segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Michael Hudson

A emboscada de Obama contra os direitos sociais

Wall Street sabe que para ter votos suficientes no Congresso para destruir o New Deal, o Social Security, o Medicare e o Medicaid, é preciso ter um presidente democrata no comando. Um congresso democrata bloquearia qualquer tentativa republicana de fazer o tipo de corte que Obama está propondo. Mas a oposição democrática fica paralisada quando o próprio presidente Obama – o presidente liberal por excelência, o Tony Blair americano – age como o chefe de torcida para cortar direitos e outros gastos sociais. O artigo é de Michael Hudson, publicado no New Economic Perspectives. Tradução: Katarina Peixoto.
Fonte: Carta Maior


Você sabe que a outra face da dívida está tão melodramaticamente encenada como uma exibição da Federação Mundial de Luta-Livre quando Obama faz a sua flagrantemente vazia ameaça ao Congresso, de que se não “atacar os desafios mais difíceis dos direitos sociais e da reforma tributária” não haverá dinheiro para pagar o Social Security no próximo mês. Nessa fala sobre o déficit, na noite de 25 de julho, ele ameaçou que “se nos declararmos inadimplentes, não teremos dinheiro suficiente para pagar todas as nossas contas – as quais incluem os pagamentos mensais do Social Security, as pensões dos veteranos de guerra e os contratos do governo que assinamos com milhares de empresas”.

Isso não é verdade nem de longe. Mas se tornou o tema mais assustador há mais de uma semana, desde que o presidente usou quase as mesmas palavras nas suas entrevistas ao âncora do jornal da noite da CBS, Scott Pelley.

É claro que o governo terá dinheiro suficiente para pagar o Social Security mensalmente. A administração do Social Security tem seus próprios fundos – nas contas do Tesouro. Eu entendo que advogados (como Obama e na verdade a maior parte dos presidentes americanos) raramente entendem de economia. Mas esta é uma questão legal. Obama certamente deve saber que o Social Security é solvente, com ativos líquidos para pagá-lo por muitas décadas vindouras. Ainda assim, Obama pôs o Social Security lá no topo da lista.

A explicação mais razoável para essa ameaça vazia é que ele está tentando causar pânico nos idosos, na expectativa de que de alguma maneira a negociação do orçamento pareça ser sacada de sua manga para salvá-los. A realidade, claro, é que eles estão sendo levados para o abate. (E nem uma palavra corretiva lembrando ao presidente a realidade financeira, por parte do secretário da rubineconomia [1], secretário do Tesouro Geithner, do neoliberal presidente do Federal Reserve, Bernanke, ou qualquer outro na administração democrata de Wall Street, conhecida como Conselho de Lideranças Democrata).

É um engodo. Obama chegou a enterrar o Social Security, o Medicare e o Medicaid, não para salvá-los, mas para matá-los. Isso estava claro desde o começo dessa administração, quando ele designou sua Comissão para Redução do Déficit, liderada pelos inimigos confessos do Social Security, como o senador do Wisconsin, Alan Simpson e Erskin Bowles, outro nome da rubineconomia, da administração Clinton. As mais recentes escolhas de Obama, de republicanos e de democratas conservadores para serem delegados no Congresso a fim de reescreverem o código tributário num jogo bipartidário – para evitar sua rejeição – não passa de uma manobra para aprovar uma "reforma" fiscal impossível de aprovar por representantes democraticamente eleitos.

O diabo sempre está nos detalhes. E os lobistas de Wall Street sempre têm esses detalhes bem dobrados em suas pastas para pô-los à disposição dos seus representantes no Congresso e dos senadores dedicados. E neste caso eles têm o presidente, que tem aceitado seus conselhos ao ponto de convidar para fazerem parte de seu gabinete e agirem com factoides para capturar o governo em seu benefício e assim criarem o “socialismo para os ricos”.

Não há tal coisa, é claro. Quando os governos são dos ricos, a isso se chama oligarquia. Os diálogos de Platão deixam claro que, em vez de se tomar as sociedades como democracias ou oligarquias, era melhor observá-las em movimento. As democracias tendem a polarizarem economicamente (sobretudo entre credores e devedores) até se tornarem oligarquias. Estas, por sua vez, tendem a se tornarem aristocracias hereditárias. No tempo, famílias dominantes vão lutar entre si, e um grupo (como os Kleisthenes em Atenas em 507 a.C.) levaria “o povo para dentro da festa” e criaria uma democracia. E assim o triângulo eterno da política seguiria adiante.

É isso o que está se passando hoje. Em vez de aproveitar o que a Era Progressista antecipou – uma evolução na direção do socialismo, com o governo fornecendo a infraestrutura básica e outras necessidades com subsídio -, estamos vendo um lapso temporal de volta ao neofeudalismo. A diferença, claro, é que esse tempo para a sociedade não é controlado por garras militares no território. Hoje a finança obtém o que a força militar fazia em tempos passados. Em vez de amarrados à terra sob o feudalismo, hoje as famílias podem viver onde quer que queiram – contanto que levem uma vida inteira para pagar a hipoteca ou qualquer casa que venham a comprar.

E em vez da sociedade pagar tributos pelo uso da terra a conquistadores, paga aos banqueiros. Assim como o acesso à terra era precondição para as famílias se sustentarem durante o feudalismo, precisa-se ter crédito, para água, assistência médica, pensões ou Social Security e outras necessidades básicas, hoje em dia – e deve-se pagar juros, recompensar e monopolizar a renda para a oligarquia neofeudal que agora fazendo das suas, dos EUA a Irlanda e Grécia.

O governo dos EUA gastou 13 trilhões de dólares em resgates financeiros, desde a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. Mas Obama alerta que, de trinta anos para cá, o fundo de ativos que financia o Social Security gerou um déficit de 1 trilhão de dólares. É para evitar isso que ele pede com urgência o desmantelo dos programas sociais para arcar com aqueles pagamentos, agora.

Parece que os 13 trilhões usados eram todo o dinheiro que o governo verdadeiramente tem. Os bancos e as empresas de Wall Street pegaram o dinheiro e se foram. Não há o suficiente para pagar o Social Security, o Medicare ou outro gasto social que os democratas conservadores e os republicanos planejam cortar, agora.

Não tão rápido. O plano será “mascarar” a crise atual, reduzindo os planos à “Comissão para a Redução do Déficit #2”, nomeada pelos membros do Congresso.

Finalmente, temos a “mudança em que podemos acreditar”. A mudança real é sempre surpreendente, afinal.

A falsa crise

Muitas vezes é necessário uma crise para criar um vácuo que alimenta esses detalhes tóxicos. Está claro que Wall Street não gosta de crises reais – exceto aquelas que fazem os computadores gerarem rápidos ganhos especulativos na fibrilação atual do ziguezague dos mercados. Mas quando o assunto é dinheiro vivo, a ilusão de uma crise tem preferência, elevada melodramaticamente ao estágio que mobilize emocionalmente ao máximo a audiência, tanto como um bom editor edita um plano sequência. O trem acelerado passará por cima da garota amarrada aos trilhos? Ela escapará a tempo?

O trem é o débito; a garota é para ser tomada como a economia estadunidense. Mas ela se mostra nada mais que Wall Street disfarçada. O exercício vira uma comédia nem tão divina. Obama oferece um plano que parece bastante republicano. Mas os republicanos dizem não. Há uma ilusão de que uma luta real se passa. Eles acusam Obama de socialista.

Os democratas expressam choque com o desconforto de serem ameaçados. Muitos dizem “onde está o real Obama?”. Mas parece que o Obama real se tornou um republicano de Wall Street disfarçado, vestido com roupas democratas. É isso o que o Comitê de Líderes Republicanos é, basicamente: Democratas de Wall Street.

Isso não é tanto um oximoro como pode parecer. Há uma razão por que os democratas pós-Clinton de hoje são partidários do desfazimento do que Franklin Delano Roosevelt e democratas de antanho defenderam. Um Senado democrata nunca deveria ceder aos constrangimentos impostos por Wall Street e trair sua constituição urbana, caso um presidente republicano propusesse o que Obama está lhes oferecendo.

Eis o que o próximo candidato republicano pode dizer: “Você sabe que o que quer que nós, republicanos, quisermos, Obama irá nos apoiar. Se você não quer uma política republicana, então vote em mim para presidente. Porque um Congresso democrata irá se opor a uma política republicana caso proponhamos essas medidas. Mas se Obama as propõe, o Congresso envelhecerá e não resistirá”.

