sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Pedro Peduzzi / IPEA

Ricos gastam em três dias o que pobres levam um ano para gastar

No Brasil, o que um pobre gasta em um ano é o mesmo gasto por um rico - que faz parte de 1% da população - em três dias. A constatação é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que divulgou nesta quinta-feira uma análise com base nos dados apresentados na semana passada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) relativa ao ano de 2008. A reportagem é de Pedro Peduzzi e publicada pela Agência Brasil, 24-09-2009.
Fonte: UNISINOS


Apesar de estar registrando desde 2001 queda da desigualdade social num ritmo realmente bom, o Brasil ainda é um monumento à desigualdade. Aqui, uma família considerada pobre leva um ano para gastar o mesmo que o 1% mais rico gasta em apenas três dias”, informa o pesquisador do Ipea, Sergei Soares.

Para medir o índice de desigualdade do país, o Ipea adotou o chamado índice de Gini, que varia de zero a um. Quanto mais próximo de um for esse índice, menos justa é a distribuição de renda da sociedade. Em 2001, o índice de Gini no Brasil estava em 0,594. Desde então, vem caindo ano a ano, e chegou a 0,544 em 2008.

Sergei explica que mantendo essa tendência recente de redução da desigualdade registrada nos últimos anos, que em média foi de -0,007, "o Brasil levará 20 anos para chegar a um patamar que pode ser considerado justo". Segundo ele, isso corresponde a um valor de 0,40 no índice de Gini.

O pesquisador sugere que o governo “continue fazendo mais do mesmo”, estimulando programas como o Bolsa Família e o aumento do salário mínimo, e invista em educação e estimule a formalidade no mercado de trabalho.

Para acelerar esse processo é necessário que façamos mais do que apenas olhar as coisas positivas que têm sido feitas. O indicado é que o país atue de forma a melhorar o sistema educacional e a reduzir a informalidade”, afirmou. “E, claro, isso envolve também medidas que objetivem também a redução da desigualdade racial e regional do país”.


Desigualdade cai, mas ainda é preocupante

O Ipea apresentou em seu auditório em Brasília, na manhã desta quinta-feira, o Comunicado da Presidência nº 30, intitulado PNAD 2008: Primeiras Análises. O documento traz análises sobre desigualdade de renda, evolução recente da pobreza e da desigualdade, e trata das condições de vida, da qualidade dos domicílios e acesso a bens. Os dados analisados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE. A notícia é do sítio do Ipea, 24-09-2009.
Fonte: UNISINOS

O diretor de Estudos e Políticas Sociais, Jorge Abrahão, representou o presidente do Ipea, Marcio Pochmann, na divulgação do estudo. Abrahão enfatizou a importância da análise dos dados da PNAD pelo Ipea como forma de lançar um novo olhar sobre a pesquisa do IBGE. "Nossa intenção é contribuir, dar mais detalhes, trabalhar outras informações além das que são trabalhadas tradicionalmente", disse o diretor.

A mesa foi composta por Fábio Vaz, Sergei Soares, Pedro Herculano, Ricardo Barros e Rafael Soares, todos técnicos de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc). O Comunicado explicitou a diminuição da desigualdade no Brasil e o crescimento da renda, sobretudo do segmento mais pobre da população.

Para o técnico Sergei Soares, isso se deve à melhoria na renda dos mais pobres, que evoluiu em maior velocidade que a do segmento rico da população. "A vida está melhorando para todo mundo e está melhorando mais para os mais pobres", disse Soares ao ilustrar a diminuição da desigualdade de renda.

Ricardo Barros, concordando com Soares, acrescentou que a diminuição da desigualdade se dá pela diferença do ritmo de avanço na renda de pobres e ricos. "A redução da desigualdade é a renda do pobre crescer mais rápido do que a do rico", reiterou o pesquisador.

A boa notícia é que o Brasil conseguiu cumprir a primeira meta dos Objetivos do Milênio - reduzir a pobreza pela metade em 25 anos - 10 anos antes do prazo final. De 2001 a 2008, o Brasil conseguiu diminuir em nove pontos percentuais a pobreza. Porém, a situação atual está muito longe da aceitável. "O que um cidadão pobre gasta durante um ano, um cidadão pertencente ao segmento dos 1% mais ricos do Brasil gasta em três dias", disse Ricardo Barros.

Os Comunicados da Presidência sobre a PNAD 2008 serão reunidos em livro. A publicação com os comunicados referentes ao ano de 2007 terá o título Situação Social Brasileira 2007 e deve ser lançado nos próximos dias.

domingo, 20 de setembro de 2009

Miriam Lagoa - Jornal El País

Rebelião contra o gratuito total na internet

A reportagem é de Miriam Lagoa e está publicada no jornal El País, 11-09-2009. A tradução é do Cepat.
Fonte: UNISINOS


Até o gigante Google, o grande beneficiado pelo modelo da gratuidade para o usuário reinante até hoje, já intui que os conteúdos culturais ou informativos não vão continuar sendo oferecidos de maneira gratuita na internet para sempre. O Google, em conflito com os editores de imprensa por explorar suas notícias, se rende à tendência e prepara ferramentas para facilitar pequenos pagamentos aos meios de comunicação. As indústrias da informação se lançaram na exploração de fórmulas para rentabilizar a sua presença na internet para além da publicidade, até agora a principal e quase única fonte de ingressos. E o cinema ou a música, alentados pelo sucesso de empresas como iTunes, ensaiam novas fórmulas para cobrar por seus produtos enquanto cresce a pressão política contra a troca livre de arquivos na internet.

Pequenos pagamentos por notícias, assinaturas de diferentes níveis, rádios personalizadas ou o pagamento para assistir filmes de alta definição abrem passagem em uma internet que, desde o seu nascimento, foi sinônimo de gratuidade.

Milhões de internautas se acostumaram a acessar artigos, discos ou filmes sem custos. Mas o que muitos usuários consideram um direito, para as indústrias de conteúdos se converteu em um problema econômico e de propriedade intelectual. As empresas que, como os jornais, acreditaram que se abrindo à internet conseguiriam um retorno adequado em forma de publicidade estão dando marcha à ré. Os banners não compensam assim como os velhos anúncios de papel e muitos editores decidiram voltar à cobrança.

Depois dos protestos da indústria cinematográfica e musical, o setor midiático começa a se rebelar contra a gratuidade, em meio à pior crise publicitária de sua história. Rupert Murdoch, proprietário da News Corporation, o maior grupo de mídia, encabeça a manifestação. Em agosto, anunciou que passará a cobrar pelo acesso à versão digital de seus jornais – entre eles, The Wall Street Journal, The Times e The Sun – a partir de 2010. “A revolução digital abriu muitos canais de distribuição novos e baratos, mas isso não converte o conteúdo que transmitem gratuitamente”, assegurou. O magnata australiano argumenta que a qualidade não é barata e “uma indústria que presenteia o seu produto está canibalizando a sua capacidade de fazer um bom jornalismo”. Murdoch já teve reuniões com seus principais colegas, entre eles The New York Times, para criar um grande consórcio que imporia o pagamento pela leitura de seus conteúdos digitais.

Outras vozes do setor vão na mesma linha e como sustenta o editor do Financial Times, Lionell Barber, “nos próximos 12 meses a maior parte das organizações de notícias estará cobrando por seus conteúdos”. L. Gordon Crovitz, fundador do Journalism Online, assegurava em uma entrevista ao El País que os acessos gratuitos à informação na internet estão com os dias contados – “o modelo de negócio atual de acesso livre ao conteúdo na internet claramente não funciona” – e apostava em um misto: “No futuro será uma combinação de modelos pagos e gratuitos. Os consumidores pagarão diretamente e também haverá modelos em que os distribuidores de diferentes naturezas, como os livros digitais, pagarão royalties”.

Os últimos movimentos apontam neste sentido. Seguindo o exemplo de Murdoch, The Economist, a revista financeira mais prestigiada do mundo, acaba de anunciar que fechará a sua web e deixará de oferecer notícias gratuitas, como vinha fazendo desde setembro de 2006. Em seis meses, organizarão um novo modelo que pode estar baseado em pequenos pagamentos.

O jornal francês Libération, que desde a sua ideologia de esquerda se caracterizou pela defesa do “tudo gratuito”, também cedeu pelo mau momento financeiro que atravessa. Desde ontem [dia 10 de setembro], passou a restringir uma parte de sua edição eletrônica aos assinantes, mediante dois tipos de pagamentos. O básico – Essentiel, a seis euros mensais – que permite acessar o conteúdo do jornal de papel em formato PDF, os arquivos dos últimos 15 anos e outros serviços; o Première, a 12 euros, dá acesso à edição à medida que vão se fechando as páginas no jornal.

O caso do Libération não é isolado na França. O Le Monde tem uma edição digital especial para assinantes – também a seis euros mensais –, assim como o Le Parisien (oito euros) e o jornal econômico Les Échos (15 euros), ao passo que o Le Figaro e a revista L’Express também preparam edições eletrônicas de pagamento.

Na outra frente está o Google. A empresa do buscador é o primeiro e, em muitos casos, o único beneficiário dessa revolução do gratuito total. Seus custos por agregar conteúdos são quase nulos, e alimenta seu negócio publicitário (Adsense e Adwords). O anúncio, em maio passado, de que o Google acrescentará publicidade ao seu agregador de notícias, o Google News, levantou as iras tanto das associações de editores europeus e norte-americanos, que acusaram a multinacional de lucrar com o trabalho alheio e sem sua permissão.

O Google não tem interesse no confronto direto com a imprensa mundial. Por isso, iniciou nos últimos meses um movimento de aproximação. A empresa poderia estar preparando um sistema de pagamento on-line que permitirá aos jornais cobrarem dos seus leitores pelo acesso aos seus artigos, segundo assinalou o centro de reflexão sobre os meios de comunicação da Universidade de Harvard. O Google teria apresentado o projeto à Associação de Jornais dos Estados Unidos (Newspaper Association of America), depois que a companhia fora requerida sobre a viabilidade do sistema. Na apresentação de seu projeto enviado à NAA, o Google vaticina que “a publicidade seguirá sendo provavelmente a fonte de ingressos mais importante das empresas de meios de informação”, mas que “fazer os usuários pagarem poderá proporcionar um suplemento de ingressos nada desprezível”.

