domingo, 16 de agosto de 2009

Horacio Verbitsky e Eduardo de la Serna

Na quinta-feira, dia 06 de agosto, a Igreja católica da Argentina divulgou uma mensagem de Roma: anunciou que o Papa Bento XVI havia convocado a Argentina para acabar com o “escândalo da pobreza”. A convocação se refere à Coleta Mais por Menos, coordenada pela Igreja argentina todos os anos e que neste ano será feita em setembro. Mas os fac-símiles mostram que, na publicação oficial da Coleta católica, a mensagem do Papa data de maio, o que foi omitido na página da internet do Episcopado. Assim, ela foi anunciada como se acabasse de chegar. Na mensagem, o Papa anima “os cristãos e aqueles que dela [da coleta] participarem a um esforço solidário capaz de contribuir para a redução do escândalo da pobreza e da iniquidade social dando assim cumprimento às exigências evangélicas que exortam a tornar possível uma sociedade mais justa e solidária”. A mensagem do Pontífice é assinada pelo Núncio Apostólico, Adriano Bernardini, em “Buenos Aires, maio de 2009”. Na sexta-feira, dia 07, com a mensagem sendo assunto em toda a mídia, o cardeal Jorge Bergoglio reiterou o caráter da mensagem em uma missa na Igreja de São Caetano. Horacio Verbitsky analisa a escolha da data para a divulgação do comunicado de Bento XVI.



Pobres os pobres.


“A pobreza era um escândalo na época e o é ainda hoje. Por mais que oscilem os seus números, trata-se de muitas pessoas que sofrem e não há nada mais importante que aliviar o seu sofrimento, com socorros emergenciais, mas também modificando as condições estruturais que produzem a pobreza”, escreve Horacio Verbitsky em artigo que está publicado no jornal argentino Página/12, 10-08-2009. A tradução é do Cepat.
Fonte: UNISINOS



Em 2001, a Frente Nacional Contra a Pobreza (Frenapo) acorreu ao imponente petit hôtel da Conferência Episcopal. O Estado o adquiriu como residência presidencial alternativa para Roberto M. Ortiz, que nunca o ocupou, e Jorge Rafael Videla presenteou-o à Igreja Católica como reconhecimento a tantas atenções. Na cordial reunião com a Comissão Executiva, Víctor De Gennaro foi alvo de afetuosas brincadeiras de um bispo do qual havia sido coroinha. Adolfo Pérez Esquivel não omitiu uma referência à conduta episcopal durante a ditadura e eu padeci a curiosidade geral, como se emanasse enxofre. Quando terminaram os mimos e pedimos autorização para colocar urnas nas igrejas para a consulta que a FRENAPO havia organizado a favor de um Seguro de Emprego e Formação, a resposta foi negativa. As 20.598 mesas localizadas em 535 localidades do país poderiam ser colocadas em todos os lugares, menos nas igrejas.

Mais de três milhões de pessoas votaram a favor dessa resposta política à pobreza. O Episcopado estava ocupado com o Diálogo Argentino, um dos instrumentos oferecidos por Duhalde e Alfonsín para dar o último empurrão ao horroroso governo da Aliança. A desvalorização da moeda, que era o seu objeto de fundo, foi a maior fábrica de pobres da história argentina.

A pobreza era um escândalo na época e o é ainda hoje. Por mais que oscilem os seus números, trata-se de muitas pessoas que sofrem e não há nada mais importante que aliviar o seu sofrimento, com socorros emergenciais, mas também modificando as condições estruturais que produzem a pobreza. A legitimidade dos protestos é impecável e isso torna repugnante somar ao escândalo da pobreza o de sua manipulação.

O Governo cometeu neste assunto graves erros e está pagando por eles. A partir de 2006, quando os salários recuperaram o seu nível anterior à crise de 2001, sua política de recuperação de renda para os setores populares emperrou num funil. Os oligopólios que controlam a economia decidiram que já bastava e responderam com aumentos de preços que desencadearam um processo inflacionário. A resposta governamental foi negociar acordos que os mais poderosos nunca cumpriram, como provam seus saudáveis balanços, e aplicar cirurgia redutiva nos índices. Isto demoliu a credibilidade da palavra oficial sobre quase todos os temas e não está certo que os esforços da presidente Cristina Kirchner sejam capazes de reverter essa situação. Por isso, tornou-se vulnerável a este tipo de operações, que não se privam nem sequer do grotesco da Sociedade Rural, que está propondo um programa contra a pobreza.

No Clarín deste domingo, dia 9, um porta-voz oficial do Episcopado afirma que, “em sua paranóia”, um funcionário descobriu que a mensagem papal “datava de maio e foi desengavetada pelo Núncio Apostólico, Adriano Bernardini”. As reproduções desta página não deixam lugar a dúvidas: as palavras de Bento XVI foram transmitidas por seu representante em maio de 2009 e assim consta na publicação oficial da Coleta Mais por Menos. Mas essa data foi suprimida na página na internet oficial do Episcopado, onde, ao contrário, consta a data de 06 de agosto, como se acabasse de ser emitida. Por que isso terá acontecido?

Pródigo em metáforas, o porta-voz da Conferência Episcopal celebrou que as palavras do Papa “caíram como uma bomba no governo, fragilizado pela derrota eleitoral”. A frase sobre a pobreza foi manchete de capa dos principais jornais na sexta-feira, dia 07. Nessa manhã, o líder populista conservador da Conferência Episcopal tinha na agenda uma missa na Igreja de São Caetano. O cardeal Bergoglio sabe fazer dessa liturgia um ato político. Acompanhado por violões pós-conciliares, trata Jesus com intimidade, dialoga com os fiéis, sorri, interroga-os até que respondem em coro. Eu estou com o povo e o governo lhe dá as costas, é a mensagem subliminar. Também toma decisões de fundo, como a criação de um vicariato especial para as favelas, etapa superior da equipe sacerdotal que o cardeal Juan Carlos Aramburu autorizou há quatro décadas. Mas, os padres faveleiros Orlando Yorio e Francisco Jalics, ambos jesuítas, denunciaram que em 1976 Aramburu e Bergoglio entregaram-nos aos militares que os torturaram durante seis meses. Entre os interrogadores havia um com conhecimentos profundos de psicologia e de Igreja. Disse a Yorio que o seu erro era “interpretar materialmente as Escrituras ao ir viver com os pobres. Que Cristo falava de pobreza espiritual”. Há pobres e pobres, e se pode escolher de acordo com o momento.

Desta vez Bergoglio preparou o cenário de forma cuidadosa. Foi ele quem falou do escândalo da pobreza em maio, durante a visita ao Papa. Sua frase foi dita e reproduzida como um comentário de atualidade. Mas, o texto escrito de sua homilia indica que foi uma citação textual de “Navega mar adentro”, documento que o Episcopado divulgou em 2003. Como é comum na relação entre o centro e a periferia eclesiásticos, salvo em casos excepcionais, Roma divulga o que interessa a cada Episcopado nacional. “Navega mar adentro”, por sua vez, remete à Encíclica Populorum Progressio, a mesma em que Paulo VI falou das “revoluções explosivas do desespero”. Para que lembrar essa passagem?

O mesmo detector de paranóias havia estampado na capa do Clarín de 17 de julho a quantificação da pobreza do bispo Alcides José Pedro Casaretto. Seu principal colaborador leigo é o engenheiro Eduardo Serantes, diretor do maior fundo de sementes do país, Cazenave & Associados, coordenador do Fundo Agrícola de Investimento Direto (F.A.I.D.), assessor de empresas agroindustriais e de serviços, responsável pelo programa de trigo candial dos Moinhos Rio da Prata e da Trigalia e do programa de girassol oléico da Dow AgroSciences. Esses fundos não fazem discriminação entre investidores com ou sem batina e, naturalmente, se chateiam com as retenções ao seu comércio exterior. Nada purifica melhor desses dissabores do que ajudar os pobres.

Para ler mais:


POBREZA ARGENTINA. MUITO PARA SER CASUAL. Artigo de Eduardo de la Serna

Artigo de Eduardo de la Serna, coordenador do Movimento de Sacerdotes de opção pelos pobres Carlos Mugica, publicado no jornal argentino Página/12, 10-08-2009. A tradução é do Cepat.
Fonte: UNISINOS


Devido a declarações habituais do Papa, relacionadas neste caso à coleta anual Mais por Menos, alguns retomaram em nosso país o tema da pobreza: “escândalo”, chamou-a Bento XVI. “Escândalo”, repetiu o cardeal Bergoglio. A pobreza nos incomoda, destacou com seu habitual glamour o presidente da Sociedade Rural, a pobreza é o tema principal no diálogo, destacou o monsenhor Alcides Casaretto, a pobreza é o tema que ocupa lugar de destaque na mídia, atualmente. Muita insistência em tão pouco tempo para ser casual. O que aconteceu? De repente, aqueles que ontem ignoravam os pobres, descobriram-nos hoje? Será que “ontem” não havia pobres e que eles passaram a existir apenas depois das últimas eleições? Será que aconteceu algo pontual para que o tema se desencadeasse? Casualidades demais, que nunca são inocentes em política.

O fato de haver pobres na Argentina realmente é um escândalo. A existência de um único já o é. Mas analisemos um pouco mais. “A fome é um crime”, afirmavam os sempre castigados “moços do povo”, ao que obviamente aderimos. Pessoalmente, já me chamou a atenção o fato de um jornal destacar, semanas atrás, que os moços pobres comiam porquinhos da índia, algo que é arremedo do que diziam os jornais em 2002 (“cavalos, ratos e sapos”, diziam na época). Insistência no diálogo, escândalo da pobreza, gravidade da situação dos pobres, temas requentados... será que “alguém” nos queira dizer que estamos como em 2001-2002? Será que esse “alguém” quer preparar o imaginário para que não nos “escandalizemos”, mas que desejemos que um governo constitucional “não termine” o seu mandato?

Uma reflexão

Quando ouço certos setores progressistas dizer que “não se deve judicializar a pobreza”, realmente me incomoda muito. Pessoalmente, creio que se DEVE judicializar. A pobreza é um crime, e deve ser penalizado todo aquele que for responsável pelo fato de os pobres serem mais (mais pobres e mais os pobres). Creio que o Poder Executivo não pode ser indiferente à “escandalosa” distribuição injusta da renda; creio que o Poder Judiciário deve considerar crime o fato de que não se conserta o crime e sancione os responsáveis, e creio que o Poder Legislativo deve sancionar todas as leis necessárias para que os pobres sejam cada vez menos (menos pobres e menos os pobres).

Pois bem, por que há pobres? Essa é a pergunta fundamental. Por isso, me parece totalmente empobrecedora a palavra “excluídos”, porque nunca há “responsáveis”. Porque os pobres na Argentina não são pobres por viverem em um país pobre (há no mundo muitos países mais ricos que a Argentina?). Então, perguntar “por que há pobres” é o passo fundamental para enfrentar o escândalo. Sem uma séria resposta a essa pergunta, tudo é teatro. Ou zombaria. Quais são as causas da pobreza? Será que não há nenhuma relação entre a existência de tantos muito pobres e de poucos tão ricos? E para que ninguém me acuse de “neo-marxista”, lembro que a frase “os ricos são cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais pobres” pertence a João Paulo II. Ah, e a frase “imperialismo internacional do dinheiro” foi dita por Pio XI.

O que é o escândalo?

A palavra “escândalo” é uma palavra usada com muita frequência pela Igreja, ainda que às vezes de modo estranho. Na Bíblia, o escândalo é a armadilha no caminho, a pedra de tropeço. Ou seja, é o que impede de avançar, que não deixa caminhar. Mas alguém pode “escandalizar-se” de coisas positivas, e nesse caso pobre daquele que se escandaliza!, ou escandalizar-se com maus exemplos, e nesse caso ai daquele que escandaliza!... Em nome do “escândalo” muitas vezes na Igreja se “escondem” padres pederastas, para que não haja “escândalo”, ou se questiona o jornalista que mostra aquilo que escandaliza, como um torturador “encontrado” no Chile. Na realidade, o escândalo não é provocado por aqueles que mostram o que escandaliza, mas por aqueles que são seus autores: os pedófilos, os torturadores, os membros da instituição eclesiástica que mostram “relações carnais” com o poder econômico ou político.