É a mesma história na Inglaterra, onde o Partido Trabalhista é convocado para terminar o trabalho que os conservadores começaram, mas precisam agora do Novo Trabalhismo para acalmar a oposição popular à privatização de rodovias e parcerias público-privadas na administração das linhas do metrô de Londres. E é a mesma história na França, onde um governo socialista está dando apoio a programas de privatização ditados pelo Banco Central Europeu.

Revisitando as falácias de sempre

Quando se encontra representantes dos governos e a mídia repetindo erros econômicos como um mantra incessante, sempre há um interesse especial em operação. O setor financeiro tem interesse específicos em desviar os passos dos eleitores, fazendo-os crer que a economia afundará numa crise se Wall Street não tiver o que pretende – frequentemente por meio da isenção de tributos e da sua desregulação.

A primeira falácia de Obama é a de que o orçamento do governo é como o da família. Famílias não emitem títulos da dívida e obrigam o resto do mundo a lidar com isso como dinheiro fosse. Só governos podem fazê-lo. É um privilégio que os bancos agora gostariam de ter – a capacidade de criar créditos livremente nos teclados de seus computadores e cobrar juros sobre o que é quase de graça e que os governos podem na verdade criar gratuitamente.

Hoje, todas as famílias sabem que uma pequena dívida de cartão de crédito é gerenciável. Mas se mantemos esse mesmo padrão, o crescimento de nossa dívida poderá nos custar empregos e causar um sério prejuízo à economia”. Mas economias necessitam do dinheiro do governo para crescer – e esse dinheiro é fornecido pela rolagem dos déficits orçamentários federais. Essa tem sido a essência do gasto anticíclico keynesiano por mais de meio século. Até hoje, essa era uma política do partido democrata.

É verdade que o presidente Clinton operou um superávit orçamentário. A economia sobreviveu por conta do sistema bancário comercial, que supriu o crédito necessário para a economia crescer – à base de juros. Para forçar a economia a se fiar Wall Street em vez de no governo, o governo precisa parar de gerar déficits orçamentários. A economia então terá uma escolha: encolher rapidamente ou se transferir quase todo o superávit orçamentário aos bancos, enquanto a economia rende com base no privilégio da criação de crédito.

Obama também finge que as agências de classificação de crédito estão prontas para agirem como mascotes de seus clientes, a maior parte dos seguradores financeiros, ao fazerem toda a economia pagar taxas de juros cada vez mais altas em seus cartões de crédito e bancos. “Pela primeira vez na história”, dissimula Obama, “nossa classificação com um triplo A estaria em queda, deixando os investidores ao redor do mundo a se perguntarem se os EUA ainda é uma boa aposta. As taxas de juros iriam disparar nos cartões de crédito, hipotecas e aluguéis de carros, o que implicaria uma grande alta de impostos sobre o povo americano”.

A verdade é que gerar um superávit orçamentário aumentaria as taxas de juros, porque forçaria a economia a ficar cativa do sistema bancário. A administração Obama agora está profundamente envolvida numa fase retórica orwelliana.

Durante a fala de Obama, não pude deixar de sentir que tinha escutado aquilo antes. E então me lembrei quando. Em 2008, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, disse, para contrapor o argumento de Sheila Blair, de que todos os clientes do sistema estadunidense de seguros dos depósitos bancários (FDIC) poderiam frear a crise de setembro, com só os jogadores temerários perdendo ganhos que só poderiam esperar obter no seu sistema de crédito livre. “Se o sistema financeiro for autorizado a colapsar”, ele alertou, no seu discurso na Biblioteca Reagan, “é o povo americano que pagará o preço. Isso nunca se tratou de bancos, mas sempre de oportunidade e prosperidade continuada para todos os americanos”.

Mas é claro que se trata de bancos. Wall Street sabe que para ter votos suficientes no Congresso para destruir o New Deal, o Social Security, o Medicare e o Medicaid, é preciso ter um presidente democrata no comando. Um congresso democrata bloquearia qualquer tentativa republicana de fazer o tipo de corte que Obama está propondo. Mas a oposição democrática fica paralisada quando o próprio presidente Obama – o presidente liberal por excelência, o Tony Blair americano – age como o chefe de torcida para cortar direitos e outros gastos sociais.

Dessa maneira, assim como a City de London deu sustentação ao Partido Trabalhista inglês nas suas diretrizes, quando o Partido Conservador não poderia dar esses passos radicais, como privatizar as autoestradas e o metrô de Londres, e só os social democratas da Islândia puderam afundar a economia na vassalagem da dívida em relação a Inglaterra, a Holanda, e o Partido Socialista Grego está à frente da luta pela privatização e pelos resgates bancários, assim nos EUA o Partido Democrata está entregando sua base eleitoral – trabalho urbano, especialmente as minorias radicais e os pobres que são os mais injuriados pelo plano de austeridade de Obama – a Wall Street.

Portanto, Obama está fazendo o que qualquer bom demagogo faz: entregando seu eleitorado ao seus financiadores de campanha de Wall Street. Yves Smith chamou a isso de “a ida de Nixon a China ao contrário”.

Os republicanos retribuem sem pôr uma alternativa confiável na candidatura à sucessão presidencial. O efeito consiste em dar a Obama espaço para ele se mover à vontade para a direita do espectro político. Longe o suficiente dos seus democratas, que estão mais interessados em resgatar o Social Security, não dos republicanos.

Isso se faz mais facilmente sob a pressão do pânico próximo. Isso funcionou depois de setembro de 2008 com o programa de resgate bancário (TARP), afinal de contas. O melodrama do resgate de Wall Street deveria ser visto como um ensaio geral para a atual não crise do teto da dívida.

[1] Um neologismo corrente hoje nos EUA, derivado do todopoderoso Rubin, Secretário do Tesouro no governo Clinton, ex-executivo do ban co Goldman Sachs e homem chave na implementação das contra-reformas neoliberais nos EUA dos anos 90.

(*) Michael Hudson é ex-economista de Wall Street. Professor da Universidade do Missouri, Kansas City (UMKC), é autor de muitos livros, incluindo Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (new ed., Pluto Press, 2002) and Trade, Development and Foreign Debt: A History of Theories of Polarization v. Convergence in the World Economy. Email: mh@michael-hudson.com

[grifos do blog]

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Mariangela Paone

O mundo não mudou, mudaram os protestos



Há dez anos o movimento antiglobalização confrontou o G8 e teve um final trágico em Gênova. Das grandes marchas se passou à mobilização local. Seu espírito está nos "indignados" de Madri? A reportagem é de Mariangela Paone e publicada pelo jornal El País e reproduzida pelo Portal Uol, 25-07-2011.
Fonte: UNISINOS


Uma cidade sitiada, dividida em zonas de segurança, com uma área inexpugnável protegida por 20 mil policiais e soldados. Assim amanheceu Gênova em 20 de julho de 2001, e horas depois, enquanto se realizava a cúpula do G8, se consumou uma batalha urbana sem precedentes. A maior manifestação do movimento antiglobalização, que reuniu mais de 150 mil pessoas, acabou com centenas de feridos nos distúrbios e nos ataques policiais e com uma vítima fatal: o jovem italiano Carlo Giuliani.

A violência daqueles dias marcou um antes e um depois naquela etapa de mobilizações maciças contra os grandes símbolos do sistema econômico internacional que começaram em Seattle em 1999. Uma década depois, o que resta do movimento que marcou uma geração e que parecia ter desaparecido depois de Gênova? Que relação há com a nova onda de protesto que atravessa a Europa?

"Eles [os representantes do G8] modificaram sua encenação simbólica e prática nesse tipo de evento nas grandes capitais, nos centros onde se representava o poder. Em Gênova, com a cidade velha sitiada, parecia um conflito medieval. O movimento, por sua vez, se reconfigurou, depois da repressão aterrissou e rediscutiu muitas coisas. Defendeu baixar para o nível local, sempre mirando o global", conta o ativista espanhol Chabier Nogueras.

