quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Entrevista - Allen Shawn


Medo revelado



por Eduardo Fonseca
Fonte: CULT ON-LINE



Compositor, pianista e professor, Allen Shawn (foto) não é nenhum especialista em fobias. É antes uma vítima que resolveu colocar no papel os problemas gerados pelas suas próprias fobias. Seus medos não são poucos e se estendem a diversos objetos: altura, água, campos abertos, estacionamentos, túneis e estradas desconhecidas. Clinicamente, ele chamado de agorafóbico, uma pessoa que tem medo tanto de espaços públicos quanto de isolamento. No dia-a-dia, ele é um cidadão de meia idade (nascido em 1948), casado, pai de três filhos, que se dispôs a fazer uma auto-avaliação sob o ponto de vista de um homem que sofre determinado mal e que resolve ir atrás de suas causas e conseqüências. O título de seu livro, lançado há dois meses, "Bem que eu queria ir", retrata bem a atmosfera que cerca o autor. Um ambiente que lhe exige quebrar barreiras que, inexplicavelmente, para ele, são intransponíveis. "Às vezes tenho convites para tocar na Europa, na Austrália, Nova Zelândia, mas não posso ir. Nem sempre consigo estar onde gostaria", lamenta.

Para Shawn, a escrita de sua trajetória de vida, que inclui memórias, reflexões e pesquisas científicas, foi uma atividade árdua, mas que lhe suscitou, além de muitas descobertas, "muitos sentimentos". Segundo afirma, diversas pessoas passaram a se reconhecer com o que ele dizia. Pessoas comuns que nem são diagnosticadas como fóbicas, mas que sofrem com suas próprias ânsias. Pois, hoje, ele analisa, "há muitas maneiras de estarmos angustiados mentalmente". Por telefone, de sua casa no estado de Vermont, nos EUA, Shawn fala à CULT sobre seu livro e sua experiência entre a vida e o medo.


CULT - O livro " Bem que eu queria ir " descreve as suas próprias dificuldades. Fazer uma revisão tão honesta de sua vida não abriu as feridas? O senhor sofreu ao fazer um balanço das suas limitações?

Acontece algo interessante quando você se dispõe a escrever, porque você começa a visualizar os seus problemas e, se estiver relaxado, automaticamente começa a recordar detalhes e até experiências completas que havia esquecido. De diversas formas me foi muito dolorido escrever esse livro. Ele suscitou muitos sentimentos e tive que lidar com minha vergonha ao perceber que tinha muitos problemas que não estava realmente disposto a comentar. Mas, por outro lado, me trouxe sentimentos positivos, pois estava revelando a um leitor sobre o meu interior. E nosso interior, hoje em dia, se tornou uma das coisas mais interessantes para se discutir. Eu não escrevi para reclamar das coisas que acontecem comigo ou que me deixaram assim. Escrevi e, posteriormente, senti uma esperança de que outras pessoas poderiam achar coisas valiosas naquilo que estava compartilhando, que elas poderiam achar algo maior do que eu pensava ter escrito.


CULT - No livro, o senhor faz a seguinte declaração: "para tudo o que fiz, há muito mais de que desisti". A constatação da paralisação e impotência diante da vida pode ser frustrante. Escrever o livro ajudou a resolver algumas de suas frustrações?


Acho que o equilíbrio entre algo positivo e negativo é muito tênue. De certa forma, não sou uma pessoa retraída. Eu gosto de arte, música contemporânea, gosto do ato de se expressar, de dar opinião. Faço concertos como pianista, ministro aulas, dou palestras... Então, sou capaz de passar por cima de muitos medos que todos nós temos. Pegar esse lado negativo da nossa vida e transformá-lo em algo positivo é louvável. Seria ótimo se pudesse dizer que consegui controlar todos meus medos de forma tão eficiente assim, mas não é o caso. Mesmo assim, diante daquilo que ainda me é negativo, resolvi tomar uma atitude e investigar. Fui um privilegiado, pois consegui transformar em palavras, com algum mérito literário, uma parte desse meu lado negativo e, com isso, atingir pessoas que realmente não sabiam que esses problemas são importantes. As pessoas passaram a se reconhecer com o que eu dizia. E eu espero que, a cada dia, mais pessoas se identifiquem. Pois hoje há muitas maneiras de estarmos angustiados mentalmente. E a vida das pessoas não precisa ser fielmente parecida com a minha para termos o mesmo tipo de problema.

CULT - A sua família é incomum e criativa. Seu pai, o prestigiado jornalista William Shawn, era fóbico e levava uma vida dupla, sua irmã gêmea Mary é autista, sua mãe, a jornalista Cecile Lyon, negava a origem judaica e também era fóbica. Seu irmão é o conceituado dramaturgo Wallace Shawn. Acredita que as neuroses são transmitidas geneticamente ou a convivência com elas tem influência no padrão de comportamento?

Eu sou só um músico, não um cientista. Mas eu sinto que a genética tem um papel importante nesse tipo de questão. No caso da minha irmã, por exemplo, percebo que os pais que têm filhos autistas carregam algumas características do autismo dentro da personalidade. Ninguém diria que os pais de alguém autista também são autistas, mas existe essa peculiaridade. Acho que todos os membros da minha família possuem alguns ingredientes para terem problemas psicológicos. Agora, a maneira em que somos criados obviamente causa grande impacto também. Se eu tivesse crescido num lugar diferente, com uma família diferente, se tivesse sido levado para acampar, pescar, para viagens de avião, provavelmente teria desenvolvido um sentimento de segurança a respeito dessas coisas. Por outro lado, acredito que teria essas tendências biológicas ligadas à ansiedade se manifestando em outras coisas. Mas no que acredito mesmo é que as coisas que fazemos de maneira feliz e confortável com a família preservam a gente de muitos problemas futuros.

CULT - Você tem três filhos, como você os observa em relação a seus problemas? Você acha que de alguma forma eles herdaram alguns de seus medos?

Acho que não. Fui casado duas vezes, minha esposa atual é uma pianista japonesa e temos um filho de 1 ano. Então não dá para saber da personalidade dele, apesar de parecer um menino muito feliz. Mas meus outros dois filhos, de 20 e 24, têm certa ansiedade, mas de um tipo diferente da minha. O importante é não mostrar a nossos filhos os nossos próprios medos. Se você mostrar a um macaco, por exemplo, um filme de um outro macaco assustado por alguma coisa, isso irá influenciá-lo . Medo é contagioso. Se você vê seu pai reagindo a algo com medo, isso é uma imagem muito poderosa. Então fiz o melhor para mostrá-los que as coisas que me perturbavam não eram perigosas, que se tratava de um problema pessoal estritamente meu.

CULT - A agorafobia é isoladora. O senhor cita a escritora Emily Dickinson que vivia pânicos constantes e, no entanto, possui uma obra espetacular. As fobias ajudam a criatividade? Kafka teria existido sem as suas fobias?

Eu acho que esse tipo de hiper-sensibilidade é constantemente associada a uma percepção aguda de aspectos da vida que muitos não se dão conta de que existem. Todos temos diferentes percepções de mundo, pois há tanta informação circulando que é impossível perceber tudo que acontece de uma mesma maneira. Cada um tem sua sensibilidade. Agora, um certo nível de fobia na vida envolve reflexão do que está acontecendo. Medo e reflexão andam muitas vezes lado a lado. Se você pensa em guerras, por exemplo, você poderá ver isso. O que um soldado deve fazer quando ele tem que subir um morro se teoricamente ele sabe que lá no alto será atingido por uma bala? O soldado tem que fechar sua mente para o medo, mas também para o que está acontecendo em volta. Então, de certa forma, quando você sente medo, você está experimentando o mundo de uma forma muito intensa. Existem, contudo, níveis de medo. Acho que é necessário ter grande sensibilidade para se expressar artisticamente, mas isso não quer dizer que essa sensibilidade seja condicionada a alguma fobia.

CULT - O senhor cita muito Darwin em seu livro. Qual é a importância dele para o entendimento das neuroses?

Acho que no fundo de tudo somos parte da natureza. Nos achamos realmente muito espertos, mas vivemos em um mundo em que só escutamos a nossa própria voz. É essa a grandiosidade do homem: só escutar a si mesmo. Não escutamos os insetos, os pássaros, os ursos... A verdade é que somos parte da natureza tanto quanto esses animais, e todos temos uma reação fisiológica em relação ao mundo. Ler Darwin me ajudou a ver que, quando me sinto miserável, de alguma maneira estou colocando uma dimensão humana num problema fisiológico. Uma dimensão que deveríamos ver como parte do mundo e não como algo isolado, nosso. Deveríamos relacionar esse sentimento a outras pessoas. Eu aprendi a ver meus defeitos como algo vasto, complicado e misterioso e, sendo assim, como uma beleza particular. Isso demanda uma visão mais poética do mundo.

CULT - O processo fóbico é um círculo neurobiológico contínuo que se alimenta apenas de si próprio. Quando o alarme do pânico dispara, pela sua experiência, qual é a saída?

Acho que o caminho é entender a ansiedade o mais cedo possível e tentar reconstruir a trilha que ela faz para mudar a nossa reação diante dela. Temos que aprender a não entrar em pânico devido simplesmente ao pânico em si mesmo. Existe um ciclo que ocorre quando se está ansioso que faz com que, quando a ansiedade nos acomete, a gente reaja de uma forma que a potencializa. Então, saber do que se trata a ansiedade e, fundamentalmente, saber que não estamos morrendo ou ficando loucos já é um grande passo. Nesse sentido, acho que os terapeutas cognitivos estão no caminho certo. Eu também acredito na boa e velha psicologia. O importante é viver uma vida plena e não superficial.

CULT - Neste sentido você acha que a religião pode cumprir um papel importante?

Bom, eu sou um compositor e não se pode ser um compositor sem uma crença forte em algo. Quando eu escuto J.S.Bach, enquanto a música toca, eu sou um crente. Mas não tenho uma prática religiosa. Meus pais são ateus. Independente disso, porém, tenho um grande respeito pela religião e não acho que há algo que possa substituí-la. Estamos cometendo um grande erro ao tentar achar um equivalente para a religião na nossa vida cotidiana. Pois acredito que ela seja o único instrumento que nos faz abaixar a cabeça para a natureza e, dessa forma, nos torna parte de algo maior.

CULT - Como a leitura de Freud o ajudou a compreender a sua doença?

Freud era um grande escritor que conseguiu conversar sobre as profundas experiências das pessoas. Ele abriu um território totalmente novo que estava fechado na vida interior das pessoas. Se eu tenho uma crença, seria a de que cada pessoa é um continente. Que aquilo que acontece dentro das pessoas importa, e muito! Não digo que Freud é preciso em tudo que diz, mas foi um desbravador.

CULT - No livro não fica claro se o senhor utiliza algum medicamento. O senhor toma remédios? Tem o acompanhamento de um psiquiatra ?