Pois bem, se olharmos sob essa perspectiva, no plano pessoal, a pobreza não me escandaliza. A pobreza me compromete, me impulsiona a fazer o que sei e posso para enfrentar a injustiça que a provoca. No plano pessoal, o que me impede de caminhar, o que me parece que é uma armadilha no caminho é a riqueza. A ostentação, pornográfica com frequência, é o que escandaliza. Os injustos, os algozes me escandalizam. E aqueles que são cúmplices, aduladores ou publicitários. O que é um escândalo é a riqueza, não a pobreza!

A propriedade privada

Como não poderia ser de outra maneira, em plena fidelidade à sua história, a Sociedade Rural insistiu no tema da propriedade privada. É absolutamente coerente. Nunca se preocuparam com os “privados de propriedade”. Mas no plano pessoal, e com o apoio que me dão o Evangelho e o Magistério da Igreja, não a Escola de Frankfurt, creio que enquanto a propriedade privada for vista como um “absoluto” ou um “deus”, a pobreza continuará crescendo. E machucando. Nunca esqueço aquilo que Carlos Mugica repetia: “primeiro se apropriaram de todas as terras e depois fizeram o Código Civil”.

Toda a espoliação de ontem e de hoje na América Latina parece que não “era” propriedade privada, e a “dívida externa” parece que começa apenas quando eles decidem, e não quando a Bolívia foi saqueada, o Paraguai massacrado, a Colômbia devastada... E os indígenas “simplesmente” deslocados, roubados, e vítimas de um genocídio que alguns chamam de “o maior genocídio da história”. Dificilmente alguns teriam chegado a fundar a Sociedade Rural ou entidades afins se antes não tivessem saqueado mapuches, tehuelches e tantas outras etnias “donas da terra”, para depois serem “proprietários”, “gente do campo”. Mas ainda que esquecêssemos isso, a insistência na propriedade privada, e o esquecimento do fim social da propriedade, sem alguma dúvida, é “a mãe de todas as causas” da pobreza.

Os nomes

Na realidade, creio que um elemento que nos permite entender o momento que vivemos é o tema dos “nomes”. São exatamente os pobres os que nunca têm nome: são “os negros”, “os paraguaios/bolivianos”, ou simplesmente “os pobres”, mas nunca têm rosto, nunca têm nome. Os ricos, ao contrário, têm nome próprio. Tão próprio quanto a sua propriedade. Chamam-se Maurizio, Francisco, Ernestina, Amalita. E enquanto os pobres continuarem a ser “anônimos”, ou simplesmente “números”, não se tocará o coração do problema. Basta pensar na mobilização que ocorreu quando o pobre uma vez teve nome e se chamou “Barbarita”. Que os pobres deixem de ser número e tenham rosto e nome torna-se intolerável. E incomoda. Porque a pobreza e os pobres não escandalizam. Causam pena! É por isso que se fala de “estatísticas”, em “número de pobres”, pois não é um assunto importante. É sério, mas não haverá mobilização para as causas. Mas o problema que provoca o reconhecimento do nome e do rosto é que é espinhoso, cheira, se nota. Uma coisa é falar de “um ou dos pobres” e outra bem diferente é abraçar sua pele curtida e ressecada, sentir seu cheiro de fumaça no inverno, seu rosto facilmente imaginável diferente se tivesse nascido em outro lugar com outra alimentação, e outros cuidados.

Mas, lamentavelmente, creio que se deve dizer que não apenas os pobres não têm nome. Também os culpados nunca o têm. Ver discursos e documentos eclesiásticos carregados de boas palavras ou ideias interessantes, mas onde nunca há um nome, nunca há um rosto, dificulta dar-lhes crédito. Ouvir falar do escândalo da pobreza sem que nos digam por que há pobres e por responsabilidade de quem há pobres, pode acabar sendo um discurso retórico e vazio. Há pobres porque há ricos. Especialmente na Argentina. E se os ricos têm nome, não é ruim lembrá-los. Com algum exagero, mas parte de verdade, São Jerônimo dizia que “todo o rico é ladrão ou filho de ladrão”. E é doutor da Igreja. E se alguém é ladrão, é “empobrecedor”.

Um olhar para a situação atual

Há pobreza. É evidente e grave. Creio que a pobreza aumentou nos últimos tempos, ao menos é o que os padres amigos vêem em nossos bairros. Não é fácil dizer quanto, mas insisto: o que escandaliza não é o fato de compartilhar momentos com os pobres, mas ver a mesa sem leite; não fico escandalizado – mas me compromete e mobiliza – com o fato de que os pobres aumentem; o que me escandaliza são os ricos, quer sejam deputados, chefes de governo, executivos de meios de comunicação ou manipuladores da opinião pública; não me escandaliza ver o pobre de perto e chamá-lo por seu nome; me escandaliza ver setores da Igreja de Jesus, o Messias dos pobres, e Igreja dos pobres, próximos dos responsáveis pela pobreza.

Mas, por outro lado, acredito que há um clima esfriado. A transcendência do telegrama do Papa (infinitamente maior comparado com a pouca transcendência que teve a sua recente Encíclica inteiramente dedicada a questões sociais), os discursos na Sociedade Rural dizendo “por ora” não cortamos pontes, defendendo Martínez de Hoz, e criando evidente clima destituinte, isso é preocupante.

É curioso: os bispos argentinos nunca colocaram o arcebispo de La Plata, Héctor Aguer, em nenhuma Comissão Episcopal, e justamente agora o elegem presidente da Comissão Episcopal de Educação, como querendo “demarcar o espaço” ao Governo em um campo tão específico e sensível a antigas Conferências Episcopais. Nunca é demais recordar que durante as ditaduras o Ministro de Educação era escolhido em consenso com o Episcopado, e o mesmo foi feito nos governos democráticos sucessivos. Escolher para esse cargo episcopal um bispo com evidente vocação de cruzado é, obviamente, para “cruzar” o governo neste tema. Sua referência em suas duas declarações de um mês atrás e da semana retrasada aludindo ao “neo-marxismo” só fez recordar-nos outros momentos episcopais e ditatoriais difíceis.

Uma última coisa: há tempos eu dizia que não parecia haver possibilidade de golpe militar na Argentina, fundamentalmente por dois motivos: a Embaixada dos Estados Unidos não parecia alentá-los, e a Igreja fez uma clara defesa da democracia. Portanto, se dois dos grandes apoios dos golpistas não os alentavam, a situação seria difícil para aqueles que acalentavam tais ideias. O presidente da UCR no Senado disse que há aqueles que não querem que o governo chegue em 2011, mas ninguém lhe pediu nomes. A Embaixada não parece alheia ao golpe militar em Honduras, e – ali – a Igreja hierárquica, na voz do cardeal Rodríguez Maradiaga, tomou clara postura pelo regime de facto. Algo semelhante se vê na postura do cardeal da Bolívia, Julio Terrazas. Algumas declarações episcopais parecem sumamente preocupantes neste marco.

Por tudo isso, não creio que todo o arrazoado apresentado no começo seja “casual” nem creio que algumas manifestações episcopais o sejam. Pessoalmente, não creio que muitos deles se importem com os pobres; e digo mais, muitos parecem festejar cada morto da febre A ou cada caso de dengue, ou cada aumento de um dígito da pobreza. Pessoalmente, creio que enquanto os pobres não tiverem nome, não o terão os empobrecedores, e enquanto se seguir sacrificando o sangue das vítimas no altar da propriedade privada e do deus dinheiro, seguramente a situação se agravará, mesmo que os algozes nos olhem com cara de compungidos. Mas, enquanto isso estiver acontecendo, o Evangelho de Jesus, a busca de ser “Igreja dos pobres” não nos deixarão tranquilos até que os pobres tenham casa, pão e trabalho. Até que os pobres sejam vistos como irmãs e irmãos, ou melhor ainda, até que já não haja mais pobres porque também não haverá mais ricos e haverá uma mesa compartilhada e vida celebrada para todos.

sábado, 15 de agosto de 2009

José Luís Fiori

O perigo da utopia


Artigo de José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publicado pela Carta Maior, 11-08-2009 e pelo jornal Valor, 12-08-2009.



"...a geopolítica do equilibro de poderes e a prática do imperialismo explícito deixaram de fazer sentido devido a uma série de novos fatos históricos [...], esta abordagem das relações internacionais não tem mais espaço no mundo em que vivemos, do pós-colonialismo, da globalização, do sistema político global, e da democracia [...] com a globalização, todos os mercados estão abertos e é inimaginável que um país recuse vender a outro, por exemplo, petróleo a preço de mercado..[...] Resulta ainda daqueles fatos que a guerra entre grandes países tambem não faz mais sentido [...] No século XX, as guerras entre as grandes potências não faziam sentido porque todas as fronteiras já estavam definidas?" LUIZ CARLOS BRESSER PEREIRA, "O mundo menos sombrio", Jornal de Resenhas, nº 1, 2009, USP, p:7.


Na segunda metade do Século XX, em particular depois de 1968, tornou-se lugar comum a crítica dos "novos filósofos" europeus, que associavam a utopia socialista ao totalitarismo. Mas não se ouviu o mesmo tipo de reflexão, depois da década de 80, quando a utopia liberal se tornou hegemônica e suas idéias tomaram conta do mundo acadêmico e político. Logo depois da Guerra Fria, Francis Fukuyama popularizou a utopia do "fim da história" e da vitória da "democracia, do mercado e da paz". E apesar dos acontecimentos que seguiram, suas idéias seguem influenciando intelectuais e governantes, sobretudo na periferia do sistema mundial.

Basta ver a confusão causada pelo anúncio recente da decisão norte-americana de ampliar sua presença militar na América do Sul. Com a instalação ou ampliação de sete bases militares no território colombiano, que deverão servir de "ponto de apoio para transporte de cargas e soldados no continente e fora dele".( FSP,5/8/09) O governo norte-americano justificou sua decisão com objetivos "de caráter humanitário e de combate ao narcotráfico". A mesma explicação que foi dada pelo governo americano, por ocasião da reativação da sua IV Frota Naval, na zona da América do Sul, no ano de 2008 : "uma decisão administrativa, tomada com objetivos pacíficos, humanitários e ecológicos" (FSP, 9/0708).

Uma das funções dos diplomatas é participar deste jogo retórico que às vezes soa até um pouco divertido. E cabe aos jornalistas o acompanhamento destes debates sobre distâncias, raio de ação dos aviões, ameaça das drogas, etc. Todavia os intelectuais têm a obrigação de transcender este mundo da retórica e dos números imediatos, e também, o mundo das fantasias utópicas, o que as vezes não acontece, e não se trata - evidentemente - de um problema de ignorância. Pense-se, por exemplo, na utopia liberal do "fim das guerras" que já não fariam mais sentido entre os grandes países, e contraponha-se este tese com a história passada e a história do próprio século XX e XXI.

Segundo a pesquisa e os dados do historiador e sociólogo norte-americano, Charles Tilly: "de 1480 a 1800, a cada dois ou três anos iniciou-se em algum lugar um novo conflito internacional expressivo; de 1800 a 1944, a cada um ou dois anos; a partir da Segunda Guerra Mundial, mais ou menos, a cada quatorze meses. A era nuclear não diminuiu a tendência dos séculos antigos a guerras mais freqüentes e mais mortíferas [ alias] , desde 1900, o mundo assistiu a 237 novas guerras, civis e internacionais.. [enquanto.] o sangrento século XIX contou 205 guerras" (Charles Tilly, Coerção, capital e Estados europeus , Edusp, 1996, p. 123 e 131.) Mesmo na década de 1990, durante os oito anos da administração Clinton, que foi transformado na figura emblemática da vitória da democracia, do mercado e da paz, os EUA mantiveram um ativismo militar muito grande. E ao contrário da impressão generalizada, "os Estados Unidos se envolveram em 48 intervenções militares, muito mais do que em toda a Guerra Fria, período em que ocorreram 16 intervenções militares". (Bacevich, 2002: p:143). E mais recentemente, os "fracassos" militares dos EUA, no Iraque e no Afeganistão - ao contrário do que dizem - aumentaram a presença militar dos EUA na Ásia Central e o cerco da Rússia e da China, envolvendo, portanto, preparação para a guerra entre três grandes potências.