Suas palavras são quase as mesmas que Susan George utiliza. Como vice-presidente da plataforma altermundista Attac e presidente do comitê de planejamento do Instituto Transnacional de Amsterdã, foi uma das referências do movimento e também esteve em Gênova naqueles dias: "As coisas mudaram. Não houve mais manifestações imensas como aquela. Depois da morte de Carlo Giuliani, as pessoas começaram a pensar que era impossível se expor a essa violência. Começamos a trabalhar em grupos menores sobre assuntos específicos. Mas depois de Gênova o movimento não ficou mais frágil, só atuou de forma diferente. Menos mobilizações maciças, mas mais trabalho em profundidade sobre o comércio, o feminismo, a taxação de transações financeiras, a Europa e o neoliberalismo".

Nogueras experimentou na primeira pessoa a violência que se viveu em Gênova há dez anos. Havia chegado de Zaragoza à cidade italiana com um grupo do Movimento de Resistência Global, e na noite de 21 para 22 de julho se encontrava na escola Diaz, um instituto onde muitos manifestantes se alojavam depois das marchas dos dias anteriores. Durante a noite a polícia irrompeu, atacou as pessoas que dormiam na escola e deteve dezenas delas. A decisão judicial do Tribunal de Apelação de Gênova que condenou os agentes que realizaram a operação inclui as consequências físicas que Nogueras sofreu: traumatismo craniano, contusões em várias partes do corpo, lesão do perônio, lesões graves com 40 dias de baixa. "O Ministério Público disse que o que ocorreu ali foi uma luta global", lembra.

Segundo Enara Echart, pesquisadora do Instituto Universitário para o Desenvolvimento e a Cooperação, da Universidade Complutense de Madri, e autora de vários livros sobre os movimentos sociais e o movimento antiglobalização, é verdade que Gênova acabou com um ciclo. "Houve um recuo para uma estratégia que dava maior importância à proposta que ao protesto. Não é que este desapareça, mas recua para o âmbito local. O movimento antiglobalização em longo prazo precisava encontrar núcleos de mobilização mais próprios de cada lugar."

A falta de propostas concretas era uma das críticas mais frequentes que o movimento recebeu, a mesma que em certa medida se fez agora aos indignados. Echart acredita que na época, assim como agora, a crítica se baseia em um erro: "quando ocorrem mobilizações tão importantes, tenta-se pedir demais, enquanto os processos políticos são muito mais lentos. Os movimentos sociais, no momento em que se manifestam, já estão fazendo política... O bonito, o politicamente mais interessante do 15-M, é seu caráter transversal. Não se pode exigir deles um programa político, temos que deixar o processo agir".

A comparação entre o movimento antiglobalização, em todas as suas expressões, e as manifestações que nos últimos meses chamaram a atenção da mídia deixa como resultado muitos paralelos, mas também diferenças. Uma é precisamente a transversalidade. "Sociologicamente, o movimento dos indignados é mais transversal, e por isso os governos atuaram com mais prudência. Muita gente se reúne voluntariamente. Mas retomam muitas das questões que colocávamos, e sim há conexões internacionais, mas é verdade que não parte, como então, de um trabalho internacional", comenta Nogueras. Ele pensa que se o 15-M é mais transversal também é porque, diante da crise econômica mundial, "os mesmos especialistas reconhecem que o modelo fracassou" e é "muito mais simples que qualquer um compreenda o que se diz".

A verdade é que os indignados têm um apoio popular que o movimento antiglobalização não alcançou. Em seu último número, a revista "The Economist", em um artigo sobre o movimento espanhol dos indignados, cita o estudo apresentado em junho pela Havas Media, que calcula o apoio popular em 80% dos cidadãos e define os indignados da Espanha como "os manifestantes mais conscientizados da Europa": não atiram pedras, mas conseguem que suas demandas calem na sociedade, afirma o semanário, citando as declarações do candidato socialista Alfredo Pérez Rubalcaba a favor de uma reforma eleitoral e o debate sobre as hipotecas.

"Não houve lançamento de pedras nem de gás lacrimogêneo", escreveu "The Economist" sobre a última manifestação de 19 de julho. Isso ocorreu em Seattle, em Gênova, em Gotemburgo, e as imagens de ações violentas de uma minoria conquistaram toda a atenção. Ações que até o momento foram alheias ao movimento dos indignados.

"Mas o que acontecerá se as demandas dos novos protestos não forem atendidas?", pergunta-se Aitor, um dos espanhóis que sofreu o ataque à escola Diaz em 2001 e que agora participa dos protestos contra os despejos. "É verdade que se faz questão de manter o protesto em algumas estratégias concretas, na ação direta não violenta. Mas se gerarem situações de tensão é mais difícil saber o que pode acontecer", diz.

Vittorio Agnoletto foi o porta-voz do Fórum Social durante as jornadas de Gênova em 2001. Sobre o que aconteceu naqueles dias, não acredita que por parte do movimento haja algo a censurar -- "fizemos tudo de forma transparente e fomos vítimas de uma repressão decidida internacionalmente", afirma --, mas diz que, se houve equívocos no movimento, foi "o erro político, estratégico, de não ter conseguido traduzir as grandes campanhas em questões da vida cotidiana que afetam as pessoas. Mas em Gênova foi semeado um germe cujo resultado colhemos na Itália há algumas semanas, com o referendo que rejeitou a privatização da água e da energia nuclear".

"Tínhamos razão quando falamos que o modelo de desenvolvimento ameaçava a biosfera, quando dizíamos que íamos enfrentar uma crise econômica gravíssima, com graves consequências sociais. Agora a situação é muito pior que dez anos atrás. Nestes dias organizamos uma exposição em Gênova sob o título de Cassandra, o movimento previu através da análise o que aconteceria, mas não conseguiu mudar o curso da história", diz Agnoletto, que hoje estará na cidade italiana para as comemorações do décimo aniversário daquela mobilização.

Nogueras também estará em Gênova, junto com sua companheira, que dentro de alguns meses o tornará pai. Para falar do que aconteceu, para que não se perca a memória do que a Anistia Internacional definiu em 2001 como "a mais grave suspensão dos direitos democráticos em um país ocidental depois da Segunda Guerra Mundial". Foi antes do 11 de Setembro. O que veio depois chegou a superar os trágicos dias de Gênova.

Em 2009, no prólogo da nova edição do livro de culto do movimento, "No Logo", sua autora, Naomi Klein, refletia dez anos depois da publicação de seu texto sobre o destino do movimento. "Em algumas partes do mundo, em particular na América Latina, a onda de resistência se desenvolveu e reforçou. Em alguns países os movimentos sociais cresceram o suficiente para se unir aos partidos políticos, ganhando eleições nacionais e estabelecendo um novo regime regional de comércio justo. Mas em outros lugares o movimento desapareceu com o 11 de Setembro. Como se o que sabíamos sobre a complexidade do corporativismo global - que todas as injustiças do mundo não podem ser atribuídas só a um partido de direita, a um Estado, independentemente de seu poder - tivesse desaparecido." "Mas se há um momento para lembrar o que aprendemos no início do milênio é agora", acrescenta.

Fatos do altermundismo

- O começo em Seattle. Em 30 de novembro de 1999, um grupo de manifestantes bloqueou a entrada dos delegados da cúpula da Organização Mundial do Comércio na cidade americana. O protesto continuou durante os quatro dias da cúpula.

- Dos EUA para a Europa. Em abril de 2000 em Washington, cerca de 3 mil pessoas tentaram abortar uma cúpula do Banco Mundial e do FMI. Em setembro, 10 mil manifestantes se mobilizaram em Praga contra as mesmas instituições. No dia 23 se organizou um encontro entre representantes do movimento e do Banco Mundial, graças à mediação do presidente checo Vaclav Havel.

- A época dos fóruns sociais. Em janeiro de 2001 em Porto Alegre foi organizada a primeira contracúpula, enquanto em Davos se reunia o Fórum Econômico Mundial. As primeiras três edições foram na cidade brasileira. Depois vieram Mumbai, Caracas, Nairóbi, Belém e Dacar.

- A batalha de Gênova. Em julho de 2001, por motivo do G8, a cidade italiana recebeu mais de 150 mil pessoas. O que seria uma marcha pacífica terminou com a morte do jovem de 23 anos Carlo Giuliani e centenas de feridos. A cidade foi um campo de batalha.