Eu faço análise, o que me ajuda a ficar mais tranqüilo. Quanto a medicamentos, não os tomo. Se eu tivesse 30 anos hoje, eu definitivamente experimentaria medicamentos. Mas aos 60 já não consigo, embora aparentemente muita gente tenha sucesso com tais tratamentos.

CULT - Mas qual a diferença em tomar medicamentos aos 30 e aos 60? Por que você os tomaria no passado e hoje se recusa?

É complicada essa questão, mas acho que eu não deveria ter criado uma resistência radical aos remédios, pois muitas reações fóbicas que tenho provavelmente seriam mais fáceis de serem superadas com um medicamento. O meu problema é que os remédios deixam as pessoas passivas demais, desanimadas, e eu ainda prefiro estar ansioso, mas excitado.

CULT - O fóbico acredita que seus pensamentos terríveis podem mudar a ordem das coisas, que a catástrofe de suas idéias pode interferir nos acontecimentos (um pensamento mágico). Quando é provado que nada aconteceu de trágico - ao atravessar uma rua, por exemplo - isso não diminui a sensação de pavor? E, caso a resposta seja negativa, por qual motivo isso não acontece?

Seria muito bom se esse tipo de pensamento lógico funcionasse na cabeça de um fóbico, mas infelizmente não é assim que acontece. Acredito que o temor que sentimos não está localizado em seu objeto figurativo. Não é o avião que vai cair, não é a ponte que nos causa medo. No fundo, o medo do fóbico é o seu próprio pânico que ali se materializa de uma maneira figurativa. Seria um pânico travestido de algo que envolve a sobrevivência, por exemplo. O objeto do medo me parece uma maneira do fóbico lidar e vivenciar o seu pânico, de colocá-lo para fora de si por algum momento.

CULT - O senhor escreve sobre a vergonha desse aspecto de sua personalidade. Como lidar com isso agora que seu problema se tornou público?

Não senti preconceito por parte das pessoas. Senti até mais tranqüilidade a respeito de mim mesmo, passei a não ter mais certas posturas que não condiziam com minha vontade. Foi uma ótima experiência.

CULT - A OMS (Organização Mundial de Saúde) divulgou recentemente uma pesquisa alarmante: em 2030 a depressão será a doença mais comum do mundo. Algumas escolas médicas acreditam que distúrbios de ansiedade, pânicos e fobias têm origem em personalidades depressivas. Os laboratórios vão produzir um remédio capaz de conter esse mal? As terapias cognitivas e as análises vão evoluir? Você é um otimista?

Esses dados são incríveis. Mas acredito que o mundo não é mais deprimente do que era no século XIV, quando havia pragas que matavam milhares de pessoas, quando havia muitas guerras e escravidão. O mundo não está ótimo, mas não está pior do que um dia já foi. Eu diria que essa constatação foi um ponto que me motivou a escrever esse livro. Porque é terrivelmente deprimente sentir-se mal a respeito de si mesmo e não ter um motivo pleno. Então não escrevi um livro de alguém lamentando a sua vida. Trata-se mais de um contra-ataque ao sentimento de desespero. Kierkegaard (filósofo dinamarquês) fala que desespero é um pecado original. E isso é muito interessante, porque a vida é uma grande oportunidade e temos que aproveitá-la. Então é péssimo saber de tais dados que apontam a depressão como o principal problema de saúde no futuro. As pessoas têm que se conectar mais às outras. Existe uma crise de sentido no mundo. Se a vida tem um sentido, ela pode ser trágica e triste, mas a gente se agüenta em pé. Se eu ficar uma tarde vendo televisão neste país, eu fico tão deprimido... Mas se escuto Mozart, Bach, Schoenberg, consigo vislumbrar sentido. O problema é que estamos cercados por um monte de lixo que não nos diz nada. Isso é desmoralizante.




Bem que eu queria ir
Allen Shawn

Companhia das Letras
312 pp.
R$ 48

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Marco Aurélio Weissheimer


Não é possível pensar o desenvolvimento dos Estados, desvinculado de um projeto de país’


Não é mais possível que um Estado pense uma política de desenvolvimento local desvinculada da vertente nacional. A guerra fiscal, muito praticada no país nas últimas décadas, é uma equação de soma zero. Isso não é projeto de país. A avaliação é do presidente do IPEA, Marcio Pochmann, que participou em Porto Alegre de um seminário para pensar o futuro do Rio Grande do Sul e a possibilidade de projetos de desenvolvimento regional. Para Pochmann, o modelo de desenvolvimento fordista de São Paulo, outrora chamado de "locomotiva do país", está ultrapassado e precisa ser superado. A reportagem é de Marco Aurélio Weissheimer e publicada pela CartaMaior, 07-11-2009.
Fonte: UNISINOS


O Brasil terá uma grande oportunidade em 2010 de discutir um projeto de longo prazo para o país. Será uma oportunidade singular no ciclo de 24 anos de redemocratização, pós-ditadura militar. Neste período, os momentos eleitorais foram contaminados por debates conjunturais determinados pelos sérios constrangimentos econômicos internos e externos vividos pelo país. Agora, estão dadas as condições para discutir o Brasil que queremos e não apenas questões conjunturais. A avaliação é de Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), que abriu sábado pela manhã, em Porto Alegre, o ciclo de seminários Diálogos RS – Para Pensar o Rio Grande do Sul, uma promoção do PT gaúcho e da Fundação Perseu Abramo.


Pochmann esteve em Porto Alegre para falar sobre “Desenvolvimento regional e local, o desafio da sustentabilidade ambiental, dos sistemas locais de produção e do trabalho”. Ele iniciou sua intervenção contextualizando o tema no atual período histórico que vive o país. “É importante lembrar que o Brasil ainda não tem uma tradição democrática. Em 500 anos de história, não temos 50 anos de democracia”. No período da redemocratização, acrescentou, o debate sobre o modelo de desenvolvimento se deu com o Brasil numa situação muito enfraquecida e periférica em relação ao capitalismo central. “Hoje, queremos assumir uma condição de liderança no cenário global e não ser um mero replicador de políticas definidas no exterior. Não avançaremos na marcha da insensatez que caracteriza o atual modelo destruidor do meio ambiente”.


O presidente IPEA do apresentou três elementos para orientar esse debate:


1. Economia do Conhecimento: cerca de 70% dos postos de trabalho gerados atualmente já são de trabalho imaterial. Está em curso um crescimento dos ativos vinculados ao trabalho imaterial, onde as pessoas não têm horários nem locais fixos de atuação. É um novo tipo de riqueza que está surgindo.

2. Sustentabilidade ambiental: não podemos mais imaginar que o novo padrão de desenvolvimento se dará repetindo o passado. Esse debate precisa levar em conta as características próprias de cada um dos seis biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. E deve considerar também o processo de inovação tecnológica que altera profundamente nossa relação com o meio ambiente. Pochmann chamou a atenção ainda para a relação entre as mudanças climáticas e os impactos que já estamos assistindo quanto ao uso de recursos hídricos e à produção de alimentos. “A se manter a tendência atual de mudanças climáticas, em pouco tempo o café só poderá ser produzido no Rio Grande do Sul”, exemplificou.

3. Nova demografia: Em 2030, deveremos ser 207 milhões de brasileiros (um número menor do que as expectativas projetadas anos atrás). Em 2040, seguindo a tendência atual, seremos 205 milhões. Considerando essa diminuição, cabe perguntar: interessa ao Brasil conter a população? Estamos vivendo um processo de envelhecimento populacional e de queda na taxa de fecundidade. Em 1992, tínhamos 34% da população até 15 anos de idade. Em 2008, esse número caiu para 24% e, em 2030, deverá ser de apenas 12%. Além disso, presenciamos também uma nova revolução sexual, com um descolamento da reprodução do sexo. Com as novas técnicas de fecundação, não é mais necessário ter sexo para se ter filhos. Também constatamos hoje um aumento da expectativa de vida dos brasileiros que, em alguns anos, poderá se aproximar dos 100 anos. Já temos hoje cerca de 3 milhões de pessoas com mais de 80 anos no Brasil. Esses dados indicam que estamos passando por um processo de mudanças dramáticas nas famílias brasileiras, com importantes conseqüências econômicas, sociais, culturais e educacionais.

Pochmann considera esses elementos fundamentais para fazer o debate sobre desenvolvimento regional. E essa avaliação já aponta para uma de suas teses centrais a respeito do tema: não é mais possível que um Estado pense uma política de desenvolvimento local desvinculada da vertente nacional. A guerra fiscal, exemplificou, muito praticada no país nas últimas décadas, é uma equação de soma zero. “Isso não é projeto de país”.

“O Rio Grande do Sul precisa rever a sua estratégia”

O debate sobre desenvolvimento regional deve-se livrar das amarras do passado, defende ainda Pochmann. “Não se trata mais do antigo regionalismo dos anos 30, quando se dizia que São Paulo, chamada de locomotiva do país, puxaria os vagões dos demais Estados. A estes restaria tentar copiar o modelo da locomotiva”. Foi isso, acrescenta, que nos levou, por exemplo, a introduzir uma indústria no meio da floresta, nos anos 60-70, a Zona Franca de Manaus. “Esse modelo de desenvolvimento fordista de São Paulo está ultrapassado. É verdade que vários estados brasileiros (o que não é o caso do Rio Grande do Sul) estão numa condição pré-fordista, mas eles não precisam passar pelo fordismo para atingir um novo patamar de desenvolvimento”. Mas como fazer isso então.

Para o presidente do IPEA, ganha força a possibilidade de sustentar o desenvolvimento a partir da base da pirâmide social que, no governo Lula ganhou uma forte rede de proteção social. “O Rio Grande do Sul precisa rever sua estratégia. Trata-se de um Estado que ainda mantém uma desigualdade singular. A Metade Sul vive como se estivesse no século XIX. A Região Norte, fortemente marcada pela agropecuária, tem o perfil do século XX. E a Região Nordeste apresenta setores mais dinâmicos, alguns deles apontando para o que estamos vendo nascer no século XXI”. Enfrentar essa situação de desigualdade é crucial, destaca Pochmann. Além disso, ele chama a atenção para a importância dessa política regional estar em sintonia com os movimentos nacionais:

Não cabe mais cada Estado pensar políticas separadas, como se não fizessem parte de um projeto nacional. É preciso se inserir nesta vertente nacional. Políticas como a da guerra fiscal, uma equação de soma zero, não nos leva a lugar algum. Não podemos seguir reproduzindo o passado e sendo governado pelos mortos.” Pochmann avançou na apresentação de algumas propostas que, na sua opinião, apontam para o futuro e para um projeto articulado de desenvolvimento nacional.