Em tudo isto, fica clara a dificuldade intelectual dos liberais conviverem de forma inteligente, com o fato de que as guerras são uma dimensão essencial e co-constitutiva do sistema mundial em que vivemos, e que portanto não é sensato pensar que desaparecerão. Ao contrário do que pensam os liberais, a associação entre a "geopolítica do equilíbrio de poderes" e as guerras, não se restringe ao século XIX, ( já havia sido identificada na Grécia), e o sonho do "governo mundial" das grandes potências, já existe pelo menos desde o Congresso de Viena, em 1815, sem que isto tenha impedido o aumento do numero dos estados e das guerras nacionais.

Neste tipo de sistema mundial, por outro lado, é muito difícil acreditar na possibilidade do "fim do imperialismo", e ainda menos, neste início do século XXI, em que as grandes potências - velhas e novas - se lançam sobre a África, e sobre a América Latina, disputando palmo a palmo o controle monopólico dos seus mercados e das fontes de energia e matérias primas estratégicas. E soa quase ingênua a crença liberal nos "mercados abertos", num mundo em que todas as grandes potências impedem o acesso às tecnologias de ponta, não aceitam a venda de suas empresas estratégicas, e protegem de forma cada vez mais sofisticada seus produtores industriais e seus mercados agrícolas.

Neste ponto, chama atenção a facilidade com que os economistas liberais confundem os mercados de petróleo, armas e moedas, por exemplo, com os mercados de chuchu, queijos e vinhos. Em tudo isto, o importante é que a utopia liberal também pode ter conseqüências nefastas, sobretudo para os países que não estão situados nos primeiros escalões da hierarquia de poder do sistema mundial. Se as utopias de esquerda levaram - em muitos casos - ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel do poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com freqüência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos, à uma posição de servilismo internacional.

Carlos Alberto de Almeida

Comunicação pública: os novos desafios para a TV Brasil

Carlos Alberto de Almeida é presidente da TV Cidade Livre de Brasília.
Fonte: Carta Maior


Não surpreende o editorial do jornal Folha de São Paulo pedindo o fechamento da TV Brasil a pretexto desta ser irrelevante e gastar muito. Não será a primeira vez que a Folha incorre em posições antagônicas ao previsto na Constituição. Antes, a Folha participou do esquema de repressão a cidadãos brasileiros montados pela ditadura e esta é uma página inapagável na história deste jornal que não tem como reivindicar, sem a causar risos, liberdade de expressão e direitos humanos.

Mas, agora a Folha, cuja tiragem de exemplares despenca ladeira abaixo - seria bom se pudéssemos também conhecer a "voltagem" de exemplares rejeitados pelo escasso público leitor - vem novamente afrontar um dispositivo constitucional, aquele que prevê a complementaridade entre sistemas público, privado e estatal de comunicação. Embora não tenha oferecido os instrumentos para a realização concreta deste equilíbrio salutar e democrático entre modelos comunicativos, os constituintes foram sábios, como revelou o saudoso senador Arthur da Távola, indicando que as gerações futuras saberiam construir as condições políticas para que a nefasta tirania do mercado sobre a comunicação fosse corrigida e superada, tornando este artigo da Constituição uma realidade, que ainda não é.

Um passo concreto para começar a inverter este desequilíbrio que tem como efeitos submeter a sociedade brasileira a uma comunicação embrutecedora, sensacionalista e deseducativa, foi a criação da TV Brasil, por meio da constituição da Empresa Brasil de Comunicação, de posse do estado brasileiro. Sabemos como é complexa a constituição de uma emissora de televisão, a superação de sua herança de jornalismo oficialista-bajulativo - o que já vinha sendo processado pelas gestões recentes da ex-Radiobrás - mas também a resistência às pressões de fato e de direito para realizar outra concepção de comunicação. Tão é complexo isto que a própria Folha se vê às voltas com queda vertiginosa de suas tiragens, jornais como a Gazeta Mercantil e a Tribuna da Imprensa fecharam as portas, fenômeno que também ocorre nos Eua e na Europa hoje, tendo o legendário jornal “Le Monde” também confessado recentemente estar em meio à vigorosa crise.

Mas, diante dos desafios de fazer uma tv de novo tipo, sintonizada com a Constituição, que prega a uma comunicação humanista, educativa, brasileira, regionalizada, diversificada - nada disso é praticado pelas tvs comerciais brasileiras - qual a solução apontada pela Folha para a TV Brasil que está apenas iniciando sua caminhada e já registrando elementos positivos na grade de programação que apresenta ao público? Fechar!

Repitamos: ao invés de solicitar que a TV Brasil siga no seu esforço para cumprir sim o que está previsto na Constituição, fazendo uma tv sem marca da tv privada que com mais de 50 anos de existência - sempre privilegiada pelos recursos públicos que lhe permitiram erguer-se como conglomerados poderosos, e, até mesmo exorbitar para uma atuação política não respaldada em lei - a Folha pede simples e candidamente que se feche a TV Brasil!

O fechamento da Embrafilme

Tivemos exemplos anteriores em que a demolição do instrumentos públicos de comunicação e cultura - apoiados pela mídia privada, a Folha inclusive -resultou em prejuízos para o Brasil, a nossa cultura, a nossa indústria de audiovisual. Refiro-me à extinção da Embrafilme. Quando ela existia, o filme brasileiro de maior bilheteria da história foi "Dona Flor e seus dois maridos", baseado na obra genial do baiano Jorge Amado. Naquela época, o cinema brasileiro chegou a ocupar 40 por cento do mercado. Uma campanha orquestrada de fora, com o apoio da mídia que embora se diga "a serviço do Brasil" trabalhou contra o audiovisual brasileiro e favoravelmente à ocupação deste mercado pela produção audiovisual oligopólica norte-americana, fez com que hoje o mercado cinematográfico brasileiro seja ocupado em mais de 90 por cento por filmes de Hollywood.

Não por filmes estrangeiros genericamente, mas apenas por filmes de Hollywood, que lá recebe estratégico apoio estatal. Não apenas porque como disse um dos ocupantes da Casa Branca “aonde vão os filmes norte-americanos, também vão as nossas mercadorias”, mas, sobretudo porque mantém acesa, renovada e agressiva a estratégica de ocupação e de expansionismo dos chamados interesses vitais do império. Eles enviam os filmes, contratam bolsistas, compram ações da Petrobrás com dólar emitido sem lastro-ouro, depois enviam tropas para o Iraque, Colômbia e renovam a Quarta Frota, que é muito mais que uma base flutuante sobre os limites do petróleo pré-sal, lembrando que não reconhecem o mar territorial das 200 milhas. Tema que deveria ser tratado com muito mais exuberância e pertinência pelo jornalismo da TV Brasil.....Afinal, o presidente Lula está condenando a nova instalação de bases militares estadunidenses na Colômbia e também a presença da Quarta Frota. Que pautaço!

Neste contexto, vai ficando sempre mais claro o papel desempenhado pela Folha. A TV Brasil deveria tomar-se em brios, aproveitando esta estapafúrdia recomendação do concorrente para não apenas seguir avançando naquilo que tem acertado com uma grade de programação humanista, educativa, respeitadora da diversidade cultural e histórica brasileira, sem concessões à imposição da ditadura publicitária cervejeira ou medicamentosa que domina a mídia privada.

Deve também perceber o complexo quadro que está sendo formado, de hostilidades declaradas, ainda mais porque a mídia privada tem o eterno e petulante sonho de não ter que dividir recursos públicos com uma empresa de comunicação do campo público. A mídia privada fala nos benefícios da concorrência, mas quer mesmo é monopolizar as verbas públicas para a comunicação social. Não quer concorrência, nem da TV Brasil. Esta também foi a razão da campanha da mídia comercial quando do surgimento da TV Senado , da TV Câmara: a mídia privada não admite a idéia da comunicação pública escapando ao seu controle e quer o monopólio sobre a cobertura dos assuntos do Congresso, agora dificultada pela transparência e pela diversidade editorial que a comunicação legislativa oferece ao público, com uma possibilidade de alcance crescente, enquanto a tiragem da Folha vai em direção oposta.

O exemplo encorajador do retirante que venceu o jornalismo conservador.....

O presidente Lula compreendeu muito bem este panorama, provavelmente por sua experiência própria em resistir e vencer a tamanhas e tão sistemáticas campanhas de demolição de sua imagem que queriam impedir que um retirante chegasse á presidência da república. Talvez falte à TV Brasil compreender esta situação que se afigura como de sabotagens anunciadas - ou seja, o concorrente quer apenas que você não exista - e transforme esta compreensão num jornalismo realmente liberado dos padrões jornalísticos praticados pela mídia comercial. Seu caráter educativo, cultural, diversificado regionalmente vai sendo assegurado e merecendo reconhecimento. Porém, o jornalismo padece dos males que levam o jornalismo privado a cometer os mesmos erros de interpretação, avaliação, pautando-se pelos mesmos valores. É verdade que não chega a ponto de divulgar montagem de documentos de ex-presos políticos, como a Folha fez com a ficha da Ministra Dilma Roussef. Bom, mas aí já não estamos falando de jornalismo né?

A TV Brasil tem sim uma função a cumprir, tem cumprido parcialmente o papel previsto na Constituição para a tv e está superando vários obstáculos que a impedem fazer isto com plenitude. É, por exemplo, a única emissora que tem programas que discutem a própria mídia como o "Ver TV" e o "Observatório da Imprensa". Tem espaço cativo só para o samba, este gênero peregrino da alma brasileira, escasseado na tv privada. Tem um correspondente na África. Há pontos positivos, mas falta ainda falta caminhar.

O editorial da Folha soa como declaração de guerra contra a comunicação pública. Questiona até o surgimento da TV Brasil, aprovado pelo parlamento, característica que não marca o nascimento das tvs comerciais. Bom seria se a Folha se dispusesse a contar ao seu declinante público leitor a história do surgimento de certas redes de televisão, em particular o marcante relacionamento com a ditadura em cada caso, sobre o que, aliás, a Folha também tem experiência própria e especialização para reportar com, digamos, profundidade, sobretudo informações de bastidores, ou de porões sombrios....

Jornalismo convencional, conservador

Mas, outros obstáculos ainda estão sem equacionamento desenhado. A experiência de realização de uma audiência pública, feita pela TV Brasil em julho, é inédita no Brasil, marca um avanço democrático na história da tv brasileira, mas requer continuidade, sistematicidade, regularidade, de tal modo que os diagnósticos e idéias ali surgidas ou que venham a surgir possam encontrar condições de ser provadas, transformadas em realidade quando se comprovem adequadas. As observações mais freqüentes apontam para o jornalismo, descrito como convencional não na sua forma, mas quanto ao seu conteúdo, comparando-se à própria novidade como fato político que é a existência mesma da TV Brasil, ou de uma realidade de se ter um presidente da república que não se intimida em criticar democraticamente segmentos da mídia que resvalam mais para o preconceito e a condenação do que para a prática de jornalismo propriamente dito.

Como prova mais evidente está a cobertura internacional errática das emissoras da EBC: enquanto o jornalismo caracteriza-se por ressaltar as teses mais conservadoras do processo político latino-americano, portanto um jornalismo editorialmente conservador, a própria política externa brasileira - denunciada como retórica itamarateca pela mídia comercial - assume posturas mais progressistas, como por exemplo, ao não reconhecer de nenhum modo o governo golpista de Honduras. Enquanto Lula defende publicamente as posições de Zelaya e telefona ao presidente legítimo no momento em que ele tentava transpor a pé a fronteira, o jornalismo da TV Brasil ainda afirmava editorialmente, sem citar fontes, que Zelaya foi deposto porque pretendia perpetuar-se no poder por meio de reeleição indefinida - item que não do texto da constava da Consulta Popular que seria submetida aos hondurenhos - exatamente o argumento usado pelos golpistas para tentar dar um caráter "jurídico" ao golpe militar que já ceifou várias vidas e tem isolamento. Reconhecendo com importante o esforço de ter enviado a reportagem para a conturbada Honduras, a linha editorial segue merecendo reparos, no caso por falta de diversificação na divulgação de todas as teses em jogo ou por alinhamento conservador um ponto de vista.

Houve quem acreditasse que o Iraque dispunha sim de armas químicas de destruição em massa e que por isso tinha que ser ocupado, destruído, rapinado. Meses depois o jornal New York Times, em editorial, pediu desculpas aos seus leitores por ter difundido informação inverídica, pois as tais armas de destruição massiva até hoje não foram encontradas....