Paul Krugman

"Podemos estar perto de reviver a crise de 1930"

Para aqueles que conhecem a história da década de 1930, o que está ocorrendo agora é muito familiar. Se alguma das atuais negociações sobre a dívida fracassar, poderemos estar perto de reviver 1931, a bancarrota bancária mundial que alimentou a Grande Depressão. Mas se as negociações tiverem êxito, estaremos prontos para repetir o grande erro de 1937: a volta prematura à contração fiscal que terminou com a recuperação econômica e garantiu que a depressão se prolongasse até que a II Guerra Mundial finalmente proporcionasse o "impulso" que a economia precisava. O artigo é de Paul Krugman, publicado no SinPermiso. Tradução: Katarina Peixoto Krugman é professor de Economía em Princeton e Prêmio Nobel 2008.
Fonte: Carta Maior


Esta é uma época interessante, e digo isso no pior sentido da palavra. Agora mesmo estamos vivendo, não uma, mas duas crises iminentes, cada uma delas capaz de provocar um desastre mundial. Nos EUA, os fanáticos de direita do Congresso podem bloquear um necessário aumento do teto da dívida, o que possivelmente provocaria estragos nos mercados financeiros mundiais. Enquanto isso, se o plano que os chefes de Estado europeus acabam de pactuar não conseguir acalmar os mercados, poderemos ter um efeito dominó por todo o sul da Europa, o que também provocaria estragos nos mercados financeiros mundiais.

Somente podemos esperar que os políticos em Washington e Bruxelas consigam driblar essas ameaças. Mas há um problema: ainda que consigamos evitar uma catástrofe imediata, os acordos que vêm sendo firmados dos dois lados do Atlântico vão piorar a crise econômica com quase toda certeza.

De fato, os responsáveis políticos parecem decididos a perpetuar o que está sendo chamado de Depressão Menor, o prolongado período de desemprego elevado que começou com a Grande Recessão de 2007-2009 e que continua até o dia de hoje, mais de dois anos depois de que a recessão, supostamente, chegou ao fim.

Falemos um momento sobre por que nossas economias estão (ainda) tão deprimidas. A grande bolha imobiliária da década passada, que foi um fenômeno tanto estadunidense quanto europeu, esteve acompanhada por um enorme aumento da dívida familiar. Quando a bolha estourou, a construção de residências desabou, assim como o gasto dos consumidores na medida em que as famílias sobrecarregadas de dívidas faziam cortes.

Ainda assim, tudo poderia ter ido bem se outros importantes atores econômicos tivessem aumentado seu gasto e preenchido o buraco deixado pela crise imobiliária e pelo retrocesso no consumo. Mas ninguém fez isso. As empresas que dispõem de capital não viram motivos para investi-lo em um momento no qual a demanda dos consumidores estava em queda.

Os governos tampouco fizeram muito para ajudar. Alguns deles – os dos países mais débeis da Europa e os governos estaduais e locais dos EUA – viram-se obrigados a cortar drasticamente os gastos diante da queda da receita. E os comedidos esforços dos governos mais fortes – incluindo aí o plano de estímulo de Obama – apenas conseguiram, no melhor dos casos, compensar essa austeridade forçada.

De modo que temos hoje economias deprimidas. O que propõem fazer a respeito os responsáveis políticos? Menos que nada. A desaparição do desemprego da retórica política da elite e sua substituição pelo pânico do déficit tem verdadeiramente chamado a atenção. Não é uma resposta à opinião pública. Em uma sondagem recente da CBS News/The New York Times, 53% dos cidadãos mencionava a economia e o emprego como os problemas mais importantes que enfrentamos, enquanto que somente 7% mencionava o déficit. Tampouco é uma resposta à pressão do mercado. As taxas de juro da dívida dos EUA seguem perto de seus mínimos históricos.

Mas as conversações em Washington e Bruxelas só tratam de corte de gastos públicos (e talvez de alta de impostos, ou seja, revisões). Isso é claramente certo no caso das diversas propostas que estão sendo cogitadas para resolver a crise do teto da dívida nos EUA. Mas é basicamente igual ao que ocorre na Europa.

Na quinta-feira, os “chefes de Estado e de Governo da zona euro e as instituições da UE” – esta expressão, por si só, dá uma ideia da confusão que se tornou o sistema de governo europeu – publicaram sua grande declaração. Não era tranquilizadora. Para começar, é difícil acreditar que a complexa engenharia financeira que a declaração propõe possa realmente resolver a crise grega, para não falar da crise europeia em geral.

Mas mesmo que pudesse, o que ocorreria depois? A declaração pede drásticas reduções do déficit “em todos os países salvo naqueles com um programa” que deve entrar em vigor “antes de 2013 o mais tardar”. Dado que esses países “com um programa” se veem obrigados a observar uma estrita austeridade fiscal, isso equivale a um plano para que toda a Europa reduza drasticamente o gasto ao mesmo tempo. E não há nada nos dados europeus que indique que o setor privado esteja disposto a carregar o piano em menos de dois anos.

Para aqueles que conhecem a história da década de 1930, isso é muito familiar. Se alguma das atuais negociações sobre a dívida fracassar, poderemos estar perto de reviver 1931, a bancarrota bancária mundial que tornou grande a Grande Depressão. Mas se as negociações tiverem êxito, estaremos prontos para repetir o grande erro de 1937: a volta prematura à contração fiscal que terminou com a recuperação econômica e garantiu que a depressão se prolongasse até que a II Guerra Mundial finalmente proporcionasse o impulso que a economia precisava.

Mencionei que o Banco Central Europeu – ainda que, felizmente, não a Federal Reserve – parece decidido a piorar ainda mais as coisas aumentando as taxas de juros?

Há uma antiga expressão, atribuída a diferentes pessoas, que sempre me vem à mente quando observo a política pública: “Você não sabe, meu filho, com que pouca sabedoria se governa o mundo”. Agora, essa falta de sabedoria se apresenta plenamente, quando as elites políticas de ambos os lados do Atlântico arruínam a resposta ao trauma econômico fechando os olhos para as lições da história. E a Depressão Menor continua.

(grifos do blog)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Ruy Castro

Contra papai e mamãe


Artigo de Ruy Castro (foto)  publicado na Folha de São Paulo, 18/07/2011.
Fonte: Folha de São Paulo


Theodore Roszak, o inventor da palavra "contracultura", morreu outro dia na Califórnia, aos 77 anos. Era um historiador, um observador social, um pensador multidisciplinar. Mas só será lembrado por seu livro de 1968, "A Contracultura", em que cunhou a expressão e tentou dar um sentido a tudo que envolvia a juventude naquela época.

O que não era pouco. De repente, milhões de rapazes e moças em toda parte se levantaram contra o "sistema" -leia-se o governo, os políticos, a Guerra do Vietnã, as ditaduras militares, os professores, a autoridade em geral, a moral estabelecida, a sociedade de consumo, a arte "bem-feita", o barbeiro do bairro, os maiores de 30 anos ou, à falta de melhor, papai e mamãe. Mas não significava que todos protestassem contra as mesmas coisas.

A contracultura foi a passagem do primado da razão (que levou uma parte ultrapolitizada da juventude a lutar contra as ditaduras, as desigualdades sociais, o sistema universitário, a censura etc.) ao primado da não razão (que fez com que outra parte preferisse "cair fora" das cidades e ir queimar fumo, tomar ácido, fazer filhos, plantar coquinhos, catar piolhos e ouvir Jimi Hendrix no meio do mato).

Durante algum tempo, pareceu que a segunda facção -a dos hippies, drop-outs, psicodélicos, místicos, ocultistas e alienados em geral- iria prevalecer. Prometia-se um novo homem, sem os velhos defeitos. Até que, naturalmente, o "sistema" absorveu esse antirracionalismo, converteu-o em produtos e serviços, e o pôs à venda. A contracultura se tornou a nova cultura, e tão careta quanto.

Roszak nunca aceitou bem essa conclusão. Para ele, os ecos da contracultura estão entre nós até hoje -na informalidade ao vestir, na comida mais saudável, na ecologia, nos direitos humanos. Tudo bem. Mas o novo homem não veio, só mudaram os defeitos.

domingo, 17 de julho de 2011

Estado espanhol: o movimento dos ''indignad@s'' e suas perspectivas

Além das particularidades de cada país, aquilo que passa tanto no Estado espanhol como na Grécia, depois da irrupção das revoltas no mundo árabe, terá repercussões em todo o continente. Daqui resulta a importância de analisar em profundidade a realidade e o potencial destas grandes mobilizações. Esther Vivas e Josep Maria Antentas nos dão aqui sua opinião sobre o significado do movimento dos “indignad@s”.  A entrevista é de Jean-Philippe Divès para o periódico Tout est à Nous e nos foi enviada por Esther Vivas. A tradução é de Benno DIschinger.
Fonte: UNISINOS




Como definiria as características centrais deste movimento?

