domingo, 8 de março de 2009

Entrevista - Cecília Pires

“A mulher, talvez, até nem precisasse de um dia especial”.


Transformações, fortalecimentos e lutas marcam a vida das mulheres há muitos séculos. Pelas batalhas que travou e pelas dificuldades e desigualdades que enfrenta ainda hoje, a mulher ganhou um dia, o dia 8 de março. Para a filósofa Cecília Pires, em entrevista concedida à IHU On-Line, essa é uma data que nem precisaria existir se as pessoas voltassem a si mesmos e recompusessem um processo de integração com a sua humanidade.

A partir da sua própria história como filósofa num campo onde o homem tem maior presença e destacando exemplos de mulheres que contribuem para o fortalecimento da cultura da mulher, ela nos concedeu essa entrevista para repensarmos o que é ser mulher, atualmente.

Graduada em Filosofia, Pires é especialista em Orientação Educacional e mestre em Filosofia, pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Cursou doutorado em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com a tese O ISEB e a questão do nacionalismo. É pós-doutora pela Universidade Paris I, França. Professora nos cursos de graduação e pós-graduação de Filosofia da Unisinos, escreveu, entre outros, Reflexões sobre Filosofia Política (Santa Maria: Pallotti, 1986) e Ética da Necessidade e outros desafios (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2004). Organizou Vozes silenciadas. Ensaios de Ética e Filosofia Política (Ijuí: Editora UNIJUÍ, 2003).
Fonte: UNISINOS


IHU On-Line – Quem é a mulher hoje?

Cecília Pires – Essa é uma pergunta que exige algumas identificações. A mulher hoje se traduz por ser um sujeito de forte consciência de si mesmo, de sua identidade e seus direitos e perspectivas de vida, trabalho e realização. Penso que toda essa questão da comemoração do 8 de março (que tem a ver com a chacina que foi feita com as tecelãs de uma fábrica de Nova Iorque) mostrou uma evolução grande do papel da mulher no mundo, em todos os aspectos, desde a família, trabalho, lazer, vida política e religião. Penso, contudo, que em determinadas culturas a mulher ainda tem um papel secundário, submetida a vários processos de humilhação e exclusão social, e que as coisas vividas por ela ainda não são plenas. A mulher hoje é um sujeito que chegou a um lugar social histórico de reconhecimento. Ainda há, contudo, muitas coisas a serem resolvidas.

IHU On-Line – Quais são suas maiores conquistas e seus maiores desafios?

Cecília Pires – O desafio da mulher hoje é uma compreensão do equilíbrio e da paz no mundo. Não que a mulher tenha que ser um eixo desse equilíbrio e paz, e falo isso do ponto de vista da minha subjetividade. Acredito que o mundo hoje precisa de muita paz, serenidade e equilíbrio, e o sujeito masculino da espécie é muito agressivo, belicoso, sai muito à caça, à dominação, talvez fazendo sofisticadamente no momento contemporâneo aquilo que já se fazia antes. A mulher cuidava da prole e o homem saia à caça. Esses papéis não se inverteram necessariamente. Eles se reproduziram de forma diferente.

Mas o desafio do equilíbrio no mundo hoje para a mulher é a questão maior, sobretudo quando vemos mulheres em lugares de destaque na política nacional e internacional. A questão da serenidade e da delicadeza, que fazem parte do universo feminino, sem qualquer tipo de discriminação à figura do masculino, que também pode ser delicado e equilibrado, é o grande desafio: junto com os companheiros homens, pensar a paz no mundo. As guerras, agressões e conflitos já se deram de todas as formas.

Lucidez e cumplicidade

É triste vermos nas manchetes dos jornais dois casos cruéis no Brasil, um no Nordeste, outro aqui no Sul, de meninas grávidas, violadas por padrastos e, quem sabe, com a cumplicidade da própria mãe. Ainda assim, um ou outro líder da igreja local condena o aborto feito em cumprimento da lei, pois havia risco de vida para a menina e a gravidez era oriunda de estupro. Com isso, não estou defendendo o aborto, até porque sou contra ele. Mas esses são casos de absoluta exceção. É muito triste que em pleno século XXI esses fatos acontecem em nosso país. Então, nos perguntamos sobre a lucidez ou cumplicidade que as mulheres envolvidas nesses processos tiveram sobre essas crianças vítimas da violência masculina, e ainda pior, vinda pessoas de dentro de casa.

Sobre as conquistas das mulheres, se pensarmos em relação ao modo de produção capitalista que seguimos, todos tem que ter trabalho. Então menciono as conquistas no mundo do trabalho, e os direitos inclusive em consequência relacionados a esse mundo do trabalho. Nesse aspecto, há que se destacar o próprio reconhecimento profissional. Em décadas passadas, sobretudo até 1980, havia muita diferença entre salários femininos e masculinos. Havia empresas, como nossa Petrobras, que buscava poucas engenheiras, e mais engenheiros. Penso que essa questão discricionária está sendo superada em algumas situações. Infelizmente, ainda há muitas situações a serem resolvidas. Vamos pensar sobre a Lei Maria da Penha, criada exatamente como um protesto jurídico político sobre a violação de uma mulher. Seria muito melhor que não precisássemos dessa lei, já que a justiça não deveria ter um sexo, e deveria trabalhar com equilíbrio. Mas não é isso que acontece. Há, portanto, muitas lacunas, ainda, e pouco entendimento. Outro exemplo é que, às vezes, alguns setores da sociedade são muito discricionários com a questão da mulher e trata a questão das pessoas que lutam pela emancipação feminina com deboche. Esse respeito ainda precisa ser conquistado. Talvez a mulher até nem precisasse de um dia especial. A questão seria os humanos se voltarem a si mesmos e se recomporem num processo de integração de sua própria humanidade. Como isso não acontece, fazemos várias situações de identificação específica, como o dia do idoso, da criança, da mulher. Na verdade, a sociedade precisaria evoluir mais em relação a isso. Esse é o maior desafio.

IHU On-Line – Como percebe o poder e o pensamento feminino no mundo contemporâneo?

Cecília Pires – Esse poder e pensamento estão bastantes presentes no mundo de hoje. Há situações hoje, em que lideranças femininas cresceram de uma forma mais sólida, mas vinculada a representações como as mulheres do movimento negro, do Movimento Sem Terra, nas lutas sindicais, nas representações parlamentares, nas situações de governabilidade e representando vários segmentos sociais. Vejo que sempre parece uma espécie de destaque e esse destaque me parece pejorativo em relação à forma como a mulher se trata e se apresenta. Por exemplo, a mídia, em suas manchetes, fez várias observações um pouco irônicas, mordazes, sobre as cirurgias que a ministra Dilma Roussef [1] teria feito. Isso é absolutamente secundário na vida política do país. Se fôssemos pensar em inúmeros deputados, senadores e presidentes da República, inclusive, que fizeram essas cirurgias faciais, perceberemos que as manchetes dos jornais não tiveram o mesmo encaminhamento, fazendo esse tipo de declaração mordaz.

IHU On-Line – E por que a senhora acha que a mídia faz isso?

Cecília Pires – A mídia é muito estimulada por um espírito mesquinho, de um certo primitivismo de pensamento, pragmático, pobre. Ao invés de mostrar o que as pessoas como sujeitos sociais e políticos estão fazendo, ou não fazendo, tecendo críticas a partir de situações consolidadas, efetivadas, comprovadas, falam de detalhes sobre o corte de cabelo, o botox do rosto, o tipo de saia. A mídia quer alimentar um certo tipo de público que gosta disso.

IHU On-Line – De certa forma a mulher, que tem um papel de formadora de opinião, contribui para isso?

Cecília Pires – Não penso que isso poderia ser colocado na generalidade. Penso que há algumas mulheres filósofas, sociólogas, escritoras, religiosas, líderes populares que contribuem muito para a formação de opinião. Mas é numa outra área, num outro viés da questão, não é simplesmente na questão estético-cultural. Não que essa não seja uma questão importante, a beleza é uma condição que construímos e gostamos, mas essa coisa de padrões de beleza, de estrutura corporal, de formas de se vestir e de se portar valendo como um modelo, fica parecendo um rito de estátua. Penso que a vida de uma mulher pública é muito invadida, devassada, e que às vezes é muito ruidoso tudo isso, e em nada contribui para o convívio social. Ainda que do ponto de vista do universo masculino isso também possa acontecer, não é de uma forma tão mordaz e caricata quanto é feito em relação à mulher.

São coisas de uma tibieza de espírito, de pessoas que não conseguiram ver as coisas em uma totalidade de significados, com maior envolvimento para a humanidade e consigo mesmos. Isso é algo que deixa a desejar, no meu ponto de vista. A feminilidade e a masculinidade são características dos seres vivos da espécie e que tinham que ser respeitadas nessas condições, tais como se apresentam. Penso que tudo isso não contribui para a paz, e sim para a violência, para a competição. Claro que talvez haja muitas mulheres que até estimulam esse tipo de comportamento, podem até gostar de estar na mídia dessa forma, mas acho que não são todas as mulheres públicas que se enquadram nesse quesito.

IHU On-Line – Quais são os maiores preconceitos que persistem em torno das mulheres?

Cecília Pires – Um dos preconceitos que persistem é, de um modo geral, acerca da inteligência da mulher e da sua emocionalidade. Por mais que as mulheres se esforcem e lutem, escrevam, pesquisem, investiguem, isso é colocado com certo destaque, com uma espécie de espanto, e não como uma compreensão normal de que é própria do ser humano a inteligência. E a questão da sensibilidade também persiste. Permanece aquela estrutura cartesiana de uma divisão entre razão e sensibilidade, em que o homem é todo razão e a mulher é toda sensibilidade. Isso não é verdadeiro. O homem também sofre, sente, chora. Essas não são prerrogativas femininas. Mesmo assim, há situações, leituras, interpretações que vivenciam esse tipo de preconceito: que a mulher chora, faz charme, faz uso de sedução para conquistar as coisas, cativar os homens. Isso, colocado de uma forma pejorativa, pouco nobre. O ser humano em geral é sensível, sedutor, inteligente, bem como bruto, terrível, agônico, violento. Não existe uma dimensão de coisa perfeita que seja de coisa de homem, ou coisa de mulher. O problema é a forma como é colocado esse tipo de coisa.

Há preconceito até contra a mulher que dirige. A violência do trânsito está evidente. E há homens que, quando veem uma mulher ao volante, buzinam, tomam atitudes pouco educadas, para dizer o mínimo. Se formos fazer uma coletânea dos ditos, anedotas, isso fica patente. É algo imenso do ponto de vista do preconceito. Infelizmente há coisas que não avançaram em várias situações. Há lugares que parece que são dados apenas ao mundo masculino. A humanidade ainda terá que caminhar e avançar muito nesse sentido, inclusive no Ocidente. Entra aí a questão dos mitos, de que atrás de todo grande homem há uma grande mulher, de que a mulher foi tirada da costela de Adão. Isso virou brincadeira, sarcasmo, e sempre se coloca a mulher em papel secundário. Acho isso desnecessário, porque homens e mulheres se completam, se amam e interagem exatamente porque são diferentes. A mulher não busca uma identidade física e emocional masculina, e nem o homem busca uma identidade física e emocional feminina. Os seres humanos buscam a felicidade, sonhos conjuntos, e nesse sentido buscam um convívio, uma partilha. Aliás, a partilha é outro desafio, dos olhares, das compreensões a partir de caminhos que se afastam e se encontram.

IHU On-Line – A filosofia é machista? Por que tão poucas mulheres são reconhecidas e respeitadas por seu pensamento, enquanto filósofas?