Outro setor que já sofreu uma profunda transformação foi a indústria musical. Depois de apresentar numerosas demandas contra portais e programas que facilitavam as descargas gratuitas, começou a consolidar estratégias adaptadas para conciliar as possibilidades que a internet oferece e com a rentabilidade econômica, depois de anos em que a descarga gratuita de música fez os fundamentos do setor discográfico cambalear. Páginas de venda de música pela internet como Amazon e iTunes, que inclusive superaram em vendas a cadeia de lojas Wall Mart, experimentaram um crescimento notável e deram lugar a novas modalidades de venda, distribuição e consumo de conteúdos musicais que impulsionam as discográficas a reformularem as suas estratégias comerciais. Depois da queda das vendas de CDs nas lojas, a tendência dominante é a contribuição de serviços adicionais e a fragmentação de conteúdos: as vendas de músicas soltas se impõem às vendas de álbuns completos. A compra em lojas virtuais se impõe à venda física de CDs.

Ao longo de 2008, foram comercializados 1.4 bilhão de objetos pela rede, 24% mais que em 2007. Em 2009, o crescimento foi espetacular. Há dois anos a venda de música na internet representava apenas 20% de todo o mercado. Um estudo da prestigiosa consultora NPD indica que as vendas de músicas pelos portais como iTunes ou AmazonMP3 ultrapassarão as dos compactos em 2010.

Mas o mercado não deixa de evoluir e as descargas deram lugar ao streaming, a reprodução de conteúdos na web sem necessidade de descarga. O sucesso de serviços de reprodução on-line como Last FM, Yes.fm ou a sueca Spotify revolucionaram o mercado e fizeram com que o streaming se consolidasse como a opção preferida dos consumidores. A Spotify é uma rádio adaptada à internet, que nasceu do acordo entre seus criadores e as grandes indústrias discográficas. Oferece uma modalidade gratuita, com breves cunhas publicitárias, que inclui uma ampla biblioteca musical e permite ao usuário confeccionar listas com seus temas preferidos. Conta também com uma opção de pagamento sem publicidade e uma coleção mais extensa de músicas. “Os jovens pensam no YouTube e no MySpace como os lugares onde ouvir música, e os novos dispositivos são capazes de oferecer acesso a lugares como Pandora ou Last.fm, que funcionam como rádios personalizadas”, assegurava Eliot Van Burskik, do Wired.

Outra das últimas iniciativas surgidas no setor nos últimos meses foi aquela apresentada Virgin Media, que planeja um serviço de descargas que “pelo preço de alguns discos por mês” permite ao usuário acessar todo o catálogo disponível, sem nenhum tipo de limite. Os temas oferecidos pela empresa do magnata Richard Branson, que selou um acordo com o maior provedor de música no mundo, a Universal, não estarão protegidos com DRM (Digital Rights Management), sistema anticópia.

O sucesso destas iniciativas, inclusive entre uma audiência que estava se acostumando a não pagar para ter as últimas novidades antes que chegassem ao mercado, parece que marcará a pauta do futuro da indústria, e não apenas a discográfica. Daniel Ek, fundador da Spotify, garante que esse futuro está “no acesso não na propriedade”. “No futuro, será igual para os consumidores ter ou descarregar músicas. O que querem é ter acesso a elas”.

As empresas discográficas estão há anos ensaiando os sistemas de pagamento mas há outros setores que se mostraram menos ativos. A indústria audiovisual observa como as redes P2P, como Torrent ou Emule, o streaming e as descargas diretas, proporcionadas por páginas como Rapidshare ou Megaupload, são cada vez mais utilizadas. As descargas por esta via se multiplicaram pelo segundo ano consecutivo, segundo um relatório publicado pelo Big Champagne.

O setor cinematográfico não quer ficar atrás e nas últimas semanas tornou-se pública a aliança entre Paramount, Lions Gate e Metro Goldwyn Mayer para lançar o mercado Epix, um serviço de filmes de alta definição em streaming que oferecia as últimas estreias de cinema por assinatura em um passo a mais da integração do cinema na rede. O sistema será comercializado ao mesmo tempo que o pay-per-view e antes que a edição em DVD. Na Espanha, começam a surgir os primeiros projetos de pagamento similares, como o Filmotech.

O YouTube, o portal gratuito que revolucionou a forma de ver vídeos na rede, também ensaia fórmulas de pagamento e negocia com alguns dos grandes estúdios de Hollywood a distribuição de filmes sob a fórmula de aluguel similar à que já emprega o iTunes, a um preço de 3,99 dólares, segundo The Wall Street Journal.

O fenômeno não é alheio às tentativas de frear as descargas gratuitas. O Reino Unido aventou a possibilidade de cortar a conexão aos usuários que descarregam conteúdos protegidos com copyright e a França, depois de intensos debates no Parlamento, aprovou uma lei para impor multas de entre 1.500 e 3.500 euros aos usuários. Na Espanha, onde a descarga de arquivos através de programas P2P não é considerada crime, qualquer medida deve surgir do acordo entre operadores, indústria cultural e Governo, até agora sem resultados. Em vez de esperar, os provedores de conteúdos já estão mudando o passo.

Para ler mais:

Mídia livre? A democratização da comunicação
Midiatização. Um modo de ser em rede comunicacional
Twitter, Facebook, My Space e Orkut. As redes sociais na web

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Argemiro Ferreira

O cientista, o padre e a fúria de ''O Globo''


O jornal O Globo dedicou um resuminho anêmico, na página de obituários, à morte do cientista Norman Borlaug, considerado um dos pais da chamada revolução verde. Era de se supor que o jornal conhecesse bem melhor o tema, pois, em 1970, ninguém festejou mais que o O Globo o Nobel da Paz dado a Borlaug. Naquele ano, o jornal amplificou a campanha torpe da ditadura para vilanizar o arcebispo de Olinda e Recife, padre (como pedia para ser chamado) Hélder Câmara, que também disputava o Nobel. O artigo é de Argemiro Ferreira e publicado pela Carta Maior, 16-09-2009.
Fonte: UNISINOS


Dom Helder Camara


A página de obituários do jornal O Globo registrou segunda-feira, no alto, a morte no sábado do cientista Norman Borlaug, aos 95 anos. Destaque obviamente merecido, dada a importância do personagem, a quem se atribui responsabilidade parcial pela chamada revolução verde, que provavelmente salvou milhões de pessoas da fome na segunda metade do século passado.

Mas os leitores só encontraram no jornal um resuminho anêmico. Tiveram de recorrer à internet para completá-lo. Era de se supor que O Globo - que já poderia ter dado a notícia no domingo, como fizeram os jornais de Londres, cujo horário está bem à frente do nosso - conhecesse bem melhor o tema. Pois em 1970 ninguém tinha festejado mais do que esse jornal o Nobel da Paz dado a Borlaug.

As razões de O Globo na época não eram os méritos de Borlaug - que os tinha. Naquele ano recorde de atrocidades praticadas pela ditadura militar no Brasil as organizações da família Marinho estavam ocupadíssimas na defesa dos torturadores e assassinos do regime, denunciados no mundo inteiro. Era o tempo do “Pra Frente Brasil” na Copa do México, da euforia da Bolsa, do “Brasil Grande” do ditador Médici.

Uma candidatura da Noruega?

Outro slogan patrioteiro do regime, o “ninguém segura este país”, nascera como manchete desse jornal na época. Como o Estadão, ele servia aos poderosos do dia e aos interesses corporativos de fora. E amplificava a campanha torpe da ditadura para vilanizar o arcebispo de Olinda e Recife, padre (como pedia para ser chamado) Hélder Câmara.

A história foi muito bem contada em um livro de Nelson Piletti e Walter Praxedes, "Dom Hélder Câmara, o profeta da paz", publicado pela editora Contexto e lançado neste ano de 2009 para coincidir com o centenário do biografado. A obsessão do regime era impedir sua premiação com o Nobel da Paz - afinal dado a Borlaug, americano de pais noruegueses.

O Itamaraty da ditadura mobilizara uma operação internacional, com respaldo explícito na mídia aliada do regime (em especial O Globo, mas com papel de destaque para Ruy Mesquita, do Estadão), além de voluntários sinistros como o empresário norueguês Henning Boilesen, radicado no Brasil (à frente do grupo Ultra) e freqüentador dos porões da tortura na OBAN de São Paulo.

Como os jornais lembraram agora, nos obituários do cientista, o próprio Borlaug custou a acreditar na notícia, ao recebê-la de sua mulher Margaret, no México. Foi tal a surpresa que chegou a suspeitar que não passava de brincadeira. Não achava que seria o escolhido em 1970 pelo comitê norueguês - que cabe ao Parlamento desse país selecionar, um procedimento diferente dos outros prêmios Nobel, decididos na Suécia.

Ciência, agricultura e paz mundial

Borlaug diria depois ter sido escolhido para “simbolizar o papel vital da agricultura e da produção de alimentos num mundo faminto tanto de pão como de paz”. No copy desk de O Globo, eu tinha acompanhado naqueles dias, com interesse especial, as notícias vindas da Europa sobre a tendência esmagadoramente favorável a dom Hélder e o papel indecente do jornal, que negava as torturas e proclamava haver democracia e plena liberdade de imprensa no país.

Numa campanha obsessiva, sonegando e manipulando notícias, O Globo acusava dom Hélder de difamar o Brasil no exterior. Quando a revista alemã Stern publicou entrevista dele após uma extensa reportagem sobre as torturas, a manchete do jornal foi: “Dom Hélder usa revista pornográfica para caluniar o Brasil”. Stern era uma boa revista - e continua a ser, creio, mesmo depois de atropelada em 1983 pelo escândalo dos diários falsos de Hitler.

Pouco tempo depois da entrevista de dom Hélder, numa visita em 1976 à redação de Stern em Hamburgo, posso ter dado uma idéia errada ao editor. Ainda incomodado pela campanha suja de O Globo (não muito diferente das atuais), escorreguei em observação impertinente, que talvez tenha soado como insólita cobrança puritana.

Ao ouvir-me estranhar o contraste entre o tom das matérias e a ilustração das capas, ele contra-atacou: “O que você tem contra mulher bonita na capa?” Mereci a patada. Stern pertence à Bertelsmann, um dos maiores impérios de mídia do mundo (talvez o 5º). Suas capas ajudam a explicar a circulação atual superior a 1 milhão de exemplares, que alcançam em média 7,8 milhões de leitores.

O papel dos lobbies e da mídia

A queixa no segundo parágrafo deste texto, de que prefiro encontrar nos jornais histórias completas, sem ter de ir à internet em busca de mais dados, é por causa dos textos-pílulas que nossa mídia aprendeu com o USA Today. Para mim as pílulas deviam ficar para os mervais e leitoas, reservando-se espaço maior para reportagens - desde que bem apuradas, sem o ranço das campanhas suspeitas.