Josep Maria: O movimento começou absolutamente por surpresa. As manifestações de 15 de maio (15M) foram muito maiores do que o esperado e a arrancada dos acampamentos foi espontânea. Desde o começo da crise a reação social havia sido muito débil. Finalmente tudo estalou de forma inesperada, “intempestiva”, como diria Daniel Bensaïd. E, como quase sempre que começa um grande movimento social, este se fez com a juventude como protagonista em sua fase inicial, e com formas de protesto inovadoras e disruptivas. Expressa no mínimo a radicalização social mais importante desde faz mais de dez anos, quando emergiu o movimento antiglobalização, embora atualmente, em plena crise, a profundidade social e territorial do movimento seja maior.

Esther Vivas: O movimento de 15 de maio tem um duplo eixo de crítica. Por um lado, a classe política e, pelo outro, os poderes econômicos e financeiros, como bem resume o lema “Não somos mercadorias em mãos de políticos e banqueiros”. As revoltas no mundo árabe tem sido um referencial e assim o põem de manifesto as ocupações de praças e os acampamentos, tomando como exemplo, entre outros, a Plaza Tahrir. Estas têm sido um palanque para impulsionar futuras mobilizações e um alto-falante para amplificar as atuais. Atuaram como referencial simbólico e como base de operações e não têm sido um fim em si mesmas. A internet e as redes sociais, Twitter e Facebook, desempenharam um papel-chave como espaço de discussão, de politização e de formação de uma identidade e um acervo compartilhado, além de serem um instrumento a serviço da mobilização social.

Do exterior se tem a impressão de que a ruptura com o movimento operário organizado, sindicatos e partidos, é ainda mais importante do que na Grécia... O que se passou com os sindicatos depois da longa greve geral de 29 de setembro do ano passado?

Esther Vivas: Depois da greve geral de 29 de setembro os sindicatos majoritários voltaram à sua prática habitual de desmobilização. A greve geral foi um parêntesis no tempo e não significou uma mudança de orientação. Em janeiro, CCOO e UGT e o Governo firmaram o acordo sobre a reforma das pensões, que aumentava os anos de cotização para cobrar a pensão. Isto encerrou brutalmente qualquer expectativa de mobilização social. Os sindicatos majoritários ficaram desconcertados por um movimento que não previam e que os interpela. Agora está por ser vista sua reação e se o movimento será suficientemente forte para forçar algum tipo de virada de sua parte. Em muitos acampamentos, como o de Barcelona, saiu claramente a petição de uma greve geral e também a vontade de “levar a indignação aos centros de trabalho”, onde ainda há muito medo e resignação.

Josep Maria: O movimento expressa uma recusa frontal às políticas do governo Zapatero. Esquerda Unida manifestou suas simpatias pelos protestos, mas em geral tem sido muito exterior aos mesmos, sem um vínculo militante real. A esquerda extra-parlamentar e alguns sindicatos alternativos estiveram, sim, presentes no movimento, junto com uma multidão de pessoas não organizadas ou em coletivos sociais. Os setores em luta, como os trabalhadores da saúde na Catalunha, mobilizados contra os cortes, tiveram também um papel ativo e visível.

Com o desenvolvimento da mobilização, há um avanço nas reivindicações e no nível de consciência?

Esther Vivas: A jornada de mobilizações de 19 de junho (19J) mostrou como o movimento se deslocava da esquerda e se aprofundava em suas reivindicações. Alguns dos slogans mais correntes em muitas das manifestações foram as críticas dirigidas ao Pacto do Euro, contra os cortes sociais, contra os bancos e também a demanda de uma greve geral. Observa-se um ambiente de radicalização, embora de maneira imprecisa e difusa, em clamores como “a revolução começa aqui”, contada em muitos acampamentos. Outro movimento-chave de radicalização política foi a jornada de 15 de junho, quando em Barcelona se tentou bloquear o Parlamento da Catalunha, durante o debate parlamentar dos pressupostos do Governo catalão e onde se propunham os cortes sociais mais importantes desde a democracia.

Josep Maria: O movimento, desde seu começo, tem passado por várias provas que lhe permitiram amadurecer e aprofundar-se em seu discurso, como por exemplo, a vitória ante o intento de desalojamento em Barcelona no passado dia 27 de maio, ou a criminalização sofrida após o bloqueio ao Parlamento da Catalunha aos 15 de junho. A denúncia e a utilização do déficit como uma excusa para cortar direitos está presente na política do movimento. No caso da Catalunha, por exemplo, o rechaço aos pressupostos do Governo catalão, que incluem fortes cortes na saúde e educação, tem sido um dos aspectos-chave do movimento.

Na opinião de vocês, o que vai permanecer deste movimento? Há possibilidades que subsistam formas de estruturação mais permanentes?

Esther Vivas: A partir dos primeiros acampamentos e ocupações de praças em grandes cidades, o exemplo se estendeu a cidades médias e pequenas, bem como aos bairros das grandes urbes. Também se estabeleceram coordenações de assembléias de povoados e bairros. E elas constituem, de fato, alguns dos principais êxitos do movimento. Esperamos um outono quente com novas mobilizações, como a jornada do 15 de outubro, e com lutas concretas frente aos cortes sociais.

Josep Maria: Não estamos ante um movimento conjuntural, senão ante a ponta do iceberg de uma previsível nova onda de mobilizações. O 15M e os acampamentos têm sido a primeira sacudida e atuaram como lançadeira. Nestas semanas, o movimento se ampliou, diversificando-se social e geracionalmente, e se arraigou territorialmente. O êxito da jornada de manifestações do 19J mostrou-o claramente. Em menos de um mês o crescimento quantitativo e qualitativo tem sido muito grande.

Qual é o impacto sobre o panorama político no Estado espanhol? Significa ou pode provocar importantes mudanças?

Josep Maria: O movimento surgido com o 15M teve um forte impacto na opinião pública e desfrutou de uma grande centralidade midiática. Ninguém esperava o enorme êxito do 15M e menos ainda o que viria depois. Tem sido umas semanas que mudaram a paisagem político-social do conjunto do Estado espanhol. Elas são uma mostra do rechaço das políticas aplicadas pelo Governo Zapatero e também um sinal muito claro para a direita, que aspira a ganhar as próximas eleições gerais, de que vai encontrar-se com um panorama de agitação social quando chegar ao poder.

Esther Vivas: Estas mobilizações significam, sem dúvida, um ponto de inflexão e o início de uma nova etapa. Muitas pessoas têm dito que “nada será como antes”, e assim é. O movimento conseguiu pôr fim à passividade resignada e ao desânimo que até agora imperava. O presente nos abriu uma brecha de esperança no futuro.

[grifos do blog]

A fé ameaça quebrar os EUA

"Como fazem as seitas, fundamentalismo do Tea Party, ao pedir zero de aumento de impostos, leva ao risco de suicídio coletivo", escreve Clóvis Rossi, jornalista, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo,17-07-2011.
Fonte: UNISINOS


O enrosco entre o presidente Barack Obama e os republicanos, em torno do aumento do teto de endividamento, não é uma questão política, econômica, contábil.

Trata-se de fé, de fundamentalismo religioso de parte dos integrantes do chamado Tea Party, o grupo de extrema-direita que emergiu com força na eleição de 2010. Estão sempre possuídos de uma Estado-fobia que supera o que Paul Krugman, ontem neste mesmo espaço, chamava de loucura antiga dos republicanos.

Ajuda-memória: até o dia 2, o Congresso tem que autorizar o aumento do teto de endividamento, que está em US$ 14 trilhões, número inimaginável. Dá cerca de sete vezes tudo o que o Brasil produz por ano de bens e serviços.

Sem a autorização, o governo quebra. Não poderia mandar, por exemplo, o cheque para o velhinho aposentado de Utah ou o dinheiro, bem mais suculento, para os investidores chineses que compram aos cachos papéis do Tesouro norte-americano. Nem mesmo para o Brasil, terceiro maior comprador da dívida dos EUA.