Tarefa civilizatória: uma tv sintonizada com a Constituição

Fora a mudança no jornalismo que ainda deve ao seu público telespectador, a TV Brasil tem todo um potencial de crescimento e consolidação como comunicação de missão pública, cumprindo o que reza a Constituição, trazendo inclusive com a sua crescente qualificação e capacidade de disputar legitimamente a audiência, uma possibilidade para que o público tenha mais alternativas informativas ao seu dispor. O que ofereceria aos que estudam a comunicação privada a chance de uma reflexão sobre o porquê, apesar de décadas de privilégios no acesso a verbas públicas, não conseguiu , salvo exceções, criar um modelo de comunicação que permita aos brasileiros elevar sua capacidade educativa, informativa, cultural.

Se a tv de mercado não foi ainda capaz de realizar esta tarefa civilizatória, temos o direito como Nação de pretender criar outro modelo de televisão, democraticamente, cumprindo a Constituição, equilibrando a tv brasileira hoje rigorosamente capturada pelos valores impostos pelo mercado: consumismo, sensacionalismo, culto à violência, banalização sexista. Vale lembrar, foram sábios os constituintes na elaboração do Capítulo da Constituição, mas não tiveram força suficiente para que uma tv a favor da vida e da cultura vencesse a supremacia do mercado que rebaixa a tv a uma deprimente escola de consumismo. Para quem pode consumir...

Para a Folha, autora do editorial, fica a recomendação para indagar-se por que depois de tantas décadas de existência, quando teve apoio e apoiou os governos da ditadura e as campanhas que tanto prejudicaram os interesses nacionais, fundamentalmente as da privatização do patrimônio público, estaria agora perdendo leitores? Se estivesse a serviço do Brasil não defenderia o fechamento do TV Brasil, mas o cumprimento da Constituição, a consolidação também dos modelos público e estatal de comunicação. E talvez devesse também indagar sobre o que tem levado ao fechamento sucessivo de jornais, seja nos EUA, seja aqui, como o ocorrido com a Gazeta Mercantil, lugar que deverá ser preenchido, já se anuncia, por um grupo de comunicação de capital europeu. Fechamento de jornais, traz desnacionalização.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Washington Uranga

América Latina... a encruzilhada.

Ensaio de Washington Uranga (foto), jornalista, uruguaio, radicado na Argentina no Seminário “América Latina: Por uma integração desde ‘abajo’”. O Seminário foi promovido pelo Centro de Formação Milton Santos – Lorenzo Milani e realizou-se nos dias 20 e 21 de junho de 2009 em Curitiba (PR) na Casa do Trabalhador, administrada pelo Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (CEPAT).
Fonte: UNISINOS



Como compaginar a aniquiladora idéia
da morte com este incontável afã da vida?
Mario Benedetti, “Cotidianas”, 1979

Encontrar critérios interpretativos comuns que nos permitam entender América Latina costuma ser uma tarefa árdua. Porque se bem existem muitos fatores que nos unem e nos congregam, no histórico, no econômico, no político, social e cultural, não é menos certo que as diferenças são importantes de país para país e, ainda dentro destes, entre as regiões.

E como bem diz Gabriel García Márquez estamos ainda em tempo de crer em “uma nova e arrasadora utopia da vida, onde ninguém possa decidir por outros até a forma de morrer, onde de verdade seja certo o amor e possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas à cem anos de solidão tenham finalmente e para sempre uma segunda oportunidade sobre a terra.” Por isso vale a pena seguir pensando e pensando-nos em meio de uma realidade que sempre é intrincada, difícil mas da que florescem permanentemente motivos de esperança e novas motivações. Com García Márquez e tantos outros e outras que queremos aferrar-nos a uma “nova e arrasadora utopia da vida”.

Com este horizonte buscaremos alguns parâmetros que nos permitam gerar critérios interpretativos.

1. O sentido do latino-americano

Existe realmente um sentido latino-americano? Ou o que resulta ainda mais difícil pensar. América Latina e o Caribe podem pensar-se como unidade?

Tem pelo menos três fatores para levar em conta em função desta denominação.

 As raízes e a história comum.

Somos parte de um mesmo povo, irmanado pela história e por nossas raízes assentadas nos povos tradicionais destas terras. Desde os Astecas do norte até os Mapuches do extremo sul. Estes povos tradicionais que povoaram nossas terras desde tempos imemoráveis marcam com fogo nossa identidade. A eles se somaram logo as diferentes correntes migratórias. Com distintos objetivos, sortes e destinos. Com histórias de dominação, de conflitos e de guerras. Também de rebeldias e rebeliões.

Sobre a raiz indígena tradicional, foram se cruzando mestiçagens para configurar novos rastros históricos. Não só desde a Europa chegaram os imigrantes. Também desde a África. Nosso povo tem histórias comuns. Configura-se sobre a base do entrecruzamento de etnias e de povos migrantes. Todos, desde diferentes lugares têm uma tradição de lutas. Nossa América Latina e Caribe foi fazendo-se um povo comum desde baixo.

 As lutas nos irmanam

Os interesses internos e externos foram gerando entre nós processos de balcanização, de separação entre países. A revisão histórica nos diz que vários do que hoje são venerados como nossos heróis pátrios nunca pensaram as divisões políticas que hoje delimitam nossas fronteiras.

Bolívar sempre imaginou uma pátria grande, que contivesse a todos os países sul-americanos. O mesmo pode se dizer de Artigas ou de San Martín. E assim de cada um dos que costumamos chamar de “libertadores”.

As lutas emancipadoras posteriores também tem sido lutas comuns. As reivindicações têm sido comuns e sobre essa base, das demandas e das necessidades re-surgiu na época recente o conceito a latinoamericaneidade. Hoje, paradigmaticamente os povos tradicionais que habitaram inicialmente estas terras são os que nos convocam e apelam pela unidade latino-americana e caribenha sobre bases étnico-culturais. Neles radica em grande parte a reclamação da grande nação latino-americana.

 A necessidade de construir um futuro comum

Por ultimo, o sentido do latino-americano está baseado também no destino comum. O processo de integração é ao mesmo tempo um horizonte e uma necessidade. Não existe um destino livre e justo que não seja a partir de um processo integrador. A liberação de nossos povos passa inevitavelmente pela unidade.

2. América Latina e a crise atual.

Nosso sub-continente segue sendo muito pobre. Segundo o Anuário 2008 da CEPAL (Comissão Econômica para América Latina) se bem a pobreza diminuiu respeito aos anos precedentes (38,7 % em 1994 e 35,9 % no ano 2000), o índice continua sendo muito alto: 28,9% da população. O mesmo acontece com a indigência: 40,8% em 1994, 37,8% no ano 2000 e 28,1% em 2007.

Mas o índice alarmante e grave é aquele que se refere à distribuição do ingresso. Só para exemplificar, na Argentina o décimo mais alto da população recebia, segundo o último dado conhecido (2006), o 40,8% do ingresso, enquanto o décimo mais baixo recebia apenas o 1,2%. Na Bolívia no ano 2007 a distância foi de 43,5% a 0,4% e no Brasil no mesmo ano de 48,0% a 08%.

A pobreza é o nosso problema. Temos pobreza estrutural e um dos nossos maiores obstáculos é a desigualdade que tem na distribuição do ingresso sua manifestação mais evidente.

Hoje há abundantes considerações sobre “a crise”. Se a manifestação latente da crise é a indigência e a pobreza para grande parte de nossos irmãos e irmãs latino-americanos poderíamos dizer que nossos povos vivem permanentemente em crise. Mas não é desta crise da que falam os titulares dos jornais escritos e televisivos. Falam da “crise financeira” ou da “crise bancária”. Ousaria dizer que estamos frente a uma crise do sistema capitalista em geral. E a explicação em torno das hipotecas “sub-prime” com suas conseqüências nos bancos e nas instituições financeiras, não é mais que outra expressão da pobreza de um sistema que mostra sinais de esgotamento.

A chamada “crise global” é uma quebra que vai além do financeiro e do bancário, para projetar-se sobre a economia real, a partir de causas estruturais apoiadas numa exagerada “financeirização” da economia e as conseqüentes operações especulativas.

Esta crise não está desvinculada de fatores políticos. Em realidade é também o resultado de uma feroz disputa entre os possuidores do capital, mercados e oligopólios. Trata-se de uma luta brutal pela acumulação do capital entre quem mais têm e dominam o sistema. Existe uma lógica “darwiniana” do capitalismo global, em busca da sobrevivência só dos “mais aptos”, quer dizer, dos maiores e melhor organizados oligopólios.

Um bom dado para medir o nível da crise é o desemprego. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) o número de desempregados no mundo, que foi de 190 milhões em 2008, poderia incrementar-se em 51 milhões durante 2009. E se forem analisados dados da pobreza (considerando por pobre quem recebe menos de dois euros diários) os pobres alcançarão 1400 milhões de pessoas, quer dizer, o 45% da população economicamente ativa do planeta.

Como nos afeta a crise?

Em primeiro lugar: somos parte desse chamado “mundo global”. Por sermos parte da periferia do mundo globalizado costumamos receber mais prejuízos do que benefícios.

Mas de maneira muito sintética podemos mencionar algumas das conseqüências mais diretas:

a. Nossos países latino-americanos e caribenhos são fundamentalmente exportadores dos chamados “commodities”. Os preços destes produtos desceram bruscamente e isso está gerando recessão e desocupação.
b. Os emigrantes latino-americanos que residem nos países centrais diminuíram suas remessas às nações de origem, sendo que este é um rubro de enorme importância econômica em países tais como República Dominicana e Equador, para mencionar tão só dois exemplos.
c. O dito anteriormente tem sido seguido do regresso de muito imigrantes que pressionam sobre o mercado de trabalho de nossos países.

Mas qualquer consideração não deve perder de vista que para enxergar o mundo de hoje, temos de seguir reconhecendo a hegemonia que tem os Estados Unidos. A crise atravessa o mundo globalizado e a potência dominante da terra não duvida em transladar, para além de qualquer discurso, as conseqüências dessa crise para a periferia.

Também é certo que, devido às estratégias econômicas desenhadas pelos governos da região, particularmente na América do Sul, os efeitos desta crise não serão tão graves como em outros momentos. Não haverá grande depressão. Mas dada a estrangeirização de nossas economias é inevitável que as mesmas estejam afetadas como “coletazos” do que acontece nos países centrais. A recessão já começa a sentir-se e não sabemos o quanto será de profunda.

Teremos de ver, em termos econômicos, se são encontradas receitas para absorver os efeitos mediantes a implantação de medidas econômicas que reforcem a produção e o comercio intra-regional. Este deveria ser um resultado lógico dos processos de integração. Porém, é preciso que se diga que se bem se tem dado passos, a integração é ainda uma declamação mais que uma realidade efetiva. Especialmente a partir do surgimento dos governos que denominaremos de “progressistas” a integração instalou-se como um tema de agenda de primeiro nível. Mas existem limitações demais, pouco olhar estratégico e, com certeza, poucas apostas de médio e longo prazo para fazer da integração um processo integral.

Mas cabe também outro questionamento: qual será a conseqüência para o campo popular? Porque é bem sabido que este tipo de situação cria condições para que aqueles que detêm o capital e o poder utilizem a conjuntura para afirmar-se em suas posições e para concentrar ainda mais o poder e a riqueza.

Certamente o impacto mais importante será em termos econômicos, em quanto à perda de postos de trabalho e nova queda do nível de ingressos. Conseqüência: mais pobreza e mais indigência.
Mas gostaria deixar aqui uma questão pendente para tentar retomar-la mais adiante: como afeta esta crise o nível de organização dos setores populares? Partindo da base de que a organização é a maior riqueza que têm os setores populares e a carência desta organização a maior pobreza.

3. Nossa história recente

A história latino-americana pode ler-se a partir de uma lógica pendular que tem nos levado de um extremo ao outro do arco ideológico, passando por experiência do mais diverso tipo.

O último quarto do século passado nos instalou como protagonistas ou vitimas, nos mais diversos cenários.

Vivimos os setenta com ar desenvolvimentista, apoiado na lógica de substituição de importações e as condicionadas inversões que Estados Unidos fez para a região como lógica reação à revolução cubana (1959) e ao alinhamento marxista do governo de Fidel Castro (1961). À luz desta realidade econômica alumiaram governos democráticos sujeitos à hegemonia do grande amo da região, mas também cresceram os movimentos políticos antiimperialistas e antioligárquicos.