Cecília Pires – Essa é uma pergunta recorrente. Costumo dizer que na história da filosofia são poucas as mulheres que se apresentam e são reconhecidas como pensadoras. Se recorrermos à história da filosofia antiga, isso é quase nulo. Menciona-se a mulher de Sócrates, apenas. O que percebo é que o mundo do pensamento ficou muito associado ao mundo masculino, ao mundo do poder. Vimos toda a história da humanidade como se processou, a história da dominação masculina sobre o mundo feminino e é claro que isso se refletiu na história da igreja e da humanidade. O século XX, nesse sentido, recompôs essa situação, e as mulheres tiveram mais condições de trabalho, estudo e investigação e aí, nas universidades, abriram-se lugares para as mulheres. Contemporaneamente, não se pode dizer que existe propriamente uma discriminação das mulheres na filosofia. As mulheres estão presentes na filosofia como professoras, escritoras, investigadoras. A Unisinos é um exemplo disso. No nosso colegiado do PPG, somos em três mulheres [2]. O número de homens é maior, mas isso é uma contingência.

Em outras universidades que trabalhei onde eu era a única mulher professora de filosofia e quando me aposentei, foram feitos vários concursos e até hoje não tenho notícia de que entrou uma mulher sequer nesse local. Então, fico me perguntando se realmente não houve inscrições de candidatas mulheres. É impossível que não tenha havido, com tantas mestres e doutoras formadas nesse tempo todo. Mas fica a interrogação: por que a predominância do elemento masculino? Penso que esses espaços, contudo, estão se abrindo mais, embora também aí haja preconceito. Já tive professores enquanto eu fazia minha formação, que perguntavam “como você vai ser uma pesquisadora tendo quatro filhos?”, como se meu processo de gestação de filhos pudesse impedir meu processo de geração de conhecimento. Sempre vivi e enfrentei muito esse tipo de comentário.

Mulheres filósofas

São poucas as mulheres filósofas que o público conhece: Hannah Arendt [3], Edith Stein [4], Simone Weil [5], por conta inclusive pela forma com que algumas conseguiram chegar ao mundo público e ter suas obras recebidas, acolhidas e debatidas. Penso que daqui para frente as coisas podem ser mais profícuas, mais efervescentes. Sem dúvida, passaram-se muitos séculos de silenciamento da mulher, de renúncias. Sabemos de casos de outras universidades no Brasil onde essa questão do masculino e do feminino no mundo do pensamento ainda é conflitiva. Ouvimos falar dos embates públicos entre mulheres filósofas e homens filósofos. Eu não saberia, entretanto, dizer se isso ocorre por conta do machismo, do preconceito ideológico, das reticências culturais, da má formação compreensiva acerca do que é o humano. Talvez todas essas razões juntas poderiam identificar esse problemas.

IHU On-Line – Autores como Kant e Nietzsche demonstraram misoginia em partes de sua obra. Qual é o fundamento dessa postura, partindo de pensadores que ocupam posições tão elevadas no pensamento contemporâneo?

Cecília Pires – Penso que a misoginia desses autores é algo que não se explica pela racionalidade e pelo brilhantismo filosófico de seus pensamentos. Acredito, isso sim, que há muito um componente cultural que poderia estar atrelado talvez até a problemas pessoais desses filósofos, e tantos outros. Rousseau [6] também tem vários preconceitos relacionados à mulher, por exemplo. Tenho uma amiga que é estudiosa da questão feminina, a professora Maria da Penha Carvalho [7], da Universidade Gama Filho. Ela faz vários estudos e textos filosóficos sobre a forma como a mulher é tratada. É algo impressionante. Embora haja filósofos como Stuart Mill [8], por exemplo, que tem um excelente reconhecimento sobre o pensamento e compreensão da mulher, de sua vida como profissional. Mas essa questão pode ser atribuída a preconceito, talvez porque também nessa condição cultural e preconceituosa foi atribuído à mulher o papel de cuidar da prole e fazer todo o zelo doméstico. Com isso, ela não teria tempo para reflexão, amadurecimento, porque se envolve com outras coisas. Felizmente, participo de uma geração em que os companheiros não foram ausentes no cuidado com os filhos e o cuidado com a família com a mesma responsabilidade feminina. Mas sei se várias colegas que não conseguiram construir sua carreira de investigação e pesquisa por conta de não ter o apoio do seu companheiro.

Voltando à misoginia de Kant e Nietzsche, mesmo sem ter formação psicanalítica, penso que ela está muito ligada às suas personalidades. Nietzsche teve problemas com sua mãe, e sua irmã o oprimia. Kant viveu a vida toda sozinho, não porque não se casou, mas parece que suas relações de afeto não se consolidavam. Assim, penso que se as pessoas são mal amadas, mal resolvidas, para usar uma expressão bem popular e conhecida, elas se tornam feias por dentro, e por isso produzem uma cólera acerca do mundo, e uma ira acerca da outra parte da humanidade que não é ele mesmo.

IHU On-Line – Atualmente, no Brasil e no exterior, que expoentes femininas se destacam no campo filosófico?

Cecília Pires – No Brasil, eu destacaria Marilena Chauí [9]. Penso que ela é uma excelente pesquisadora, uma pessoa séria, comprometida politicamente e que, na realidade, talvez tenha vivido preconceito e situações machistas dentro da própria USP. Fazer filosofia é criar, não é ser repetitivo. Fazer filosofia simplesmente repetindo o que os filósofos já disseram sem um processo de acréscimo, de construção e compreensão do novo a partir das categorias já estudadas também é problemático. É evidente que não se está reconstruindo a roda e reinventando a ciência. Não podemos desconhecer o que já foi feito antes de nós, mas não podemos ser apenas repetidores das coisas já ditas e já lidas. Um dos sintomas grandes da nossa inteligência é a capacidade de criar, a partir inclusive desse caminho compartilhado que é o da ciência, da filosofia. E nesse aspecto Chauí se destaca.

Penso que hoje há várias mulheres que discutem a questão feminina, como na Espanha, México, na América Latina como um todo. No ano passado, saiu um livro, organizado por um professor cubano que vive na Alemanha, Raul Betancourt [10], que fez um estudo sobre o pensamento e o trabalho feminino na América Latina. Ele destaca várias pessoas nesse sentido. Eu comentava com o próprio autor dessa obra o quanto era singular o fato de um homem tomar essa iniciativa. Ele coloca a mim e a professora Magali de Menezes [11], da Feevale, como pessoas que tem um trabalho filosófico na América Latina, o que me honra muito.

IHU On-Line – Mulheres como Dorothy Stang [12]e Simone de Beauvoir contribuíram, cada uma do seu modo, para quebrar estereótipos e lutaram por suas causas. Como seu legado nos ajuda a compreender melhor o papel das mulheres na sociedade?

Cecília Pires – Dorothy e Simone tiveram um papel exponencial na afirmação dum feminino como projeto efetivo de liberdade. Quando Simone diz que não se nasce mulher, mas torna-se mulher, ela vai mostrar isso com a afirmação cultural do feminino. Penso que as coisas que se apresentam nesses casos são o grande enfrentamento e autonomia que elas tiveram diante de preconceitos. Várias idéias de Simone fez são atribuídas a Sartre, o que de certa forma é uma injustiça, pois se aprofundarmos e investigarmos sua vida, como venho fazendo, pois sou pesquisadora de Sartre [13], muitos insights do que ele escrevia vinham de ideias e discussões que tinha com sua companheira. O originário era muito mais dela, do que dele. Ele era a pessoa que, de certa forma, publicizava mais, pois escrevia mais, ocupava o lugar social da produção e da editoração dos seus textos.

Já a irmã Dorothy teve todo um compromisso efetivo com a questão social, dos oprimidos e vitimados. Há várias mulheres que também foram líderes, desde Madre Teresa de Calcutá [14] até líderes indígenas da América Latina. Essas pessoas mostram que, quando tomada por uma idéia, a mulher tem uma coerência quase que absoluta. Ela vai em frente, e muitas vezes viram vítimas. Esse é um legado que mostra para as gerações novas que as coisas são possíveis de serem feitas. Quando falo de que o grande desafio hoje é da paz, penso que devemos desejar a paz. Falamos muito em ética, e a grande revolução que a humanidade precisa é uma revolução ética, que deve ter como pilares a justiça e a paz. Talvez a mulher tenha um grande papel aí, superando as desigualdades, necessidades, para que possamos viver, efetivamente, num mundo de liberdade. Por que enquanto estivermos envolvidos com a necessidade, não atingimos a plenitude e a liberdade. Isso se apresenta na história dos povos de modo mais, ou menos intenso.

Notas:

[1] Dilma Vana Rousseff Linhares é economista. Foi a primeira mulher a ser nomeada ministra-chefe da Casa Civil. Foi secretária de Minas e Energia durante o governo Alceu Collares no Rio Grande do Sul e retornou ao cargo durante o governo Olívio Dutra. Hoje, Dilma também é gerente do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), plano que visa ao crescimento econômico do Brasil.

[2] O curso de filosofia da Unisinos conta hoje com as professora Cecília Pires, Anna Carolina Regner e Sofia Albornoz Stein.

[3] Hannah Arendt foi uma teórica política alemã, muitas vezes descrita como filósofa, apesar de ter recusado essa designação. Emigrou para os Estados Unidos durante a ascensão do nazismo na Alemanha e tem como sua magnum opus o livro "Origens do Totalitarismo".

[4] Edith Theresa Hedwing Stein foi uma religiosa alemã, a última de onze irmãos de uma família judia que professava o Judaísmo. Faleceu aos 51 anos asfixiada numa câmara de gás, em 1942, no campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. Foi professora de Filosofia, sendo discípula de Edmund Husserl e secretária particular desse filósofo.

[5] Simone Adolphine Weil foi uma escritora, mística e filósofa francesa, tornou-se operária da Renault para escrever sobre o cotidiano dentro das fábricas, lutou na Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicanos e morreu em greve de fome, protestando contra as condições em que eram mantidos os prisioneiros de guerra na França ocupada.

[6] Jean-Jacques Rousseau foi um filósofo suíço, escritor e teórico político. Uma das figuras marcantes do Iluminismo francês, Rousseau é também um precursor do romantismo. Ao defender que todos os homens nascem livres, e a liberdade faz parte da natureza do homem, Rousseau inspirou todos os movimentos que buscaram uma busca pela liberdade. Inclui-se aí as Revoluções Liberais, o Marxismo e o Anarquismo.

[7] Maria da Penha Maia Fernandes é uma biofarmacêutica brasileira que lutou para que seu agressor viesse a ser condenado. Com 60 anos e três filhas, hoje ela é líder de movimentos de defesa dos direitos das mulheres, vítima emblemática da violência doméstica.

[8] John Stuart Mill foi um filósofo e economista inglês, e um dos pensadores liberais mais influentes do século XIX. Foi um defensor do utilitarismo, a teoria ética proposta inicialmente por seu padrinho Jeremy Bentham.

[9] Marilena de Sousa Chaui é uma historiadora de filosofia. Professora de Filosofia Política e História da Filosofia Moderna da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

[10] O filósofo e teólogo cubano Raúl Fornet-Betancourt é figura de ponta da filosofia da libertação latinoamericana, professor na Universidade de Bremen e professor honorário de filosofia na Universidade de Aachen, diretor do Departamento Latino-americano do Istituto de Missionologia de Aachen, Alemanha.

[11] Magali de Menezes é uma filósofa brasileira.

[12] Dorothy Mae Stang foi uma religiosa estadunidense naturalizada brasileira. Pertencia às Irmãs de Nossa Senhora de Namur, congregação religiosa fundada em 1804 por Santa Julie Billiart e Françoise Blin de Bourdon. Dorothy estava presente na Amazônia desde a década de setenta junto aos trabalhadores rurais da Região do Xingu. Sua atividade pastoral e missionária buscava a geração de emprego e renda com projetos de reflorestamento em áreas degradadas, junto aos trabalhadores rurais da área da rodovia Transamazônica. Seu trabalho focava-se também na minimização dos conflitos fundiários na região. Foi assassinada, com seis tiros, um na cabeça e cinco ao redor do corpo, aos 73 anos de idade, no dia 12 de fevereiro de 2005 em uma estrada de terra de difícil acesso, à 53 quilômetros da sede do município de Anapu, no Pará.

[13] Jean-Paul Charles Aymard Sartre foi um filósofo francês, escritor e crítico, conhecido representante do existencialismo. Acreditava que os intelectuais têm de desempenhar um papel ativo na sociedade. Era um artista militante, e apoiou causas políticas de esquerda com a sua vida e a sua obra.