A contrapartida da autorização terá que ser um ajuste fiscal de cerca de US$ 4 trilhões (dois Brasis). Ajuste fiscal, em qualquer lugar do mundo, compõe-se de duas fatias não necessariamente iguais: corte de gastos e aumento das receitas do governo.

Até a emergência do fundamentalismo do Tea Party, loucos ou não, os republicanos discutiriam com os democratas até que as duas partes se convencessem de que nada mais poderiam extrair da outra. O acordo sairia, na undécima hora, mas sairia.

Aí é que surge o fundamentalismo com que os republicanos do Tea Party abordam a negociação. Ela já começou desequilibrada a favor do corte de gastos: Obama, em abril, propunha US$ 1,5 trilhão de aumento de impostos (em 10 anos). Ou seja, 37,5% do ajuste viria do aumento de receitas; os dois terços restantes do corte de gastos.

Os republicanos refugaram, e a mais recente proposta do presidente, já em julho, passou a ser de US$ 750 bilhões. Ou seja, menos de 20% do ajuste viria do aumento de impostos e mais de 80% do corte de gastos.

Nem assim os republicanos estão aceitando. Não é que Obama queira, por exemplo, aumentar o imposto sobre valor agregado, que machuca todos os contribuintes, independentemente de sua renda. Não.

Acha apenas, como disse sexta-feira, que "milionários e bilionários podem fazer um pouco mais", que é possível fechar "os buracos corporativos de forma que as companhias de petróleo não consigam desnecessárias isenções fiscais ou que os donos de jatinhos corporativos delas se beneficiem".

Enfim, nada que não seja o mais clássico preceito tributário segundo o qual paga mais quem pode mais. Mas não basta para a turma do Tea Party, que quer zero de aumento de impostos e, de quebra, aleijar um presidente que consideram "socialista".

Torna-se por isso possível o cenário assim descrito para o "Financial Times" por Steve Wieting, analista do Citigroup: "Perguntar como poderia se parecer a economia norte-americana após um eventual calote equivale a perguntar o que você faria depois de cometer suicídio".



Se o Tea Party é movimento religioso, veneram o diabo; ô povo ruim!!
Enoisa

domingo, 26 de junho de 2011

Fabíola Munhoz e Kevin Beneteau

15-M a 19-J: o movimento se expande na Espanha

Reportagem de Fabíola Munhoz e Kevin Beneteau, publicada pela CartaMaior, 24-06-2011.
Fonte: Carta Maior

O último domingo, quando aconteceu a manifestação interacampadas do 19-J, organizada pelo Movimento 15-M, foi um dia inusitado desde o amanhecer. Já no momento em que chegamos à praça, por volta das 11h00, pudemos ver os acampados atarefados, cada um com sua ocupação. Eram como formigas caminhando de um lado a outro, ainda que nesse caso lhes faltasse uma rainha.

A partir do meio-dia, começaram a chegar indignados de outras partes de Barcelona e também de fora da cidade. Chamava especialmente a atenção um grupo que vinha caminhado desde Badalona, cidade catalã localizada a aproximadamente 10 km da capital.

Pouco a pouco, a praça foi se enchendo, e as diferentes caravanas, chegadas de diferentes direções, uniam-se para conversar e compartilhar água ou comida.

O início da marcha estava previsto para as 17h00, mas meia-hora antes já era impossível não se perder em meio à multidão. Foi então que os manifestantes partiram de maneira organizada, até a Via Laietana, rua famosa de Barcelona, que dá acesso ao mar e por onde se pode rumar ao Parlamento Catalão.

Ao longo do caminho, cada vez mais gente saía às ruas para se somar ao protesto, aumentando o tamanho do oceano humano que já se formava, e escorria pelos passeios públicos portando cartazes criativos, soando música, gritando hinos indignados, ou simplesmente fazendo barulho com palmas e panelas.

Quando nos vimos diante daquela massa, pensamos no quanto parecíamos minúsculos e, ao mesmo tempo, sentimos que estávamos diante da oportunidade de documentar algo especial e com potencial para gerar mudanças importantes.

Entre a gente unida, viam-se bandeiras republicanas, independentistas e muitas outras, que representavam, cada uma, uma luta e uma reivindicação diferente. No entanto, essa era um clara minoria entre os milhares de anônimos que haviam se juntado aos demais para apoiar o movimento com ordem e pacifismo, que pudessem fazer de sua ação um verdadeiro exemplo de civismo.

Os participantes da mobilização eram das mais variadas idades e classes sociais. E tinham todos um denominador comum: a vontade de dizer aos ocupantes de cargos públicos que a atual democracia já não os representa.

É verdade que alguns manifestantes, espontaneamente, escalaram a estrutura de paradas de ônibus até alcançar seu teto para, de ali, tentarem se alçar líderes da “revolução”. No entanto, esses indignados mais exaltados foram obrigados a descer de onde estavam pelos demais manifestantes, preocupados com a imagem que poderiam transmitir ao restante da sociedade e aos meios de comunicação.

Embora não tenha havido incidentes, um desses participantes alucinados deu um pouco mais trabalho para os que tentavam manter as coisas tranqüilas, quando se erigiu antes as dezenas de milhares de manifestantes, e imitou Jesus Cristo, proferindo uma mensagem subliminar que muito poucos puderam compreender. A maioria simplemente se sentiu ofendida ao ver alguém seminu, dizendo loucuras, já que considerava a manifestação como algo muito sério: uma oportunidade de mostrar rechaço ao Pacto do Euro, exigindo políticas que beneficiem os cidadãos, e não os mercados.

As mensagens espalhadas pela multidão diziam ao partido socialista (PSOE), no poder atualmente na Espanha, que é urgente deter a supremacia dos interesses das grandes empresas, em detrimento da dignidade da população. Depois de observar a massa durante meia hora, decidimos nos unir à marcha e avançar pela Via Laietana, mas era tanta gente, que o início da manifestação chegou ao destino, sem que a fila tivesse começado a se mover.

Pouco a pouco, porém, foi possível que a multidão saísse do lugar, convertendo-se numa infinidade de individualidades, todas com o mesmo objetivo: expressar indignação. Em meio à Via Laitana, por onde a procissão descia, olhávamos para frente e para trás, sem poder identificar o fim e o começo daquele mar de pessoas, até que alcançamos a Plaza del Palau, ponto de chegada da manifestação.

Ali, parte dos manifestantes decidiu acampar, para conversar reunidos em rodas ou somente observar a manifestação. Nesse momento, também nós paramos para o merecido descanso, até que cada um tomou o caminho de casa, com a ilusão de haver participado de algo histórico.

Apesar das tentativas dos grandes veículos de comunicação, observadas na última semana, de desprestigiar e desmoralizar o movimento 15-M, com base nos embates violentos ocorridos no Parlamento da Catalunha, dessa vez foi difícil encontrar pretexto para tachar os indignados de agressivos.

Foi tão pacífica a ação integrada por desde crianças até idosos, que a Guarda Urbana sequer se aproximou dos manifestantes. Seus integrantes se mantiveram recolhidos em seus carros, observando tudo à distância, enquanto um helicóptero da Polícia sobrevoava o local, despertando vaias e gestos pacíficos dos indignados.

O próximo passo do movimento agora será uma Marcha Popular Indignada que, saindo de várias cidades distintas, passará por 29 lugares da Espanha, entre povoados e municípios, para durante realizar em cada um desses locais assembléias em que os cidadãos possam expressar suas reivindicações. A jornada, que começa neste sábado (25/6) acabará em Madrid, quando essas propostas populares serão apresentadas ao governo espanhol.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Boaventura de Sousa Santos

 A pensar nas eleições


Artigo de Boaventura de Sousa Santos.
Fonte: Carta Maior

Nos próximos tempos, as elites conservadoras europeias, tanto políticas como culturais, vão ter um choque: os europeus são gente comum e, quando sujeitos às mesmas provações ou às mesmas frustrações por que têm passado outros povos noutras regiões do mundo, em vez de reagir à europeia, reagem como eles. Para essas elites, reagir à europeia é acreditar nas instituições e agir sempre nos limites que elas impõem. Um bom cidadão é um cidadão bem comportado, e este é o que vive entre as comportas das instituições.