Precisamos reinventar o mercado, que está cada vez mais longe da livre iniciativa, dominado por grandes corporações. Estamos caminhando para um mundo com a economia dominada por aproximadamente 500 corporações. A China já definiu que quer ter 150 destas grandes corporações. Nós precisamos avançar no fortalecimento dos micro e pequenos negócios. Para isso, entre outras coisas, precisamos ampliar o número de bancos destinados a estes setores, como faz o Japão, por exemplo. Nós estamos caminhando na direção contrária. Nos últimos dez anos, o número de bancos no Brasil caiu de 230 para 160”.


Outras medidas para o fortalecimento de micro e pequenas empresas seriam o aporte de tecnologia para esse setor e a adoção de políticas para que possa participar das compras públicas. Mas esse novo projeto de desenvolvimento, salienta o economista, não passa apenas por medidas econômicas. Pochmann fala da necessidade de refundar o Estado brasileiro. “Construímos um Estado de caixinhas e especializações, que têm uma enorme dificuldade de articulação”. Ainda no plano institucional, ele defende a construção de uma nova maioria política que possa dar conta deste processo de mudanças.

Nos últimos anos, vemos o surgimento de novos atores sociais. Milhões de pessoas ascenderam socialmente. Mas onde elas estão organizadas? Não é nem nos sindicatos nem nos partidos políticos. Uma parte expressiva está se organizando em igrejas. Diante deste quadro precisamos avaliar se as instituições que temos hoje estão aptas a conversar com essas pessoas e se apresentam alguma promessa de futuro para elas”.

Tudo isso está no nosso horizonte de decisão, defende Pochmann. “A única coisa que nos impede é o medo, medo de ousar, medo de parar de ser governado pelos mortos”.

domingo, 8 de novembro de 2009

Entrevista - Eric Hobsbawm

O muro interior

Ícone da historiografia de esquerda, o britânico Eric Hobsbawm não perdoa: para ele, o principal efeito da queda do Muro de Berlim, em 1989, foi a desestabilização da geopolítica mundial em prol da única superpotência remanescente - os EUA. Como consequência, o mundo se tornou mais perigoso. A reportagem e a entrevista é de Marcos Flamínio Peres e publicadas pelo jornal Folha de S. Paulo, 08-11-2009. Fonte: UNISINOS


Em "A Era dos Extremos" (Cia. das Letras), ele já defendera os desdobramentos da queda do muro como cruciais para o século XX. Mais do que isso: cruciais para encerrá-lo antes da hora. Daí o termo que cunhou, "breve século XX". Já do ponto de vista econômico, Hobsbawm afirma que o pós-1989 levou a um recorde de desigualdade social nos países da antiga Cortina de Ferro - termo que designava, durante a Guerra Fria, os países comunistas europeus sob influência soviética. Sobre Berlim, cidade que cristalizou a derrocada da velha ordem e o início da nova, o pensador se mostra decepcionado, na entrevista abaixo. Apesar de haver se tornado a capital do Estado mais rico da União Europeia, Berlim não se tornou a virtual capital da Europa - como se esperava 20 anos atrás - nem ficou à altura de seu glorioso passado anterior à ascensão do Terceiro Reich (1933). Coerente, Hobsbawm vê a crise financeira que assolou os mercados financeiros em 2008 como o "Muro de Berlim do neoliberalismo". Ele detecta nesse aparente revés capitalista a possibilidade de rearticulação do pensamento de esquerda - mas desta vez, alerta, em bases "mais realistas".

Passados 20 anos, qual é o legado político e econômico da queda do Muro de Berlim?

O legado econômico é certamente menos dramático do que o político. Economicamente, significou a destruição do que restara de um sistema socialista planejado na União Soviética e na Europa do leste - que já estava em declínio - e a integração da antiga região socialista à economia capitalista global.

Isso levou a um colapso social e econômico na ex-União Soviética, embora, posteriormente, a Rússia e algumas ex-repúblicas soviéticas tenham visto alguma recuperação, baseada nos altos preços da energia e dos insumos industriais.

Com algumas exceções, a região provavelmente permanece, em termos relativos, mais atrás do Ocidente do que estava antes da queda do muro. Ela desenvolveu um nível chocante de desigualdade econômica.

Os efeitos políticos, por sua vez, têm sido enormes. Eles reduziram a Rússia de superpotência a um Estado não maior do que era no século XVII. Além disso, a União Europeia saltou de 15 para 27 Estados, e foi criada uma Alemanha unificada no coração do bloco.

Também foi reintroduzida a guerra [conflito nos Bálcãs nos anos 90] e a instabilidade política na Europa, após o colapso do único Estado comunista, a Iugoslávia. Isso acabou por tornar os Bálcãs mais "balcanizados" do que antes.

Outro efeito da queda do muro foi a destruição de um sistema internacional estável. Isso porque se atribuiu aos EUA a ilusão de que poderiam, como única superpotência global, exercer sua hegemonia no mundo todo - o que acabou por transformar o mundo no lugar perigoso de hoje em dia.

Berlim não se tornou uma das principais capitais europeias, como se previa 20 anos atrás, e a Alemanha, embora rica, foi há pouco superada economicamente pela China. Nesse sentido, a queda do muro foi um fracasso?

Berlim não se tornou uma grande capital europeia porque a reunificação política das Alemanhas Ocidental e Oriental não teve como recriar um país genuinamente unido.

A antiga Alemanha Oriental - embora seus habitantes estejam hoje muito melhor do que estavam antes de 1989 - perdeu sua base econômica para a Alemanha Ocidental. Além disso, apresenta índices de desemprego elevados e continua a perder sua população para a antiga Alemanha Ocidental. Berlim tem muito poucos habitantes para uma cidade com sua importância histórica.

Para quem a visita, ela parece uma pessoa encolhida usando um sobretudo grande demais para seu peso atual. Culturalmente, nunca reconquistou a posição que detinha entre 1871 [quando o Império Germânico inaugurou o Segundo Reich] e a ascensão de Hitler [em 1933].

Isso não quer dizer que a Alemanha como um todo esteja em declínio. Ela, por exemplo, não pode ser comparada com a China (80 milhões de habitantes contra 1,3 bilhão). Mesmo com um PIB maior do que o da Alemanha, a China é muito menos desenvolvida, muito mais pobre e menos capaz em áreas como tecnologia de ponta.

Se há perigos futuros para a Alemanha como potência econômica, eles nascem da relativa lentidão do desenvolvimento econômico da UE.

A queda do muro representou o colapso do pensamento de esquerda?

Ela simbolizou, mas não foi a causa, da crise do pensamento de esquerda, que já vinha desde os anos 1970. Estritamente falando, ela apenas demoliu a crença de que o socialismo de corte soviético (economia planificada comandada por um Estado centralizador que eliminou o mercado e a iniciativa privada) era uma forma factível de socialismo.

Na verdade, como foi a única tentativa de realizar o socialismo na prática, seu fracasso desencorajou os socialistas como um todo - embora a maior parte deles tenha sido crítica do sistema soviético.

Entretanto as raízes da crise da esquerda retrocedem ainda mais. Ela ainda não chegou ao fim, mas o colapso do capitalismo financeiro global em 2008-9 -que foi uma espécie de queda do Muro de Berlim para a ideologia neoliberal - oferece uma chance de reabrir as perspectivas para a esquerda. Mas, espera-se, em uma base mais realista do que no passado.

sábado, 7 de novembro de 2009

''O que vim fazer aqui?''. Lévi-Strauss no Mato Grosso


"Os livros de Claude Lévi-Strauss, a partir do material coletado no Brasil, constituem o corpus mais significativo e filosoficamente interessante da antropologia do século XIX". A opinião é de Umberto Galimberti, filósofo, psicólogo e psicanalista italiano. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 04-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS

Tudo começou com um telefonema às 9h da manhã de um domingo de outono de 1934, quando Célestin Bouglé, tornando-se intérprete de "um capricho um pouco perverso" de Georges Dumas, perguntou a Claude Lévi-Strauss, então com 27 anos, se estava disposto a partir para o Brasil sob o encargo de uma comissão encarregada de organizar a universidade de São Paulo. Lévi-Strauss, que então lecionava no Liceu de Laon, aceitou sem hesitar e partiu para o Brasil, onde permaneceu até 1939.


Nesses cinco anos, além da cátedra de sociologia que lhe havia sido confiada, Lévi-Strauss realizou expedições etnográficas ao Mato Grosso, à Amazônia meridional, entrou em contato com a população dos Caduveus, dos Bororos, dos Nambikwava, dos Tupi Kawahib, e recolheu todo o material que depois ordenaria nos seus livros que, em seu conjunto, constituem o corpus mais significativo e filosoficamente interessante da antropologia do século XIX.


Nunca se deve falar mal da filosofia, porque, até em quem, depois de tê-la frequentado, a despreza, a filosofia trabalha como uma inquietação que rói a alma até que não lhe reste expressão. Aquele que seria o maior antropólogo do século XIX atribui a desilusão do seu aprendizado especulativo ao fato de a filosofia ser estéril como disciplina que se expressa como "système", enquanto pode tornar fecunda se se voltar ao que Lévi-Strauss chama de "concret", como havia feito Marx, que Lévi-Strauss havia lido aos 17 anos.


A sua oposição ao "sistema" se dirige também a todos aqueles antropólogos que haviam preferido as pesquisas "systématisantes", enquanto a verdadeira pesquisa, se quiser evitar conclusões dogmáticas, deverá ser pesquisa "sur le terrain" como a praticada por Marcel Mauss, aluno e sobrinho de E. Durkheim.
Mas nunca são as exigências puramente teóricas que induzem alguém a mudar de céu e a mudar de terra. Quando as estrelas não têm mais a mesma disposição com que aparecem na terra de origem, surge espontânea aquela pergunta que Lévi-Strauss se colocou depois de uma aventurosa peregrinação às florestas do Mato Grosso: "O que viemos fazer aqui? Com qual esperança? Com qual fim? Deixei a França há quase cinco anos, abandonei a minha carreira universitária; a minha decisão expressava uma incompatibilidade profunda com relação ao meu grupo social do qual, qualquer coisa que acontecesse, eu teria que isolar sempre mais".


Com base nessas perguntas e nos incômodos que as promoveram, há um contínuo e extenuante interrogar-se sobre o sentido e sobre o destino da civilização ocidental, das suas crenças e dos seus valores, todos embasados naquele orgulho eurocêntrico incapaz de perceber e de compreender a existência do Outro, não simplesmente teorizada em nível filosófico, mas tocado concretamente com as mãos na forma de outros povos, outras culturas, outras civilizações.


Lévi-Strauss vê outros "antípodas" do Ocidente: "O sinal de uma sabedoria que os povos selvagem praticaram espontaneamente, enquanto a rebelião moderna é a verdadeira loucura. Eles souberam, muitas vezes, alcançar com o mínimo esforço a sua harmonia mental. Economizaremos qualquer depressão, qualquer irritação inútil se aceitarmos reconhecer as condições reais da nossa experiência humana e pensarmos que não depende de nós liberar-nos inteiramente dos seus limites e do seu ritmo?".