[14] Madre Teresa de Calcutá foi uma missionária católica albanesa, nascida na República da Macedônia e naturalizada indiana beatificada pela Igreja Católica. Considerada a missionária do século XX, concretizou o projeto de apoiar e recuperar os desprotegidos na Índia. Através da sua congregação "Missionárias da Caridade", partiu em direção à conquista de um mundo que acabou rendido ao seu apelo de ajudar o mais pobre dos pobres.

terça-feira, 3 de março de 2009

É uma guerra de resistência; temos que segurar o manche e aguentar

Maria da Conceição Tavares

A professora Maria da Conceição Tavares ainda nem tomou o café da manhã da segunda-feira, 2 de março. Mas já devorou os dados do noticiário sobre a crise e passa rapidamente deles para conversar com Carta Maior sobre os eixos da palestra que fará nesta quinta-feira, dia 5 de março, às 14h30min. Conceição abre nesse dia a primeira mesa de debates do Seminário Internacional sobre o Desenvolvimento que acontece em Brasília.

Organizado pelo Conselhão, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, da Secretaria de Assuntos Institucionais do Governo, o seminário tem tudo para ser um importante contraponto de densidade ao enfoque ora alarmista, ora epidérmico que contamina muitas análises da crise mundial e, sobretudo, de seu impacto no Brasil.

Inagurado oficialmente pelo Presidente Lula às 9 hs da manhã, o seminário internacional tem a coordenação do ministro José Múcio que convocou duas dezenas de intelectuais, autoridades e lideranças - do Brasil e do exterior - para um balanço daquele que já é reconhecido como o maior colapso da história do capitalismo desde 1929.

A TV Carta Maior transmitirá ao vivo os debates, com cobertura completa das mesas programadas para a quinta e sexta-feira.

Por ser a reflexão de uma das economistas mais respeitadas do país, a fala da professora Maria da Conceição certamente esticará linhas que vão interligar o conjunto das discussões.

Há precedentes que justificam essa expectativa. Veio da “implacável lucidez” da economista, para emprestar o elogio de um de seus muitos admiradores, Carlos Lessa, algumas das reflexões seminais que ajudaram a compreender a evolução da economia brasileira no século XX. Reunidas num livro lançado no início dos anos 70 ("Da substituição de importações ao capitalismo financeiro”) essas intervenções figuram ainda hoje como um ponto de passagem obrigatório para quem pretende entender a dinâmica do desenvolvimento capitalista no país.

Pela primeira vez na história, o Brasil enfrenta uma crise mundial sem ter que carregar o setor público nas costas.

Veja bem, diz Conceição quando perguntada sobre qual seria agora o foco principal de sua análise na exposição da quinta-feira, ”estamos diante de uma tempestade global. Não é apenas a violência que assusta; é, principalmente, o fato de que a sua origem financeira torna tudo absolutamente opaco no horizonte da economia internacional. Mente quem disser que sabe o que virá e quanto vai durar. Minha percepção mais clara é de que será uma guerra de resistência; e que o Brasil tem condições de segurar o manche, e agüentar.

Conceição não é propriamente uma poliana acostumada a distribuir cálices de bondades nos salões da política brasileira. Tampouco ganhou o respeito ecumênico que desfruta em círculos intelectuais e acadêmicos por irradiar otimismo panglossiano. A adversária temida e respeitada do conservadorismo nativo na verdade nunca poupou de sua metralhadora crítica nem o governo Lula, sobretudo no primeiro mandato, quando a macroeconomia adotada pelo ex-ministro Antonio Palocci gozava unanimidade na mídia e no seu braço político-eleitoral, o tucanato.

Um de seus ex-alunos diz que a garganta de Henrique Meirelles, o presidente do BC, ainda emite ganidos de dor quando a professora de 74 anos dardeja, sem piedade, a política monetária que dá ao Brasil o campeonato mundial de juro do planeta. O que estou dizendo não é fruto de otimismo, pontua essa admiradora confessa de Celso Furtado. A luta será dura. Mas pela primeira vez na história, o Brasil enfrenta uma crise mundial sem ter que carregar o setor público nas costas. Isso é inédito: nesta crise o Estado não está afundado em dívida externa, para não dizer totalmente quebrado, como ocorreu nos anos 90. Significa mais do que não ter um peso morto; significa um Estado em condições de amparar o investimento, o emprego e o capital de giro da economia.

A taxa de juro mais alta do mundo finalmente mostra para que serve: serve para ser corrigida agora

Conceição brinca enquanto dispara sem dó: Desta vez, temos ainda uma vantagem paradoxal; e aí devemos reconhecer o serviço prestado pela ortodoxia: há um enorme espaço macroeconômico para 'flexibilizar a política monetária’, como eles gostam de dizer, ironiza a professora com um sorriso e aciona de novo o gatilho: A taxa de juro mais alta do mundo finalmente mostra para que serve: serve para ser corrigida agora na crise. Basta que façam isso e o país já ganhará um substancial reforço na capacidade fiscal para implementar ações anti-cíclicas. Cada ponto a menos na taxa de juro reduz em uma dúzia de bilhões o custo da dívida pública.

A ex-deputada federal pelo PT listará no CDES algumas vantagens que distinguem o Estado brasileiro atual daquele pé-de-chumbo pró-ativo da era FHC, quando, ao contrário de hoje, ajudava a empurrar a economia para o buraco. Hoje, o governo tem fôlego financeiro suficiente para acionar a demanda e o investimento através de uma engrenagem de quatro patas: as políticas sociais; a nova política habitacional – que deve encomendar um milhão de unidades ao setor da construção civil; as obras do PAC – que alavancam a conjuntura e corrigem as desigualdades da estrutura regional; e as licitações da Petrobrás – a Petrobrás, sozinha, meu filho, é uma nação; uma nação que nos dá auto-suficiência em óleo, o que não tínhamos nas outras crises; ao mesmo tempo mantém encomendas que podem sustentar faixas do parque industrial.

Mas, acima de tudo, a professora gosta de salientar uma diferença crucial em relação à carpintaria neoliberal dos anos 90, quando o Brasil bateu três vezes no guichê do FMI: Hoje temos um tripé de bancos estatais revigorados, que cumprem papel estratégico reconhecido pela política econômica. Com o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal o Brasil pode, de fato, gerar contrapesos à contração do crédito internacional, propiciar capital de giro e investimentos com contrapartida de garantia de emprego. Basta ter determinação política.

Os dois maiores bancos dos EUA agonizam; baixas dessa magnitude não tivemos nem em 1929

Conceição, porém, não minimiza as dificuldades dos dias que virão. Sem dúvida o colapso financeiro internacional é dramaticamente mais sério que aquele de 29. A crise atual ainda não alcançou a proporção daquela, mas você tem o núcleo financeiro dos EUA carcomido, - veja bem, pontua a professora didaticamente, é o núcleo, os grandes bancos, não as franjas. Os maiores deles, o City e o Bank of América, praticamente agonizam. Baixas dessa magnitude não tivemos nem em 1929, adverte com entonação diferente na voz.

Conceição enxerga uma estatização branca em andamento no setor financeiro norte-americano; percepção corroborada pelo noticiário matinal da segunda-feira que informa um novo round na agonia da seguradora AIG. A maior seguradora do mundo ganhou o epíteto agora de maior prejuízo da história do capitalismo americano. Na segunda-feira, receberia nova transfusão de recursos do Tesouro, mais US$ 30 bi sobre anteriores US$ 150 bi que não bastaram para afastá-la da ladeira da liquidação.

Conceição não considera que a política de socorro e mitigação pontual adotada por Obama seja suficiente para reverter a espiral que se espalha. Ajuda pontual não permite ao governo intervir de fato nas instituições; os conselhos e acionistas mantém o comando; não deixam realizar prejuízos; a agonia se arrasta. A conclusão que extrai dessa convergência entre colapso e hesitação ideológica é que teremos uma crise de longa duração, uma guerra de resistência. Conceição reporta ao exemplo japonês para justificar seu ceticismo. Na crise do Japão, nos anos 90, o setor financeiro foi abalado; nunca se recuperou de fato. O resultado é o que estamos vendo hoje; a economia japonesa desaba porque não tem solidez na perna financeira. Sem essa perna fica muito difícil enxergar a luz no fim do túnel americano. A maior economia do planeta pode patinar por anos a fio, vaticina.

Minha dúvida é se a China, que até agora foi o grande comprador de títulos norte-americanos, continuará a fazê-lo

Inúmeras incertezas se acumulam nesse horizonte de longo curso. Mas a principal delas, no entender de Maria da Conceição, argüi a sobrevivência da endogamia sino-americana que sustentou a expansão internacional pré-crise. Sem crédito o capitalismo não sobrevive, reitera a professora como que a martelar um avariável que não pode ser esquecida jamais pelos seus ouvintes. A política norte-americana de socorro e mitigação gera déficits e desequilíbrios crescentes. Os EUA têm um poder quase ilimitado de emitir dívida para se financiar, mas é preciso que o mundo continue disposto a adquiri-la, como tem feito até aqui. Minha dúvida é se a China, que até agora foi o grande comprador de títulos do Tesouro, terá fôlego para sustentar esse papel.

Conceição não acredita que a China possa reciclar facilmente seu dínamo exportador para uma expansão calcada no mercado interno. Eles já estão fazendo investimentos impressionantes na economia doméstica; não creio que exista espaço para ir além e assim compensar a perda inevitável do lado do comércio exterior. Daí a pergunta para a qual não tenho resposta: até quando terão condições de absorver títulos da dívida dos EUA?

O ativismo keynesiano de Obama ainda não marca a derrota definitiva do neoliberalismo; no Brasil isso será decidido em 2010

A economista encerra com uma advertência política: Nada do que estamos vendo configura, ainda, a derrota definitiva do neoliberalismo. É um passo. Mas não podemos festejar o defunto sob as ruínas dos mercados financeiros. O que vemos hoje é apenas luta pela sobrevivência; não há lugar para a ideologia na luta desesperada pela sobrevivência. O ativismo keynesiano de Obama, entre outros, é apenas isso, um recurso à mão, nada mais. Provavelmente, essa opacidade ideológica persistirá até 2010. No Brasil, então, será a hora da verdade. Serra se diz um desenvolvimentista - de boca, porque sua aliança preferencial é com os Democratas, cuja agenda dispensa apresentações. A sociedade brasileira terá que escolher o projeto e o arcabouço de valores para conduzir o país na reordenação pós-crise. Tomara que não recue , conclui a professora Maria da Conceição Tavares.

Fonte: Agência Carta Maior

Paul Krugman

A vingança do excesso

Artigo de Paul Krugman, colunista do New York Times e publicado no jornal O Globo, 03-03-2009. Fonte: UNISINOS



O discurso, intitulado “A abundância global da poupança e o atual déficit em conta corrente dos EUA”, ofereceu uma nova explicação para o rápido crescimento do déficit comercial americano no início do século XXI. As causas, argumentou Bernanke, não estavam nos EUA, mas sim na Ásia.

Em meados dos anos 90, destacou ele, as economias emergentes da Ásia eram grandes importadoras de capital, pegando emprestado no exterior para financiar seu desenvolvimento.

Porém, após a crise financeira asiática de 1997-1998, esses países começaram a se proteger acumulando grandes quantidades de ativos estrangeiros, na prática exportando capital para o resto do mundo.

O resultado foi uma inundação de dinheiro fácil no mundo, procurando algum lugar para ir. A maior parte desse dinheiro foi para os EUA — daí o enorme déficit comercial, pois o déficit comercial é o outro lado da moeda do fluxo de capital.

Bernanke citou “a profundidade e a sofisticação dos mercados financeiros americanos (o que, entre outras coisas, permitiu às famílias fácil acesso ao mercado imobiliário)”.

Profundidade, sim. Mas sofisticação? Bem, pode-se dizer que os banqueiros americanos, fortalecidos por um quarto de século de frenesi desregulatório, guiaram o mundo na busca de formas sofisticadas de ficarem ricos, camuflando riscos e enganando investidores.