Dado o desigual desenvolvimento do mundo, não é de prever que os europeus venham a ser sujeitos, nos tempos mais próximos, às mesmas provações a que têm sido sujeitos os africanos, os latino-americanos ou os asiáticos. Mas tudo indica que possam vir a ser sujeitos às mesmas frustrações. Formulado de modos muito diversos, o desejo de uma sociedade mais democrática e mais justa é hoje um bem comum da humanidade. O papel das instituições é regular as expectativas dos cidadãos de modo a evitar que o abismo entre esse desejo e a sua realização não seja tão grande que a frustração atinja níveis perturbadores.

Ora é observável um pouco por toda a parte que as instituições existentes estão a desempenhar pior o seu papel, sendo-lhes cada vez mais difícil conter a frustração dos cidadãos. Se as instituições existentes não servem, é necessário reformá-las ou criar outras. Enquanto tal não ocorre, é legítimo e democrático atuar à margem delas, pacificamente, nas ruas e nas praças. Estamos a entrar num período pós-institucional.

Os jovens acampados no Rossio e nas praças de Espanha são os primeiros sinais da emergência de um novo espaço público – a rua e a praça – onde se discute o sequestro das atuais democracias pelos interesses de minorias poderosas e se apontam os caminhos da construção de democracias mais robustas, mais capazes de salvaguardar os interesses das maiorias. A importância da sua luta mede-se pela ira com que investem contra eles as forças conservadoras. Os acampados não têm de ser impecáveis nas suas análises, exaustivos nas suas denúncias ou rigorosos nas suas propostas. Basta-lhes ser clarividentes na urgência em ampliar a agenda política e o horizonte de possibilidades democráticas, e genuínos na aspiração a uma vida digna e social e ecologicamente mais justa.

Para contextualizar a luta das acampadas e dos acampados, são oportunas duas observações. A primeira é que, ao contrário dos jovens (anarquistas e outros) das ruas de Londres, Paris e Moscou no início do século XX, os acampados não lançam bombas nem atentam contra a vida dos dirigentes políticos. Manifestam-se pacificamente e a favor de mais democracia. É um avanço histórico notável que só a miopia das ideologias e a estreiteza dos interesses não permite ver. Apesar de todas as armadilhas do liberalismo, a democracia entrou no imaginário das grandes maiorias como um ideal libertador, o ideal da democracia verdadeira ou real. É um ideal que, se levado a sério, constitui uma ameaça fatal para aqueles cujo dinheiro ou posição social lhes tem permitido manipular impunemente o jogo democrático.

A segunda observação é que os momentos mais criativos da democracia raramente ocorreram nas salas dos parlamentos. Ocorreram nas ruas, onde os cidadãos revoltados forçaram as mudanças de regime ou a ampliação das agendas políticas. Entre muitas outras demandas, os acampados exigem a resistência às imposições da troika para que a vida dos cidadãos tenha prioridade sobre os lucros dos banqueiros e especuladores; a recusa ou a renegociação da dívida; um modelo de desenvolvimento social e ecologicamente justo; o fim da discriminação sexual e racial e da xenofobia contra os imigrantes; a não privatização de bens comuns da humanidade, como a água, ou de bens públicos, como os correios; a reforma do sistema político para o tornar mais participativo, mais transparente e imune à corrupção.

A pensar nas eleições acabei por não falar das eleições. Não falei?



sábado, 21 de maio de 2011

Riccardo Stagliano

A Rede não esquece nenhuma informação. E preserva a nossa identidade

Análise do jornalista italiano Riccardo Stagliano, publicada no jornal La Repubblica, 19-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS


Em traição, o Expedia me pergunta se eu quero sair de férias com minha ex-namorada. Ele não diz exatamente isso, mas me sugere o seu nome para o segundo bilhete de avião. O impertinente site de viagens se lembra disso a partir de uma antiga compra. A Amazon faz o mesmo para a entrega dos livros. Se você pede que seja enviado a um endereço que não é mais o seu, ele insiste. Até mesmo o site das contravenções do município de Roma tenta pregar-lhe ao passado. Vou verificar uma multa e, ao lado do documento, agora colocam a foto da infração. Em preto e branco, granulada, mas inevitável: sou justamente eu no assento. Com a companheira daquela época.

Deus perdoa, a Internet não. Sobretudo não se esquece de nada. Ela nos conhece melhor do que uma mãe, do que um amigo, do que um psicanalista. E é capaz de reunir tantas peças daquele mosaico caótico que é a vida, reconstruindo-o em um nível de detalhe impensável na era pré-web. Por isso, eu pedi que a rede escrevesse a minha biografia, e quem a prepara é um algoritmo. Utilizando fontes abertas, informações à disposição de todos. Se eu tivesse pedido ao Serviço Secreto, teria recebido um retrato menos vívido. Prove para acreditar.

Se você é jornalista, teoricamente, está mais exposto do que um empregado do cartório. Mas isso não é óbvio, porque o empregado poderia ter uma dupla vida pirotécnica telemática: compartilha tudo no Facebook, comenta os blogs dos outros, confia ao Twitter em tempo real as suas próprias opiniões sobre o universo mundo. Em suma, coisas que eu não faço. Porque, no final, os pixels com os quais a rede irá compôr o nosso retrato digital, em alta ou baixa resolução, nós é que vamos fornecer. Às vezes, de maneira ativa, preenchendo questionários, assinando abaixo-assinados e assim por diante. Mais frequentemente, de modo passivo, simplesmente navegando, comprando ou sendo marcados em fotos de outras pessoas.

Para começar, portanto, existe o Google. O nível zero é o egosurfing, ou seja, controlar o que se diz sobre nós na rede, digitando "nome e sobrenome". No meu caso, surgem 102 mil resultados, mas os números mudam com o passar dos dias. Nos primeiros lugares, um verbete da Wikipédia em inglês que, há algum tempo, defendia erroneamente que eu era o chefe do Repubblica.it (aproveito para me desculpar com o titular do posto). Perto do final, surge ao contrário uma mensagem que eu enviei no dia 27 de maio de 1996 a um grupo de discussão sobre a publicidade online. Pelo que eu sabia na época, era como anexar um anúncio em um mural da universidade. O que eu aprendi depois é que ninguém jamais o removeria, ou melhor, seria embalsamado para a memória futura. Se eu tivesse pedido instruções para confeccionar uma bomba seria o mesmo.

Se, depois, assim como eu e outros 170 milhões de pessoas do mundo, você usa o e-mail do Gmail, as coisas se complicam. No sentido de que tudo o que você escreve poderá ser usado, publicitariamente falando, contra você, porque o sistema analisa os textos para acasalar publicidades pertinentes. Então, se você conta a um amigo que seria bom passar um fim de semana em Palermo, espere, por exemplo, anúncios sobre uma suíte com desconto no hotel Delle Palme.

Para ver como você foi rotulado, existe o Google Ads Preferences. De mim, o software entendeu que sou um homem e, entre os interesses derivados do meu comportamento online, há cinema, partituras musicais, jornalismo. E, na TV, me agradariam "crime stories and legal show" (nego a acusação).

Mas o Google é quase um mundo. Coloca à disposição um programa para escrever, um calendário, um sistema de notificações personalizadas e muito mais. Grátis, ou melhor, pagando na moeda da privacidade. Ele lhe oferece um serviço, você lhe confia a sua vida digital. O que você escreve, aonde vai e quando, aquilo que lhe interessa saber. Assim, mesmo que anonimamente, o cber-leviatã reutilizará esse conjunto de dados para lhe fornecer o anúncio certo.

Fui verificar no Dashboard, a "caixa preta" de todas as minhas relações com o motor de busca. E é como olhar a alma no espelho. Desde o momento em que eu ativei a cronologia, ou seja, o registro histórico de cada pesquisas feita, eles sabem exatamente o que eu vi nos últimos anos. A prestação de contas começa às 18h16 do dia 22 de maio de 2007, e as palavras-chave, acreditem ou não, são "nietzsche memória muito boa" (talvez eu me deixei influenciar e queria sancionar com uma citação do filósofo o fato de ter ativado essa espécie de panóptico voluntário). Cada query singular foi posto em ata.

Há também todos os endereços que eu busquei no Maps. O vídeo que eu assisti, desde o clipe de The Ballad of John and Yoko ao último álbum disco dos Virginiana Miller. Sem falar dos que eu subi ao YouTube. Assim como as fotos que, há muito tempo, eu compartilhei nos álbuns digitais do Picasa. E os títulos que eu baixei no Books. Já há o suficiente para reconstruir a minha existência, tendo muito tempo para perder, minuto a minuto.