A morte de Borlaug seria um momento oportuno para reflexões sobre a revolução verde - benefícios e efeitos negativos. À época do Nobel da Paz houve oba-oba em O Globo e no resto de nossa mídia pelas razões erradas. Nélson Rodrigues, criativo como ficcionista e teatrólogo, ignorava o tema mas adotou Borlaug prontamente como seu novo herói. Além de achar dom Hélder subversivo, nunca o perdoou por se negar a abençoar seu segundo casamento.

O crescimento fantástico da produção agrícola era a resposta maior do cientista às críticas e preocupações ambientais e sócio-econômicas (dependência da monocultura, práticas agrícolas não sustentáveis, efeitos na agricultura de subsistência, produtos químicos suspeitos de causar câncer) mas Borlaug tinha amplo apoio nas corporações interessadas, da Dupont à Monsanto.

Os lucros extraordinários do agronegócio e corporações de agroquímica, da indústria de fertilizantes e pesticidas, fizeram proliferar lobbies cada vez mais poderosos e influentes. Mesmo descartando a maior parte das críticas, o cientista reconhecia que as transformações da revolução verde não tornaram o mundo uma Utopia. Respeitava alguns ambientalistas, mas criticava outros como elitistas.

domingo, 13 de setembro de 2009

Entrevista - Tony Judt

Uma era termina

Para o historiador britânico Tony Judt, o mundo assiste aos últimos momentos da hegemonia dos economistas ortodoxos no debate de políticas públicas. A reportagem é de Rafael Cariello e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 13-09-2009.
Fonte: UNISINOS


O autor de "Pós-Guerra - Uma História da Europa desde 1945" (ed. Objetiva) e professor da Universidade de Nova York chama a atenção para os "grandes e longos ciclos de linguagem política hegemônica na história", dos quais, segundo ele, ninguém escapa. O mais recente deles, iniciado nos anos 70, privilegia argumentos estritamente financeiros, medidas de eficiência e contribuições para o crescimento do PIB como critérios de avaliação de decisões coletivas das sociedades. Tal ideologia tem raízes na cultura e na sociedade americanas, por um lado, onde prevalece a desconfiança de que perdas individuais (em pagamentos de impostos, por exemplo) possam levar a ganhos públicos e coletivos, e, por outro, nas origens de um novo pensamento liberal reativo às grandes intervenções estatais do fascismo e do nazismo. Há sinais, ele diz, de que tais parâmetros de debate estejam se esgotando, mas tal "ciclo" não chegará ao fim, defende Judt, sem fazer uma última grande vítima: a reforma do sistema de saúde nos Estados Unidos, proposta pelo presidente Barack Obama.

A que o sr. atribui as fortes resistências que Obama tem enfrentado para levar adiante seu plano de reforma na saúde nos EUA?

Se você fizer uma pesquisa com os eleitores americanos, e questioná-los se querem uma cobertura médica mais abrangente, eles dirão que sim. Se perguntar se apoiam medidas que aumentem a expectativa de vida da população, dirão que sim. Se perguntar se apoiam atendimento médico para todos, mesmo para os que tenham problemas financeiros, dirão que sim.

O problema então é a disputa retórica que cerca essa discussão. Os eleitores americanos querem tudo o que o eleitorado austríaco ou sueco quer em termos de saúde ou educação, mas, se você perguntar a eles se querem a social-democracia, se querem a medicina estatal que garante esses direitos e esses sistemas, eles dirão que não.

Há duas razões para isso, uma mais antiga, outra mais recente. A razão antiga tem a ver com a resistência ideológica, retórica à ideia de governo centralizado, em particular um governo centralizado tomando dinheiro das pessoas para usá-lo nesses programas. Isso sempre foi combatido nos EUA.

Mas a razão mais nova é que o centro de gravidade dos debates sobre políticas públicas migrou para longe das preocupações sociais e se aproximou do discurso econômico, em que as políticas são avaliadas por um critério de ganho para o crescimento econômico ou por um critério estrito de eficiência.

Estamos lidando com um tipo de padrão retórico que tem grande dificuldade de discutir os efeitos sociais de um programa sem antes perguntar pelos critérios de eficiência desses gastos, que obviamente não são o melhor critério de avaliação.

Por que o sr. crê que a disciplina econômica ganhou essa predominância no debate político e intelectual nos EUA?

Em parte porque as condições que alimentavam o debate entre os anos 20 e os anos 60, de medo de revolta social, de medo em relação às possíveis consequências políticas de injustiças sociais ou desigualdades econômicas, foram em parte superadas.

Devemos lembrar do choque que foram a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial nas gerações que as experimentaram, e o impacto que tiveram nas políticas públicas.

Creio que uma das razões por que esse modo de ver a ação estatal foi abandonado nos EUA tem a ver com o fato de que políticas públicas que se baseiam em impostos e em um governo central que redistribua em serviços o dinheiro recebido dependem de um alto grau de confiança entre as pessoas - e nos governos -, algo que funciona melhor em sociedades menores e mais homogêneas, como a Suécia ou a Holanda.

Esse modelo não funciona tão bem em sociedades grandes, heterogêneas e desiguais, como os EUA, em que as pessoas lidam com outras em que não necessariamente confiam.

Os EUA sempre foram marcados pela "política da suspeição", em que se diz que o mercado funciona melhor porque maximiza os interesses individuais em benefícios públicos.

Então conta o fato de os EUA serem uma sociedade multiétnica e desigual?

Esse é um fator bastante importante. Também há uma tendência cultural, que provavelmente está diminuindo, de crença na melhora pessoal, no avanço econômico individual.

Na Europa, a grande maioria das pessoas não espera que seus filhos pertençam aos 5% mais ricos. Quando questionados se gostariam de pagar impostos e ter garantias de que o Estado protegerá a maioria dos indivíduos de incertezas, os europeus dizem que sim. Porque vêem a si mesmos como os beneficiários dessas políticas.

Quanto aos americanos, eles tendem a crer que, se pagarem muitos impostos, outros serão os beneficiários.

Do que o sr. diz, é possível afirmar que a ideia de "homem econômico", que raciocina em termos de ganhos pessoais, e a ideia de livre iniciativa sem intervenção estatal, que são pilares da economia ortodoxa hegemônica nas últimas décadas, têm raízes culturais nos EUA. Há uma relação entre o sucesso dessas ideias e o tipo de sociedade?

Totalmente. Mas é preciso relacionar a força que essas ideias tiveram a partir do grande economista austríaco [Friedrich von] Hayek, que inspirou boa parte das teorias econômicas nos EUA, e sua experiência política na Áustria do entreguerras.

Para ele, a intervenção estatal sempre leva à tirania política. Se você controla a economia, termina controlando a sociedade. Essas teorias econômicas ganharam força com Hayek, que atacava a social-democracia europeia, argumentando que suas políticas de intervenção e bem-estar social levariam ao fortalecimento do Estado, e isso poderia levar ao fascismo.

Assim como aconteceu na Alemanha nazista?

Esse era o seu modelo, claro, ou, melhor, seu antimodelo. Ele argumentava que a principal razão para apoiar uma economia de mercado desvinculada do Estado não era porque fosse o melhor modo de prover bens e serviços ou distribuir a riqueza, mas sim porque era o melhor modo de evitar repressão política.

O que aconteceu nos EUA é que uma geração de economistas, entre eles Milton Friedman [1912-2006, Prêmio Nobel em 1976], se apropriou das conclusões de Hayek sem prestar atenção a suas razões originais.

Mas, depois de Hayek e dos economistas americanos, esse tipo de pensamento e de discurso dominou qualquer debate no mundo a partir dos anos 80. Na América Latina, por exemplo, mas até mesmo na Europa continental. Por quê?

O antigo modelo, social-democrata, começou a parecer economicamente ineficiente. Em segundo lugar, o modelo em que o Estado era dono dos meios de produção, no Terceiro Mundo, por exemplo, dava mostras de ser corrupto. O modelo americano era bastante sedutor, mas guardava um paradoxo. Era bem-sucedido justamente porque o dólar era a moeda padrão internacional, e os EUA podiam lidar com sua economia de um modo que nenhum outro país tinha condições de fazer.

Creio que existam grandes e longos ciclos de linguagem política hegemônica na história, dos quais ninguém consegue escapar. De meados do século 19 até os anos 20, o liberalismo clássico foi a linguagem das políticas nacionais e internacionais. Dos anos 30 aos 70, quase todos os países desenvolvidos - ou relativamente desenvolvidos - do mundo tiveram debates sobre políticas públicas formatados pela ideia de que o Estado é uma força necessária na economia e na sociedade.

Desde os anos 70, vivemos num mundo com uma linguagem política em que qualquer coisa que não possa ser descrita em termos econômicos não é considerada. Os EUA criaram um vocabulário que o resto do mundo adotou.

Penso, no entanto, que estamos próximos do fim dessa "era econômica".

Como assim o fim?

Creio que, nos próximos dez anos, veremos uma renovação das discussões de políticas públicas que aceitam descrever temas sociais e iniciativas de governo sob perspectivas mais amplas, mais éticas ou políticas, se quiser. O que acontece agora nos EUA, o debate sobre o sistema de saúde, talvez seja uma das últimas consequências da onda economicista.

É possível prever o que acontecerá nesse debate específico?

Creio que, por causa dos sérios erros de cálculo de Obama, o que teremos será uma concessão do governo a esse debate, que levará a alguma racionalização do sistema atual, mas sem mudança radical.

E qual foi o erro de cálculo?

Foram dois. O primeiro foi extrapolar a lógica do discurso de campanha, que pregava a superação das divisões partidárias e ideológicas nos EUA, para a estratégia de governo.

Obama foi eleito porque prometeu superar essas divisões, e acredito que tenha se levado a sério demais. Não é possível criar uma ponte que supere as radicais diferenças entre os que acreditam na moderna astronomia e os que acreditam que a Lua é feita de queijo. A proposta de reforma da saúde pintou um debate cosmológico como se fosse queijo.

O outro erro foi subestimar o poder dos preconceitos dos eleitores. Se ele tivesse dito diretamente para o público que o sistema de saúde europeu tem problemas, mas funciona, e que tudo o que os eleitores dizem querer na saúde só pode ser fornecido pelo Estado se tivermos um sistema de saúde forte, que custa dinheiro, mas que precisa ser feito para que os EUA sejam um país sério, tenho certeza de que teria tido muito mais sucesso.