 

Essa "antítese", que havia levado Lévi-Strauss a abandonar a Europa, poderia ser agora recomposta pela sua obra se formos capazes apenas de nos darmos conta, além do espírito de busca que a promoveu, da intenção profunda que a gerou e que podemos reassumir no conceito de que, independentemente de quão distantes suas latitudes estejam, e diversos os céus, os homens, se nenhum deles pensa estar no centro do mundo, são entre si muito semelhantes e por isso podem começar a falar e a dizer muito mais coisas do que já foram ditas sobre eles no curso da sua história.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss - 1908 - 2009

A morte do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, aos 100 anos, na madrugada de sábado, em Paris, foi anunciada apenas ontem por colegas acadêmicos. Eles não revelaram a causa da morte, mas, no ano passado, Lévi-Strauss, com a saúde debilitada, não compareceu às homenagens públicas dedicadas pela França ao seu centenário de nascimento. O professor Philippe Descola, que o substituiu no cargo de diretor do laboratório de Antropologia do Collège de France, revelou que ele foi sepultado em Lignerolles, cidade a oeste da França, onde o antropólogo mantinha uma casa de campo. A reportagem é de Antonio Gonçalves Filho e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 04-11-2009.
Fonte: UNISINOS


Seu desaparecimento deixa o mundo menos inteligente e mais dependente de um herdeiro capaz de seguir na trilha aberta por esse que foi um dos maiores intelectuais do século pasado. Numa carreira de mais de 60 anos, Lévi-Strauss, filho de uma família judia de Bruxelas, publicou obras fundamentais que se converteram em clássicos da antropologia e da literatura, dos quais basta citar dois para comprovar sua importância: Tristes Trópicos (1955) e O Pensamento Selvagem (1962).

Lévi-Strauss, considerado o pai da antropologia moderna, é com justa razão lembrado como o reformador da disciplina. Introdutor do conceito de estruturalismo, ele buscou padrões subjacentes de pensamento em todas as formas de atividade humana, concluindo que nossa mente organiza o conhecimento em pares binários e opostos que se estruturam de acordo com a lógica - e isso vale tanto para o mito como para a ciência, segundo o antropólogo, que deu aulas na Universidade de São Paulo (USP).

O antropólogo foi professor na USP até 1938. Desembarcou no cais de Santos em 1935, em companhia do historiador Fernand Braudel (1902-1985), para ocupar a cadeira de sociologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Recepcionado pelo jornalista Julio de Mesquita Filho, então diretor de O Estado de S. Paulo e um dos idealizadores da Universidade de São Paulo, Lévi-Strauss desenvolveu com seus alunos um novo método pedagógico, começando por distribuir uma série de árvores genealógicas individualizadas para provocar uma reflexão sobre sua teoria da aliança.

Segundo essa teoria, "o parentesco tem mais a ver com a aliança entre duas famílias por casamento entre seus integrantes do que com a ascendência de um passado comum".

Não existiria, segundo ele, uma diferença significativa entre o pensamento primitivo e civilizado, tese desenvolvida no clássico O Pensamento Selvagem, considerado seu livro mais importante. Em outras palavras, o "pensamento de selvagens" não passa de uma invenção da modernidade. O que existe mesmo é um pensamento selvagem, atributo de toda a humanidade que podemos encontrar em nós mesmos, garante Lévi-Strauss, mas que, ainda segundo o antropólogo, preferimos buscar nas sociedades exóticas.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Entrevista - John Williamson


''A ideia de que o melhor Estado é o mínimo foi enterrada para sempre", atesta fundador do Consenso de Washington

John Williamson, o economista que cunhou a expressão "Consenso de Washington", diz que o Brasil deve elevar o imposto sobre capital estrangeiro para 4% ou 5% e afirma que a crise financeira enterrou de vez muitos dos princípios do chamado neoliberalismo - principalmente a ideia de que controle de capital é uma heresia. Williamson diz que o Fundo Monetário Internacional (FMI) erra ao condenar a taxa brasileira. A reportagem e a entrevista é de Patrícia Campos Mello e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 01-11-2009.
Fonte: UNISINOS

"O FMI deveria é assessorar os países com ideias para tornar os controles de capital mais eficientes", disse Williamson em entrevista, da sede do Instituto Peterson de Economia Internacional. Segundo ele, no Brasil, a alíquota de 2% do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para o capital estrangeiro "é parcialmente eficiente", então "pode ser necessário elevar o imposto para 4% ou 5%". Em artigo publicado no Financial Times, Williamson e seu colega Arvind Subramanian, do Peterson, criticam o Fundo por ter desaprovado o IOF.

O FMI disse que o imposto iria funcionar apenas temporariamente, porque eventualmente os investidores acham maneiras de burlar esses controles de capital. E não iria adiantar muita coisa se o Brasil não adotasse reformas e apertasse a política fiscal. Para Williamson, o imposto faz parte de um arsenal importante de que os países emergentes dispõem para lidar com excesso de fluxos de capital e superaquecimento da economia.

O sr. acha que foi inadequada a reação do FMI ao imposto sobre capital estrangeiro adotado pelo Brasil? Restrições de capital ainda são inaceitáveis?

Ainda é importante ser "amigável ao mercado", mas os países não devem mais ser dominados ou aceitar de forma passiva o julgamento do mercado, e isso ficou muito claro com a crise. O modelo que era visto como sacrossanto antes da crise asiática, que pregava a mobilidade de capitais, começou a mudar depois da crise da Ásia e completou sua transformação nessa crise.

Quais outros princípios do chamado Consenso de Washington, ou do que ficou conhecido como tal, mudaram por causa da crise?

Hoje se reconhece que há espaço para políticas keynesianas em tempos keynesianos, quando a economia está sofrendo de demanda agregada inadequada. E é necessário estatizar algumas coisas - privatização era uma das palavras de ordem do Consenso. Em alguns momentos, é preciso engatar uma marcha à ré nas privatizações. A ideia de que o melhor Estado é o mínimo foi enterrada para sempre.

O FMI continua não endossando políticas de restrição de capitais.

É um erro o FMI adotar essa postura fria e reservada. O Fundo deveria é assessorar os países sobre as formas mais eficientes de taxar o capital estrangeiro. Deveriam ajudar os países a implementar esse imposto e achar outras maneiras de desencorajar fluxos de capital. Ficar simplesmente dizendo que taxa sobre capital estrangeiro não é uma boa ideia, e dizer que o país tem que fazer todas essas coisas grandiosas antes, como restringir a política fiscal, isso não funciona.

O sr. acha que essa taxa pode ser eficiente, ou é legítima a crítica de que os investidores sempre acham maneiras de burlar esses controles?

É verdade que há maneiras de burlar. A taxa é parcialmente eficiente.

Mas, se é parcialmente eficiente, mesmo assim vale a pena manter o imposto?

Em vez de ter um imposto de 2%, pode ser necessário elevar a taxa a 4% ou 5% no Brasil.

Mas isso não espantaria demais os investidores?

Se os investidores querem ir para o Brasil, eles estão dispostos a pagar. Eu não vejo (essa elevação de taxa) como um ato muito hostil.

O Fundo diz que, com o IOF, o governo brasileiro pode se sentir tentado a adiar algumas reformas necessárias.

Isso é bobagem, pode-se fazer reformas ao mesmo tempo em que se adotam controles de capital.

E o Fundo diz também que esses controles de capital dificilmente vão ser muito eficazes se o Brasil não apertar sua política fiscal e baixar os juros.

De fato, provavelmente está na hora de o Brasil começar a desfazer suas políticas de expansão fiscal. Foi adequado adotar essas medidas no ano passado porque o mundo vivia uma recessão e havia grande perigo, então era necessário ter política fiscal expansionista. Mas agora chegou a hora de o Brasil começar a reduzir gastos do governo e, idealmente, ter um superávit nominal, não apenas primário.

Na reunião anual do FMI em Istambul, havia uma discussão forte sobre a necessidade de o Brasil deixar de acumular reservas e manter um pequeno déficit em conta-corrente. Esse seria o papel do País no processo de correção dos desequilíbrios globais. Mas muitos não concordam com essa ideia, já que o colchão de reservas ajudou o País a sobreviver melhor à crise. O que o sr acha?

Obviamente, há necessidade de um reequilíbrio global, mas não significa que países como o Brasil precisem parar de aumentar suas reservas. Eu não sei se é o melhor uso para os recursos do Brasil aumentar ainda mais o nível de reservas. Mas o principal problema é a China. E o Brasil deveria manter um déficit em conta corrente pequeno e o nível de reservas constante, talvez aumentando um pouco.

O sr. afirma que os países devem ter um arsenal de políticas contracíclicas para lidar com as crises.

Todos os países se beneficiariam de políticas contracíclicas. Mas é importante notar que só se pode iniciar uma política contracíclica na boa fase do ciclo, no alto. É preciso começar a economizar para poder gastar depois. Então agora é um ótimo momento para o Brasil começar.

Há a percepção de que haver maior expansão na política fiscal em 2010, ano de eleições.

Já tem havido expansão demais na política fiscal no Brasil e seria ótimo se os gastos do governo caíssem, mas isso é pedir demais em ano de eleição. Só esperemos que a situação não piore.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Manifesto ''Ética Econômica Mundial - Consequências para os Negócios Globais''

Publicamos aqui a íntegra do Manifesto "Ética Econômica Mundial – Consequências para os Negócios Globais", promovido pela Fundação Ética Mundial e publicado durante um simpósio sobre ética nos negócios na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, no dia 06 de outubro. Desenvolvido pelo teólogo suíço-alemão Hans Küng, presidente da Fundação, o documento busca apresentar “uma visão fundamental comum do que é legítimo, justo e correto” nas atividades econômicas. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Fonte: UNISINOS


Manifesto "Ética Econômica Mundial – Consequências para os Negócios Globais" Sede da ONU, Nova York, 06 de outubro de 2009


Preâmbulo

Para que a globalização da atividade econômica leve à prosperidade universal e sustentável, todos aqueles que fazem parte ou são afetados pelas atividades econômicas dependem de trocas e cooperação comerciais baseadas em valores. Essa é uma das lições fundamentais da crise mundial atual dos mercados financeiros e produtivos.

Além disso, as trocas e a cooperação comerciais justas apenas irão alcançar objetivos sociais sustentáveis quando as atividades das pessoas percebam que seus interesses privados legítimos e sua prosperidade estão inseridos em um marco ético global que goza de ampla aceitação. Esse acordo sobre normas globalmente aceitas para as ações e decisões econômicas – em resumo, para "uma ética do fazer negócio" – ainda está em sua primeira fase.

