pela sua expulsão desterritorializante (Foucault).

O discurso bacteriológico, inventado por Louis Pasteur no século XIX, incrementou em muito a suposta eficácia do modelo da peste, multiplicando as ações da saúde publica e os controles epidemiológicos. No entanto, a pandemia é um acontecimento no limite imprevisível, apesar de o bioquímico austríaco Norbert Bischofberger (criador do Tamiflu) afirmar que seria previsível, pois as epidemias globais aconteceriam regularmente a cada 30 ou 40 anos.

Porém o momento preciso em que a epidemia acontece é imprevisível e não pode ser antecipado rigorosamente pela ciência, nos deixando assim todos de calças curtas e aterrorizados diante da implacabilidade da morte. Isso porque, se a disseminação virótica se realizar efetivamente, como ocorreu no caso da gripe espanhola em 1918, não existiriam nem hospitais nem medicação disponíveis para todo mundo, mesmo que sejamos hoje bem mais ricos e poderosos do que no inicio do século XX. Assim, é o desamparo psíquico de todos nós que fica à flor da pele nessas situações limites e catastróficas, pois não temos com quem contar, em última instância, para nos proteger do mal. É claro que as regiões mais ricas do mundo têm mais recursos materiais e simbólicos para se confrontarem com esse do que as pobres, assim como o inverno que se aproxima no hemisfério Sul expõe ainda mais os países pobres ao risco.

Porém o desamparo nos leva todos a acreditar que estamos ameaçados por tudo e por todos, pela natureza e pelo outro. Seria o desamparo a condição concreta de possibilidade para a produção disseminada de sintomas hipocondríacos. Com efeito, qualquer mal-estar que venhamos a sentir será o signo inequívoco da presença do mal, num contexto em que ninguém pode efetivamente nos proteger.

Enfim, se a hipocondria é o sintoma produzido no sujeito quando esse supõe que não foi desejado pela mãe e a ameaça de morte é o signo infalível de que a mãe nos abandonou aos poderes da natureza, como nos ensina a psicanálise, o imaginário hipocondríaco será a moeda corrente nos tempos catastróficos da pandemia. A dor e o sofrimento psíquicos são as resultantes desse medo amplo, geral e irrestrito promovido no imaginário coletivo pela pandemia. É preciso assim que fiquemos atentos ao lance, para não sucumbirmos pelo terror da morte.

Para isso, é preciso relativizar as supostas certezas do discurso da ciência para constituirmos formas outras de lidar com o nosso desamparo e combatermos vigorosamente as forças maléficas que nos cercam na existência social.

Projeto Excelências


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É um espaço de encontro para reflexão teológica tendo em vista contribuir para a construção de uma rede mundial de teologias contextuais marcadas por perspectivas de libertação, paz e justiça. O FMTL se reconhece como resultado do movimento ecumênico e do diálogo das diferentes teologias contemporâneas identificadas com processos de transformação da sociedade. Acontecerá entre os dias 21 a 25 de janeiro em Bélem, Pará, e discutirá o tema "Água - Terra - Teologia para outro Mundo possível". Mais informações, clicar na figura.

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Estranha metamorfose: os economistas e jornalistas que defenderam, durante décadas, as supostas qualidades do mercado, agora camuflam suas posições. Ou — pior — viram a casaca e, para não perder terreno, fingem esquecer de tudo o que sempre disseram. Para ler, clicar na figura.

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