A solta regulação do sistema financeiro marcou muitos dos outros recipientes de grandes fluxos de capital.

Isso pode explicar a correlação entre a exaltação conservadora de dois ou três anos atrás e o desastre econômico hoje. “As reformas tornaram a Islândia um tigre nórdico”, declarou um ensaio do Cato Institute.

“Como a Irlanda se tornou um tigre celta” foi o título de um artigo do Heritage Foundation; “O milagre econômico da Estônia” foi o título de outro. Todas as três nações vivem agora uma profunda crise.

Por um período, a inundação de capital criou a ilusão de riqueza nesses países, assim como fez com os mutuários americanos: os preços dos ativos estavam subindo, as moedas estavam fortes e tudo o mais parecia bem. Mas as bolhas sempre estouram, cedo ou tarde, e as economias do milagre de ontem se tornam os casos fracassado de hoje.

Se você quer saber de onde veio a crise global, então, veja a coisa dessa forma: estamos vendo a vingança do excesso. Foi assim que nos atolamos nesse caos. E ainda estamos procurando uma saída.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

José Luis Fiori

Os economistas e a crise

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Fonte: Agência Carta Maior


Finalmente, no dia 17 de fevereiro de 2009, o presidente Barack Obama sancionou seu pacote de estímulo à economia americana, no valor de US$ 787 bilhões. Uma semana antes, seu secretário do Tesouro, Timothy Geithner, anunciara um outro pacote de medidas que podem chegar aos US$ 2 trilhões, para reativar o crédito e salvar o sistema financeiro americano. Mas, apesar do volume de recursos envolvidos, não se sabe exatamente quando, onde e como serão gastos, nem tampouco se sabe se a sua utilização produzirá os efeitos desejados.

No meio desta confusão, só existem duas coisas que podem ser ditas com toda certeza: a primeira, é que faça o que faça o governo americano, será absolutamente decisivo para a evolução da crise no resto do mundo; e a segunda, que apesar das incertezas, todos os governos envolvidos estão fazendo a mesma aposta e adotando as mesmas políticas de redução das taxas de juros e adoção de sucessivos pacotes fiscais de ajuda ao sistema financeiro e estímulo à produção e ao emprego, além de defender a re-regulação dos mercados.

Muitos consideram esta convergência uma vitória da "economia keynesiana", mas do nosso ponto de vista ela não tem a ver com nenhum tipo de vitória ou derrota, no campo da teoria econômica. Trata-se de uma reação emergencial e pragmática frente à ameaça de colapso do poder dos Estados e dos bancos e, como consequência, dos sistemas de produção e emprego. Foi uma mudança de rumo inesperada e inevitável que foi imposta pela força dos fatos, independente da ideologia econômica dos governantes que estão aplicando as novas políticas "intervencionistas".

Na verdade, o que se está assistindo é uma versão invertida da famosa frase da Sra. Thatcher: "There is no alternative". Só que agora, depois de setembro de 2008, a nova convergência aconteceu sem maiores discussões teóricas ou ideológicas e sem nenhum entusiasmo político, ao contrário do que ocorreu com a grande onda e hegemonia do pensamento liberal-conservador, dos anos 1980/90, que atravessou os planos da vida política, econômica e intelectual das sociedades capitalistas. A teoria econômica ortodoxa não previu e não sabe explicar a crise atual e, assim, não tem nada para dizer nem propor neste momento. São apenas lamentos e exclamações morais contra os "vícios privados" e os "excessos públicos", por consequência, as teses ortodoxas e a ideologia liberal saíram do primeiro plano, mas não morreram nem desapareceram, pelo contrário, permanecem atuantes em todos as frentes e trincheiras de resistência às políticas estatizantes que estão em curso. Uma resistência que tem crescido a cada hora que passa, dentro e fora dos EUA.

Do outro lado da trincheira, quase todos economistas keynesianos interpretam esta crise mundial seguindo o argumento clássico de Henry Minsky (Minsky, P.H., 1975, "The Modeling of Financial Instability: An Introduction", 1974, Modelling and Simulation; John Maynard Keynes, 1975, e "The Financial Instability Hypothesis: A Restatement", 1978, Thames Papers on Political Economy), sobre a tendência endógena das economias monetárias à "instabilidade financeira", às bolhas especulativas e aos períodos de desorganização e caos provocados pela expansão desregulada do crédito e do endividamento, momentos em que se impõe a intervenção pública e a regulação dos mercados. Apesar de suas divergências internas, a respeito de valores, procedimentos e velocidades, todos os keynesianos acreditam na eficácia, e estão propondo uma intervenção massiva do Estado para salvar o sistema financeiro e reativar o crédito, a produção e a demanda efetiva.

O problema é que a teoria de Minsky explica a origem imediata da crise do mercado imobiliário americano, mas não é suficiente para entender e prever a complexidade do seu desenvolvimento posterior. Por isto, os keynesianos também não sabem o que vem pela frente, nem têm como garantir antecipadamente o sucesso de suas recomendações. Neste ponto, existe um paradoxo que em geral é escondido pela teoria econômica: o fato dos keynesianos compartilharem com os economistas liberais uma espécie de "erro liberal invertido" e complementar: os liberais acreditam na possibilidade e na eficácia da eliminação do poder político e do Estado do mundo dos mercados; enquanto os keynesianos acreditam na possibilidade e na eficácia da intervenção corretiva do estado no mundo econômico.

Mas tanto ortodoxos, quanto keynesianos, trabalham com a mesma idéia de um Estado homogêneo e externo ao mundo econômico, que num caso é capaz de se retirar e ficar na porta do mercado, cuidadoso e atento como um guarda florestal, ou então, no outro caso, é capaz de formular políticas econômicas sábias e eficazes a cada nova crise, como um Papai Noel à espera do próximo Natal, para distribuir seus presentes. Por isto, ortodoxos e keynesianos compartilham a mesma posição e a mesma dificuldade liberal de compreender e incluir nos seus modelos e recomendações as contradições e as lutas políticas próprias do mundo econômico. Não conseguem entender, por exemplo, que na origem financeira da atual crise econômica mundial não houve um erro ou "déficit de atenção" do poder público dos EUA, onde a desregulamentação dos mercados financeiros e as "bolhas" ou "ciclos de ativos" cumpriram - nos anos 80/90 - um papel decisivo na financeirização capitalista e no enriquecimento privado, mas também no fortalecimento do poder fiscal e creditício do Estado e da moeda americanos. Como consequência, agora, os passivos que estão realimentando a própria crise não são uma "massa podre homogênea", pelo contrário, eles têm nome e sobrenome, individual, corporativo, partidário e nacional, e envolvem interesses contraditórios que estão travando uma luta ferrenha em todos os planos e instâncias nacionais e internacionais.

O Estado e o capital financeiro americanos foram sócios no fortalecimento do poder político e econômico americano nos década de 80/90, e agora se defenderão à morte a cada novo passo e a cada nova arbitragem que imponha seu enfraquecimento dentro e fora dos EUA. Por isto, esta crise não tem uma solução técnica e não existe possibilidade de um acordo político à vista entre os grupos de poder americanos e entre as grandes potências. Os economistas e as autoridades governamentais de todo o mundo estão num vôo cego. A crise começou como um tufão, mas deverá se prolongar e aprofundar na forma de uma "epidemia darwinista".

(*) Artigo publicado originalmente no Valor Econômico.

Olgária Mattos

O Leitor

Olgária Mattos é filósofa, professora titular da Universidade de São Paulo
Fonte: Agência Carta Maior




“O Leitor” é um filme sobre o amor em tempos sombrios. Na Alemanha dos anos 1950, Michael, um adolescente, vive um encontro com Hanna, uma mulher mais velha, e passa a ler para ela os livros que estuda na escola. De Homero a Tchekov, de Chardelos de Laclos às aventuras de Tintin, o amor nasce misturado à ficção. Essa “mentira que diz a verdade” é, em “O Leitor”, transmitida, na alternância das gerações, pelo ensino da literatura e seu cânone.

Diversamente da simples convenção, sua exemplaridade preserva, como um dom, “grandes obras”, aquelas capazes de comover e ensinar. Pois “que saberíamos do amor e do ódio, dos sentimentos éticos e, em geral, de tudo o que chamamos de si mesmo”, pergunta Paul Ricoeur, “se isso tudo não tivesse passado à linguagem, articulado pela literatura?”

Grandes obras e grandes autores são aqueles sem os quais o mundo seria incompleto.

Sem despedir-se, Hanna subitamente abandona a cidade; mais tarde, Michael, agora estudante de direito, iria acompanhar os processos dos crimes de guerra, quando a revê, responsabilizada pela morte de prisioneiras judias durante um bombardeio. Aos poucos vão-se esclarecendo as razões da partida e os motivos pelos quais renuncia à defesa. Na época em que os campos de extermínio sucederam aos de concentração, Hanna desiste da fábrica em que trabalha, de onde, por seu desempenho, fôra promovida ao setor de escritório. Como analfabeta e no ímpeto de escondê-lo, resta-lhe o trabalho de carceragem em um Lager de então.

Hanna sente vergonha por não ler. Mas não por temor do desdém ou da humilhação pública. Não sendo externa, essa vergonha decorre do desejo íntimo do mundo mágico do qual está excluída, das fantasias que eternizam as experiências dos homens, resistem ao esquecimento e caminham em sentido contrário ao da morte. Como na obra primeira escrita no Ocidente: a Ilíada e Homero ressuscitaram Tróia da qual até mesmo as ruínas haviam desaparecido.

O amor de Michael permaneceu incólume à passagem do tempo. Seu casamento durou pouco; e a melancolia da perda de Hanna se confronta, agora, com a culpabilidade alemã e o genocídio. Pedida a prisão perpétua, a pena é agravada quando a protagonista aceita a acusação de ter assinado o documento que a incrimina, mas de que não poderia ser autora. Michael não intervém, mesmo quando descobre seu segredo. Nada diz aos acusadores sobre o que poderia diminuir a pena. Na prisão, Hanna é visitada por Micahel, que não deixou de amá-la, mas não consegue aceitar seu comprometimento no campo, no conflito entre o sentimento e a lógica da punição.

Em diálogo com G.Grecco - e no âmbito de uma dificuldade semelhante -Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, diversamente do personagem, se esquiva em imputar a todos os que viveram esses anos: “sempre me recusei a formular um juízo geral sobre o homem. Mesmo sobre os nazistas. Para mim, o único processo que se pode instruir, e com todas as precauções necessárias, é o dos indivíduos.” De resto era o preconizado pelo professor com quem Michael freqüenta o tribunal.

Hanna não libertou as prisioneiras. Também escolhera, no campo, algumas que teriam a morte adiada, tempo durante o qual liam romances para ela. Sua resposta evocava a “lei do dever”. Como Eichamnn. Este afirmava cumprir ordens e se orientar pelo imperativo categórico kantiano. Considerava-se “culpado diante de Deus, mas não “responsável diante dos homens”; também Hanna diz não ter podido agir de outro modo. Devolvendo,porém, a questão aos juízes pergunta sobre o que eles próprios fariam se estivessem em seu lugar. Michael, ao visitá-la, espera uma retratação que não vem. Indaga se ela nada aprendera com a prisão, a que se segue : “aprendi a ler”.

Nada se aprende em situações de trauma. Choque paralisador da vida, o trauma bloqueia o pensamento. Michael pressupõe a autonomia moral no interior do Lager. Hanna testemunha, ao contrário, que, no campo, a vida se encontra em estado de exceção. Assim, Primo Levi narra ter furtado o chapéu de um outro prisioneiro, quando o seu desaparecera – o que acarretava a pena de morte, sentindo horror por si mesmo. Também os “muçulmanos” dos campos se encarregam do extermínio de outros judeus ao conduzi-los às câmaras de gás. Primo Levi e Hanna revelam que, em Auschwitz, carrasco e vítima confundidos, a violência é nua. No universo concentracionário não há dignidade nem liberdade .