Uma ética econômica mundial – uma visão fundamental comum do que é legítimo, justo e correto – baseia-se nos princípios e valores morais que, há tempos imemoráveis, têm sido compartilhados por todas as culturas e têm sido sustentados pela experiência prática comum.

Cada um de nós – em nossos diversos papéis como empresários, investidores, credores, trabalhadores, consumidores e membros de diferentes grupos de interesse em todos os países – detém uma responsabilidade comum e essencial, junto com as nossas instituições políticas e organizações internacionais, de reconhecer e aplicar esse tipo de ética econômica mundial. Por essas razões, os signatários desta declaração expressam seu apoio ao seguinte Manifesto.

Manifesto por uma Ética Econômica Mundial

Nesta declaração, os princípios e valores fundamentais de uma economia mundial estão estipulados abaixo, de acordo com a Declaração sobre Ética Mundial, publicada pelo Parlamento das Religiões Mundiais, em Chicago, em 1993. Os princípios deste manifesto podem ser endossados por todos os homens e mulheres com convicções éticas, independentemente se forem religiosamente fundamentados ou não. Os signatários desta declaração comprometem-se a ser guiados por seu conteúdo e por seu espírito nas decisões, ações e comportamentos econômicos cotidianos gerais. Este Manifesto por uma Ética Econômica Mundial leva a sério as regras do mercado e da competição, com a intenção de pôr essas regras em uma base ética sólida para o bem-estar de todos.

Nada mais do que a experiência da crise atual que afeta toda a esfera econômica é o que subjaz à necessidade desses princípios éticos e padrões morais internacionalmente aceitos, aos quais todos nós temos que dar vida em nossas práticas de negócios cotidianas.

I. O princípio de humanidade

Marco ético de referência: Diferenças entre tradições culturais não devem ser um obstáculo ao engajamento na cooperação ativa pela estima, defesa e realização dos direitos humanos. Todo ser humano - sem distinção de idade, sexo, raça, cor de pele, habilidade física ou mental, língua, religião, visão política ou origem nacional ou social - possui uma inalienável e intocável dignidade. Cada um, tanto os indivíduos quanto os Estados, é, portanto, obrigado a honrar essa dignidade e protegê-la. Os seres humanos devem ser sempre os sujeitos dos direitos, devem ser fins e nunca meros meios e nunca devem ser objetos de comercialização e industrialização na economia, na política e na mídia, em institutos de pesquisa ou em corporações industriais.

O princípio fundamental de uma ética econômica mundial desejável é humanidade: O ser humano deve ser o critério ético para toda ação econômica: Isso se concretiza nos seguintes itens para o fazer negócio de uma forma que crie valor e seja orientada aos valores do bem comum.

Artigo 1

O objetivo ética de uma ação econômica sustentável, assim como o seu pré-requisito social, é a criação de um marco fundamental para a sustentabilidade, satisfazendo as necessidades básicas dos seres humanos para que possam viver em dignidade. Por essa razão, em todas as decisões econômicas o preceito mais elevado deve ser que essas ações sempre sirvam à formação e ao desenvolvimento de todos os recursos individuais e capacidades que são necessárias para um desenvolvimento humano verdadeiro dos indivíduos e para que vivam juntos em felicidade.

Artigo 2

A humanidade floresce apenas em uma cultura de respeito pelos indivíduos. A dignidade e a autoestima de todos os seres humanos - sejam eles superiores, colegas de trabalho, parceiros de negócios, clientes ou pessoas envolvidas - são invioláveis. Os seres humanos nunca podem ser maltratados, tanto por formas de agir individuais, quanto por condições comerciais ou de trabalho desonrosas. A exploração e o abuso de situações de dependência, assim como a discriminação arbitrária de pessoas são irreconciliáveis com o princípio de humanidade.

Artigo 3

Promover o bem e evitar o mal é uma obrigação de todos os seres humanos. Portanto, essa obrigação deve ser aplicada como um critério moral para todas as decisões e maneiras de agir. É legítimo buscar os seus próprios interesses, mas a busca deliberada de vantagem pessoal em detrimento do parceiro - isto é, meios antiéticos - é irreconciliável com uma atividade econômica sustentável de vantagem mútua.

Artigo 4

Não faça aos outros o que não quer que seja feito com você. Essa Regra de Ouro da reciprocidade, que, durante milhares de anos, tem sido reconhecida em todas as tradições religiosas e humanistas, promove a responsabilidade, a solidariedade, a equidade, a tolerância e o respeito mútuo entre todas as pessoas envolvidas.

Tais atitudes ou virtudes são os pilares básicos de um ethos econômico global. A equidade na competição e a cooperação para o benefício mútuo são princípios fundamentais de uma economia global sustentavelmente desenvolvida que está em conformidade com a Regra de Ouro.

II. Valores básicos para uma atividade econômica global

Os seguintes valores básicos para a realização de negócios em escala global desenvolvem ainda mais o princípio fundamental de humanidade e fazem sugestões concretas para decisões, ações e comportamento geral para a esfera prática da vida econômica.

Valores básicos: não violência e respeito pela vida

Marco ético de referência: Ser autenticamente humano no espírito de nossas grandes tradições religiosas e éticas significa que, na vida pública e na vida privada, devemos nos preocupar com os outros e estar prontos para ajudar. Todas as pessoas, todas as raças, todas as religiões devem mostrar tolerância e respeito - de fato, uma elevada apreciação - por todas as outras. As minorias - sejam elas raciais, étnicas ou religiosas - requerem proteção e apoio da maioria.

Artigo 5

Todos os seres humanos têm a obrigação de respeitar o direito à vida e seu desenvolvimento. O respeito pela vida humana é um bem particularmente nobre. Portanto, toda forma de violência ou força na busca de objetivos econômicos deve ser rejeitada. Trabalho escravo, trabalho compulsório, trabalho infantil, punições corporais e outras violações das normas internacionais reconhecidas da lei trabalhista devem ser suprimidas ou abolidas. Com grande prioridade, todos os agentes econômicos devem garantir a proteção dos direitos humanos em suas próprias organizações. Ao mesmo tempo, devem fazer todos os esforços para ver se, dentro de sua esfera de influência, não estão fazendo nada que possa contribuir com as violações dos direitos humanos por parte de seus parceiros de negócios ou outras partes envolvidas. De nenhuma forma, eles devem tirar lucro dessas violações.

A deterioração da saúde das pessoas por causa de condições de trabalho adversas deve ser impedida. A segurança ocupacional e a segurança de produção de acordo com a tecnologia atual são direitos básicos em uma cultura de não violência e de respeito à vida.

Artigo 6

O tratamento sustentável do ambiente natural por parte de todos os participantes da vida econômica é um dos mais altos valores-norma para a atividade econômica. O desperdício de recursos naturais e a poluição do meio ambiente devem ser minimizados por meio de procedimentos de conservação dos recursos e tecnologias ambientalmente amigáveis. Energia limpa sustentável (com fontes de energia renováveis tanto quanto possível), água limpa e ar limpo são condições elementares para a vida. Todo ser humano neste planeta deve ter acesso a eles.

Valores básicos: justiça e solidariedade

Marco ético de referência: Ser um autêntico ser humano significa - no espírito das grandes tradições religiosas e éticas - não fazer mau uso do poder econômico e político em uma luta implacável pela dominação. Esse poder, pelo contrário, deve ser usado ao serviço de todos os seres humanos. O interesse próprio e a competição servem para o desenvolvimento da capacidade produtiva e do bem-estar de todos os envolvidos na atividade econômica. Para isso, o respeito mútuo, a coordenação razoável de interesses e o desejo de conciliar e de mostrar consideração devem prevalecer.

A justiça e o papel da lei constituem pressupostos recíprocos. Responsabilidade, retidão, transparência e equidade são valores fundamentais da vida econômica, que sempre devem ser caracterizados pela integridade que respeita a lei. Todos os envolvidos em atividades econômicas são obrigados a cumprir as regras vigentes na lei nacional e internacional. Onde existem déficits na qualidade ou na aplicação das normas legais em um país em particular, eles devem ser superados pelo autocompromisso e pelo autocontrole; sob nenhuma circunstância alguém pode se aproveitar deles em vista do lucro.

Artigo 8

A busca pelo lucro é o pressuposto da competitividade. É o pressuposto da sobrevivência dos empreendimentos de negócios e de seus compromissos sociais e culturais. A corrupção inibe o bem-estar público, prejudicando a economia e as pessoas, porque ela leva sistematicamente à falsa alocação e ao desperdício de recursos. A supressão e a abolição da corrupção e das práticas desonestas, como o suborno, os acordos fraudulentos, a pirataria de patentes e a espionagem industrial, demandam um engajamento preventivo, que é um dever que incumbe a todos aqueles que atuam na economia.

Artigo 9

Um objetivo principal de todo sistema social e econômico que está voltado a oportunidades iguais, justiça distributiva e solidariedade é superar a fome e a ignorância, a pobreza e a desigualdade, em todo o mundo. A autoajuda e a ajuda externa, a subsidiariedade e a solidariedade, o engajamento privado e público - todos esses são dois lados da mesma moeda: eles se concretizam nos investimentos econômicos privados e públicos, mas também nas iniciativas privadas e públicas para criar instituições que sirvam para a educação de todos os segmentos da população e para erigir um sistema integral de previdência social. O objetivo básico de todos esses esforços é um verdadeiro desenvolvimento humano dirigido à promoção de todas essas capacidades e recursos que permitam que homens e mulheres tenham uma vida de autodeterminação com total dignidade humana.

Valores básicos: honestidade e tolerância

Marco ético de referência: Ser autenticamente humano no espírito de nossas grandes tradições religiosas e éticas significa que não devemos confundir liberdade com arbitrariedade, ou pluralismo com indiferença à verdade. Devemos cultivar a integridade e a veracidade em todas as nossas relações, em lugar da desonestidade, da dissimulação e do oportunismo.

Artigo 10

Veracidade, honestidade e confiabilidade são valores essenciais para relações econômicas sustentáveis que promovam o bem-estar humano em geral. Elas são pré-requisitos para a criação de confiança entre os seres humanos e para a promoção de competitividade econômica justa. Por outro lado, também é imperativo proteger os direitos humanos básicos da privacidade e da confidencialidade pessoal e profissional.

Artigo 11

A diversidade de convicções culturais e políticas, assim como as diversas habilidades dos indivíduos e as diversas competências das organizações representam uma fonte potencial de prosperidade global. A cooperação para a vantagem mútua pressupõe a aceitação de valores e normas comuns e a prontidão para aprender uns dos outros e tolerar respeitosamente a alteridade do outro. A discriminação de seres humanos por causa de seu sexo, sua raça, sua nacionalidade ou suas crenças não pode ser conciliada com os princípios de uma ética econômica mundial. Ações que não respeitem ou violem os direitos de outros seres humanos não devem ser tolerados.