Vinicius Torres Freire

Balança, mas não cai


A idéia de que os mercados são mais eficientes se poupados de intervenções já era objeto de crítica mesmo de economista "ortodoxos" desde os anos 1980, mas ainda assim uma versão atrasada e simplificadora da teoria econômica dominou o debate até o colapso financeiro do ano passado. O artigo é de Vinicius Torres Freire, jornalista, e publicado no jornal Folha de S. Paulo, 13-09-2009.
Fonte: UNISINOS


Faz quase um ano, Alan Greenspan confessava que "errara, sim", manchando assim o seu nome de "maestro", quiçá "condottiere" da finança mundial, socado no canto de um ringue de debates retóricos sobre a infalibilidade dos mercados, o Congresso dos EUA. Greenspan foi presidente do Fed, o banco central norte-americano, de 1987 a 2006, "a era do capital financeiro", mais ou menos o mesmo período que o Nobel de Economia Paul Krugman e adeptos classificaram de "a era das trevas da macroeconomia".

Nesse outubro de 2008, num depoimento a uma comissão da Câmara dos deputados americana, espremido por políticos agressivos, dizia que "encontrara uma falha" nas suas crenças a respeito do mercado. O velho banqueiro central falava menos de um mês depois da falência em série de grandes instituições financeiras nos EUA e na Europa, em setembro, quebras seguidas de várias estatizações e doações mais ou menos disfarçadas de dinheiro público a bancos e similares.

A recessão, o efeito simbólico da "confissão" de Greenspan e a fúria quase geral contra ricos e banqueiros provocaram um curto verão de anarquia mesmo entre os defensores do "capitalismo". Mas qual "pecado" Greenspan confessou? A quebra da finança em setembro de 2008 foi uma epifania?

O que ele obliquamente "admitia" como erro já não era objeto de críticas mesmo nas discussões acadêmicas da economia padrão, a dominante nas grandes universidades americanas, e mesmo entre gente do mercado financeiro que também se dedica a pensar a sua atividade?

"Aqueles de nós que contávamos com o autointeresse das instituições de empréstimo para proteger o capital dos acionistas (eu especialmente) estão chocados e não conseguem acreditar [no que houve; Greesnpan usou a expressão "shocked disbelief']. A vigilância da contraparte é um pilar central dos nossos mercados financeiros", disse Greenspan aos parlamentares.

Na verdade, ele havia escrito tal coisa já em março de 2008. Diante dos políticos, avançou ao usar as palavras "falha" e "erro" ao comentar sua crença na autorregulação dos mercados. Trocando em miúdos, Greenspan sempre se opôs (de modo politicamente ativo, aliás) a que o Estado regulasse mercados demais. Acreditava que as partes de um negócio vigiariam umas as outras ao fazer boas avaliações de risco e ao exigir bons preços, garantias e seguros.

Mas, como perguntou Greenspan no seu discurso, o "que deu errado com as políticas econômicas globais que tinham funcionado tão efetivamente por quase quatro décadas?" Em resumo, Greenspan respondeu que houve um erro no uso dos modelos de avaliação de risco, que foram abastecidos com dados errados, e que a natureza humana é dada a ganância e a ciclos de euforia e medo, como atestariam as bolhas dos últimos três séculos. Não foi muito além; mas afirmou que o conceito de autorregulação ainda era essencial.

Confiança crescente

Ainda em 2002, entre o fim da bolha da internet e o começo da bolha imobiliária, Greenspan discursava assim para economistas britânicos: "Nos mercados de hoje, por exemplo, há uma crescente confiança na vigilância da contraparte privada como instrumento fundamental de controle financeiro. Governos complementam a vigilância privada quando julgam que imperfeições do mercado poderiam provocar um desempenho econômico subótimo".

"Ninguém pode negar que participantes do mercado com informação perfeita ["fully informed'] vão gerar a precificação dos recursos mais eficiente e a alocação de capital mais perfeita... e a estrutura de preços refletiria mais precisamente o equilíbrio subjacente entre oferta e demanda."

Greenspan está a dizer que os mercados definem os melhores preços (de ativos financeiros, bens etc.) e, assim, orientam o melhor emprego do capital. Que intervenções estatais excessivas (quase todas) distorcem tal alocação. Em suma, que é praticamente impossível discernir exageros no mercado, tal como bolhas (se fosse possível prevê-las, diz a teoria, o mercado se anteciparia e detonaria antecipadamente a bolha, se é que ela viria a ser inflada).

De modo oblíquo, refere-se à hipótese do mercado eficiente, fundamento da economia das finanças desde os anos 70. Tal teoria, grosso modo, diz que o preço de ativos financeiros reflete toda a informação disponível e relevante no mercado; que, na média, o mercado corretamente estipula tais preços e se autocorrige.

No entanto, pelo menos desde os anos 80, mesmo no circuito da economia padrão ("mainstream", "ortodoxa"), tais modelos são objeto de crítica. Antes de se tornar estrela pop da crítica à mundialização, Joseph Stiglitz escreveu trabalhos sobre os paradoxos e o excesso de pressupostos inconfiáveis (e portanto irrealistas) dessas hipóteses, trabalhos que lhe renderam um Nobel.

Antes disso, havia literatura vasta e variada sobre "falhas de mercado" (de Paul Samuelson a Kenneth Arrow). Os "economistas comportamentais" já estavam em voga desde os anos 1990. Richard Thaler e Robert Shiller, entre muitos outros, faz tempo observavam "comportamentos de manada" ("maria vai com as outras"), entre outros traços de psicologia de massa. Outros trabalhos teóricos chamaram atenção para o aspecto irracional de escolhas individuais. Se não bastasse a massa de trabalhos críticos, houve no mínimo um grande estouro de bolha financeira que poderia ter servido como alerta, a da internet, em 2001-02.

Debates políticos

São raros, porém, os economistas "mainstream", "comportamentais" inclusive, que jogam no lixo toda a hipótese dos mercados eficientes. De resto, a finança não define suas estratégias de acordo com todas as finuras teóricas do dia.

Os debates políticos sobre regulação financeira, por sua vez, não são orientados por detalhes da pauta acadêmica e muito menos assim decididos. No entanto, uma versão dita atrasada e além do mais simplificada da teoria econômica "mainstream" dominou o "espírito do tempo" e permeou a pregação política dominante sobre economia, mercados e finanças até que um colapso financeiro a colocou em xeque.

Ainda no círculo da teoria "mainstream" (no campo da economia política), há explicações para tanto. Simon Johnson, professor do MIT, entre outros, observa por exemplo que as instituições financeiras tornaram-se grandes demais para serem reguladas - isto é, seu poder político faz com que elas "capturem" (dominem) as autoridades responsáveis por fiscalizá-las e regulá-las.

Mas a crise financeira e a desmoralização da ideia do mercado autorregulado influenciam em quanto o debate econômico? Afinal, a maioria dos economistas "mainstream" não atentou para a iminência da crise (embora, curiosamente, os gélidos e imperturbáveis autores dos relatórios do Bank for International Settlements, o consórcio dos bancos centrais, há quase três anos apontavam a precariedade dos modelos financeiros e dos riscos crescentes de estouro financeiro).

Até meados deste ano, a querela pública entre neokeynesianos (à moda americana) e "hiperliberais" vinha em tom baixo e discreto (diga-se de passagem que, no Brasil, esses neokeynesianos seriam chamados de "neoliberais"). Em julho, a revista "The Economist" publicou um resumo das polêmicas recentes. O Nobel Robert Lucas, da Universidade de Chicago, patrono dos hiperliberais, respondeu em artigo na revista às críticas de economistas como o Nobel Paul Krugman, secundado por gente como Robert Barro. Brad DeLong, escudeiro de Krugman, rebateu a seu modo "slob" [descuidado] e pesadamente sarcástico.

O debate é, sob certo aspecto, um debate político americano, a respeito do tamanho da intervenção do Estado, por meio de gastos, subsídios a bancos e regulação, com o objetivo de tirar o país do pântano da crise.

Grosso modo, de modo muito simples, os neokeynesianos acreditam que os mercados são imperfeitos e ineficientes, e que o governo vez e outra deve intervir ao menos para corrigir suas falhas e "ataques de pânico", como em grandes recessões ou depressões.

Mas a polêmica revela também divisões profundas nos templos e entre os sacerdotes da teoria econômica mundial padrão, que se imaginava muito perto de um "consenso", com diferenças marginais (como gosta de dizer e escrever Olivier Blanchard, do MIT).

Obviamente, não será em polêmicas jornalísticas que haverá um acerto de diferenças. Mas a violência e o tom amargo da querela tende a chamar a atenção de universidades, estudantes, financiadores de pesquisas e, enfim, deve influenciar a política acadêmica, que tem seu papel na definição de reorientações teóricas.

[grifos do blog]

Rubens Ricupero

Corrupção e governabilidade


"A corrupção passou a ser condição da governabilidade", afirma Rubens Ricupero, economista, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 13-09-2009. "Corrupção e violência, ensinava o filósofo Norberto Bobbio, são os dois tipos de câncer que destroem a democracia", lembra Ricupero.
Fonte: UNISINOS



A corrupção passou a ser condição da governabilidade. É essa a justificativa de dirigentes de partidos do governo para sua cumplicidade no enterro dos escândalos parlamentares. A diferença com o regime militar é uma só: substituíram-se a violência e a tortura pela corrupção como suposta condição para ter segurança e governar.

Corrupção e violência, ensinava o filósofo Norberto Bobbio, são os dois tipos de câncer que destroem a democracia. No regime militar sacrificou-se a democracia em nome da segurança, elemento da governabilidade. Hoje a situação mudou e se usa o mesmo pretexto para fazer engolir o conluio ou a indulgência com a corrupção. Não sendo apanágio apenas de um governo, o vício se agrava ano a ano.

Nem a seriedade dos últimos escândalos, que comprometem instituições inteiras, conseguiu alterar a complacência dos governos, que pode não ser eterna, mas tem se revelado infinita enquanto dura.

Outro escândalo, agora de caráter intelectual, é que os politicólogos julgam o sistema de "presidencialismo de coalizão" como perfeitamente funcional, pois produziria governabilidade. Aparentam-se os nossos sábios aos fundamentalistas do mercado, que também acreditavam na neutralidade moral do mercado, que seria autorregulável, capaz de se corrigir automaticamente.

Em ambos os casos, os resultados justificariam os meios. Contudo, o derretimento do mercado financeiro mostrou que as torpezas e as falcatruas dos operadores acabam por provocar degeneração funcional, destruindo a própria instituição. A moral e a ética não são adornos para espíritos delicados, mas componentes indispensáveis ao bom funcionamento de qualquer sistema.