Sem ser compreendida por Michael, tampouco aceita, desfaz-se, para ela, o laço tênue de amor aos livros e à vida. Seu suicídio atesta que, no pós-guerra, as ruínas não são materiais, mas morais e existenciais. Os amantes, fatalizados pelo nazismo, viveram um tempo condenado em que foi “meia-noite na História”.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Frei Betto

Sejamos solidários

Quarta-feira de Cinzas, 25 de fevereiro de 2009

Querido(a) amigo(a),

Quaresma é tempo de partilha e solidariedade. Como muitos sabem, todo ano, nesta época, promovo campanha de apoio a uma obra social que acompanho pessoalmente. São iniciativas idealistas, até heróicas, quase sempre carentes de respaldo do poder público.

Este ano a obra escolhida é a Escola Nossa Senhora do Carmo, em Bananeiras (PB), município que dista 140km de João Pessoa e abriga cerca de 22 mil habitantes. Trata-se de uma escola do e no campo, destinada a famílias de lavradores e pequenos agricultores.

Estive lá em agosto passado. Trata-se de um educandário sui generis: não é privado porque nada cobra dos alunos; não é público porque não é bancado pelo governo. Eventualmente recebe alguma contribuição do poder público, como a inclusão das turmas de EJA (educação de jovens e adultos) em programas do governo federal; a gratificação de professores e técnicos do EJA pelo governo estadual; e, da parte do poder municipal, o salário de uma professora, o transporte noturno e pequena ajuda na merenda escolar.

Eis o que escrevem as religiosas do Carmelo de Bananeiras, fundadoras da escola:

"O objetivo maior da escola é a educação do ser humano como um todo, partindo de sua realidade histórica, atingindo a sua espiritualidade como filho de Deus e seu semelhante, mormente a sua integração no meio social como agente atuante e transformador responsável pelo crescimento comunitário e social.

"Como pertencemos ao Carmelo, cujo estilo de vida é contemplativo e de clausura, essa vida própria das monjas nos impede assumir diretamente esse trabalho no dia-a-dia ao lado dos pobres; por isso contamos com a colaboração do grupo de amigos do nosso Carmelo que, comungando do nosso sonho, assume generosamente, com empenho e responsabilidade, todo o trabalho que a nossa clausura nos impossibilita fazer."

Fundada em 2003, a escola obteve terreno e construção graças a donativos dos irmãos maristas, do MEC, da Fundação Banco do Brasil (BB Educar) e do grupo de amigos(as) do Carmelo. Inaugurada com apenas oito alunos, tendo como sala de aula o acanhado cômodo da casa de um aluno-lavrador, hoje ela abriga cerca de 200 alunos de educação infantil, ensino fundamental e EJA, oriundos de 540 famílias de baixo poder aquisitivo.

A escola funciona nos três períodos, de segunda a sábado; a diretora e algumas professoras trabalham em regime de voluntariado; e atualmente dispõe de telecentro (inclusão digital, extensivo a pessoas da comunidade) e oficinas de arte (desenho, pintura, música, teatro etc). Entre os projetos a serem realizados figuram oficinas de teatro e música; cursos profissionalizantes, para favorecer a geração de renda às famílias dos alunos; e hortas comunitárias segundo os princípios da economia solidária.

O educandário ocupa área de 1.200 m2 com pátio (área de lazer) e cinco salas (diretoria, secretaria, professores, telecentro e leitura); oito salas de aula; quatro banheiros; refeitório e cozinha.

O orçamento de 2008 foi de R$ 141.191,00, assim distribuídos: manutenção R$ 5.400; material didático e expediente R$ 2.976; material de limpeza R$ 1.176; merenda R$ 15.774 (há doações de alimentos das famílias dos alunos); e recursos humanos (23 funcionários) R$ 115.865 (técnico agrícola, cozinheira, coordenador pedagógico etc). Ano passado, as contribuições dos governos municipal e estadual somaram R$ 1.745,00. Não houve contribuição do governo federal.

Em carta ao ex-governador Cássio Cunha Lima - a quem Chico Pinheiro, Ricardo Kotscho e eu temos recorrido em prol da escola, sem até agora obter resposta efetiva -, as irmãs do Carmelo escreveram:

"A procura dos pais por uma vaga na escola tem sido enorme, bem como tem crescido nossas necessidades, tais como:

1) Merenda escolar: distribuída nos três turnos, para muitos se constitui como a única refeição do dia. Por isso, nosso compromisso em lutar para oferecer uma merenda de qualidade que supra as necessidades nutricionais dos nossos alunos. Hoje, temos uma pequena ajuda do município, que não é suficiente para 10 dias, e é doada sem regularidade periódica, embora sejamos sempre gratos por essa ajuda. Este ano (2008), recebemos alimentos duas vezes.

2) Pagamento dos funcionários: na escola temos merendeiras e auxiliares de serviços gerais; algumas recebem gratificações, outras são voluntárias (...); agora temos a necessidade de pagar os professores dos anos finais de ensino fundamental, implantados na escola a partir deste ano (2008) por demanda da comunidade.

3) Transporte Escolar: a escola trabalha com nove comunidades de seu entorno, e grande tem sido a necessidade de um transporte escolar como condução para os alunos; muitas crianças andam uma distância, em média, de quatro quilômetros para chegar à escola, o que no tempo das chuvas se torna um grande transtorno, devido aos lamaçais. Temos dificuldade de levar as crianças para aulas de campo; e os professores para visitas às comunidades, de modo a conhecerem a realidade e o universo dos alunos com quem trabalham. Hoje, temos uma ajuda do município no transporte escolar para os alunos da EJA, mas também de forma irregular; sempre que há eventos municipais não temos transporte; já houve mês de ter menos de 50% por cento da freqüência escolar por conta da falta do transporte.

4) Fardamento: a identificação do alunado torna-se necessidade básica de manutenção.

5) Material didático/expediente e energia elétrica: temos uma despesa mensal em torno de R$ 746,00; fazemos campanha de arrecadação para a manutenção, e nem sempre conseguimos todo o necessário.

6) Material lúdico/pedagógico: temos uma grande necessidade de brinquedos educativos para trabalhar o lúdico na sala de aula, como recurso metodológico.

7) Construção: pela demanda da educação e trabalho desenvolvidos, há necessidade de terminar a construção da escola, onde temos a estrutura pronta para construirmos mais três salas de aula, que seriam destinadas a uma sala de recursos, biblioteca e brinquedoteca. Também há necessidade da construção de um ginásio de esporte; não há nenhum nas proximidades."

Se você se sente sensibilizado por esta obra, qualquer contribuição é bem-vinda, ainda que R$ 1. O valor pode ser depositado no Banco do Brasil, Agência 0527-4; Conta Poupança: Carmelo Sagrado Coração de Jesus/ Escola - número 10059897-8.

Para quem precisa de recibo, entrar em contato com a diretora Profa. Leila Rocha Sarmento Coelho: leilarscoelho@yahoo.com.br ou (83) 93059010.

Se puder divulgar a seus amigos(as), agradeço. Deus lhe pague!

Meu abraço com amizade e paz, e votos antecipados de Feliz Páscoa.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Entrevista - Plinio de Arruda Sampaio.

Movimentos sociais e criminalização: ‘Quando acende uma luz vermelha é preciso procurar a causa do problema’.


Em entrevista, realizada por telefone, à IHU On-Line, Sampaio fala sobre os movimentos sociais e a criminalização feita pela sociedade e por alguns órgãos públicos que têm o dever de manter a imparcialidade e a justiça igualitária. A ata do conselho superior de uma das reuniões do Ministério Público do Rio Grande do Sul propôs, recentemente, tornar o Movimento dos Sem Terra ilegal.

Plínio de Arruda Sampaio é graduado em Direito, pela Universidade de São Paulo. Participou da Ação Popular, organização católica com orientação de esquerda. Foi relator do projeto de Reforma Agrária, que integrava as Reformas de Base do governo João Goulart. Criou a Comissão Especial de Reforma Agrária e propôs um modelo de reforma que indignou os grandes latifundiários do Brasil. Obteve o título de mestre em Economia Agrícola, nos Estados Unidos, onde se exilou durante a ditadura. Ao retornar ao Brasil, se engajou na campanha pela abertura do regime militar e pela anistia dos condenados políticos. Filiou-se ao PT em 1980, onde foi autor do estatuto do partido. Em 2005, desligou-se do PT e aderiu ao PSOL. É considerado um dos mais respeitados intelectuais de esquerda da Igreja Católica e também um grande defensor da Teologia da Libertação pelo laicato.

Fonte: UNISINOS

IHU On-Line – Os movimentos sociais, até a década de 1990, eram vistos com bons olhos pela sociedade em geral, mas hoje são vistos com ressalvas, tanto que hoje muitas pessoas, aqui no Rio Grande do Sul, aprovam as atitudes da polícia contra essas instituições. Em sua opinião, a que se deve essa mudança de comportamento?

Plínio de Arruda Sampaio – O que está havendo, na verdade, é uma criminalização da pobreza. O fato de haver um aumento da distância entre ricos e pobres está fazendo com que os ricos passem a considerar os pobres como seus inimigos. É uma grande mudança de visão, porque antes se pensava em incorporar os pobres de uma maneira secundária na cultura de consumo de massas. A mudança que acompanha o capitalismo deixa claro que isso não existe mais. Há uma parte da população que não irá se integrar à cultura de consumo de massas, ou seja, está excluída. Então, portanto, ela se tornou uma antagonista dos que estão dentro, o que mudou muito a perspectiva com que o homem integrado com a sociedade via o pobre. Hoje, o rico tende, junto com toda a mídia burguesa, a gerar a idéia de que o pobre ameaça a boa vida que ele leva ou até mesmo a sua vida limitada, mas integrada no sistema.

IHU On-Line – Para o senhor, como pode a sociedade brasileira conviver passivamente quando muitos não têm onde viver ou o que comer?

Plínio de Arruda Sampaio – Esse não é um processo atual, mas um traço da cultura brasileira. Aqui, existe uma sociedade dividida desde a sua fundação entre uma capa de privilegiados com acesso privativo a todas as facilidades, e uma capa de desprivilegiados, de pessoas que ficam à margem de tudo o que significa uma possibilidade de realização pessoal. A sociedade brasileira conviveu com isso a vida inteira e agora assume, dada as novas condições do capitalismo, uma posição mais radical em relação a isso. É uma indiferença absoluta.

Noutro dia, uma mulher foi atropelada no Rio de Janeiro no meio de um viaduto e nenhum dos carros parou. Passaram por cima dela vários carros. É uma situação inacreditável, como também foi o daquele menino que foi arrastado. De modo que essa crueldade é um pouco fruto das novas condições da sociedade.

IHU On-Line – Qual é a sua avaliação em relação ao governo Lula, no que diz respeito os movimentos sociais e suas reivindicações?

Plínio de Arruda Sampaio – Criminalizar os movimentos sociais é um processo mundial. É um pouco síndrome do 11 de setembro, que deu o pretexto porque gerou um medo que faz com que as pessoas se tornem cruéis. Isto é, com medo, as pessoas têm tendência à crueldade. É incrível isso. Assim, uma sociedade medrosa tende a ver os movimentos populares como seus inimigos. Então, ela começa a tomar uma série de medida para criminalizar essas atividades.

IHU On-Line – O que podemos esperar do governo gaúcho, em sua análise, que nomeou Paulo Mendes para o comando da Brigada Militar e que se declarou contrário às manifestações do MST, e em relação ao Ministério Público do Rio Grande do Sul, que convocou uma reunião para tentar declarar ilegal este movimento?

Plínio de Arruda Sampaio – Parece que essa senhora já está sendo chamada de “Crusius Credo” por causa das suas políticas, que são realmente assustadoras. No caso, eu fico muito preocupado com a posição do Ministério Público do Rio Grande do Sul, um ministério público pelo qual eu tinha grande respeito. Eu conheço vários procuradores e promotores que têm realmente uma posição muito boa, muito dentro da lei, das normas da Constituição. De modo que eu acho muito estranha essa ata de uma reunião do conselho superior, tanto que eu escrevi um artigo na Folha de S. Paulo, manifestando a minha estupefação e conclamando os ministérios públicos, inclusive os promotores do Rio Grande do Sul, a não permitir que esse tipo de coisa prospere na instituição.