Valores básicos: estima mútua e colaboração

Marco ético de referência: Ser autenticamente humano no espírito de nossas grandes tradições religiosas e éticas significa o seguinte: precisamos de respeito, colaboração e compreensão mútuos, em vez de dominação e degradação patriarcal, que são expressões de violência e que engendram contra-violência. Cada indivíduo tem dignidade intrínseca e direitos inalienáveis, e cada um também tem uma responsabilidade inevitável por aquilo que faz ou não faz.

Artigo 12

A estima mútua e a colaboração entre todos os envolvidos - particularmente entre homens e mulheres - é, desde já, o pré-requisito e o resultado da cooperação econômica. Tal estima e colaboração repousam no respeito, na equidade e na sinceridade com relação aos parceiros, sejam eles executivos de uma empresa ou seus empregados, seus clientes ou outros envolvidos. A estima e a colaboração formam a base indispensável para o reconhecimento de situações em que consequências negativas não intencionais das ações econômicas apresentam um dilema para todos os envolvidos - um dilema que pode e deve ser resolvido por meio do esforço mútuo.

Artigo 13

A colaboração, igualmente, encontra sua expressão na habilidade de participar da vida econômica, das decisões econômicas e dos ganhos econômicos. A forma pela qual essa participação pode ser realizada depende dos fatores culturais diversos e das estruturas regulatórias que prevalecem em diferentes áreas econômicas. Entretanto, o direito de unir forças para buscar responsavelmente os interesses pessoais e grupais por meio da ação coletiva representa um padrão mínimo que deve ser reconhecido em todo o lugar.

Conclusão

Todos os agentes econômicos devem respeitar as regras internacionalmente aceitas de conduta na vida econômica; devem defendê-las e, dentro do marco de sua esfera de influência, trabalhar juntos para a sua realização. Fundamentais são os direitos humanos e as responsabilidades, assim como proclamados pelas Nações Unidas em 1948. Outras diretrizes globais divulgadas por instituições transnacionais reconhecidas - o Pacto Global das Nações Unidas, a Declaração dos Princípios e Direitos Fundamentais do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho, a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento e a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, apenas para citar algumas - todas concordam com as demandas expostas neste Manifesto por uma Ética Econômica Mundial.

Primeiros signatários:

Michel Camdessus, Presidente honorário do Banque de FranceHans Küng, Presidente, Fundação Ética MundialMary Robinson, Presidente, "Realizing Rights: The Ethical Globalization Initiative"Jeffrey Sachs, Diretor, "The Earth Institute", Columbia UniversityDesmond Tutu, arcebispo emérito e prêmio Nobel da Paz

A declaração foi composta por um comitê de trabalho da Fundação Ética Mundial:

Prof. Dr. Heinz-Dieter Assmann (Tübingen University)Dr. Wolfram Freudenberg (Freudenberg Group)Prof. Dr. Klaus Leisinger (Novartis Foundation)Prof. Dr. Hermut Kormann (Voith AG)Prof. Dr. Josef Wieland (Drafter, Konstanz University of Applied Sciences)Prof. h.c. Karl Schlecht (Putzmeister AG)


Autoridades da Fundação Ética Mundial:

Prof. Dr. Hans Küng (Presidente)Prof. Dr. Karl-Josef Kuschel (Vice-presidente)Dr. Stephan Schlensog (Secretário-geral)Dr. Günther Gebhardt (Conselheiro sênior)
Tübingen, 1º de abril de 2009.




sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Fundação Ética Mundial publica manifesto por ética econômica


Um novo manifesto intitulado “Ética Econômica Mundial – Consequências para os Negócios Globais”, promovido pela Fundação Ética Mundial, foi publicado durante um simpósio sobre ética nos negócios na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, no dia 06 de outubro. Desenvolvido pelo teólogo suíço-alemão Hans Küng, presidente da Fundação, o documento busca apresentar “uma visão fundamental comum do que é legítimo, justo e correto” nas atividades econômicas.

Os primeiros signatários do manifesto incluem a ex-presidente da Irlanda Mary Robinson; o professor Jeffrey Sachs, diretor do Earth Institute da Columbia University; o prêmio Nobel da Paz Desmond Tutu, arcebispo anglicano emérito da Cidade do Cabo, na África do Sul; e Michel Camdessus, presidente honorário do Banque de France.

Baseado na “Declaração de Ética Mundial” do Parlamento das Religiões Mundiais de 1993, o manifesto destaca cinco princípios e valores universalmente aceitáveis: o princípio de humanidade; o da não violência e do respeito à vida; o da justiça e solidariedade; o da honestidade e tolerância; e o da estima e colaboração mútuas.

Agora, o documento será disponibilizado para a coleta de assinaturas no mundo inteiro. Os signatários do manifesto se comprometem, dessa forma, a “ser guiados pelo seu conteúdo e por seu espírito nas decisões, ações e comportamentos econômicos cotidianos gerais”.

No simpósio, realizado pelo Pacto Global da ONU, pela Missão Suíça das Nações Unidas, a Fundação Ética Mundial e a Fundação Novartis para o Desenvolvimento Sustentável, surgiu um grande consenso de que a atual crise econômica e financeira mundial revela uma necessidade por uma base moral comum mais forte entre todos os atores do mercado globalizado.

"O pedido por um marco ético para os mercados financeiros globais e a economia mundial foi fortemente ouvido de muitos lados em todo o mundo desde o começo da atual crise", disse o professor Hans Küng. "Essa nova Declaração sobre uma Ética Econômica Mundial lembra todos os envolvidos nos negócios mundiais de suas responsabilidades individuais pela humanização do funcionamento da economia global: a globalização precisa de uma Ética Mundial".

"Toda capacidade das organizações para aderir a valores universais depende ultimamente da disposição dos indivíduos de adotar uma ética pessoal que guia sua própria tomada de decisões em todas as áreas da vida", afirmou Georg Kell, diretor-executivo do Pacto Global da ONU. "A Ética Econômica Mundial, introduzida pelo Dr. Küng, forja uma importante conexão entre a responsabilidade individual e organizacional".

"Nenhuma empresa age sozinha como uma instituição legal abstrata, mas sempre age por meio de diversas pessoas que trabalham em diferentes níveis da hierarquia", disse o professor Klaus Leisinger, diretor-executivo da Fundação Novartis. "Essa é a razão pela qual os sistemas sociais como as próprias empresas podem ser morais ou imorais apenas até um certo limite: a moralidade – ou a imoralidade – se introduz em um sistema social pelas pessoas, por seus valores e seu nível de integridade".

"O manifesto visa a um diálogo entre todos os interessados e, assim, se dirige a todos os grupos econômicos de interesse – proprietários, investidores, credores, empregados, sindicatos, consumidores e ONGs, apenas para citar alguns", disse o professor Josef Wieland, do Konstanz Institute for Values Management and Intercultural Communication. "Os difíceis desafios da globalização são um dilema compartilhado por todos os envolvidos".


Entrevista - Ladislau Dowbor

Neoliberalismo está sofrendo condenação ética’, afirma Dowbor




Entrevista concedida pelo economista Ladislau Dowbor publicada no sítio da Revista do Brasil, 19-10-2009.


Fonte: UNISINOS


O senhor fala bastante sobre o papel das decisões locais em contraposição às estaduais e federais. Na economia, é possível pensar em mudanças necessárias nesse sentido?

Vai no sentido da democratização da própria economia. Não basta uma democracia em que você coloca o voto a cada dois anos na urna, mas os processos econômicos têm de ser democratizados. Veja por exemplo o fato de que todos os bancos fazem uma série de atividades especulativas, cobram juros absolutamente astronômicos com dinheiro dos outros. É natural que o dinheiro do público tenha uma parte de lucro, mas que sobretudo sirva às necessidades do desenvolvimento.
Isso nos leva a pensar que os diversos recursos da sociedade precisam ser usados de maneira inteligente. São Paulo é uma cidade que arrancou os trilhos de bonde porque não interessavam às grandes montadoras. Hoje, estamos todos paralisados por excesso de veículos. São Paulo precisa de mais metrô e de mais corredor de ônibus, e não de mais pistas nas marginais.

Na realidade, há uma reflexão mais ampla. Por que não funciona? Por que a Suécia é bem administrada? Por que há estados na Índia muito mais pobres em que as coisas funcionam? Funciona onde a sociedade está organizada em torno de seus interesses, participa por organizações do terceiro setor, ONGs etc. Há agências locais de desenvolvimento que articulam os diversos apoios. É aquilo que chamamos de “vibrantes participativas”. Ali as coisas funcionam por uma razão simples: a população está interessada em viver melhor.

Por isso a participação nos fóruns locais?

As pessoas dizem que está tudo globalizado. É bobagem. O carro é um produto global, as finanças e os meios de comunicação se globalizaram. Mas o hortifrutigranjeiro da minha comida é essencialmente local. A qualidade da escola, a arborização da rua, a riqueza cultural, a qualidade do esgoto, tudo isso é local.Grande parte do nosso cotidiano é perfeitamente gerido de maneira participativa pelas comunidades. Imaginar que vá aparecer um bom governador que vai resolver tudo ou uma boa empresa que vai resolver tudo? Esqueça. O município é o tijolo com o qual se forma o país, ou seja, cada um tem de ser muito bem alimentado.

Esse poder local não pode ser confundido com princípios do neoliberalismo de desvalorizar o Estado?

O Estado neoliberal está hoje à procura do próprio rabo. O PIB mundial é de US$ 60 trilhões. O sistema especulativo emitiu em papéis que estão voando por aí US$ 680 trilhões. Isso não elimina a eficiência de pequena e de média empresa. Significa um reequilibramento: não podemos ter os bancos fazendo o que querem.

Um exemplo interessante é o da Dinamarca. Eles não trabalham com planejamento do Estado nem vale-tudo do mercado, mas com uma gestão econômica. Por exemplo, uma empresa que vai se instalar em um município vai conversar com prefeito, movimentos sociais, e com isso vai ser bem aceita e vai funcionar melhor.

O que temos na mesa não é um modelo contra outro modelo, as grandes simplificações do século passado. É realmente um modelo que consiga uma visão mais equilibrada entre o papel do Estado, o papel das empresas e o da sociedade civil.

Sempre aparece por aqui que o Brasil tem os mais altos impostos do mundo. Isso é fácil dizer porque ninguém sabe como está no resto do mundo, então se aceita uma bobagem dessas. Temos um imposto que é 35% do PIB. Na Suécia, é 66% do PIB. Mas, na hora de gastar o imposto, transformá-lo em iniciativas públicas, 72% dos recursos são gastos no nível local, com participação da comunidade. No Brasil, (isso equivale a) 15%. Ou seja, não é só o tamanho do Estado, é onde está o Estado, que deve ter muito mais presença frente à corporação.