Para isso se somaram muitas experiências e tradições do sindicalismo anarquista, dos nacionalismos e dos populismos, com as novas correntes libertárias que se embeberam, por um lado, nos novos ares libertários da revolução cubana e, por outro, nas idéias de libertação inspiradas no cristianismo revolucionário e na teologia da libertação.

No meio deste processo também houve intervenções violentas, em particular dos exércitos, então convertidos em guardiões dos interessas das oligarquias nativas. Sem a pretensão de esgotar as referências é bom lembrar, pelo significativo, a experiência socialista no Chile, encabeçada por Salvador Allende, mas também o governo peronista de Héctor Cámpora na Argentina. Antes e depois destas e outras iniciativas no marco institucional surgiram as organizações político-militares inspiradas na revolução cubana e na teoria do foco. A luta armada brotou então como uma miragem metodológica para assegurar a mudança.

Todas estas iniciativas, umas e outras, tiveram como resposta o terrorismo de Estado, a forma mais cruel e sangrenta de esmagar qualquer iniciativa popular ou de resistência. Esta metodologia, da que foram parte os exércitos de nossos países, mas também todo o aparelho repressivo internacional movido pelos Estados Unidos implicou na mais sangrenta repressão que tenhamos memória. Podemos falar dos trinta mil desaparecidos na Argentina, da ditadura de Augusto Pinochet, do “Plano Condor” para os países do sul, da promoção dos paramilitares na Colômbia e dos “contras” nicaragüenses. Toda uma profusão de mecanismos de morte que deixaram pisadas muito graves na nossa vida política, em nossa cultura e no sentido da vida mesma. Mas esta época também deixou ensinamentos e gravou com fogo a cultura política da resistência que mais tarde ressurgiria das formas mais variadas.

Não haveria que olhar este período tão só desde essa perspectiva. Para entender sua verdadeira dimensão a ofensiva da “segurança nacional” tem que lembrar também que o fato respondeu fundamentalmente ao objetivo de mudar o modelo de produção de nossos países, eliminando todo vestígio de produção industrial de grande escala, para converter-nos em provedores de matérias primas básicas. Mais uma forma de aprofundar nossa dependência.

Dali ao retorno à democracia. Estamos falando de democracias débis, condicionadas economicamente, estruturalmente. Também social e politicamente. Mas nosso retorno à democracia fez-se por um custo altíssimo. Muitos companheiros e companheiras foram assassinados, desaparecidos, mortos fisicamente. Perdemos grande parte de nossos melhores dirigentes e até hoje nos fazem falta.

Os cidadãos da grande maioria de nossos países sul-americanos tivemos de re-aprender a democracia. “Com a democracia se come, se educa, se sara” disse alguma vez o presidente argentino Raúl Alfonsín (1983-1989) E a realidade demonstrou que não é assim. A democracia é um projeto vazio se carece de um projeto que lhe dê sustentação. E esse projeto não pode ser apenas a formalidade democrática.

Os anos sem representação política efetiva deixaram também aos povos sem institucionalidade política. As velhas estruturas partidárias, de corte conservador, populista, liberal ou social-democrata não respondiam às novas situações. Acentuou-se a crise da representatividade e os partidos políticos se converteram em esqueletos vãos, sem sustentação e sem sentido.

Quebrou-se o “contrato” político social e quem dirigia tradicionalmente ficou assim exposta à crítica e ao desprestigio. O retorno às democracias teve essa carência. A democracia foi ficando vazia, débil. De distintas maneiras (porque o processo da Concertação Chilena foi diferente ao do Brasil de Fernando Henrique Cardoso e ao argentino) todos os países se enfrentaram à linha seguida da etapa do ajuste neoliberal.

Todos afrontaram a mesma receita:

- Estado mínimo atuando como garante para o capital privado
- Privatização compulsiva dos serviços
- Redução do emprego
- Contração do salário
- Transnacionalização e toma de ganâncias por parte do capital especulativo financeiro internacional.
Este é o resultado do mandado surgido em 1990 do Consenso de Washington. Nossas economias ficaram novamente cativas dos desígnios internacionais e não tivemos uma política forte, capaz de dar resposta às novas circunstâncias.

Mas também é certo que nas penumbras do ajuste neoliberal gestaram-se movimentos de resistência, desenvolveram-se as organizações sociais e de base, muitas das quais foram encarregando-se das tarefas que o Estado abandonou.

Se gerou então um espaço que, ao mesmo tempo em que, resistiu o ajuste neoliberal constituiu a base mais importante de uma nova cultura política, gerando outra agenda e um olhar baseado em direitos e na busca de justiça.

Tem que se destacar o espaço da economia social, como uma tentativa muito importante de construir alternativas. Entenda-se bem que a economia social não é a economia dos pobres e da exclusão. É uma maneira de pensar a economia global e total desde a perspectiva dos pobres e gerando experiências desde uma perspectiva de solidariedade e não tão só de acumulação de ganâncias. É um tema que tem de ser aprofundado.

Todas estas organizações e iniciativas foram também a principal sustentação da nova alvorada de governos de corte “progressista” (para usar um apelativo comum ainda que não corresponda de maneira estrita a todos eles) que hoje conduzem politicamente a sub-região.

4. Os movimentos sociais: novos sujeitos sociais emergentes

4.1 Alguns antecedentes significativos
Não existe a pretensão de localizar todos os antecedentes a respeito do surgimento dos movimentos sociais na região. A enumeração que se faz a continuação corre o risco de deixar de fora alguns acontecimentos que podem ser significativos a partir de diferentes olhares. No entando, o que se busca é colocar questões fundamentais que podem servir de referência histórica à realidade que hoje apresentam os movimentos sociais nesta parte do mundo.

A referência oas movimentos sociais na América Latina precisa fixar seu olhar no processo histórico para encontrar ali antecedentes que nos ajudem a explicar também o momento presente. Isto dito apesar da novidade evidente que têm muitas das mobilizações e os movimentos recentes.

Desde o final do século XIX e começos do XX a formação clássica dos movimentos sociais na América Latina contou com uma forte influência do anarquismo, vindo com a imigração européia, especialmente da Itália e da Espanha. O proletariado industrial surgiu a partir da expansão manufatureira e se desenvolveu com os processos de industrialização dos anos trinta.

Na segunda década do século XX nasceram importantes iniciativas de sindicalização do movimento operário no Peru, Argentina, Brasil e México. A greve transformou-se na arma principal da luta reivindicativa, em particular a favor da jornada de oito horas e a melhora das condições de trabalho. Estes movimentos, embora conseguiram alguns dos objetivos propostos, também foram fortemente reprimidos, como o acontecido de 1919 no Peru.

A revisão desta experiência e a influência da Revolução Russa vai conduzir o alinhamento de grande parte do movimento operário latino-americano com a Internacional Comunista.

O movimento operário tem sido fundamental na consolidação das lutas reivindicatórias na região e neste sentido foi grande a contribuição do marxismo e leninismo através dos partidos comunistas. Uma mensão especial deve ser feita à influência que teve os altos índices de sindicalização dos trabalhadores mineiros em países como a Colômbia, Peru e Bolívia. No último destes países, o movimento mineiro boliviano teve um papel protagônico na década de quarenta, sendo o ator principal da revolução boliviana.

A nível campesino, é preciso situar como acontecimento fundamental a Revolução Mexicana de 1910. neste feito o campesinato, com grande base indígena, serviu de apoio e de base política à reforma, mesmo que suas principais demandas, vinculadas com a posse da terra, não entraram na agenda das principais reivindicações.

Na década de vinte os movimentos campesinos cresceram e se desenvolveram na América Central, alimentados pela condição de exploração dos trabalhadores rurais, submetidos pelas empresas norte-americanas que usufruíam de grandes plantações para a exportação. Se instalou o tema da reforma agrária e assim cresceram e se desenvolveram lideranças como a de César Sandino na Nicarágua e Farabundo Martí, em El Salvador.

Não seria completo o olhar a respeito dos antecedentes dos movimentos sociais na região sem uma referência ao movimento estudantil e às organizações de classe média.

A reforma universitária nos anos vinte gerou uma mobilização de grande importância e serviu para articular ações em torno da reforma dos planos de estudo, a participação dos estudantes no governo da universidade e a articulação do movimento estudantil com as organizações sociais e políticas. Como dados significativos vale mencionar a reforma universitária na Argentina (1918) e o movimento educacional mexicano dos anos trinta. A ela precisa-se somar as tentativas de articulação entre os movimentos intelectuais e social ( a fundação da revista Amauta por José Carlos Mariátegui em Lima entre 1926-1930) e a revolução modernista no Brasil em 1922.

Neste elenco de antecedentes não se pode deixar de lado os movimentos populares e populistas que articularam o movimento operário, os movimentos sociais e as novas formas de organização política. Nesta linha se localiza o varguismo no Brasil, o peronismo na Argentina, o cardenismo relacionado com a revolução mexicana, o movimento liderado por Jacobo Arbenz na Guatemala em 1952 e o movimento revolucionário boliviano que combina do campesinato com os mineiros.

Entre os marcos históricos é necessário apontar: a Revolução Cubana (1959), o Governo da Unidade Popular no Chile (1970-73), o regresso do peronismo com Hector Cámpora e Juan Diego Perón na Argentina (1973-76) e o governo de Velasco Alvarado no Peru a partir de 1968. Muito mais tarde, em 1979, a Revolução Sandinista na Nicarágua.

Todos estes acontecimentos foram contribuindo com a construção de uma agenda que depois seria retomada também pelos movimentos sociais.

Os principais temas dessa agenda nos anos posteriores seriam:

 A questão campesina
 Os direitos indígenas
 A propriedade da terra e a reforma agrária

4.2 A emergência dos novos movimentos sociais

Corre-se o risco de simplificação ao se falar dos novos movimentos sociais, pois não existe uma caracterização que contemple a todos eles.

Segundo Boaventura de Sousa Santos as características próprias destes movimentos na América Latina é a de introduzir “novos fatores (…) na relação regulação-emancipação e na relação subjetividade-cidadania”, entendendo que “a maior novidade dos novos movimentos sociais reside em que constituem tanto uma crítica de uma regulação social capitalista, como uma crítica da emancipação social socialista tal como foi definida pelo marxismo”.

E acrescenta que “a denuncia de novas formas de opressão implica, pois, a crítica ao marxismo e ao movimento operário tradicional, assim como a crítica ao chamado ‘socialismo real’. O que é visto por estes como fator de emancipação (o bem-estar material, o desenvolvimento tecnológico das forças produtivas) se transforma, nos novos movimentos sociais, em fator de regulação. Por outro lado, porque as novas formas de opressão se revelam discursivamente nos processos sociais onde se forja a identidade das vítimas, não há uma pré-constituição estrutural dos grupos e dos movimentos de emancipação, por isso o movimento operário e a classe operária não têm uma posição privilegiada nos processos sociais de emancipação”.

Em tanto e em quanto estes chamados novos movimentos sociais cresceram e se desenvolveram no marco do período do apogeu neoliberal, podem caracterizar-se como novas formas de resistência, entre outras razões porque os problemas econômicos colocaram estas organizações na defensiva. Entre outros faotres, precisa-se considerar a inflação, o desemprego, a deteriorização dos níveis salariais, a falta de investimentos e a perda da qualidade de vida.

Tudo o que foi acima citado resulta em ruptura dos laços sociais, com o aumento da violência, da criminalidade e do consumo de drogas. Todas estas são conseqüências do recente avanço do neoliberalismo.

Neste cenário de crise crescem e se desenvolvem os novos movimentos sociais. Enraizados nas tradições que antes mencionamos, porém tomados e exigidos pelas novas urgências e pela necessidade de dar respostas às demandas dos setores de base.

Não se pode deixar de lado que o ajuste e a rescisão neoliberal se fez também sobre a base da repressão institucional e, em alguns casos, com regimes autoritários.

Enquanto o movimento operário buscou reorganizar-se de maneira sumamente cuidadosa, com uma cautela que se misturou, mais de uma vez e conforme os casos, com negociações com o poder em busca da sobrevivência, o movimento estudantil praticamente desapareceu.