IHU On-Line – Estamos retrocedendo a algumas práticas da ditadura?

Plínio de Arruda Sampaio – Sem dúvida. Esse é o linguajar da ditadura que a bancada ruralista não eliminou da sua retórica. O discurso continua sendo o discurso rancoroso do tempo da ditadura. Um discurso ameaçador, aterrorizante. E o que nos deixa mais assustado é ver o Ministério Público do Rio Grande do Sul usando esta linguagem, quando na verdade ela já estava descartada do vocabulário das pessoas e das instituições democráticas.

IHU On-Line – O que justifica um órgão como o Ministério Público, que tem o dever de ser imparcial e de estar em harmonia com a Constituição de 1988, trabalhar de forma subjetiva e parcial?

Plínio de Arruda Sampaio – É realmente incompreensível, e é essa a razão do artigo “Uma luz vermelha”, ou seja, atender uma luz de alerta, pois precisamos entender porque isto está acontecendo. Quando acende uma luz vermelha, é preciso procurar a causa do problema. As luzes vermelhas precisam trazer essa ata para um processo crítico e repudiá-la.

IHU On-Line – Como os movimentos sociais podem rearticularam suas relações com a política?

Plínio de Arruda Sampaio – Existem algumas tentativas nesse sentido, mas eu acredito que o fundamental é as organizações populares se unirem todas as vezes em que houver uma exorbitação da autoridade policial, prejudicando alguma corporação. É preciso criar uma solidariedade entre os movimentos sociais, de tal maneira que um golpe que atinja um seja considerado como um golpe que atinja todos. Se as organizações populares se propuserem a tomar isto a peito, eu garanto que teremos logo um novo diálogo com o poder.

IHU On-Line – Diante disso, o que o Ministério Público deveria fazer neste momento?
Plínio de Arruda Sampaio – Eu respeito a instituição, mas acho que ela precisa fazer uma crítica dessa ata e dar uma explicação ao povo do Rio Grande do Sul.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

David Harvey

"Resgatar o capitalismo dos capitalistas e de sua ideologia falsária"

A perspectiva de uma fragmentação da economia global em estruturas hegemônicas regionais, lutando entre si, deveria despertar os dirigentes políticos, levá-los a deixar de dizer banalidades sobre restaurar a confiança e a fazer o que precisa ser feito para resgatar o capitalismo dos capitalistas e de sua falsária ideologia neoliberal. E sim, isso significa socialismo, nacionalizações, diretrizes estatais robustas, força de colaborações internacionais e uma nova arquitetura financeira internacional. A análise é de David Harvey. Tradução: Katarina Peixoto. David Harvey é geógrafo, sociólogo urbano e historiador social marxista. É professor da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY) e autor de vários livros e artigos, dentre os quais se destaca "A Produção Capitalista do Espaço", publicado no Brasil pela Annablume Editora. Vem dando seminários sobre O Capital, de Karl Marx, há 40 anos. Mantém esta página www.davidharvey.org
Fonte: Agência Carta Maior


Não há muitas vantagens em ver a crise atual como uma erupção superficial gerada por derivas tectônicas profundas no dispositivo espaço-temporal do desenvolvimento capitalista. As placas tectônicas agora estão acelerando seu deslocamento, e quase com toda segurança a probabilidade de que crises do tipo da atual, que vem ocorrendo mais ou menos desde 1980 se incrementará, tornando-se mais frequentes e mais violentas. O modo, a forma, a espacialidade e o momento dessas erupções superficiais tornaram praticamente impossíveis de prever, mas se pode afirmar quase com certeza que vão se repetir com frequência e profundidade crescentes. Desse modo, há que se situar os acontecimentos de 2008 no contexto de uma agenda de maior densidade. Que essas tensões sejam internas à dinâmica capitalista (sem excluir acontecimentos danosos aparentemente externos, como uma pandemia catastrófica), é o melhor argumento, segundo disse Marx, “para que o capitalismo desapareça e se abra caminho para algum modo de produção alternativo e mais racional”.

Começo com essa conclusão porque permanece me parecendo vital, para não dizer dramático, como venho dizendo durante anos em meus trabalhos, que a incapacidade para entender a dinâmica geográfica do capitalismo – ou ainda a consideração da dimensão geográfica como algo em certo sentido contingente ou epifenomênico – importa tanto como perder o fio condutor que permite compreender o desenvolvimento geográfico desigual do capitalismo e perder de vista possibilidades de construção de alternativas radicais. Mas isso levanta uma dificuldade aguda que se acrescenta à análise, porque a tarefa de visar a inferir princípios universais com respeito ao papel da produção de espaços, deslocamentos e contextos ambientais na dinâmica do capitalismo a partir de um oceano de particularidades geográficas, amiúde voláteis, nos enfrenta constantemente. Sendo assim, é o caso de perguntar “como integrar a inteligência dos dados geográficos em nossas teorias da mudança evolutiva? Observemos mais detidamente as derivas tectônicas.

Como será o mundo em 2025?

Em novembro de 2008, pouco depois da eleição de um novo presidente, o Conselho de Inteligência Nacional dos EUA (NCIS, na sua sigla em inglês) publicou suas estimativas délficas sobre como seria o mundo em 2025. E pela primeira vez um organismo norte-americano quase oficial preveria que em 2025 os EUA, ainda que mantivesse seu papel de ator poderoso, senão de mais poderoso da política mundial, já não seria a potência dominante. O mundo seria multipolar e menos monocêntrico, e o poder dos atores não-estatais cresceria. O informe admitia que a hegemonia dos EUA tinha tido suas idas e vindas no passado, mas agora seu predomínio econômico, político e até militar está se desvanecendo de maneira sistemática.

Sobretudo (e vale a pena notar que o informe já estava pronto antes da implosão dos sistemas financeiro norte-americano e britânico), “a deriva sem precedentes que, no que concerne à riqueza e ao poder econômico relativo, observamos agora em direção Oeste-Leste seguirá seu curso”.

Essa “deriva sem precedentes” inverteu a drenagem de riqueza que fluía inveteradamente do leste, do sudeste e sul da Ásia até a Europa e a América do Norte: uma drenagem que começou no século XVIII – e, desde que se chegou a perceber, lamenta-o o próprio Adam Smith em seu "A Riqueza das Nações" -, mas que se acelerou implacavelmente durante o século XIX. O auge do Japão na década de 60 do século XX, seguido da Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura e Hong Kong nos 70, e logo o rápido crescimento da China depois de 1980 (acompanhado, ato contínuo, do surgimento da industrialização na Indonésia, na Índia, no Vietnã, na Tailândia e na Malásia), alteraram o centro de gravidade do desenvolvimento capitalista, ainda que não sem incidentes (a crise financeira do leste e sudeste asiáticos em 1997-98 viu, rápida mas não abundantemente, mais uma vez fluir a riqueza até Wall Street e aos bancos europeus e japoneses).

O deslocamento espacial da hegemonia econômica

A hegemonia econômica parece estar deslocando-se em direção a uma constelação de potências no leste asiático, e se as crises, como se tem argumentado, são momentos de reconfiguração radical do desenvolvimento capitalista, então o fato de que os EUA estejam em vias de financiar com enormes déficits a saída de suas dificuldades financeiras e o fato de que os déficits estejam sendo em grande medida cobertos por todos os países com excedentes poupados – Japão, China, Coréia do Sul, Taiwan e os Estados do Golfo – sugerem que estamos às portas de uma deriva desse tipo.

Já ocorreram derivas dessa natureza na grande história do capitalismo. Na conscienciosa revisão que Giovani Arrighi faz dessa deriva no seu livro "O Longo Século XX" podemos ver como a hegemonia se desloca desde as cidades-estado de Gênova e Veneza no século XVI a Amsterdã e Países Baixos no XVII, para concentrar-se na Grã Bretanha a partir do século XVIII, antes de que os EUA tomassem o controle depois de 1945. Arrighi destaca vários traços comuns a todas essas transições pertinentes a nossa análise.

Cada deriva, observa Arrighi, deu-se na esteira de uma rotunda fase de financeirização (cita aqui com aprovação a máxima do historiador Braudel, segundo a qual a financeirização anuncia o outono de alguma configuração hegemônica). Mas cada deriva traz também consigo uma mudança radical de escala, desde as pequenas cidades-estado iniciais até a economia de proporções continentais dos EUA na segunda metade do século XX. Essa mudança de escala adquire sentido, tendo em conta a regra diretriz capitalista da acumulação sem trégua e do crescimento composto de ao menos um sempiterno 3%.

Porém, as derivas econômicas, sustenta Arrighi, não estão determinadas na partida. Dependem da aparição de alguma potência economicamente capaz e política e militarmente disposta a desempenhar o papel de hegemon global (com as vantagens e desvantagens que isso traz consigo).

A renúncia dos EUA em assumir esse papel antes da Segunda Guerra Mundial significou um interregno de tensões multipolares que propiciou a deriva bélica (a Grã Bretanha já não estava em condições de afirmar seu anterior papel hegemônico). Muito depende também de como se comporte o antigo hegemon frente à diminuição de seu papel tradicional. Pode passar à história ou de maneira pacífica ou beligerante. Visto assim, mesmo se os EUA seguem mantendo um poder militar avassalador (particularmente, no espaço exterior) num contexto de declive de seu poder econômico e financeiro e de crescente míngua de sua autoridade moral e cultural criam-se cenários inquietantes para qualquer transição vindoura. Ademais, não é óbvio que o principal candidato a substituir os EUA, a China, tenha capacidade para ou vontade de afiançar-se em algum papel hegemônico, pois, ainda que sua população seja já bastante grande para arcar com os requisitos da mudança de escala, nem sua economia nem sua autoridade política (nem sequer vontade política) apontam para uma ascensão fácil ao papel de hegemon global. Dadas as divisões nacionalistas existentes, a idéia de que alguma associação entre as potências do leste asiático poderia cumprir a tarefa torna-se fartamente improvável. E o mesmo ocorre no caso de uma União Européia fragmentada e fraturada ou nas chamadas potências do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). Razão pela qual resulta plausível a predição de que estamos diante de um novo interregno multipolar de interesses encontrados e em conflito.

Derivas Tectônicas

Porém, a deriva tectônica que está deixando o predomínio e a hegemonia norte-americana dos últimos anos para trás é cada vez mais visível. A tese de uma excessiva financeirização somada à tese da “dívida como principal sinal da hegemonia de uma potência mundial” encontrou um eco popular nos escritos de Kevin Phillips. As tentativas agora em curso de reconstruir o predomínio dos EUA mediante reformas na arquitetura do vínculo entre as finanças nacionais e globais parece que não está funcionando. Ao mesmo tempo, as exclusões impostas às tentativas da maior parte do resto do mundo de reconfigurar essa arquitetura provocarão com quase total segurança fortes tensões, quando não conflitos econômicos abertos.

Porém, derivas tectônicas desse tipo não se produzem magicamente. Ainda que a geografia histórica de uma deriva de hegemonia, segundo a descreve Arrighi, manifeste uma clara pauta, e ainda que a história tenha deixado claro que essas derivas vêm sempre precedidas de períodos de financeirização, Arrighi não oferece uma análise profunda dos processos geradores dessas derivas. É verdade que menciona a “acumulação sem trégua”, e por conseguinte, a síndrome do crescimento (a regra de 3% do crescimento composto) como elementos críticos explicativos da deriva. Isso implica que a hegemonia se desloca com o curso do tempo, de entidades políticas pequenas (isto é, Veneza) a outras maiores (por exemplo, os EUA).