Isso não vale apenas para os mercados. A Primeira República italiana, que resistira ao desafio de governabilidade devido à presença do maior Partido Comunista do ocidente, se desmoronou à luz da corrupção desvendada pela Operação Mãos Limpas. A República Velha brasileira afundou no pântano da corrupção eleitoral e foram os escândalos que puseram fim à carreira e à vida de Getulio Vargas.

Não passa de autoilusão a ideia de que a economia cresce e o país se desenvolve apesar da corrupção e dos escândalos. Também na Itália, o "milagre econômico", o dinamismo, a inovação pareciam legitimar um sistema decadente. Com o tempo, a corrupção e o fracasso na reforma das instituições produziram o inevitável: a estagnação e o desaparecimento do dinamismo. Seria diferente aqui onde os mesmos vícios tendem a produzir idênticos efeitos?

Quando foi assassinado o juiz Giovanni Falcone, Bobbio chocou a opinião pública ao declarar que sentia vergonha de ser italiano e deixaria o país se fosse mais jovem. Recompôs-se depois desse momento de abatimento moral. Neste centenário do seu nascimento, a capacidade de se indignar do velho filósofo tem sido evocada ao lado da lição do grande poeta Giacomo Leopardi.

Numa das incontáveis horas amargas da Itália, dizia o poeta: "Se queremos um dia despertar e retomar o espírito de nação, nossa primeira atitude deve ser não a soberba nem a estima das coisas presentes, mas a vergonha".

No panorama de miséria moral de nossas instituições, deve-se escolher entre a atitude de soberba e estima das coisas presentes da propaganda complacente e a vergonha regeneradora do país futuro.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Entrevista - Silvia Lago Martinez

‘A internet serve para questionar muitos dos pilares do capitalismo’


“Eu não creio que haja uma mudança de concepção na utilização das ferramentas. O que mudou radicalmente são as próprias ferramentas. Creio que se multiplicaram muito os recursos e essa é a grande mudança”, afirma Silvia Lago Martinez, socióloga e pesquisadora do Instituto Gino Germani, ligado à Universidade de Buenos Aires. E avalia o potencial dessa nova tecnologia: “Creio que efetivamente é cada vez menos possível controlar os milhões e milhões de conteúdos que circulam pela internet”. A entrevista é de Leonardo Moledo e está publicada no jornal argentino Página/12, 09-09-2009. A tradução é do Cepat.
Fonte: UNISINOS


Conte-me, como se estivéssemos em um café, o que está pesquisando.

Estamos em um café, de modo que vai ser fácil. Agora estou em um grupo no qual estudamos a cultura digital e os processos políticos de apropriação das culturas digitais, para a intervenção política e ativista. Esta atividade tem seus antecedentes em um estudo que fizemos há algum tempo para a utilização da internet por parte de movimentos e organizações sociais. Começamos analisando, fundamentalmente, os chamados movimentos antiglobalização. O eixo é observar, a partir do debate sobre a sociedade pós-industrial, que tipo de transformações se produzem nos sujeitos políticos e nas estruturas de poder com renovadas estratégias graças aos novos elementos tecnológicos.

Vamos ver... eu sou um fanático da internet. Que estratégias estão sendo usadas?

Os autores coincidem em afirmar que na década de 1990 se produziu um novo ciclo de luta. Mas se olharmos a nível local, a luta pelos direitos humanos é um ponto também muito importante no uso das tecnologias digitais para a difusão, a organização das atividades, o desenho gráfico. Hoje, quase todas as organizações sociais têm um grupo dedicado a trabalhar na produção de documentos, imagens, criando uma página na internet, além daquelas que já se dedicam exclusivamente ao ativismo da internet (hackers, etc.). Nós nos focalizamos naquelas organizações que têm um correlato entre a rua e o mundo virtual.

E o que estão encontrando?

Bem, nós trabalhamos com grupos populares (alguns de camponeses, por exemplo) e o que encontramos é que com o tempo áreas de imprensa foram se incorporando aos movimentos sociais. No Fórum Social Mundial se conversou muito sobre este tema, sobre a importância da contra-informação e das possibilidades que a internet oferece para difundir uma mensagem alternativa. Agora estamos mais focalizados no que são os grupos de setores médios. Não é que os setores populares fiquem fora da nova tecnologia: as organizações populares, além dos indivíduos particulares, estão muitíssimo na internet. O fato de que o camponês individual não possa acessar não significa que a organização que o nucleia esteja fora do ciberespaço. Pois bem, nós, como dizia, nos centramos nas organizações compostas por setores médios, cujo acesso à tecnologia é mais fácil.

Mas o que isto tem de particular? Não é que sempre os grupos usam a tecnologia que têm ao seu alcance?

Sim, claro, cedo ou tarde sim. Não sei se é muito diferente. O que se poderia dizer é que há uma incorporação da mensagem audiovisual, graças às possibilidades oferecidas pelas tecnologias atualmente. Como todo o processo de mudança, isso não é imediato. Uma das coisas que produz é uma mudança na noção do espaço e do tempo. A dimensão territorial (muito enraizada em geral nas organizações sociais) está sendo re-significada de maneira mais planetária, de tal maneira que os grupos podem não se sentir isolados, mas saber que há muitos outros que estão fazendo as mesmas coisas em diferentes partes do mundo.

Mas também é verdade que há uma proliferação tão grande que faz com que perca força, não? Porque ao haver milhões de grupos que mandam e mandam coisas, em última instância tudo acaba se convertendo, ou pelo menos parecendo, em spam...

Na realidade, a utilização fundamental é através do correio eletrônico, que é a forma mais simples de difusão. Depois vem a utilização de sítios na internet. Há um aproveitamento, também, das imagens do mundo do mercado, ou seja, utiliza-se em proveito próprio o que vem do mundo da publicidade. O que quero dizer, na verdade, é que depende da gente: é certo que há coisas que vão acabar no spam, mas também o que se espera é que as pessoas se identifiquem com algum desses grupos que mandam coisas e que não lhes pareçam spam. É uma depuração que cada qual vai fazendo com a experiência.

E quem acessa estes sítios?

Bom, há uma seleção natural que tem a ver com a ideologia e a postura que cada um tem. Obviamente, se alguém está nas antípodas de um movimento camponês, ou de um movimento de sem terra, não vai entrar (salvo por curiosidade). O nível de difusão é o mesmo que tem na rua: aqueles que estão interessados nestes temas vão entrar, e o que não, não.

Bom, mas não vejo a diferença com os radicais que se identificavam com a boina branca, ou com o comitê, ou o socialismo com seus ateneus. Sempre houve uma espécie de roseta que identifica os grupos. Qual é a mudança qualitativa proporcionada pelas novas tecnologias?
Eu não creio que haja uma mudança de concepção na utilização das ferramentas. O que mudou radicalmente são as próprias ferramentas. Creio que os recursos se multiplicaram muito e essa é a grande mudança. Além disso, como dizia, há uma grande apropriação de estratégias próprias do mercado.

A internet é uma mercadoria?

Não, não. Me referia neste caso às estratégias da publicidade e do marketing. Muitos grupos, por exemplo, utilizam este tipo de estratégias para desenhar seus cartazes, para produzir um impacto visual. Há uma consciência de que com o texto não se chega aos destinatários e que é preciso incorporar formas simbólicas para transmitir a mensagem, formas que têm a ver mais com a estética, com a imagem, etc.

Eu tenho a sensação de que isso sempre foi um pouco assim. Todos os partidos, por exemplo, tinham um jornal. A internet, em todo o caso, permite uma difusão muitíssimo mais planetária.

Sim, é uma difusão rápida e múltipla. Mas eu, além disso, creio que existe uma mudança. Você está pensando em partidos políticos, mas eu estou falando de movimentos sociais de alcance muito menor, desde associações de camponeses até grupos de setores médios que defendem a democratização do conhecimento (o software livre e todas essas coisas).

...

Este movimento também é cada vez mais importante e coloca em dúvida um dos temas fundamentais do capitalismo: o da propriedade privada intelectual.

Sim, à primeira vista, parece que há algo disso.

Eu creio que as novas tecnologias não estão sendo utilizadas unicamente para a propaganda, mas também para questionar alguns embasamentos fundamentais do capitalismo. Há uma consciência de que existe um poder internacional a ser enfrentado. É verdade que sempre houve bandeiras, identificações, etc. Mas o que eu sinto é que isto é cada vez mais forte e que, além disso, é potencializado pela capacidade de trabalhar em redes. Outra coisa que a internet possibilita é difundir as atividades a um custo muito mais baixo. Além disso, há um forte questionamento da verticalidade nas organizações.

Antes do capitalismo também havia a profissão livre ou pelo menos algo parecido. Um menestrel medieval, por exemplo, não fazia a menor ideia do que era a propriedade intelectual. Em certa medida, estamos retomando algumas coisas da livre circulação medieval.

É um pouco arriscado comparar a internet com o menestrel que ia cantando de povoado em povoado.

Bem, eu sou um ginete, e você sabe, às vezes é preciso arriscar...

Creio que o que acontece é que, definitivamente, a internet serve para colocar em questão muitos dos pilares do capitalismo (com o que, definitivamente, nem todo o mundo discorda, mas apenas um setor da sociedade).

É certo que atualmente pode-se baixar praticamente tudo da internet. Por mais que as coisas tenham propriedade intelectual, se forem postadas por algum particular, é muito difícil penalizá-lo por isso. Em certa medida, se converteu em um crime incapaz de ser controlado, como aconteceu com as fotocópias.

Claro, é proibido fotocopiar livros completos, coisa que se faz todo o tempo.

E esses são processos irreversíveis, não? Onde vão parar?

Creio que efetivamente é cada vez menos possível controlar os milhões e milhões de conteúdos que circulam pela internet. Há um outro problema aduzido por aqueles que ainda têm um pouco de medo da internet, que tem a ver com a diversidade de qualidades da informação que existe. Mas, definitivamente, sempre houve diferentes qualidades de informação e alguém podia acessar uma informação totalmente falsa por outras vias. Está havendo muitos processos, sobretudo da parte da indústria discográfica.

Me parece que a internet é um pouco contraditória. Por um lado, tem essa coisa da apropriação livre. Por outro lado, a oferta é tão grande que a gente se perde, sem saber o que baixar. Creio que em certa medida isso deve acontecer com os movimentos que você estuda. Atualmente, é tão fácil criar um movimento que é muito possível que acabe fazendo movimentos puramente virtuais, que somente têm uma página na internet.