Apareceram, então, novas formas de organização, na forma de movimentos sociais, que no começo tomaram características próprias de reivindicações liberais muito rpóximas aos princípios da democracia tradicional (o voto, os direitos individuais, etc). Ainda que também pode-se advertir a continuidade das demandas mais clássicas, como a luta por melhores salários, a defesa da terra e a reforma agrária, entre outras.

Em um primeiro momento estes movimentos se localizaram fora dos partidos tradicionais, buscando sua própria autonomia, mas também para não contaminar-se com o desprestígio sempre crescente das forças políticas.

Os temas da agenda foram:

 A defesa dos direitos humanos
 O meio ambiente
 Os direitos da mulher
 A defesa das minorias
 A propriedade da terra

Estes novos temas se incorporaram aos anteriores e se misturaram, sem muita claridade na agenda dos movimentos, entre outras coisas porque se tornou difícil a articulação política e organizativa. Embora falou-se muito de “redes” e “articulações” nenhuma delas se conseguiu com facilidade, especialmente porque tornou-se difícil renunciar os interesses particulares e setoriais. Nisto haveria que contabilizar o déficit de atividade política que deixaram como seqüela as ditaduras e os governos autoritários.

Precisa-se levar em conta, no entanto, que em alguns casos, como no Brasil, gerou-se também um processo pelo qual os movimentos pretenderam dar um salto à política partidária. É o que aconteceu no Brasil através do PT como canalizador das iniciativas e das reivindicações dos movimentos diversos.

Outros, como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) continuam afirmados na luta pelo território e pelos direitos do povo campesino. Sua vinculação com a política continua sendo reivindicativa, ainda que desenvolvam tarefas políticas em função de um projeto mais amplo, o olhar tende a fortalecer mais ao movimento em função dos objetivos próprios que a propor-se diretamente como objetivo a tomada do poder. Inclusive sua política de alianças tem mais a ver com o primeiro do que com a tomada de poder no Estado, ao que continua-se considerando em termos burgueses e distante da democracia popular.

Tão pouco há que desestimar o que tem significado como fenômeno novo a globalização da luta dos movimentos sociais. A realização dos Fóruns mundiais nos quais defendeu-se a idéia de “outro mundo possível” se converteu em um importante alimentos dessas iniciativas, mas também em uma possibilidade de intercâmbio, de crescimento, de enriquecimento dos diferentes atores.

A questão indígena requer uma referência particular, pois tem se tornado relevante em toda a região na última década. Certamente, um fato sumamente significativo foi o levantamento zapatista na selva Lacandoma no México em 1994. pela legitimidade das reclamações, mas também pela originalidade metodológica, o zapatismo, relacionando demandas indígenas e campesinas, tornou visível e alentou a emergência de outras manifestações culturais e políticas dos povos originários.

Hoje é preciso olhar com especial atenção ao governo Evo Morales na Bolívia, apoiado em um forte conteúdo étnico, porém também a emergência dos movimentos de raiz indígena no Equador, em bom diálogo com Correa, no Peru, onde foram brutalmente reprimidos, e no Brasil, onde não conseguiram transcender com suas reivindicações.

E nesta etapa a agenta voltou a enriquecer-se com novos temas. Assim começou-se a falar do indigenismo não somente como movimento reivindicativo étnico, mas também como crítica cultural, dos afroamericanos, das questões de gênero e meio ambiente e da qualidade de vida, entre outros.

4.3 A questão da intersubjetividade

Quando se fala destes novos movimentos sociais surge rapidamente o tema da intersubjetividade para explicar que a luta emancipatória destes grupos não se formula em termos de objetivos políticos encaminhados à tomada do poder, antes, pessoal, social e cultural. Disto também se desprende a agenda, onde aparecem temas diretamente vinculados a estas reivindicações: ambiente, qualidade de vida, direitos, justiça, paz, etc.

A categoria classe, próprias das litas inspiradas no marxismo, tem sido claramente deslocadas pelo conceito de setores e grupos sociais. Porém, ao mesmo tempo as reivindicações que se postulam vão desde a mudança do modelo global (uma aspiração muito além da luta pelo poder político imediato) até demandas locais (água, serviços, educação ou direito à comunicação)

Geralmente não existe um referente organizador que uma as diferentes demandas. Isto torna difícil a coincidência e a articulação, que vão além das articulações ocasionais ou conjunturais.

Existe, no entanto, um debate a respeito de se estas reivindicações são novas em si mesmas ou formam parte da agenda anterior e nunca concluída dos antigos movimentos sociais e políticos.

O que sim deve ficar claro é que diferentemente dos antigos movimentos que se moviam no espaço do Estado, estes novos movimentos reivindicativos se localizam claramente no cenário da sociedade civil. O acesso destes últimos ao estado acabou cooptando-os e absorvendo suas demandas como forma de controle por parte do poder político.

De fato, não é o caso de colocar uma falsa oposição ou uma opção entre uns e outros. São parte dos dinamismos presentes e complementários. É certo também que, até o momento na América Latina não se construiu opções políticas que permitam uma sinergia entre estes dois movimentos como parte da consolidação de uma alternativa política diferente. Pois seria equivocado pensar que da parte dos novos movimentos existe uma repulsa da política em seu sentido tradicional. Trata-se, ao contrário, de uma ampliação do sentido da política, que tem que ser complementaria de outras formas para gerar perspectivas de mudança.

Há nos novos movimentos outra concepção de poder e da forma de fazer política. Existe um regresso à idéia da base e da comunidade como origem e legitimidade da política, que orienta necessariamente em direção a outras formas de estruturar a organização e a distribuição do poder. Há aqui uma contradição importante com as velhas estruturas políticas e com sua metodologia de acúmulo do poder. Esta também é uma fonte de diferenças e uma tensão não resolvida.

Daí deriva também uma contradição real entre a tradicional democracia representativa e a democracia participativa que propunham os novos movimentos. O real é que uma não pode existir sem a outra. Aqui voltamos sobre o olhar anterior a respeito da busca da complementaridade e a sinergia.

Assim como assinala Martín Retamozo é preciso pensar “em duas lógicas de intervenção política” dentro das quais os movimentos sociais implicam “um processo de conformação de subjetividades coletivas, uma articulação de demandas e a consecução de processos de ação e identidade coletiva”. E acrescenta que “como forma de intervenção dos setores subalternos, os movimentos sociais podem ser concebidos operando no espaço da disputa da origem social, questionando certa estruturação que outorga nomes e determinados nós que seguram a ordem de dominação”.

5. Os governos “progressistas”

No final do ano passado se completaram dez anos da chegada de Hugo Chávez no poder (06 de dezembro de 1998). Foi este o acontecimento que inaugurou uma nova etapa nesta parte do mundo , o que denominaremos como governos “progressistas”.

Quais foram as características comuns que, indo além das diferenças, podem ser atribuídas a estes governos que chamamos “progressistas”?

1. O rechaço ao neoliberalismo e, de modo geral, a todas as políticas derivadas do Consenso de Washington
2. Políticas econômicas destinadas a consolidar a produção local e o mercado interno.
3. Complementariamente ao item anterior, um reforço dos processos de integração econômica regional e proteção de mercados.
4. Níveis mais elevados de integração política e atuação conjunta em defesa dos interesses deste grupo de países.
5. Reafirmação do sistema político democrático e tentativa de recriar a política mediante a integração dos movimentos sociais e organizações de base.

Nesta caracterização pode-se incluir os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Michelle Bachelet (Chile), Evo Morales (Bolívia) Néstor Kirchner e Cristina Fernández de Kirchner (Argentina), Tabaré Vázquez (Uruguai), Rafael Correa (Equador) e finalmente Fernando Lugo (Paraguay). São, na verdade, estes sete presidentes os que sintetizam esta nova etapa latino americana.

Menção à parte mereceria a passagem de Martín Torrijos pela presidência de Panamá e o retorno de Daniel Ortega à presidência da Nicarágua.

Porém, seguindo o caso dos governos anteriormente mencionados, devem-se distinguir pelo menos dois processos bem diferenciados para fornecer conclusões semelhantes na política.

O primeiro caracterizou-se pela emergência dos movimentos sociais e populares, também aqueles gestados em tempos de resistência, derrotando dirigentes políticos e governos neoliberais.

Neste caso podem escrever-se Venezuela, Bolívia e Equador.

Diferentemente, tanto no Brasil, como no Uruguai a mudança produziu-se por um processo de acumulação eleitoral e de construção política de longo tempo realizada em um caso pelo PT e no outro pela Frente Ampla.

A Argentina é um caso particular, onde se somam diferentes fatores, porém com grande predominância do primeiro modelo. O Paraguai é uma combinação de ambos.

O pesquisador uruguaio Raúl Zibecchi caracteriza estes governos, apesar de suas diferenças, da seguinte maneira:

“1. (…) Têm algo fundamental em comum: a preocupação da centralidade do Estado, transformado em sujeito das mudanças.
“2. A marginalização dos movimentos que na década de 1990 e prencípios de 2000 eram os protagonistas da resistência neoliberal.
3. A contradição dominante passou a ser entre os governos e as direitas, uma mudança que arrastou os movimentos sociais para uma tormenta estatal da qual uma porção fundamental ainda não conseguiu sair.
“4. Existem algumas tendências, ainda dispersas, que apontam para a recuperação dos movimentos sobre novas bases e em base a novos temas e formas de intervenção.

Não somente aderimos a esta caracterização, mas também assumimos ao mesmo tempo em que se coloca uma questão entre os governos e estes movimentos, muitos dos quais, pelo menos numa primeira etapa, não puderam superar o risco da subordinação ao Estado.

No fundo desta análise o que continua vigente é a questão não resolvida da alternativa política em nossos países. De sete ou oito anos atrás, até esta data, a maioria de nossos países viveram períodos econômicos de crescimento nunca vistos antes, como resultado do crescimento dos preços internacionais de nossas matérias-primas. Melhorou nossa posição relativa no mercado internacional.

O anterior se refletiu em índices do PIB porém, tal como assinalamos no começo deste trabalho, não se traduziu em distribuições significativas da riqueza, apesar de que este propósito sempre esteve presente no discurso dos governantes de cada tempo.

Pode-se dizer, então, que os chamados governos progressistas, embora tenham dado passos importantes para sanar muitas seqüelas instaladas na ofensiva neoliberal, não puderam resolver questões econômicas de base, como é, em essência, a instalação de um modelo diferente que gere maior justiça e equidade. A economia melhorou em termos gerais, os índices são melhores para todos e como conseqüência disso também diminuiu a percentualmente a pobreza. Porém, as condições estruturais não variaram.

Como conseqüência, persiste o agudo processo de concentração da riqueza em poucas mãos, não se detiveram na saída de capitais e os limites à intervenção estrangeira na região são mais de cunho político e discursivo do que real.

Não obstante o anterior, está claro, tal como afirma Zibecchi, que o enfrentamento atual é entre os governos e as direitas, porque os grupos econômicos querem impedir, de todas as formas, a perda de privilégios e, inclusive, a derrota ideológica.

A nível político se nota maior autonomia em relação às potências externas à região, e maior construção coletiva de critérios comuns de política internacional. A integração avançou em termos econômicos (há maior complementação comercial e financeira) porém muito menos em outros níveis como o político, o social e o cultural.

Não existe também uma reforma do Estado que o posicione em outro lugar. Ainda que haja diferenças entre os países (Chile, por exemplo, tem um Estado mais eficiente em relação aos demais) não é possível devolver ao Estado tarefas que lhe foram tiradas, sem rediscutir o papel do Estado e fornecer-lhe as ferramentas e os recursos necessários. Este trabalho está pendente.

Porém, um dos grandes déficits destes governos tem sido, por diferentes razões, a reforma política. A Venezuela, com Chávez, pretende uma reforma político cultural para desterrar o modelo liberal republicano clássico. A Bolívia iniciou um caminho semelhante, porém está atravessada pela disputa étnica, territorial e econômica. O presidente Correa no Equador é quem parece avançar com maior firmeza, ainda que com maior prudência e lentidão, por esse caminho que supõe a difícil integração entre o novo e o velho, entre os novos movimentos e a antiga política. E isso deve-se fazer dando aos atores emergentes um papel protagônico que lhes permita conduzir o processo.