Também argüi que a hegemonia tem que radicar naquela entidade política que produz o grosso do excedente (ou para a qual flui o grosso do excedente em forma de tributos ou exações imperialistas). De um produto global em torno de 45 trilhões de dólares em 2005, os EUA participam com 15 trilhões, o que o converte, por assim dizer, no principal acionista que domina e controla o capitalismo global, com capacidade para ditar (como é o caso de fazer em seu papel de acionista em chefe nas instituições internacionais como o Banco Mundial e o FMI) as políticas globais. O informe do NCIS baseia parte de suas previsões na perda do predomínio paralela à manutenção de uma posição robusta na minguante participação no produto global dos EUA em relação ao resto do mundo, em geral e a China, em particular.

Contudo, como o próprio Arrighi assinala, o curso político dessa deriva está muito longe de ser claro. A aposta dos EUA pela hegemonia global sob Woodrow Wilson durante e imediatamente depois da Primeira Guerra Mundial viu-se obstaculizada pelas preferências isolacionistas prevalecentes na tradição política nacional norte-americana (daí o colapso da Liga das Nações), e só depois da Segunda Guerra Mundial (na qual a população norte-americana não queria entrar, até que ocorreu Pearl Harbour) os EUA se liberou ao seu papel de hegemon global mediante uma política exterior bipartidarista, ancorada nos Acordos de Bretton Woods, que estabeleceram a forma de organizar a ordem internacional do pós-guerra (frente à Guerra Fria e à ameaça que um comunismo internacional em plena onda de propagação representava para o capitalismo). Que os EUA vinham se desenvolvendo inveteradamente como um estado capaz em princípio de cumprir um papel de hegemon global tornou-se evidente desde os primeiros dias de sua caminhada como nação.

Estavam preparados com as doutrinas oportunas, como a do “Destino Manifesto” (expansão geográfica em escala continental, eventualmente até o Pacífico e o Caribe, antes de tornar-se global, sem necessidade de conquistas territoriais) ou a Doutrina Monroe, que exigia das potências européias que deixassem em paz as Américas (a doutrina foi na realidade formulada pelo ministro britânico do exterior, Canning, na década de 20 do século XIX, e foi quase imediatamente seguida pelos EUA). Os EUA possuíam o dinamismo necessário para aspirar a uma crescente participação no produto global, e estiveram visceralmente comprometidos com uma ou outra versão do que se pode qualificar de maneira mais feliz como “mercado encurralado” ou capitalismo “monopólico”, sustentado por uma ideologia apologética do individualismo mais descarnado.

De modo, pois, que há um sentido no qual se pode dizer que os EUA vinham se preparando, durante a maior parte de sua história, para o papel de hegemon global. A única coisa surpreendente nisso é o tempo que levou para cumprir esse projeto, e que foi a Segunda Guerra, não a Primeira, a ocasião que os levou finalmente a jogar esse papel, permitindo que os anos do entre-guerras fossem tempos de multipolaridade e competição caótica entre ambições imperiais, como as que agora teme vislumbrar o informe do NCIS para 2025.

As derivas tectônicas agora em curso estão, contudo, profundamente influenciadas pela desigualdade geográfica radical nas possibilidades econômicas e políticas de responder à crise atual. Permitam-me ilustrar o modo como hoje se opera essa desigualdade pela via de um exemplo bastante plástico.

À medida que a crise iniciada em 2007 foi se aprofundando, muitos tomaram o partido de uma solução plenamente keynesiana como a única capaz de tirar o capitalismo global do desastre em que está agora metido. Com este objetivo, propuseram-se uma variedade de pacotes de estímulos e medidas de estabilização bancária. Muitas dessas propostas foram até certo ponto postas em prática em vários países e de maneiras diferentes, na esperança de fazer frente às dificuldades crescentes. O espectro de soluções oferecidas variava imensamente segundo as circunstâncias econômicas e os perfis imperantes na opinião pública (colocando, por exemplo, a Alemanha frente a França e a Grã Bretanha na União Européia).

Mas pensemos, por exemplo, nas distintas possibilidades econômico-políticas abertas aos EUA e para a China e nas conseqüências potenciais tanto para a deriva da hegemonia como para o modo possível de resolver a crise.

China, EUA e as soluções keynesianas

Nos EUA, qualquer tentativa de falar de uma solução keynesiana adequada tem sido condenada na partida, levantando-se barreiras econômicas e políticas praticamente impossíveis de derrubar. Para funcionar, uma solução keynesiana precisaria de financiamento massivo e duradouro, com déficit. Tem-se dito com razão que o intento de Roosevelt de regressar a um orçamento equilibrado em 1837-38 é o que voltou a afundar os EUA na depressão e que foi a Segunda Guerra que salvou a situação, e não o temerário projeto rooseveltiano de financiamento com déficit que foi o New Deal. Assim, pois, mesmo que as reformas institucionais e umas políticas mais igualitárias tenham posto os fundamentos da recuperação que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, o New Deal como tal fracassou a ponto de resolver a crise nos EUA.

O problema para os EUA em 2008-09 é que parte de uma posição de endividamento crônico com o resto do mundo (vem tomando empréstimos a um ritmo de mais de 2 milhões de dólares por dia nos últimos dez ou mais anos), e isso significa uma limitação econômica para as dimensões do déficit extra que agora pode permitir-se. (O que não foi um problema sério para Roosevelt, que começou com um orçamento limitado). Há também uma limitação geopolítica, posto que o financiamento de qualquer déficit extra depende da disposição de outras potências (principalmente do leste asiático e dos Estados do Golfo) em emprestar. Tendo em conta ambas as limitações, há que se tomar por certo que o estímulo econômico factível nos EUA não será nem o bastante amplo nem o bastante duradouro para subvencionar a tarefa de reabilitar a economia. Este problema é exacerbado pela relutância ideológica de ambos os partidos em aceitar os enormes montantes de gasto deficitário requeridos para sair da crise.

Ironicamente, e ao menos em parte, porque a administração republicana anterior trabalhou de acordo com o princípio de Dick Cheney, segundo o qual “Reagan nos ensinou que os déficits não importam”. Como disse Paul Krugman, o primeiro advogado público de uma solução keynesiana desse contexto, os 800 bilhões de dólares votados com dentes arreganhados pelo Congresso em 2009, ainda que sejam melhores do que nada, estão muito longe de serem suficientes. Seria preciso uma cifra da ordem dos 2 trilhões de dólares, uma quantidade excessiva dado o nível atual do déficit estadunidense. A única opção econômica possível seria mudar o débil keynesianismo dos gastos militares excessivos por um keynesianismo muito mais forte, voltado a programas sociais. Cortar pela metade o orçamento de defesa norte-americano (aproximando-o dos níveis europeus em termos percentuais ao PIB) poderia resultar tecnicamente útil. É o caso de dizê-lo: quem quer que proponha coisa semelhante cometerá suicídio político, dada a posição política mantida pelo Partido Republicano e por muitos democratas.

A segunda barreira a ser derrubada é mais puramente política. Para funcionar, o estímulo tem de ser administrado de tal forma que se assegure seu gasto em bens e em serviços para que a economia recupere alegria. Isso significa que há que dirigir todas as ajudas a quem efetivamente delas fará uso e gastará recursos, quer dizer, as classes sociais mais humildes, porque as classes médias, postas a gastar algo, o mais provável é que o façam puxando a alça de valores de ativos (comprando casas hipotecadas que são executadas em leilões, por exemplo), e não comprando mais bens e serviços. Em todo caso, nos maus tempos muita gente tende a usar as receitas extraordinárias inopinadamente recebidos para cancelar dívidas ou para poupar (como ocorreu em muito boa medida com o reembolso de 600 dólares propiciado pela administração Bush no começo do verão de 2008).

O que parece prudente e racional desde o ponto de vista do orçamento doméstico se torna danoso para o conjunto da economia. (Analogamente: os bancos tem procedido racionalmente ao servirem-se do dinheiro público recebido para enriquecerem ou para comprar ativos, antes que para emprestá-los). A hostilidade preponderante nos EUA a “disseminar a riqueza” e a gestionar qualquer ajuda pública que não sejam os cortes fiscais aos indivíduos vem do núcleo duro da doutrina ideológica neoliberal (focalizada, mas de modo algum confinada no Partido Republicano), segundo a qual “os lares sabem mais”. Essas doutrinas chegaram a gozar de ampla aceitação nos EUA, como se se tratasse de um evangelho, durante trinta anos de doutrinamento político neoliberal. Segundo se arguiu em outra ocasião, “agora, somos todos neoliberais”, no mais das vezes sem sabê-lo. Há uma aceitação tácita, por exemplo, de que a “repressão salarial” - um componente chave do atual problema – é um “estado normal” das coisas nos EUA. Uma das três patas de uma solução keynesiana – maior capacidade de negociação dos trabalhadores, salários em alta e redistribuição favorável para as classes baixas – é atualmente impossível do ponto de vista político nos EUA. A pura sugestão de que um programa assim equivalha a “socialismo” faz o establishment político tremer. Os trabalhadores organizados não são suficientemente fortes (depois de serem durante trinta anos massacrados pelas forças políticas), e não se vê nenhum outro movimento social amplo o bastante para pressionar por uma redistribuição a favor das classes trabalhadoras.

Outro modo de alcançar objetivos keynesianos é o fornecimento de bens coletivos. Isso, tradicionalmente, tem implicado investimentos em infraestrutura física e social (os programas WPA [Works Progress Adminstration] dos anos 30 do século passado foram um precedente). Disso se segue a tentativa de incluir nos pacotes de estímulo programas para reconstruir e ampliar infraestruturas públicas de transporte e comunicações, energia e outras obras públicas em paralelo a um incremento do gasto em atenção sanitária, educação, serviços municipais, etc. Esses bens coletivos têm potencial para gerar multiplicadores tanto no emprego como na demanda efetiva de bens e serviços. Mas o que se presume é que esses bens entrariam, em dado momento, na categoria de “gastos públicos produtivos” (quer dizer, que estimulam um crescimento ulterior), não que se convertam numa série de “elefantes brancos” públicos que, como observou Keynes em seus dias, carecem de outra utilidade que não aquela de fazer as pessoas cavarem buracos para fechá-los logo em seguida.

Em outras palavras, uma estratégia de investimentos em infraestrutura tem de orientar-se para a sistemática recuperação do crescimento de 3% através do metódico redesenho de nossa infraestrutura e dos nossos modos de vida urbanos. Isso não pode funcionar sem uma planificação estatal refinada, aliada a uma base produtiva já existente que possa aproveitar-se das novas infraestruturas. Também aqui, o processo dilatado de desindustrialização experimentado pelos EUA nas últimas décadas, assim como a intensa oposição ideológica à planificação estatal (elementos esses incorporados por Roosevelt ao New Deal, e que persistiram até os anos 60, para serem abandonados quando do assalto neoliberal dos 80 a esse particular exercício de poder do Estado) e a óbvia preferência pelos cortes fiscais frente às transformações públicas das infraestruturas, torna impossível nos EUA a operação de uma solução permanente.

Na China, por outro lado, dão-se realmente tanto as condições políticas como as econômicas para uma solução plenamente keynesiana, e há ali signos transbordantes de que essa será provavelmente a via a ser seguida. Para começar, a China possui uma grande reserva de excedente estrangeiro em dinheiro e isso torna mais fácil o financiamento da dívida partindo dessa base do que de um dos gastos da dívida já acumulada, como no caso dos EUA. Vale à pena notar também que desde meados dos 90 os “ativos tóxicos” (os empréstimos que não funcionam) dos bancos chineses – (algumas estimativas os situam nos 40% de todos os empréstimos em 2000) desapareceram da contabilidade bancária a mercê dos investimentos ocasionais de excedente em dinheiro procedente das reservas do comércio exterior.

Os chineses tiveram em funcionamento durante muito tempo o equivalente a um programa TARP [o programa norte-americano de resgate bancário posto em prática nos últimos meses de 2008], e evidentemente sabem como manejá-lo (ainda que muitas das transações tenham a marca da corrupção). Os chineses têm suficiente capacidade econômica para embarcarem num programa massivo de financiamento com déficit e dispõem de uma arquitetura financeira estatal centralizada apta, se lhe propuserem, a administrar esse programa com eficácia. Os bancos, durante muito tempo de propriedade estatal, que foram privatizados para atender às exigências da OMC (Organização Mundial do Comércio) podem vir a atrair capital e perícia estrangeiros, mas podem todavia serem facilmente submetidos à vontade do estado central, enquanto que nos EUA mesmo o mais longínquo signo de diretriz estatal, para não falar de nacionalização, dá motivo a todos os tipos de furores políticos.