A corporação, a partir de (Margareth) Tatcher e (Ronald) Reagan, se arvorou realmente como líder político do mundo, e isso claramente deu com os burros n'água: crise financeira, crise climática, esgotamento dos recursos naturais, destruição da vida nos mares. O reequilibramento deve ter uma função muito mais presente do Estado, maior participação das organizações da sociedade civil, e um papel mais modesto e mais inteligente do mundo empresarial.

O Brasil tem encontrado caminhos na tentativa de refazer o pensamento atual?

Sim, sobretudo por políticas aplicadas, um conjunto de iniciativas. No Bolsa Família são R$ 15 bilhões, no Territórios da Cidadania são R$ 20 bilhões, no apoio ao agricultor familiar, o ProUni, a eletrificação do meio rural, o aumento do salário mínimo, é imenso. As pessoas não imaginam a mudança que é, para uma pessoa muito pobre, R$ 150 a mais. É a diferença entre viver ou não, entre um menino amanhã ser um trabalhador robusto ou não. Há um conjunto de políticas tentando reequilibrar o país em termos sociais e ambientais.

Nós passamos de um desmatamento de 28 mil quilômetros quadrados em 2002 para 10 mil quilômetros quadrados atualmente. É uma tragédia? Ainda é uma tragédia. Aliás, se quiser comparar com o MST: os 10 mil quilômetros destruídos anualmente pelas grandes corporações equivalem a 3 mil hectares por dia. Eu sou contrário a esse negócio de derrubar pé de laranja, mas vamos ser realistas, né?

No caso brasileiro, entre o desafio ambiental e o desafio social, o da desigualdade se apresenta como mais gritante. Não precisa ir longe, na periferia de São Paulo há uma imensa favelização. Em Cidade Tiradentes (zona leste da capital paulista), há 200 mil moradores para 2.400 empregos. O pessoal levanta 4h30 da manhã e volta às 22h. Não tem vida de família, não tem tempo para nada. É preciso um mínimo de respeito para a população.

Que posição o senhor espera que o Brasil leve a Copenhague?

O Brasil tem um ponto forte por ter uma estrutura relativamente limpa de energia, um imenso potencial de biocombustíveis, terra e água em condições ideais, e um governo que gerou uma enorme simpatia mundial pelo país.

Mais importante que a posição do Brasil é a articulação que se vai fazer. Não se pode fazer uma exceção para o Brasil. Precisamos olhar a posição da China, da Rússia, da Indonésia, do conjunto, enfim. Os Estados Unidos têm 4,6% da população mundial e emitem 21% dos gases estufa. Isso não é viável.Copenhague é um momento, acho que a gente não deve exagerar. Mas é a hora em que o mundo faz um balanço. Estamos destruindo o planeta. Que melhorias devemos fazer? Repercussões de Copenhague já estão existindo. Há uma discussão nos Estados Unidos de ver se junta com o problema da saúde e de outras coisas.

Está evidente que o modelo de vale-tudo não funciona. A visão ética, que é quanto mais a pessoa conseguir ficar rica, mais é vista como sucesso, isso foi para o espaço. Ético é quanto mais a pessoa conseguiu contribuir para melhorar o planeta, e não quanto arrancou dele. Essa é a virada básica, é a condenação da ética do neoliberalismo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Francisco de Oliveira

O avesso do avesso
Fonte: UNISINOS


O artigo "Hegemonia às avessas" (Piauí, janeiro de 2007) pretendeu fazer uma provocação gramsciana para melhor entender os regimes políticos que, avalizados por uma intensa participação popular (a "socialização da política", segundo Antonio Gramsci), ao chegar ao poder praticam políticas que são o avesso do mandato de classes recebido nas urnas. É o caso das duas presidências do Partido dos Trabalhadores no Brasil. E da destruição do apartheid na África do Sul, por meio de uma longa guerra de posições e das seguidas reeleições do Congresso Nacional Africano, uma frente de esquerda com forte influência do Partido Comunista.

Quase sete anos de exercício da Presidência por Luiz Inácio Lula da Silva já tornam possível uma avaliação dessa hegemonia às avessas e dos resultados que ela produziu. Não se parte aqui, e não fiz essa presunção também no artigo provocador original, de que Lula recebeu um mandato revolucionário dos eleitores e sua Presidência apenas se rendeu ao capitalismo periférico. Mas o mandato, sem dúvida, era intensamente reformista no sentido clássico que a sociologia política aplicou ao termo: avanços na socialização da política em termos gerais e, especificamente, alargamento dos espaços de participação nas decisões da grande massa popular, intensa redistribuição da renda num país obscenamente desigual e, por fim, uma reforma política e da política que desse fim à longa persistência do patrimonialismo.

Os resultados são o oposto dos que o mandato avalizava. O eterno argumento dos progressistas-conservadores - caso, entre outros, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - é que faltaria, às reformas e ao reformista-mandatário, o apoio parlamentar. Sem sustentação no Congresso, o país ficaria ingovernável. Daí a necessidade de uma aliança ampla. Ou de uma coalizão acima e à margem de definições ideológicas. Ou, mais simplesmente, de um pragmatismo irrestrito.

Fernando Henrique Cardoso teve recursos retóricos para justificar uma mudança de posição ideológica que talvez não tenha paralelo na longa tradição nacional do "transformismo" (outro termo emprestado do teórico sardo). Luiz Werneck Vianna, um dos nossos melhores intérpretes da "revolução passiva" gramsciana - junto com Carlos Nelson Coutinho -, é mais sutil e tem um argumento mais complexo: não se governa o Brasil sem o concurso do atraso não apenas por razões parlamentares, mas porque a estrutura social que sustenta o sistema político é conservadora, e não avalizaria avanços programáticos mais radicais. Além disso, as fundas diferenças e desigualdades regionais, bem como o modo como, desde a Colônia, fundiram-se o público e o privado - vide Caio Prado Jr. - tornam quase obrigatório um pragmatismo permanente, que leva de roldão perspectivas mais ideológicas, ou meramente programáticas.

Infelizmente para os defensores do eterno casamento entre o avançado e o atrasado, a história brasileira não dá suporte ou evidências do acerto do conservadorismo com enfeite ideológico progressista. Nem mesmo remotamente. Até no caso da abolição da escravatura, que talvez tenha de fato subtraído o apoio parlamentar ao trono imperial, abrindo o espaço para a República, não se deve perder de vista que ela foi pregada por radicais e realizada por conservadores. Nem se pode esquecer que o gabinete da Lei Áurea era presidido pelo conselheiro João Alfredo, um notório conservador.

A Proclamação da República, entendida modernamente como um golpe de Estado, foi conduzida por militares conservadores e, logo em seguida, usurpada pela nova classe paulista que emergia da formidável expansão cafeicultora. Rui Barbosa, um grande liberal republicano, chega ao Ministério da Fazenda já com Deodoro da Fonseca - e faz uma administração considerada temerária - e depois tenta seguidamente alcançar a Presidência, por meio das eleições "a bico de pena", fracassando em todas elas. Os nomes que ficarão serão os da nova plutocracia paulista: Prudente de Morais, Campos Sales e Rodrigues Alves. Por fim: as bases sociais da abolição já vinham sendo estruturadas pela mesma expansão do café que, para tanto, promoveu a imigração italiana. Não foi a abolição que derrubou a monarquia, mas a expansão econômica violentíssima na virada do século XIX para o XX.

Outro exemplo, mais perto de nós, é o da Revolução de 30. Quem derrubou o regime caduco da Primeira República foi uma revolução que veio da periferia, do Rio Grande do Sul e da Paraíba, com Minas associando-se em seguida, e contando com a oposição de São Paulo. O atraso, então, serviu de base para o avanço? Longe disso. O Rio Grande tinha uma longa tradição revolucionária, um sistema fundiário mais progressista que o do resto do país, além de uma cultura positivista entre suas elites, sobretudo a elite militar, que forneceu o programa social lançado em 1930 (e sustentado continuamente por cinco décadas) cujo conteúdo foram as reformas do trabalho e da previdência social.

A historiografia da Unicamp, liderada por Michael Hall, está pondo reparos à tese de que Getúlio Vargas copiou a Carta del Lavoro: decisiva mesmo teria sido a fundamentação positivista, que fez com que a nossa Consolidação das Leis do Trabalho fosse muito além da legislação italiana. Contra todas as tendências do já principal centro econômico brasileiro, Vargas fez São Paulo engolir goela abaixo um programa industrializante, reformista e socialmente avançado. Não foi à toa que, em 1932, articulou-se em terras bandeirantes uma "revolução constitucionalista" cujo programa é hoje emoldurado com galas de avanço - a fundação da Universidade de São Paulo -, mas que na realidade pretendia barrar o avanço das leis reformistas e reforçar a "vocação agrícola do Brasil". Esse argumento, que ainda frequenta as páginas do Estadão (de forma sinuosa, é verdade), era explicitado em prosa e verso pelo jornal hoje plantado às margens malcheirosas do Tietê e pelas principais lideranças paulistas. O atraso governando o país?

O golpe de Estado de 1964, que derrubou o governo João Goulart e terminou com a precária democratização em curso desde 1945, pintou-se com as cores do atraso, mas na realidade realizou o programa capitalista em suas formas mais violentas. Não foi um conflito entre o atraso e o progresso, mas entre duas modalidades de avanço capitalista. O vencedor fez seu o programa do vencido, radicalizando-o e ultrapassando-o. Fincou os novos limites à acumulação de capital muito além do que os vencidos teriam ousado, na esteira da evolução do regime chamado varguista-desenvolvimentista. A estatização promovida pela ditadura militar significou a utilização do poder estatal coercitivo para vencer as resistências não do atraso, mas das burguesias mais "avançadas". Nunca a divisa da bandeira foi levada tão ao pé da letra quanto naqueles anos: "ordem e progresso". Poderosas empresas estatais se fortaleceram nos setores produtivos, fusões bancárias foram financiadas por impostos pesados, recursos públicos foram usados sem ambiguidades não para preservar o velho, mas para produzir o novo - como a Aeronáutica e o ita criando a Embraer. Avanço ou atraso?

O fim é conhecido: desatada a caixa de Pandora, o regime sucumbiu não ao seu fracasso, mas ao seu êxito em construir uma ordem capitalista avassaladora. O regime militar relegou a burguesia nacional ao papel de coadjuvante, submeteu a classe trabalhadora a pesadas intervenções e não abriu ao capital estrangeiro, como faria supor seu ato mais imediato, a revogação da Lei de Remessa de Lucros de Goulart, que deu o pretexto para o golpe.