Tanto na Argentina quanto no Brasil uma das maiores dificuldades tem sido encontrar a maneira deintegrar os novos movimentos sociais na gestão política e na gestão do Estado. Em determinado momento pensou-se que estes movimentos poderiam oxigenar a política, reformá-la, dar-lhe outra tônica.

Hoje fica claro que as figuras chaves da política se repetem e, salvo exceções, as lideranças sociais não extravasam até as filas políticas e que as metodologias dos partidos não se modificaram de maneira substancial.

No Brasil, Argentina, Chile e Uruguai os processos eleitorais que se aproximam não garantem a consolidação do mesmo estilo de governo. Podem produzir-se, em todos estes casos, regressões importantes com a conseqüente restauração de práticas políticas e econômicas que exigiram grande esforço para serem transformadas.

A gestão de Fernando Lugo no Paraguai está rodeada de muita falta de recursos humanos e materiais. O processo político social ali é sumamente instável e não existem garantias que permitam olha o futuro com otimismo. Ninguém pode esquecer que a ditadura de Alfredo Stroessner ainda tem seus rastos marcados no cotidiano dos paraguaios e na sua cultura política. O desafiu é reconstruir o país. Tarefa extremamente difícil.

Em síntese, é preciso dizer que não há uma nova forma de fazer política que haja iluminado a sombra destes novos governos progressistas. Haverá que esperar, não obstante, a evolução da realidade na Venezuela, Bolívia e Equador onde parece gestar-se uma revolução político cultural de maior envergadura.

Sim haveria que trabalhar em cima dos aprendizados feitos, sobre as formas de participação popular, sobre as experiências de gestão, sobre as práticas de democracias participativa que vem sendo geradas. Há ali um caudal de experiências e uma massa crítica que não pode ser desaproveitada.

O Peru e a Colômbia mereceriam uma análise particular que não cabe neste trabalho. Basta dizer que no momento representam, especialmente Colômbia com a presidência de Uribe, o vozerio mais importante da visão neoliberal da história e os intérpretes mais claros dos interesses dos Estados Unidos na região.

6. Alguns temas para continuar aprofundando.

Sem nenhuma pretensão de concluir, queria deixar alguns temas abertos para o debate:

a. Foram feitos avanços no campo econômico, porém, a falta de reformas estruturais e a interdependência que instala o capitalismo global, não permitem afirmar a irreversibilidade dos avanços conquistados nos últimos anos em nossos países.

b. Em matéria política notam-se dois processos bem diferentes. Venezuela, Bolívia e Equador avançam em reformas políticas que têm componentes culturais muito fortes, apoiados nos indígenas, mestiços e afroamericanos. Nos demais países as reformas econômicas não foram acompanhadas por mudanças políticas de transcendência que melhorem a qualidade da participação e abram um novo tipo de liderança e de participação.

c. Os novos movimentos sociais aportam uma riqueza muito importante ao cenário, porque melhoram a agenda e regeneram a participação. No entanto, faltam modos de integração entre estes e a política para aumentar seu poder e capacidade de incidência em relação à gestão do Estado sem que por isso terminem sendo finalmente cooptados por este. Assim colocados, estes movimentos continuam ocupando a função da resistência e da crítica, porém distante da tomada de decisões.

d. O espaço da comunicação é um âmbito de luta simbólica pelo poder. Ali se constroem sentidos interpretativos e os diferentes atores buscam consolidar sua hegemonia a partir do discurso. Nos dias de hoje a comunicação é um âmbito controlado por grandes grupos econômicos concentrados e os setores e grupos populares estão totalmente à margem. Democratizar a comunicação e por em prática o direito efetivo à comunicação parece ainda uma meta muito distante, ainda que essencial à democracia.

e. Para além do discursivo, o processo de integração se fragiliza também pelo efeito da crise econômico financeira dos países centrais que geram o processo de retratação e políticas de proteção das economias nacionais que afetam o processo integrador. No econômico, para mencionar dois temas chaves, é preciso avançar mais rapidamente na idéia do banco comum e de uma moeda única para todos os países. São ferramentas indispensáveis que só se alcançarão diminuindo as diferenças relativas e com grande vontade política.

f. A integração de nossos países continua precisando de um olhar mais horizontal e não limitado à economia. Não há integração política horizontal e tampouco em outros aspectos sociais e culturais. A agenda da integração continua sendo econômica, quando não meramente tributária. Precisamos ferramentas políticas de integração construídas desde baixo e os movimentos sociais e as organizações populares têm que por o tema da integração na agenda de suas prioridades. Quem com maior consciência faz uma contribuição neste sentido, até agora, tem sido os povos indígenas, também porque superam o marco das reivindicações para fazer uma crítica cultural e radical a todo o sistema.

g. A crescente urbanização, o aumento da comercialização de droga e a indigência de muitos, fazem um coquetel sumamente perigoso que aumenta a criminalidade e a violência. Não aparecem alternativas à vista e antes que respostas integrais repetem-se receitas que propõe maior segurança somente com violência e repressão.

h. Existem grandes setores da juventude que, por todos os fatores mencionados vêem com pessimismo seu futuro e adotam uma atitude agressiva ao seu meio, que conduz a muitos episódios de violência de todo tipo. A sociedade e os dirigentes assistem com medo e desconcerto, quando não com xenofobia e demandas de repressão, estas situações para as quais não aparecem soluções sociais, políticas e econômicas à mão.

i. A questão ecológica, sobre a diversidade e a água como recurso indispensável está surgindo a cada dia com mais força. Outra vez são os povos originários os principais responsáveis por esta reivindicação. É preciso investigar, denunciar e debater uma agenda específica sobre estes pontos, convertendo-os em questão central do debate político.

Estes e, certamente outros são os problemas, mas também os desafios. Conjunturalmente vvive-se um momento de incertezas a respeito do futuro imediato. No entanto, existem reservas espirituais e políticas, para aprofundar e melhorar o caminho traçado nos últimos anos. Faz falta investir em criatividade e vontade para cimentar a solidariedade e a esperança. É necessário que os novos atores se unam, construam redes e alimentem os processos de integração ainda que por cima dos Estados e dos governos.

A tarefa será sempre a de preservar e construir. Sem pressa e sem pausa. Porque, como bem o escreveu Antônio Machado: “A história não caminha ao ritmo de nossa impaciência”. É preciso alimentar a esperança com a certeza de que o futuro é múltimplo e está por construir-se. O que hoje façamos configura o cenário de amanhã. E fazer a história é nossa principal responsabilidade. Porque, como diz Eduardo Galeano: “ao fim e ao cabo, somos o que fazemos para mudar o que somos”.

Curitiba (Brasil), 20 de junho de 2009.

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Bibliografia:

BORON, Atilio; “Globalización y problemas del desarrollo”, Conferencia dictada en el XI Encuentro Internacional de Economistas, La Habana, 2-6 marzo de 2009
DOS SANTOS, Theotonio; De la resistencia a la ofensiva: el programa alternativo de los movimientos sociales.OSAL 65, Año V no. 15, setiembre-diciembre 2004. http://168.96.200.17/ar/libros/osal/osal15/dossantos15.pdf.
Consultado 17.06.09
ZIBECCHI, Raúl; ¿Autonomía o nuevas formas de intervención? La compleja relación entre gobiernos y movimientos. 2009. http://www.ircaamericas.org/esp/5807 Consultado 28.05.09

domingo, 2 de agosto de 2009

Uma história do recalque sexual cristão

Sacralizando o casal, os evangelhos celebram a sexualidade como rito íntimo. O pensamento agostiniano e o monaquismo ocidental vão em seguida reduzir o sexo ao “pecado da carne”. Uma educação culpabilizante que marcará gerações de católicos. Essa é a opinião de Elisabeth Dufourq, doutora em ciências políticas da França, em entrevista a Jennifer Schwarz, publicada na revista Le Monde des Religions, 02-07-2009. A tradução é de Benno Dischinger.
Fonte: UNISINOS

O que nos dizem os evangelhos sobre a questão da sexualidade?

Jesus realiza seu primeiro milagre por ocasião de um casamento (Jo 2). As bodas de Caná são uma festa em que o vinho da felicidade deve correr em abundância. A humanidade do evangelho é sexuada e feliz de o ser. Mas, o casamento é uma festa quem implica um casamento duradouro, ainda mais definitivo do que na tradição judaica (Mt 19,4). Jesus considera o casal como gerador da humanidade (Gn l: “Homem e mulher Ele os fez... e os dois serão uma só carne.”). Por isso ele ultrapassa a Lei que admite o repúdio e denuncia principalmente a “dureza do coração” daquele ou daquela que abandona. Esta firmeza de princípio contrasta com a compaixão com a qual ele trata as mulheres esmagadas pelo rigor de uma lei sempre interpretada pelo homem. Por exemplo: Jesus salva a vida de uma mulher adúltera, arrastada para fora da cidade para ser apedrejada: “Quem jamais pecou atire a primeira pedra” (Jo 8). Implicitamente, ele recoloca o problema da falta sexual numa perspectiva de justiça. Se existe uma mulher adúltera, então houve também um homem... Ele também não condena a mulher samaritana (Jo 4) que teve cinco maridos e vive com um sexto. E é precisamente a ela que ele revela por primeira vez que ele é o Messias. Isso é ao mesmo tempo uma celebração da ternura e uma homenagem feita à mulher desprezada.

Os evangelhos evocam a questão da sexualidade de maneira mais direta?

Por pudor, o Cristo compara o Reino dos céus a um festim de núpcias, mas ele jamais fala do como da sexualidade. Ele jamais diz o que deveria ou não deveria se passar no leito dos esposos. Nos evangelhos, tudo o que é um dom gratuito deve permanecer em segredo (Mt 6): a esmola, o jejum, a prece. Um dos raros teólogos medievais que não será obsedado pelo pecado sexual, Rupert de Deutz, compara a união dos corpos à prece que se deve fazer em segredo. A sexualidade é um rito. O casal constituído é sagrado. O vizinho deve respeitá-lo, mesmo em pensamento (Mt 5, 27-28). A fortiori o homem de Deus.

Jamais falar do como da sexualidade não é uma maneira de negá-la?

Não. Mesmo Ovídio diz, na Arte de amar, que, para resguardar sua dignidade, o rito do herói devia permanecer secreto. Que o Cristo jamais fale do como da sexualidade, não é negá-la, mas humanizá-la. O amor de que falam os evangelhos engloba o Eros (o prazer de amar), mas ele o transcende com frequência em Ágape (o amor pelo outro). As bem-aventuranças (Mt 5, Lc 6) falam de felicidade, de justiça, de caridade, e não de êxtase amoroso.

São Paulo vai desempenhar um papel importante no recalque da sexualidade?

Em longo prazo, é preciso distinguir a mensagem de Paulo e sua instrumentalização. Em sua época, o porto de Corinto contava mais 10.000 prostitutas. Nos ambientes judeus helenizados, ousar-se-ia dizer “platonizados”, ao invés, a influência estóica era forte, em reação ao erotismo ambiental e desenfreado. Nesse contexto, são Paulo tem por missão implantar duradouramente comunidades na Grécia e em Roma. Ele é, pois, muito cioso por decência; os fiéis devem renunciar à fornicação, ao incesto, aos escândalos (1 Cor 5). O responsável por uma comunidade deve ser “marido de uma só mulher” (Tt 1, 6). Em termos de moral conjugal, enfim, quando Paulo escreve “Mulheres, sede submissas aos vossos maridos”, ele não escreve nada de novo no Mediterrâneo de seu tempo. Mas, quando ele diz: “Maridos, amai vossas mulheres como o Cristo amou sua igreja” (Ef 5, 22-23), ele fala de um engajamento místico realmente novo que, em seguida, será pervertido. Durante séculos e até o Código de Napoleão, o homem utilizará como um maná a fórmula paulina: “O marido é o chefe da mulher, como o Cristo é o chefe da Igreja” (Ef 5, 23).

Mais tarde, a recepção desta mensagem se dará diversamente no Império cristão do Oriente e do Ocidente...