Analogamente, não há ali [China] a menor barreira ideológica para uma generosa redistribuição de recursos a favor dos setores mais necessitados da sociedade, ainda que possa haver necessidade de vencer os encouraçados interesses dos membros mais ricos do partido e de uma incipiente classe capitalista. A imputação segundo a qual isso seria tanto como o “socialismo”, ou inclusive até pior, o “comunismo”, apenas despertaria sorrisos divertidos na China. Mas a reaparição na China do desemprego em massa (de acordo com os últimos informes, a desaceleração dos últimos meses já teria gerado já 20 milhões de desempregados), assim como os indícios de um mal-estar social prolongado e aceleradamente crescente, forçarão seguramente o Partido Comunista chinês a empreender massivas redistribuições, estejam ou não ideologicamente convencidos da sua justiça.

No começo de 2009, essa política redistributiva parece primeiramente destinada às regiões rurais atrasadas, para onde regressaram os trabalhadores emigrantes que perderam seus empregos, frustrados com a constatação da escassez de postos de trabalho nas zonas manufatureiras. Nessas regiões, nas que faltam infraestrutura social e física, um investimento robusto de recursos por parte do governo central contribuirá para aumentar as receitas, para expandir a demanda efetiva e para dar o tiro de saída do longo processo de consolidação do mercado interno chinês.

Em segundo lugar, há um forte desejo de investir massivamente em infraestrutura que ainda falta na China. - Em troca, os cortes fiscais só tem ali atrativos políticos – e ainda que seja possível que alguns desses investimentos terminem sendo “elefantes brancos”, a probabilidade de que seja assim ali é farta mas baixa, dada a imensa quantidade de trabalho de que se necessita para integrar o espaço nacional chinês e, assim, enfrentar-se o problema do desenvolvimento geográfico desigual entre as regiões costeiras de alto desenvolvimento e as províncias empobrecidas do interior.

A existência de uma larga – ainda que problemática – base industrial e manufatureira necessitada de racionalização espacial torna mais provável que o esforço chinês entre na categoria do gasto público produtivo. No caso chinês boa parte do excedente pode ser canalizado até a produção futura de espaço, e isso mesmo admitindo que a especulação nos mercados imobiliários urbanos em cidades como Xangai, ou mesmo nos EUA, é parte do problema e não pode, por conseguinte, converter-se em parte da solução. Os gastos em infraestrutura, sempre que sejam feitos numa escala suficientemente grande, são de grande alento e servem tanto para canalizar o trabalho excedente como para reduzir as possibilidades de distúrbios sociais, contribuindo também, ademais, para impulsionar o comércio interno.

Implicações internacionais

Essas possibilidades completamente distintas que os EUA e a China têm de propiciarem uma solução plenamente keynesiana guardam profundas implicações internacionais. Se a China emprega mais recursos procedentes de suas reservas financeiras para impulsionar seu mercado interno, como com quase total segurança vai se ver forçada a fazer por razões políticas, deixará menos recursos disponíveis para possíveis empréstimos aos EUA. O descenso das compras de bônus do tesouro estadunidense terminará por forçar uns tipos de interesses mais altos, o que incidirá negativamente na demanda interna norte-americana, a qual, por sua vez e a menos que haja uma gestão meticulosa, poderia disparar o que todo mundo teme e que até agora conseguiu evitar: uma derrubada do dólar.

Uma desvinculação paulatina dos mercados norte-americanos e a sua progressiva substituição pelo próprio mercado interno como fonte de demanda efetiva da indústria chinesa alterariam significativamente os equilíbrios de poder (um processo que, diga-se de passagem, estaria carregado de tensões, tanto para a China como para os EUA). A divisa chinesa se robustecerá necessariamente frente ao dólar (uma situação tão largamente pretendida como temida pelas autoridades norte-americanas), o que obrigará aos chineses a se basearem mais em seu mercado interno para a demanda agregada. O dinamismo que disso resultaria no interior da China (contrastável com as condições de recessão duradoura que prevalecerão nos EUA) atrairá mais produções de matérias primas à órbita comercial chinesa e corroerá a importância relativa dos EUA no comércio internacional.

O efeito global de tudo isso será a aceleração do deslocamento da riqueza, do oeste para o leste, na economia mundial e a rápida alteração dos equilíbrios de poder econômico hegemônico. O movimento tectônico que operará o equilíbrio do poder capitalista global intensificará todo tipo de ramificações econômicas e políticas imprevisíveis num mundo em que os EUA deixarão de estar numa posição dominante, mesmo que sigam mantendo um poder importante. A suprema ironia, deve-se dizê-lo, é que as barreiras políticas e ideológicas postas nos EUA a qualquer programa plenamente keynesiano contribuirão seguramente para acelerar a derrubada do poder americano nos assuntos globais, apesar de que as elites de todo o mundo (inclusive as chinesas) preferissem preservar esse domínio o maior tempo possível.

Que um genuíno keynesianismo seja ou não suficiente para que a China (junto a outros estados em posição similar) consiga compensar o fracasso inevitável do keynesianismo reticente ocidental é questão em todo caso aberta. Mas essas diferenças, somadas ao eclipse da hegemonia norte-americana, bem poderiam ser o prelúdio de uma fragmentação da economia global em estruturas hegemônicas regionais que poderiam terminar lutando tanto entre si com tanta facilidade como colaborando na questão miserável de dirimir quem tem de arcar com os estragos da depressão duradoura.

Esta não é uma idéia exatamente alentadora, mas ter em mente a possibilidade de uma perspectiva desse tipo poderia talvez contribuir para despertar boa parte do mundo ocidental para a apercepção da urgência da tarefa que tem diante de si; que seus dirigentes políticos deixem de dizer banalidades sobre restaurar a confiança se ponham a fazer o que há a ser feito para resgatar o capitalismo dos capitalistas e de sua falsária ideologia neoliberal. E sim, isso significa socialismo, nacionalizações, diretrizes estatais robustas, força de colaborações internacionais e uma nova e farta, mas inclusiva (“democrática”, se posso ousar a dizê-lo assim) arquitetura financeira internacional, pois que assim seja...

Paul Krugman

Uma década de fantasias

Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.
Fonte: Terra Magazine


A esta altura, todos já conhecem a história triste dos investidores ludibriados por Bernard Madoff. Eles olharam seus extratos e pensaram que estavam ricos. Mas um belo dia descobriram, para seu horror, que a suposta riqueza era produto da imaginação de outra pessoa.

Infelizmente, esta é uma boa metáfora para o que aconteceu à América como um todo na primeira década do século 21.

Semana passada, a Reserva Federal dos Estados Unidos divulgou os resultados da sua mais recente Pesquisa Sobre a Economia de Consumo, um relatório trienal sobre o patrimônio das famílias americanas. A conclusão é que basicamente não houve criação de riqueza alguma desde a virada do milênio: o patrimônio líquido da família americana média, ajustado à inflação, é mais baixo agora do que em 2001.

De certa forma, isto não deveria surpreender. Durante a década passada, a América era uma nação de tomadores de empréstimo e gastadores, não de poupadores. A taxa de poupança caiu de 9% nos anos 1980 a 5% nos anos 1990, para chegar a 0.6% de 2005 a 2007, e as dívidas familiares cresceram muito mais do que a renda. Por que então deveríamos esperar que o nosso patrimônio líquido aumentasse?

Mesmo assim, até recentemente os americanos acreditavam que estavam enriquecendo, porque eles recebiam seus extratos dizendo que suas casas e ações estavam se valorizando mais rápido do que o aumento de suas dívidas. E a crença de muitos americanos de que eles podiam contar com os ganhos de capital para sempre soa ingênua, é bom lembrar de quantas vozes influentes - especialmente as publicações de direita como The Wall Street Journal, a revista Forbes e a National Review - incitaram esta crença e ridicularizaram aqueles que se preocupavam com o baixo nível de poupança e o aumento das dívidas.

Então a realidade foi mais forte e demonstrou que aqueles que se preocupavam estavam certos o tempo todo. O aumento repentino dos valores dos bens foi uma ilusão - mas o aumento repentino das dívidas era verdadeiro até demais.

Então estamos com problemas - problemas mais sérios, penso eu, do que as pessoas conseguem enxergar. E não estou falando apenas dos analistas cada vez mais raros que ainda insistem que a economia vai entrar nos eixos a qualquer momento.

Porque esta é uma confusão generalizada. Todos falam dos problemas dos bancos, que estão, sem dúvida, na pior posição do sistema. Mas os bancos não são os únicos jogadores com muitas dívidas e poucos bens; a mesma situação também se aplica ao setor privado em geral.

E, como o grande economista americano Irving Fisher observou nos anos 1930, as providências que as pessoas e empresas tomam quando se dão conta de que estão devendo demais tendem a ser desastrosas quando todos tentam tomá-las ao mesmo tempo. As tentativas de vender os bens para pagar as dívidas só aumentam a queda vertiginosa do preço dos bens, reduzindo o patrimônio líquido. As tentativas de se economizar mais resultam num colapso da demanda de consumo, aumentando ainda mais a crise econômica.

Estariam os tomadores de decisão prontos para fazer o que for necessário para quebrar este ciclo vicioso? Em princípio sim. Os oficiais do governo entendem esta questão: Nós precisamos "conter este espiral prejudicial e potencialmente deflacionário", disse Lawrence Summers, um dos principais conselheiros econômicos de Obama.

Na prática, no entanto, as políticas atualmente em funcionamento não encaram o desafio de forma adequada. O plano de incentivo fiscal, ainda que certamente ajude, provavelmente não fará mais do que abrandar os efeitos colaterais da deflação das dívidas. O esperadíssimo anúncio do plano de resgate aos bancos deixou todos confusos em vez de confiantes.

Há esperanças de que o resgate aos bancos se torne algo mais concreto. Tem sido interessante ver como a idéia da nacionalização temporária dos bancos se popularizou, até com republicanos como o Senador Lindsey Graham admitindo que ela possa ser necessária. Mas até se fizermos o necessário para os bancos, isto resolveria só parte do problema.

Se você quiser saber o que é realmente preciso para resgatar uma economia da armadilha do débito, veja o grande programa de auxílio público, mais conhecido como Segunda Guerra Mundial, que acabou com a Grande Depressão. A guerra não levou apenas ao fim do desemprego. Mas também levou ao aumento rápido dos salários e uma inflação substancial, tudo isso com praticamente nenhum empréstimo por parte do setor privado. Em 1945, as dívidas do governo estavam nas alturas, mas a relação entre as dívidas do setor privado e o PIB era apenas metade do que havia sido em 1940. E esta dívida privada baixa ajudou a preparar o caminho para o grande boom econômico pós-guerra.

Como nenhuma dessas coisas se aplica à nossa realidade no momento, nem se aplicará tão cedo, levará anos até que as famílias e empresas possam ganhar o bastante para pagar as dívidas que acumularam tão displicentemente. É muito provável que o legado da nossa época de ilusões - a nossa década de fantasias - seja uma longa e dolorosa queda.


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O malabarismo dos camaleões

O malabarismo dos camaleões
Estranha metamorfose: os economistas e jornalistas que defenderam, durante décadas, as supostas qualidades do mercado, agora camuflam suas posições. Ou — pior — viram a casaca e, para não perder terreno, fingem esquecer de tudo o que sempre disseram. Para ler, clicar na figura.

A opção pelo não-mercantil

A opção pelo não-mercantil
A expansão dos serviços públicos gratuitos pode ser uma grande saída, num momento de recessão generalizada e desemprego. Mas para tanto, é preciso vencer preconceitos, rever teorias e demonstrar que a economia não-mercantil não depende da produção capitalista. Para ler, clicar na figura.