Certamente isso acontece, mas nós trabalhamos com os grupos que têm experiência na rua.

sábado, 5 de setembro de 2009

Crise e hegemonia na lente dos sociólogos latino-americanos

Faz 59 anos que a Associação Latino-americana de Sociologia (ALAS) sustenta a bandeira do debate crítico em uma região tão rica quanto desigual. E a crise global em curso, mais a hegemonia em debate, é um dos eixos de seu Congresso em Buenos Aires, que aconteceu ao longo de toda a semana e que terminou nesta sexta-feira. Contou com o patrocínio do Conicet, Ministério da Educação e Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso). A reportagem é de Néstor Restivo e está publicada no jornal argentino Clarín, 04-09-2009. A tradução é do Cepat.
Fonte: UNISINOS








Na sede da Universidade de Buenos Aires, centenas de estudantes e graduados locais, chilenos, uruguaios, colombianos e de outros países encheram todas as salas de aula. Em uma delas, quatro sociólogos diagnosticaram e traçaram cenários possíveis sobre o futuro da economia global.

Segundo o panamenho Marcos Gandasegui, “a crise não é sintoma, mais o efeito de um ciclo que começou nos anos 1970 com sobreprodução, subconsumo e baixos lucros empresariais. Para reverter esse quadro criaram o neoliberalismo, mas que fracassou. E hoje, há quatro ensaios de ‘saída’: os Estados Unidos, reconstruindo o sistema com um colossal apoio aos bancos; a Europa, com uma nova regulação keynesiana; a China, que pede uma reforma monetária global e, a mais auspiciosa para a América Latina, por maiores autonomias e multipolaridade, mas para isso falta ainda uma força social capaz de dar um empurrão”.

Os brasileiros Theotonio dos Santos – um dos pais da teoria da dependência – e Carlos Martins centraram suas exposições na “decadência” dos Estados Unidos, com os cada vez mais assombrosos números de seu déficit comercial e fiscal e sua dívida pública. “Isso dificulta a hegemonia norte-americana, por exemplo, para sustentar as suas bases militares. Os custos do império crescem e está cada vez mais endividado”, disseram.

Segundo Santos, “os Estados Unidos vivem o que chamou de parasitismo, o mesmo que fizeram em sua queda impérios como Portugal ou a Grã-Bretanha. Sua força de trabalho decresce, suas empresas se deslocaram para outros países e vivem de seus domínios externos. Mas o peso da sua dívida – e a dependência do financiamento da China – pode ser muito perigoso para ser sustentado”.

Emir Sader, diretor do Clacso, solicitou evitar os erros do passado de descrever de forma catastrófica “uma crise final capitalista, a fase definitiva, a fase definitiva II (ironizou) de sua queda. O que é preciso pensar é a correlação de forças. Porque se é verdade que os Estados Unidos estão se enfraquecendo, o que está se fortalecendo?”.

Para Sader, “os Estados Unidos são mais frágeis que em décadas anteriores, mas mantêm seu predomínio militar, econômico, político (é o único país que tem uma iniciativa em qualquer lugar do mundo onde há algum conflito) e, sobretudo, ideológico: o modo de consumo, as marcas, os shoppings, os carros, seu modo de vida que se difundiu para todo o mundo sem que confrontemos alternativas”.

Reclamou políticas de desmercantilização e criação de direitos e nesse sentido ponderou conquistas como a alfabetização na Bolívia ou experiências médicas de solidariedade cubanas em vários países, sobretudo na área da oftalmologia, mas criticou o pouco avanço na integração regional. “A crise é uma oportunidade que não deve ser desperdiçada”, indicou.

Foi entregue um doutorado Honoris Causa ao sociólogo peruano e professor da Binghamton University (Estados Unidos), Aníbal Quijano.

Marcelo Percia

Não há desejo sem angústia

“O amor, a amizade, a comunidade, quando escapam da loucura dos proprietários, compõem cumplicidades anticapitalistas”, avalia Marcelo Percia, psicanalista argentino, no texto “A angústia como afeição anticapitalista”, do qual foi extraído o fragmento a seguir, publicado no jornal argentino Página/12, 04-09-2009. A tradução é do Cepat.
Fonte: UNISINOS



Enquanto a palavra “angústia” é empregada para expressar diferentes sentimentos infelizes, o termo “capitalismo” é substituído por outras que escondem as relações sociais de exploração e desigualdade. Confunde-se angústia com ansiedade, tristeza, frustração, nostalgia, temor, e se opta por qualificar como sociedade, mercado, sistema, realidade, mundo, o que deveria ser chamado de capitalismo. A angústia, eleita como representante de todas as tristezas, perde seu potencial emancipador, e as pessoas que evitam nomear o capitalismo ocultam a injustiça histórica do presente infeliz.

Freud retoma teorias que pensam o amor como conjuro contra a angústia. Sugere que amamos o outro em quem encontramos o que gostaríamos de ter ou alguém que sentimos que nos ama assim como nos iludimos ser. O amor se apresenta como um ideal protetor, uma habilidade imaginária, um rodeio sutil, através do outro, para recuperar a desejada segurança perdida. Escreve Cesare Pavese em seu diário, em 25 de março de 1950: “Não nos matamos por amor a uma mulher. Nos matamos porque um amor, qualquer amor, nos revela em nossa nudez, miséria, nada”. Pavese pensa que o suicídio por amor é um ato desesperado daqueles que não suportam viver a solidão, sem roupagens.

O amor freudiano é loucura possessiva. Mesmo que não se possa prender o outro, o desejo de tê-lo aprisionado e decifrado é uma obsessão da civilização amorosa. O enunciado que diz que o outro não é apropriável é uma premissa ética, mas também é uma condição do desejo e do erotismo. Ama-se o inatingível, mesmo que o amor delire nos abraços.

O amor deseja a posse impossível do outro. Os amantes querem segurança: a presença do amado para sempre. Quando o amante declara que tem pressa para suprimir essa distância que lhe dói, esquece que essa posse recusada é a própria condição de seu furor. O amor é desejo que se acende mais e mais com a evidência do inalcançável.

Merleau-Ponty chama a atenção para esta ambiguidade do amor: observa que, quando o narrador de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, se pergunta se ama de verdade a Albertine, não pode se decidir: como sente que a deseja quando ela se afasta, infere que não a ama, mas quando ela morre, diante da evidência dessa distância sem retorno, se dá conta de que necessita dela e confirma que a ama. Merleau-Ponty se pergunta: “Se Albertine fosse devolvida a ele, continuaria amando-a?”. Nunca saberemos, responde, se o narrador quer a Albertine ou ama a possibilidade de perdê-la; se ama essa mulher ou enlouquece invejosamente quando sentir que a morte a arrebata dele.

O amor, que costuma afastar uma teia de aranha, pode ser também o vazio em que duas solidões, que se sabem irremediavelmente sozinhas, se aproximam sem esperar completar nada. O amor é felicidade, mas, livre da experiência da angústia, é careta congelada de uma posse sem vida.

O amor, a amizade, a comunidade, quando escapam da loucura dos proprietários, compõem cumplicidades anticapitalistas.

Melancolia

A melancolia é desenfreio de uma posse enlouquecida. Uma imagem freudiana a descreve como movimento em que “a sombra do objeto cai sobre o eu”. Para Freud, é um protesto desaforado diante do qual se vive como um injusto despojo. A melancolia é uma revolta contra a morte, a doença, a velhice e o controle impossível de um semelhante. A sombra do objeto que cai sobre o eu é o obscuro retorno, sobre a primeira pessoa do singular, da própria ilusão projetada. A volta sobre si de um poder murcho.

O amor freudiano é uma transação: adquirimos, através do outro, uma garantia emocional, um valor de nós mesmos. Importa que o escolhido não contradiga o engano ou que simule ser o que necessitamos. Quando se ama, não se sabe o que fazer com esse amor: “Te quero ter, só minha, não me deixes nunca, vamos ficar assim por toda a vida”. À paixão custa imaginar uma declaração não possessiva.

A melancolia é tirania do amor: não quer admitir que a pessoa amada não seja uma marionete obrigada a dar-nos felicidade. A melancolia é persistência dessa ilusão caída e tem resistência a um novo amor porque não quer enfrentar outro desastre.

Sai-se da melancolia através de uma dor, mas dor não quer dizer tristeza raciocinada ou despedida dolorida pelo amor perdido: dor significa onipotência resignada.

A posse sem limites é a secreta aspiração da melancolia. Os corpos angustiados de nossa cultura aprendem a acalmar-se (e não sabem disso) tendo algo: brinquedos, pessoas, dinheiro, objetos, bens, talento, prestígio. A apropriação é praticamente o único remédio oferecido à subjetividade que, assustada, não imagina outras formas de felicidade. O capitalismo fabrica vidas possuídas. Os possuídos, entretanto, não se sentem infectados por esse poder, mas sujeitos livres. Os inúmeros pobres e excluídos, restos sociais que quase não contam, são chamados de despossuídos.

A melancolia é certeza obstinada: acredita ter-se adonado daquilo que nunca teve. A melancolia apresenta um fantasma, confunde a morte inevitável com a traição.

A angústia é o infinitivo da vida humana: é silêncio e solidão. Não há desejo sem a invenção desse vazio. O desejo não busca a posse, mas o buscar. O desejo é uma forma impessoal sem compromissos com uma meta antecipada. O desejo também não se possui, se dá ou se aloja, provisoriamente, em sua passagem para o outro. O desejo é inconformidade.

Immanuel Wallerstein

'Todo mundo deve ser intelectual e militante ao mesmo tempo’


"Todo mundo deve ser intelectual e militante ao mesmo tempo. É difícil, não é certa a saída, mas é certo que o mundo será o que fizermos". A afirmação é do sociólogo Immanuel Wallerstein, pesquisador e professor na Universidade de Yale, em conferência na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Fonte: UNISINOS


Diferentemente de diversos economistas, que há pouco tempo discutiam sobre o mundo estar em recessão ou não, já em outubro (logo depois das quebras dos primeiros bancos) o sr. dizia que essa crise era uma longa depressão. O que o mundo aprendeu, afinal, a partir dessa crise?

Primeiro temos que analisar como caímos nessa situação. Faço uma tentativa de explicar como de 1945 até hoje todos os fatos que ocorreram levaram à situação presente. Então, o que se deve aprender é que não se pode analisar algo que acontece nos últimos dois, três ou até dez anos apenas olhando para esses anos, o que é comum entre políticos, acadêmicos e jornalistas. Essa não é uma crise por causa de empréstimos para pessoas que não tinham dinheiro suficiente para honrá-los. Isso foi o gatilho que a estourou, mas não sua causa. Vivenciamos bolhas desde os anos 70, como as crises do petróleo e dos "junk bonds", e agora temos esta, com os governos dos Estados Unidos e de outros países imprimindo dinheiro e usando-o para aliviar problemas de curto prazo de bancos. Mas esse dinheiro representa uma bolha também.