Após a paz constantiniana (IV século), os costumes do Oriente e do Ocidente, bem cedo invadidos pelos bárbaros, se dissociam culturalmente. Muitos bispos do Oriente são casados e filhos de bispos. Eles respeitam suas mães, seus filhos e suas esposas. Porém, conceitualmente, eles admiram a virgindade porque, como bons discípulos de Platão e de Aristóteles, eles são escandalizados pelo ciclo da geração e da corrupção. Com que rima um mundo feito para se gerar e depois morrer, se gerar novamente e depois ainda morrer? Isso é um absurdo para os Padres gregos. Gregório de Nissa, embora casado, reconhece, sem o adotar, que a melhor solução seria a de permanecer virgem. Mas, com humor, ele julga suspeitos aqueles que falam dos esplendores da virgindade com estranha obstinação. Os Padres filósofos são felizes em família, mas eles gostariam que o essencial da vida consistisse em elevar-se acima do terrestre moral, até a pureza dos anjos. Um escrito apócrifo de fins do século quinto, atribuído a Dionísio Areopagita, descreve assim as ascensões até Deus da alma purificada. Sua influência sobre a Idade Média oriental e ocidental será considerável. Em sua pureza de intenção, ele permite compreender a espiritualidade do monge.

No Ocidente é a influência de Santo Agostinho que vai desempenhar um papel determinante. Qual foi sua especificidade?

Africano de origem, numa época em que a implantação do cristianismo é forte na África romana, Agostinho somente se converte tardiamente, após ter conduzido exitosamente uma carreira de retórico que o conduzirá a Milão, então capital do império do Ocidente. Desde seus anos de estudos em Cartago, ele guarda a lembrança de uma vida de devassidão, levada até o desgosto e à rejeição das mulheres. Compartilhada entre sua admiração por sua mãe, santa Mônica, e seu apego a uma companheira que participará de sua vida durante quatorze anos e lhe dará um filho – mas do qual ele nem sequer cita o nome -, ele também fica fascinado e ao mesmo tempo horrorizado pelo maniqueísmo, do qual ele só se livrou na idade de 28 anos; o homem, admitiu ele por longo tempo, não domina as forças do bem e do mal. Desde o pecado original, pensa ele, num contexto de invasão bárbara, a humanidade está em perigo de condenação iminente. A mulher é a causa, já que Eva colheu a maçã por primeiro. Uma vez que o Cristo jamais fala do pecado de Eva, Agostinho inscreve este pecado quase geneticamente na natureza humana e, mais gravemente, na natureza da mulher. Esta certeza, ancorada no pensamento medieval, será dogmatizada por uma longa série de teólogos, desde santo Anselmo, no século doze, até são Tomás que, no século treze, reforçará este preconceito pela doutrina da lei natural, sobre a qual os teólogos cristãos não terão nenhuma dificuldade em estar de acordo com os do islã, já que uns e os outros, todos masculinos, se referirão ao segundo relato do Gênesis.

A influência intelectual de Agostinho vai, então, marca o Ocidente de maneira indelével?

Santo Agostinho escreveu imensamente, num belíssimo latim. Sua obra será minuciosamente recolhida e mais tarde recopiada pelos monges beneditinos. É assim que sua influência se estenderá sobre toda a era do primeiro monaquismo beneditino, até a virada dos séculos nono e décimo, no momento da reforma que triunfa na abadia beneditina de Cluny.

Qual sua relação com a sexualidade?

Malgrado as advertências conciliares, o clero da primeira Idade Média ocidental está longe de ter o desapego dos anjos. No momento das invasões normandas e dos assaltos sarracenos, numerosos bispos casados são capitães de guerra, defensores armados de suas cidades. Transmitidos aos seus filhos, seus bispados se tornam feudos hereditários e militares. A própria Roma está nas mãos de papas mais ou menos guerreiros, submetidos à influência de suas amantes ou de suas mães. É em reação a isso que triunfa a reforma de Cluny. A obra de Cluny será imensa, porém ao preço do sacrifício da mulher. Casto, o monge beneditino não o é sempre em pensamento, já que ele encara a mulher com horror e fascinação. Um século mais tarde, a reforma cisterciense se apresenta ainda mais radical. Os escritos sobre as mulheres, não somente misóginos, porém mórbidos, traduzem à evidência as frustrações dos monges que reprimem sua sexualidade. Malgrado isso, o sucesso das ordens monásticas é tal que no século onze o papa Gregório VII decide organizar a igreja ocidental como um grande mosteiro. Dali em diante, bispos e curas costumam rejeitar suas esposas e viver comunidade. Esta reforma levará décadas e séculos para se impor.

Em fins do século XII, por uma espécie de sublimação, a imagem da Virgem aparece...

Sim. Atingimos a época das cruzadas. Paradoxalmente, são Bernardo, o grande reformador cisterciense, que se insurge contra o laxismo dos padres, é também o gênio que inventa uma prece de ternura: a Ave Maria. No meio dos clérigos que desvalorizam a mulher de todos os dias, o ideal feminino é nela sublimado. Enquanto no Oriente ortodoxo, a Virgem representa a humanidade inteira conduzindo Deus, a Theótokos, no Ocidente nasce e adquire seu destaque a imagem da “Imaculada Conceição”, acolhedora porém nascida diferente de todas as outras mulheres. Rapidamente a igreja institucional se identifica com a Virgem Maria, mãe de Deus, mãe do Cristo, mãe do povo, coroada nos pórticos das catedrais. Na tradição católica esta concepção durará até sua dogmatização em meados do século vinte. Na tradição reformada, Lutero denunciará um risco de idolatria mariana, sem refutar a virgindade do coração que permite acolher o milagre de um Deus encarnado.

Chegamos aos momentos trágicos que seguem a peste negra, as misérias da guerra de Cem anos, o avanço inexorável do islã e depois a queda de Constantinopla. Uma neurose coletiva parece tomar conta de certos clérigos, que tomam as mulheres por alvos de seus ódios. Por quê?

Muitos clérigos vivem então em círculos universitários cada vez mais fechados e fundamentalistas. O que está fora da norma deve ser erradicado. A Inquisição, implantada no século XIII para lutar contra as heresias encara com horror os saberes das mulheres. A mesma se baseia numa idéia da razão, haurida de uma péssima transmissão das categorias de Aristóteles. Já há séculos os homens temiam as sábias-mulheres, herboristas capazes de transmitir por via oral os segredos de filtros de amor ou de esterilidade. Os lugares de transmissão feminina, os lavatórios, as árvores mágicas, os lugares de parto, eram tabus para o homem. Somente os confessores obtinham eco de seus segredos herdados de antigos saberes romanos ou pré-históricos. Crendo cristianizar os campos, eles os condenavam como superstições e, a partir do século XIV os próprios papas acreditam na fábula dos sábados de bruxas. Formam-se, então, experts em demonologia, inexoravelmente lógicos a partir de postulados absurdos. Sabe-se que devastações provocaram esses ódios – cuja perversão sexual é por vezes evidente – e que número assustador de fogueiras foram armadas em todas as confissões cristãs – católicas, ortodoxas e reformadas – e isso até meados do século dezoito!

Pai da reforma protestante, Lutero é considerado como um emancipador. Não obstante, o luteranismo parece por vezes mais severo do que o catolicismo; pode explicar esta contradição aparente? Em sua origem, Lutero é um monge agostiniano obsedado pela idéia do inferno. Ele não crê no purgatório, essa espécie de “sessão de recuperação” que, graças à indulgência divina, permite esperar um acesso diferido ao Paraíso, após anos de purificação. Amoedando os anos de indulgência de maneira odiosa, o papado de seu tempo arruinou esta idéia de justiça misericordiosa. Tornado emancipador dos crédulos, Lutero, uma vez casado, se encontra suplantado pela amplitude da revolução que ele desencadeou. Calvino, por sua vez, organiza a reforma genebrina de maneira muito rigorista, em torno do conceito agostiniano de predestinação das almas ao inferno.

E no século XVII?

Na confissão católica, uma corrente jansenista, rigorista e amplamente burguesa cultiva também a angústia da predestinação. Um século mais tarde, este movimento adquire amplitude em pleno período das Luzes e de uma libertinagem na qual as crianças abandonadas pagam as custas aos milhares. Entre esses extremos, o próprio Voltaire o admite, o cura de campanha desempenha com muita frequência o papel de moderador. É ele que preside os batismos e os ritos de remissão [relevailles] das mulheres. Embora o segredo de confissão não seja traído, tudo nos diz que ele conhecia os sofrimentos das mulheres rasgadas em partos, daquelas que enterram um feto nos campos ou que, na cidade, abandonam seus bebês nos degraus das igrejas. Os registros paroquiais mostram que dessa época datam os primeiros sintomas de espaçamento voluntário dos nascimentos. Esse modus vivendi parece ter se mantido de qualquer jeito em muitas regiões rurais até meados do século vinte, e isso malgrado o respeito de muito bom grado prestado pela igreja às famílias numerosas que lhe davam mais filhos como sacerdotes ou religiosas.

E depois?

Hoje em dia se mensura mal até que ponto as mulheres do século dezenove, e mesmo de inícios do século vinte, foram esmagadas por uma educação culpabilizante que ultrapassava em muito o domínio da sexualidade. Sem mesmo evocar o “pecado da carne”, tão assustador que eles se calam e se resguardam de citar a Bíblia que fala dele, os missais para uso das mulheres não cessam de dizer que comungar em estado de pecado é assinar sua condenação eterna. Os maridos se defendem pela incredulidade e infidelidade, mas, pelo menos no ambiente burguês, as mulheres tem poucas escapatórias. A abnegação e o sacrifício são apresentados como florões de suas virtudes “naturais”.

A revolução da sexualidade no coração dos casais de tradição cristã não veio da igreja, mas da medicina. Ela data da descoberta do ciclo hormonal feminino, nos anos 1930 e depois, em 1955, da síntese química dos hormônios permitindo à mulher escapar do elo inexorável entre a união dos corpos e a fecundação de um óvulo. Por temor de que ela não controle e por vezes não entenda, a igreja católica, diversamente das igrejas reformadas, se engaja então numa via que autoriza a dissociação entre a sexualidade e a procriação, mas na condição de empregar métodos decretados como naturais... e de uma ineficácia notória. Duas décadas após a Humanae Vitae, publicada em julho de 1968, a maioria dos casais católicos já haviam feito sua escolha. Eles haviam abandonado o médico das almas para consultar o médico dos corpos e, se fosse preciso, o psicanalista. Esta mudança foi capital para a igreja, que perdeu a antiga proximidade que ela mantinha com as famílias. O erro da Humanae Vitae foi, me parece, o de haver tentado introduzir um Diafragma nos milhões de quartos de esposos. A atitude cristã é antes a de sacralizar o casal, responsabilizando-o.

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Fórum Mundial de Teologia e Libertação

Fórum Mundial de Teologia e Libertação
É um espaço de encontro para reflexão teológica tendo em vista contribuir para a construção de uma rede mundial de teologias contextuais marcadas por perspectivas de libertação, paz e justiça. O FMTL se reconhece como resultado do movimento ecumênico e do diálogo das diferentes teologias contemporâneas identificadas com processos de transformação da sociedade. Acontecerá entre os dias 21 a 25 de janeiro em Bélem, Pará, e discutirá o tema "Água - Terra - Teologia para outro Mundo possível". Mais informações, clicar na figura.

IBASE

IBASE
O Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) foi criado em 1981. O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, é um dos fundadores da Instituição que não possui fins lucrativos e nem vinculação religiosa e partidária. Sua missão é de aprofundar a democracia, seguindo os princípios de igualdade, liberdade, participação cidadã, diversidade e solidariedade. Aposta na construção de uma cultura democrática de direitos, no fortalecimento do tecido associativo e no monitoramento e influência sobre políticas públicas. Para entrar no site do Ibase, clicar na figura.

Celso Furtado

Celso Furtado
Foi lançado no circuito comercial o DVD do documentário "O longo amanhecer - cinebiografia de Celso Furtado", de José Mariani. Para saber mais, clicar na figura.

O malabarismo dos camaleões

O malabarismo dos camaleões
Estranha metamorfose: os economistas e jornalistas que defenderam, durante décadas, as supostas qualidades do mercado, agora camuflam suas posições. Ou — pior — viram a casaca e, para não perder terreno, fingem esquecer de tudo o que sempre disseram. Para ler, clicar na figura.

A opção pelo não-mercantil

A opção pelo não-mercantil
A expansão dos serviços públicos gratuitos pode ser uma grande saída, num momento de recessão generalizada e desemprego. Mas para tanto, é preciso vencer preconceitos, rever teorias e demonstrar que a economia não-mercantil não depende da produção capitalista. Para ler, clicar na figura.