Melancolicamente, como cantava uma valsa antiga, que eu ouvia na voz de Carlos Galhardo - com certeza produzida em Hollywood -, a ditadura terminou seus dias com um general enfadado, que preferia o cheiro de cavalos ao do povo, encurralada por um poderoso movimento democrático que deitou raízes em praticamente todos os setores da sociedade. O movimento pelas Diretas Já, no entanto, teve um desenlace moldado em termos irretorquivelmente brasileiros: um pacto pelo alto, entre o partido oficial de oposição à ditadura e o falido partido da própria ditadura, que entregou a Presidência, numa eleição indireta, a um civil mais conservador que o próprio general que saía de sua ronda. Por infelicidade, o poder terminou nas mãos dum acadêmico maranhense de um mais do que duvidoso prestígio literário - como diria minha professora, d. Delfina, desafiando-nos: "Dou um doce a quem tenha lido os tais "Maribondos de Fogo." Chamava-se José Sarney. Continua nos brindando com nomeações no Senado como se estivesse na praia do Calhau, em São Luís. Quem governa, o atraso ou o avanço?

Houve então o interregno de Fernando Collor, que tinha voto, mas não tinha voz, e de Itamar Franco, que não tinha nem voto nem voz. E então chegou o progresso mesmo, em pessoa, adornado com os títulos e as pompas da Universidade de São Paulo. Fernando Henrique Cardoso realizou o que nem a Dama de Ferro tinha ousado: privatizou praticamente toda a extensão das empresas estatais, numa transferência de renda, de riqueza e de patrimônio que talvez somente tenha sido superada pelo regime russo depois da queda de Mikhail Gorbachev.

Como Antonio Carlos Magalhães, o enérgico cacique da Bahia, foi seu parceiro, confirma-se a tese de que somente se pode governar com o atraso? Longe disso. ACM nunca foi um oligarca no sentido rigoroso do termo e, mais que isso, a política econômica de Fernando Henrique jamais esteve sob o controle de Antonio Carlos e assemelhados. A política econômica era reserva de caça exclusiva de FHC e de seus tucanos, hoje banqueiros.

Essa turma se desfez do melhor da estrutura do Estado longamente criada desde os anos 30, cortando os pulsos num afã suicida sem paralelo na história nacional. Honra a São Paulo e a seus ideólogos: Eugênio Gudin não faria igual e o Estadão exultava a cada medida "racional" do governo FHC. Manipulando o fetiche da moeda estável, Fernando Henrique retirou do Estado brasileiro a capacidade de fazer política econômica. Com os dois mandatos, os tucanos operaram um tournant do qual seu sucessor veio a ser prisioneiro - com a peculiaridade que Lula radicalizou no descumprimento de um mandato que lhe foi conferido para reverter o desastre FHC. É nesse contexto que opera a "hegemonia às avessas".

Que se pode ver no avesso do avesso? Começando pela economia, que tem sido o argumento maior da era Lula: sua taxa de crescimento médio nos seis anos é inferior à taxa histórica da economia brasileira e, em 2009, prevê-se uma queda relativa que o leva de volta à performance de seu antecessor imediato, o odiado (para os petistas-lulistas) FHC. O crescimento tem se baseado numa volta à "vocação agrícola" do país, sustentado por exportações de commodities agropecuárias - o Brasil, um país de famintos, é hoje o maior exportador mundial de carne bovina - e minério de ferro, graças às pesadas importações da China. Com o simples arrefecimento do crescimento chinês, que de 10% ao ano regrediu a uns 8%, a queda das exportações brasileiras já provocou a forte retração do PIB agropecuário. As exportações voltaram a ser lideradas pelos bens primários, o que não acontecia desde 1978.

Proclama-se aos quatro ventos a diminuição da pobreza e da desigualdade, baseada no Bolsa Família. Os dados disponíveis não indicam redução da desigualdade, embora deva ser certo que a pobreza absoluta diminuiu. Mas não se sabe em quanto. A desigualdade provavelmente aumentou, e os resultados proclamados são falsos, pois medem apenas as rendas do trabalho que, na verdade, melhoraram muito marginalmente graças aos benefícios do INSS, e não ao Bolsa Família. Quem o proclama é o insuspeito Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea. A desigualdade total de rendas é impossível medir-se, em primeiro lugar pela conhecida subestimação que é prática no Brasil, e em segundo lugar por um problema de natureza metodológica (conhecido de todos que lidam com estratificações, que é a quase impossibilidade de fechar o decil superior da estrutura de rendas).

Metodologicamente, como lembrou Leda Paulani, as rendas do capital são estimadas por dedução, enquanto as rendas do trabalho são medidas diretamente na fonte. Medidas indiretas sugerem, e na verdade comprovam, o crescimento da desigualdade: o simples dado do pagamento do serviço da dívida interna, em torno de 200 bilhões de reais por ano, contra os modestíssimos 10 a 15 bilhões do Bolsa Família, não necessita de muita especulação teórica para a conclusão de que a desigualdade vem aumentando. Marcio Pochmann, presidente do Ipea, que continua a ser um economista rigoroso, calculou que uns 10 a 15 mil contribuintes recebem a maior parte dos pagamentos do serviço da dívida. Outro dado indireto, pela insuspeita - por outro viés - revista Forbes, já alinha pelo menos dez brasileiros entre os homens e mulheres mais ricos do mundo capitalista[1].

Por fim, a Fundação Getúlio Vargas divulgou, no final de setembro, uma pesquisa provando que a classe que mais cresceu proporcionalmente, de 2003 a 2008, não foi a c nem a d. Foi, isso sim, a classe ab, que tem renda familiar acima de 4.807 reais - e o dado não leva em conta a valorização da propriedade, ações e investimentos financeiros.

Do ponto de vista da política, o avesso do avesso é sua negação. Trata-se da administração das políticas sociais; cooptam-se centrais sindicais e movimentos sociais, entre eles o próprio Movimento dos Sem-Terra, que ainda resiste. A política é não só substituída pela administração, mas se transformou num espetáculo diário: o presidente anuncia com desfaçatez avanços e descobertas que no dia seguinte são desmentidos. O etanol, que seria a panaceia de todos os males, foi rapidamente substituído pelo pré-sal, que agora urge defender com submarinos nucleares e caças bilionários. O pré-sal, aliás, prometia reservas que elevariam o Brasil à condição de maior produtor mundial de petróleo, superando os países do Golfo, e dando, de colher, os recursos para quitar a obscena dívida social brasileira. Não tardou muito e a Exxon furou um poço... seco. E agora a British Group, associada à Petrobras, anuncia a mesma coisa. E as expectativas de reserva passaram de 1 trilhão de barris de petróleo para modestos 8 bilhões.

As previsões da equipe econômica são de mágico de quintal. No princípio do ano, em plena crise, o crescimento estimado estava na casa dos 6% para 2009. Pouco a pouco, as previsões - dignas de Nostradamus - foram caindo para 4%, 5%, 3%, e hoje se aposta em 1%.

O chamado ciclo neoliberal, que começa com Fernando Collor e já está com seus quase vinte aninhos com Lula, é um ciclo anti-Polanyi, o magistral economista e antropólogo húngaro que se radicou na Inglaterra. O projeto do socialismo democrático de Karl Polanyi começava por deter a autonomia do mercado e dos capitalistas. Ora, o governo Lula, na senda aberta por Collor e alargada por Fernando Henrique, só faz aumentar a autonomia do capital, retirando às classes trabalhadoras e à política qualquer possibilidade de diminuir a desigualdade social e aumentar a participação democrática. Se FHC destruiu os músculos do Estado para implementar o projeto privatista, Lula destrói os músculos da sociedade, que já não se opõe às medidas de desregulamentação. E todos fomos mergulhados outra vez na cultura do favor - viva Machado de Assis, viva Sérgio Buarque de Holanda e viva Roberto Schwarz!

As classes sociais desapareceram: o operariado formal é encurralado e retrocede, em números absolutos, em velocidade espantosa, enquanto seus irmãos informais crescem do outro lado também espantosamente. Em sua tese de doutorado, Edson Miagusko flagrou, talvez sem se dar conta, a tragédia: de um lado da simbólica Via Anchieta, no terreno desocupado onde antes havia uma fábrica de caminhões da Volks, há agora um acampamento de sem-teto, cuja maioria é de ex-trabalhadores da Volks. Do outro lado da famosa via, sem nenhuma simultaneidade arquitetada - aliás, os dois grupos se ignoraram completamente -, uma assembleia de trabalhadores ainda empregados da Volks tentava deter a demissão de mais 3 mil companheiros. Eis o retrato da classe: em regressão para a pobreza. De são Marx para são Francisco.

As classes dominantes, se de burguesia ainda se pode falar, transformaram-se em gangues no sentido preciso do termo: as páginas policiais dos jornais são preenchidas todos os dias com notícias de investigações, depoimentos e prisões (logo relaxadas quando chegam ao Supremo Tribunal Federal) de banqueiros, empreiteiros, financistas e dos executivos que lhes servem, e de policiais a eles associados. A corrupção campeia de alto a baixo: do presidente do Senado que ocultou a propriedade de uma mansão, passando pelo ex-diretor da casa, que repetiu - ou antecipou? - a mesma mutreta, aos senadores que pagam passagens de sogras a namoradas com verbas de viagem, e deputados que compram castelos com verba indenizatória.

Trata-se de um atavismo nacional? Só os que sofrem de complexo de inferioridade tenderiam a pensar assim. Qualquer jornal americano da segunda metade do século XIX noticiava a mesma coisa. Até a mulher de Lincoln praticava, em conluio com o jardineiro, pequenos "desvios" de verba da casa da avenida Pensilvânia (segundo a má língua famosa de Gore Vidal).

A novidade do capitalismo globalitário é que ele se tornou um campo aberto de bandidagem - que o diga Bernard Madoff, o grande líder da bolsa Nasdaq durante anos. Nas condições de um país periférico, a competição global obriga a uma intensa aceleração, que não permite regras de competição que Weber gostaria de louvar. O velho Marx dizia que o sistema não é um sistema de roubo, mas de exploração. Na fase atual, Marx deveria reexaminar seu ditame e dizer: de exploração e roubo. O capitalismo globalitário avassala todas as instituições, rompe todos os limites, dispensa a democracia.

O avesso do avesso da "hegemonia às avessas" é a face, agora inteiramente visível, de alguém que vestiu a roupa às pressas e não percebeu que saiu à rua do avesso. Mas agora é tarde: Obama sentenciou que "ele é o cara" e todo mundo o vê assim. O lulismo é uma regressão política, a vanguarda do atraso e o atraso da vanguarda.
[grifos do blog]

Nota:
[1] Essa famigerada lista é liderada por Carlos Slim, mexicano que fica cada vez mais rico, enquanto seu belo país mergulha fundo na mais infame pobreza. Carlos Fuentes, o magnífico romancista mexicano de A Morte de Artemio Cruz, nos brinda, em seu recente La Voluntad y la Fortuna, com um implacável retrato do gordo bilionário mexicano, além de nos dar, na tradição dos grandes muralistas do país asteca, um magnífico panorama do México moderno, atolando na miséria e no crime, tendo no pescoço a pedra do Nafta, o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio.

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