Então, qualquer análise inteligente tem que ser de longo prazo. A segunda coisa é que é sempre bom para as pessoas acharem brotos para regar e vê-los crescer. Mas começam a ver pequenos avanços e passam a crer que tudo está indo bem de novo. Porém, isso é propaganda de governos, fazendo-os se sentir bem e para se mostrarem bem. O fato é que o desemprego está alto e continuará alto. As pessoas estão contendo os gastos, porque estão com medo de gastar, e têm razão para isso: estão sendo forçadas a deixar suas casas e os negócios estão quebrando. Isso que vivenciamos se estenderá por um bom tempo. É uma depressão profunda. Se olharmos o que ocorre agora como uma análise de longo prazo (últimos 500 anos), percebe-se que estamos em uma crise estrutural do capitalismo. E isso é muita coisa para quase todo mundo digerir, exceto para os inteligentes capitalistas, que entenderão o que realmente acontece e tentarão se preparar para o futuro. Por isso, análises de curto prazo não dão o entendimento lúcido do mundo real.

Há algum tempo o sr. argumenta que a hegemonia dos Estados Unidos está declinando. Essa crise pode estar acelerando esse processo?

Sim, meu argumento é que de 1970 até 2000 o poder hegemônico dos EUA estava declinante, mas isso ocorria lentamente. Basicamente, quando George Bush se tornou presidente, ele e os seus colegas conservadores pensavam que a razão de essa hegemonia estar declinante era porque a liderança dos EUA era fraca e o presidente então mostraria o caminho para restaurar a hegemonia. Isso seria por meio do machismo militar, indo sozinho, intimidando todo mundo. Isso foi, claro, um desastre, e não só não funcionou como fez um declínio lento tornar-se uma queda precipitada. O declínio agora é irreversível. Não se pode usar velhas políticas para desacelerá-lo, ainda que Barack Obama as tente fazer. Ele [Obama] tenta voltar às políticas pré-Bush, mas elas não podem mais funcionar. Por causa do Bush, é muito tarde para isso. Essa história está acabada. Agora estamos em um mundo multipolar, onde os EUA são uma potência forte, mas apenas uma entre outras oito ou dez.

O sr. acredita que os Estados Unidos como potência hegemônica podem ser substituídos por outro país?

Normalmente, do modo como o sistema-mundo operou nos últimos 500 anos, sim. Levaria tempo para um país conseguir essa posição, mas isso poderia ocorrer, eventualmente. Isso presumiria que o sistema continuaria normalmente, mas argumento que estamos em uma crise estrutural. Então, não acredito que teremos outro país nessa posição. Obviamente, há tentativas nessa direção. Poderíamos ter hegemonia do Leste Asiático em 50 ou 70 anos, mas só se o sistema continuasse. Mas ele não vai; então, não a teremos.

O sr. argumenta que há dois pilares do processo que representam a ruptura final do poder americano.

Um é a crise do dólar. O outro é o realinhamento geopolítico dos Estados Unidos. Um poder no qual você não consegue prestar atenção é um poder que pode ser ignorado, se você desejar. Muitos países vão ignorar os EUA. Isso vem acontecendo já na América Latina, em grande parte da Ásia e ocorrerá no Oriente Médio em dois ou três anos, uma vez que é a região onde concentram sua energia política e onde sofrem revés atrás de revés. Isso será um desastre para os EUA.

O sr. comentou sobre as políticas de Obama. O sr. votou nele...

Eu votei nele porque a outra opção era horrível. Mas votei nele sem ilusões, sem nunca esperar que poderia mudar muito em termos de geopolítica. Esperava que pudesse alterar algo internamente nos Estados Unidos, como o sistema de plano de saúde e em relação às liberdades civis. Ainda está em aberto se poderá alcançar isso. Mas Obama não está atingindo nada em nível mundial e não estou desiludido porque nunca esperei que fosse colocar os EUA como uma força central novamente nem que isso era possível.

Mas o sr. diria que ele atua de forma certa durante esse período de crise?

Não, eu diria que ele fez apenas algumas coisas certas e muitas erradas. Uma das erradas é o que faz no Afeganistão. Acho uma política terrível. Escrevi um artigo há um ano dizendo que isso seria um problema enorme, embora ele não tivesse a real dimensão disso ainda.

Depois de setembro, os EUA e outros países tornaram-se mais protecionistas na tentativa de melhorar a situação econômica.

Não há nenhum país que não se tenha tornado mais protecionista do que era há dois ou cinco anos. Em todos, a pressão interna está enorme porque as pessoas estão perdendo empregos e não querem que esses empregos migrem para outros locais. Esses governos têm que responder à pressão, mesmo aqueles que se dizem mais comprometidos com o mercado. [Nicolas] Sarkozy, por exemplo, foi eleito na França com proposta de aumentar o papel do mercado, reduzindo o do Estado na economia, mas assim que chegou ao poder tem feito o oposto por causa da pressão política. E sabe que, se quiser vencer outra eleição, tem que ceder. Todos os governos estão protecionistas e ficarão ainda mais. Economistas que defendem o livre mercado dizem que protecionismo deixa a situação pior. E estão certos. Tornará a situação pior, com queda de transações comerciais entre os países, que, por sua vez, prejudica a produção. Mas os governos não poderiam deixar de fazer isso porque ficariam sem poder. Todos os governos estão diante do mesmo problema: têm menos dinheiro por causa dos impostos mais baixos e a demanda da sociedade é para que gastem mais.

Na sua opinião, qual seria, então, o papel dos governos diante de uma crise desse tipo?

Eles vão se apressar para fazer algum movimento. E provavelmente muito deles ou vão aumentar os impostos ou emitirão mais moeda [o que causa inflação].

Os governos não seriam capazes de resolver o problema assim?

Não, e não é um problema que podem resolver. O mais importante para os governos agora é manter a ordem relativa dentro dos seus países contra algo incontrolável. Eles estão preocupados com o descontentamento popular. Afinal, quem sabe o que pode ocorrer quando as pessoas ficam muito insatisfeitas?

A crise, no entanto, trouxe de volta muitas ideias de J. Keynes e de R. Prebisch, principalmente com a discussão sobre a importância do papel do Estado na economia. Quais são os limites desses argumentos?

As ideias de Keynes e de Prebisch deveriam ter sido aplicadas dez anos atrás e talvez tivessem tido algum efeito bom. São ideias melhores do que as dos fundamentalistas de mercado [liberais] porque têm a função do que eu chamaria de "diminuir a dor", mas agora é muito tarde para resolver o problema. Mas é interessante ver que Keynes, que foi completamente esquecido nos últimos 20 anos, agora esteja voltando e as pessoas estejam achando que ele salvará. É muito tarde, porém.

O sr. classifica os países como centro, semiperiferia e periferia. Neste momento, poderia dizer se há algum movimento de migração de alguns países da semiperiferia ou periferia para o centro?

Os BRICs [Brasil, Rússia, Índia e China] estão em uma posição política e econômica mais forte do que há 15 anos. Até agora, sofrem menos com a depressão, mas não creio que estejam fora dela. Talvez possam continuar a sofrer menos. Esses países têm mais a dizer do que no passado. Na América Latina, há a Unasul [União das Nações Sul-Americanas], relevante em termos geopolíticos, e o Brasil também tem tido um papel importante como líder da região. É uma região que precisa ser levada em conta pelos EUA. Há dez anos, eles não prestariam atenção.

O sr. já disse que acredita que o capitalismo está em colapso e chegaremos a uma bifurcação: migraremos para uma nova ordem, que poderá ser mais democrática e igualitária, ou mais desigual do que a atual. Pode descrever como seriam essas possibilidades?

Não. E ninguém pode descrevê-las. Não podemos detalhar as estruturas que ainda serão construídas pela sociedade porque não sabemos o que a imaginação das pessoas poderá criar. Sempre digo aos meus alunos que, se pudéssemos voltar a 1500 e nos dissessem que estávamos entrando no mundo capitalista, seríamos capazes de dizer como seriam as estruturas no século XX? Não, não seríamos capazes de prever as estruturas. Apenas saberíamos estar nos movendo em uma certa direção. E é o que também sabemos agora. Elas poderão ter o que chamo de espírito de Davos [Fórum Econômico Mundial] ou o espírito de Porto Alegre [Fórum Social Mundial]. É uma visão geral, impossível de ser detalhada.

Nos anos 90, o sr. comentou que o mundo viveria um período de mais 50 anos de grandes conflitos. Desde então, a Guerra no Iraque ainda não terminou. Há mais por vir?

Sim, e eu acredito que mais importante do que as guerras entre países serão os conflitos internos dos países. Por isso eu disse que os governos estão com medo. O governo chinês e o governo americano estão preocupados. Acredito que uma guerra civil nos Estados Unidos não seja impossível. Se você segue a política americana, repara o que certas pessoas da direita falam do governo. Observe que pode haver algumas ações, sérias em termos de violência, que podem ter algum suporte da população.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Produtividade no setor público supera a do setor privado

O Ipea avaliou a evolução da diferença de produtividade entre esses dois setores entre 1995 e 2006. O presidente do instituto, Marcio Pochmann (foto) afirma que “Há muita ideologia e poucos dados nas argumentações de que o Estado é improdutivo, e os números mostram isso: a produtividade na administração pública cresceu 1,1% a mais do que o crescimento produtivo contabilizado no setor privado, durante todo o período analisado”.
Fonte: Carta Maior


A administração pública é mais produtiva do que o setor privado. Essa foi uma das conclusões a que chegou o estudo Produtividade na Administração Pública Brasileira: Trajetória Recente, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. O Ipea avaliou a evolução da diferença de produtividade entre esses dois setores entre 1995 e 2006.

Em todos os anos pesquisados, a produtividade da administração pública foi maior do que a registrada no setor privado. E essa diferença foi sempre superior a 35%”, afirmou o presidente do Ipea, Marcio Pochmann, ao divulgar o estudo. “No último ano do estudo [2006], por exemplo, a administração pública teve uma produtividade 46,6% maior [do que a do setor privado]. O ano em que essa diferença foi menor foi 1997, quando a pública registrou produtividade 35,4% superior à da privada”.

O estudo diz que entre 1995 e 2006 a produtividade na administração pública cresceu 14,7%, enquanto no setor privado esse crescimento foi de 13,5%. “Há muita ideologia e poucos dados nas argumentações de que o Estado é improdutivo, e os números mostram isso: a produtividade na administração pública cresceu 1,1% a mais do que o crescimento produtivo contabilizado no setor privado, durante todo o período analisado”.

Segundo o Ipea, a administração pública é responsável por 11,6% do total de ocupados no Brasil. No entanto, representa 15,5% do valor agregado da produção nacional. “A produção na administração pública aumentou 43,3% entre 1995 e 2006, crescimento que ficou mais evidente a partir de 2004. No mesmo período, os empregos públicos aumentaram apenas 25%. Isso mostra que a produtividade aumentou mais do que a ocupação”, argumentou o presidente do Ipea. "Esse estudo representa a configuração de uma quebra de paradigma, porque acabou desconstruindo o mito de que o setor público é ineficiente”, defendeu Pochmann.

Entre os motivos que justificariam o aumento da eficiência produtiva da administração pública, Pochmann destacou as recentes inovações, principalmente ligadas às áreas tecnológicas que envolvem Informática; os processos mais eficientes de licitação; e a certificação digital, bem como a renovação do serviço público, por meio de concursos.

O presidente do Ipea lembrou ainda que as administrações estaduais que adotaram medidas de choque de gestão, como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, não constam entre aquelas com melhor desempenho na produtividade. "Ou tiveram ganho muito baixo, ou ficaram abaixo da média de 1995 a 2006", afirmou, ressalvando que essa comparação não era objetivo do estudo, mas foi uma das conclusões observadas.

Nazareno Stanislau Affonso

Artigo de Nazareno Stanislau Affonso em artigo na revista do Ipea Desafios/agosto 2009. Stanislau Affonso, é coordenador do MDT (Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público de Qualidade) e do escritório da ANTP Brasília, diretor do Instituto RUAVIVA, integrante do Conselho das Cidades e da Coordenação do Fórum Nacional da Reforma Urbana.
Fonte: UNISINOS





Em 2007 o governo e a indústria automobilística comemoraram a fabricação dos 50 milhões de veículos em 50 anos, colocando o Brasil no 9º lugar entre os produtores e 11º exportador mundial. A Anfavea dizia que os próximos 50 milhões deveriam acontecer em 15 anos, caso o governo desse "estímulo ao consumo interno, apoio à engenharia e incentivo à produção e exportação".

Os automóveis e as motocicletas estão no centro da crise de mobilidade, figurando entre as principais causas dos congestionamentos, do aumento da poluição e dos acidentes com mortos e feridos, com as cidades pagando alto custo, principalmente os usuários de transportes coletivos. Em 1998, pesquisa sobre congestionamentos em dez capitais, do Ipea/ANTP, apontava um custo de R$ 5 bilhões, responsável por 15% de aumento das tarifas públicas.

Enquanto o transporte público urbano espera por medidas de desoneração tributária, justiça social nos pagamentos das gratuidades - hoje pagas pelos usuários - e investimentos em infraestrutura, o governo federal e os estados de São Paulo e Minas Gerais injetaram R$ 8,5 bilhões para manter os financiamentos para automóveis, sob pretexto de que seu bom desempenho favorece a economia,.

Em 2008 os fabricantes de automóveis foram ajudados pela isenção da Cide-combustíveis, pela redução da alíquota do IOF na compra de motocicletas, motonetas e ciclonetas por pessoas físicas, e pela redução do IPI da indústria automobilística, representando importantes renúncias fiscais. A Fenabrave festejou um crescimento de 27,8% nas vendas entre 2006 e 2007, atingindo 2,3 milhões de automóveis comercializados. Em 2008 festejou novo recorde, o maior da história, crescendo 14% sobre 2007 (de 2,3 milhões para 2,6 milhões), a despeito da crise internacional que afetou profundamente a indústria automobilística em todo o mundo.

Os dados são contundentes quanto às perdas sociais e econômicas que esse modelo de mobilidade promove no país: o transporte público, uma solução sustentável e que cria cidades mais baratas e eficientes, recebe seu primeiro golpe, quando a Constituição passa a competência para os municípios investirem e gerirem os transportes públicos, sem prover os recursos condizentes, além de inviabilizar as propostas de se criar um fundo de investimentos permanente para essa política. Nessa política rodoviarista e focada nos automóveis, houve o fim dos bondes, as ferrovias urbanas foram sucateadas, e os ônibus perderam 20 bilhões de passageiros entre 1992 e 2005, deixando de arrecadar R$ 29 bilhões (ANTP) .

Como o uso do automóvel relaciona-se à renda da população, fica claro o abismo existente entre o consumo dos que ganham até R$ 250 e mais de R$ 3.600: para os últimos, o consumo de energia é 9 vezes maior, o de combustível 11 vezes, despejam 14 vezes mais poluentes no meio ambiente e 15 vezes mais acidentes de trânsito. Comparando o transporte público com os automóveis, vemos mais absurdos: os automóveis são responsáveis por 83% dos acidentes; 76% da poluição e sofrem apenas 38% dos congestionamentos dos quais são a maior causa, enquanto os que usam transporte público sofrem 62%.

Com relação aos subsídios totais ao transporte urbano nas regiões metropolitanas por modo: autos/motos/táxi recebem de R$ 10,7 bilhões a R$ 24,3 bilhões/ano (86% dos recursos), enquanto os transportes públicos recebem de R$ 2 bilhões a R$ 3,9 bilhões (14%), apesar de transportarem 31% das viagens contra 30% dos automóveis. Esses subsídios referem-se apenas à compra e licenciamento de veículos, operação direta, estacionamento e externalidades não cobradas (poluição, acidentes, congestionamento).

Embora não haja aqui espaço para se aprofundar sobre o que levou o país a optar por essa política de mobilidade centrada nos automóveis, que aumenta a exclusão social e a poluição e promove um genocídio no trânsito, é possível demonstrar que há soluções, mas que pressupõem vontade política, responsabilidade pelo futuro das próximas gerações e pela sustentabilidade do planeta.

Para isso, utilizarei algumas das propostas apresentadas pelo MDT (Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público de qualidade para todos) na 8ª Jornada Brasileira na cidade, sem meu carro, cuja campanha era "a rua é das pessoas e não dos carros":

1. Transformar os estacionamentos na via pública em aumentos de calçadas, ciclovias e faixas exclusivas de ônibus, ou em jardins, limitando o estacionamento nos centros urbanos aos residentes;

2. Garantir que todo investimento em novas ruas, incluindo os viadutos, seja para pedestres, ônibus e bicicletas;

3. Utilizar faixas de vias, hoje dos automóveis, para implantar corredores exclusivos de ônibus, e que esses sejam fiscalizados para não serem invadidos;

4. Criar um fundo de mobilidade urbana municipal com recursos provenientes da Cide-combustível, de pedágios urbanos e da taxação de estacionamentos, prestando conta publicamente, todo ano, da sua aplicação;

5. Promover o planejamento racional das ruas pela prefeitura, integrando as linhas de ônibus, as bicicletas, as calçadas acessíveis e os carros às linhas de ferrovia e metrô e aos corredores exclusivos de ônibus.

Nosso sonho é construir cidades em que os vários espaços sociais sejam valorizados, promovendo a inclusão da cidade real.


Penso que a proposta mais importante seria o retorno das redes ferroviárias não só nas cidades, mas em todo o País. Teriam que ser exigidas políticas de investimento nessa modalidade de transporte que permitiriam deslocamento maior (barato e rápido) de pessoas para participar de eventos vários em outras cidades, por exemplo.
Enoisa


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O Memorial Virtual Frei Tito é um espaço dedicado a um dos maiores símbolos da luta pelos direitos humanos e pela democracia na América Latina e Caribe. Cearense, filho, irmão, frade, ativista, preso político, torturado, exilado, mártir... Conhecer a história de Frei Tito é fundamental para entender as lutas políticas e sociais travadas nos últimos 40 anos contra a tirania de regimes ditatoriais. Neste hotsite colocamos à disposição documentos, fotos, testemunhos, textos e outras informações sobre a vida de Tito de Alencar Lima, frade dominicano que colaborou com a luta armada durante a ditadura militar no Brasil.

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O Fórum Social Mundial (FSM) é um espaço aberto de encontro – plural, diversificado, não-governamental e não-partidário –, que estimula de forma descentralizada o debate, a reflexão, a formulação de propostas, a troca de experiências e a articulação entre organizações e movimentos engajados em ações concretas, do nível local ao internacional, pela construção de um outro mundo, mais solidário, democrático e justo. Em 2009, o Fórum acontecerá entre os dias 27 de janeiro a 1° de fevereiro, em Bélem, Pará. Para saber mais, clicar na figura.

Fórum Mundial de Teologia e Libertação

Fórum Mundial de Teologia e Libertação
É um espaço de encontro para reflexão teológica tendo em vista contribuir para a construção de uma rede mundial de teologias contextuais marcadas por perspectivas de libertação, paz e justiça. O FMTL se reconhece como resultado do movimento ecumênico e do diálogo das diferentes teologias contemporâneas identificadas com processos de transformação da sociedade. Acontecerá entre os dias 21 a 25 de janeiro em Bélem, Pará, e discutirá o tema "Água - Terra - Teologia para outro Mundo possível". Mais informações, clicar na figura.

IBASE

IBASE
O Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) foi criado em 1981. O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, é um dos fundadores da Instituição que não possui fins lucrativos e nem vinculação religiosa e partidária. Sua missão é de aprofundar a democracia, seguindo os princípios de igualdade, liberdade, participação cidadã, diversidade e solidariedade. Aposta na construção de uma cultura democrática de direitos, no fortalecimento do tecido associativo e no monitoramento e influência sobre políticas públicas. Para entrar no site do Ibase, clicar na figura.

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Foi lançado no circuito comercial o DVD do documentário "O longo amanhecer - cinebiografia de Celso Furtado", de José Mariani. Para saber mais, clicar na figura.

O malabarismo dos camaleões

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Estranha metamorfose: os economistas e jornalistas que defenderam, durante décadas, as supostas qualidades do mercado, agora camuflam suas posições. Ou — pior — viram a casaca e, para não perder terreno, fingem esquecer de tudo o que sempre disseram. Para ler, clicar na figura.

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A expansão dos serviços públicos gratuitos pode ser uma grande saída, num momento de recessão generalizada e desemprego. Mas para tanto, é preciso vencer preconceitos, rever teorias e demonstrar que a economia não-mercantil não depende da produção capitalista. Para ler, clicar na figura.