Detetives digitais

Para acessar a sancta sanctorum, porém, é preciso possuir a palavra-chave. É preciso um bom hacker ou, banalmente, tê-la deixado memorizada no seu PC. No entanto, mesmo limitando-se às informações abertas, os resultados são surpreendentes. Se você não tem familiaridade com a sintaxe dos motores de busca, existem empresas especializadas em web listening. Geralmente, são as empresas que fazem isso, para entender que "reputação" uma marca ou um certo produto tem.

Eu as desafiei a liberar os seus softwares especializados para que revelassem os dados mais suculentos sobre a minha conta. Depois de menos de um dia, a emiliana TheDotCompany me entregou um relatório que parecia ter sido escrito à mão por um funcionário da Digos. Ele contém: lugar e data de nascimento, números de telefone de trabalho e de casa, qualificação profissional exata, o nome do meu pai e a anotação de que "Os pais e os sobrinhos vivem em Viareggio". Uma impecável biografia de trabalho e depois: "O sistema de correção de palavras-chave e conteúdos sugere orientação política Partido Democrático/Rifondazione Comunista e fortes laços com o mundo sindical", creio que deduzidos do fato de eu ter escrito um livro sobre os imigrantes e tê-lo apresentado em vários festivais da Unidade.

Em paralelo, o Expert System de Modena, especialista na tecnologia semântica para a compreensão e a análise das informações, também estava no meu rastro. Em uma dezena de slides resume as organizações, as pessoas (vence o meu amigo Raffaele Oriani, com 319 ocorrências), as localidades, os argumentos com os quais eu tenho mais a ver (Internet 206, imigração 150, editoria 137 etc.) e uma enoteca que eu frequento.

Os detetives milaneses da FreedataLabs extraem até perfis psicológicos das palavras que eu uso. Dizem que só 6% pertencem a categorias emocionais e me retratam como um sujeito muito "inclinado ao objetivo", "curioso", mas também "introvertido", com veios de "tristeza". Assim falou o psiquiatra automaticamente.

Joel Stein, um colega da Time que fez a mesma experiência, se saiu melhor ao encontrar rastros econômicos sobre ele mesmo. A Alliance Data, empresa de marketing digital, sabe que ele é um judeu de 39 anos, formado, com um salário de mais 125 mil dólares. Que gasta em média 25 dólares para cada compra online, mas, no dia 10 de outubro de 2010, desembolsou 180 em roupas íntimas. "São dados que, na Itália, seria impossível ter sem a ordem de um magistrado", me tranquiliza Andrea Santagata, número dois da Banzai, uma das maiores empresas de web nacionais, "porque temos uma lei sobre a privacidade muito mais severa. Em todo caso, não interessa à publicidade saber como você se chama, mas sim conhecer o seu perfil para mirar as mensagens".

Tudo verdade, algo a ser mantido na mente para não acabar inscrito no já lotado partido das teorias da conspiração. Mas o que foi dito até aqui também o é. Ou melhor, não houve nem tempo para se falar da Last.fm, que sabe que música eu escuto (se você gosta dos Wilco, você também vai gostar dos Golden Smog e de The Autumn Defense). Ou da IBS que, sabendo quais livros eu compro, me aconselha outros, por propriedade transitiva: se David Foster Wallace, então George Saunders. Ou de infinitos outros destinos online, que, pelo simples fato de ter interagido com eles, criam dossiês a partir do qual podem inferir a minha personalidade.

É uma tragédia? Nem sonhando. A Internet é a invenção mais incrível e benemérita do último século. Basta se consciente e comportar-se em conformidade.

No que diz respeito, enfim, à insistência inconveniente do Expedia, eu limpei os cookies, o pequeno pedaço de código que lembrava ao site as minhas viagens anteriores. E agora o computador não se intromete mais em coisas que não lhe dizem respeito.

domingo, 15 de maio de 2011

Amir Khair

Mudanças na política econômica?

O governo comprou a idéia de que há excesso de demanda que tem que ser combatido através de redução das despesas para gerar forte superávit primário (receitas menos despesas, exclusive juros). Afirma que é necessário reduzir a despesa de custeio para expandir o investimento e abrir caminho para a redução dos juros básicos. Ora, o que está elevando a despesa são principalmente os juros. Sua redução dependa da redução da Selic, abrindo espaço para elevar investimentos e programas de distribuição de renda, que é o que mais interessa em termos de desenvolvimento econômico e social. O artigo é de Amir Khair.
Fonte: Carta Maior


Nada mais desgastante na política e na economia do que a inflação, mais até do que o desemprego, pois atinge a todos, especialmente os de renda média e baixa. É por essa razão que os governos a elegem como prioridade absoluta na formulação e implementação da política econômica.

Além disso, a própria inflação acaba por criar o desemprego, com certa defasagem, ao retirar poder aquisitivo das camadas de renda média e baixa, reduzindo as vendas, produção e investimentos.

A oposição, vazia de propostas, já tomou a inflação como tema central de seus ataques ao governo e assumiu como solução ao problema o mesmo receituário ortodoxo da redução de despesas do governo federal e aumento da Selic para conter o consumo, que seria o vilão inflacionário. Assumiu a mesma terapia aplicada durante o governo FHC, só que usou Selic bem superior à do governo Lula e realizou superávits primários segundo as exigências do FMI para salvar a iminente débâcle das contas internas e externas ocorrida no início de 1999 (segundo mandato de FHC).

Com inflação em elevação, a base de apoio ao governo no Congresso Nacional passa a ser mais exigente para aprovar a criação ou modificação das propostas do Executivo e a mídia passa a martelar duramente o governo.

Isso está levando o governo a modificar sua política inicialmente traçada na posse da presidente de crescer com inflação sob controle e reduzir a Selic para conter a avalanche de dólares que está causando estragos na competitividade das empresas e ampliação dos rombos nas contas externas.

Essa modificação vai se dando na prática, apesar do governo negá-la, mas fato é que já há alguns meses vem elevando a Selic e admitindo que deva reduzir o consumo, diminuindo as despesas de custeio do governo e tentando controlar o crédito para diminuir o consumo das famílias, que representam 75% do consumo total, ficando o governo com 25%.

No caso das despesas do governo dois compromissos foram assumidos: redução de R$ 50 bilhões no orçamento e obtenção de superávit primário do setor público (União, Estados e Municípios e suas estatais) de R$ 117,9 bilhões. Como demonstração desses compromissos, neste 1º trimestre, em relação ao crescimento do PIB, o governo federal teve suas receitas crescendo 5,2% e as despesas caindo 4,4% (pessoal 7,5%, benefícios da previdência 6,2% e outras despesas 0,1%). Com isso obteve um superávit primário de R$ 26,0 bilhões, acima da meta prevista para o 1º quadrimestre de R$ 22,9 bilhões. Em 2010 o superávit do 1º trimestre foi de R$ 8,9 bilhões. Nada se falou sobre a forte elevação das despesas com juros que passaram nesse período de R$ 30,6 bilhões para R$ 40,9 bilhões, prejudicando o resultado fiscal em R$ R$ 10,3 bilhões.

No caso das despesas com consumo das famílias, as principais medidas foram: elevação dos depósitos compulsórios dos bancos no Banco Central (BC) em cerca de R$ 80 bilhões, aumento do requerimento de capital para operações de crédito de maior risco (superior a 24 meses) e aumento do IOF sobre operações de crédito. O BC elevou a Selic em todas as três reuniões do Copom deste ano totalizando 1,25 pontos percentuais e já anunciou que continuará a elevá-la nas próximas reuniões. Essa elevação da Selic serve mais para valorizar o real barateando as importações do que para elevar os juros aos consumidores.

O Banco Internacional de Compensações (BIS), dia 29/4, concluiu na reunião dos bancos centrais, que os países emergentes podem estar complacentes com a inflação, mas que o Brasil não está. O texto do banco destaca especificamente o combate à alta de preços no país pelo mix monetário e fiscal, notando que isso ocorre apesar de o crédito continuar aumentando, e que está subindo em todos os países.

Na comparação dos 21 países com regime de meta de inflação, a situação do Brasil não é a mais desconfortável. Apenas Noruega e Suíça têm expectativas de fechar o ano abaixo do centro da meta. Já oito BCs poderão fechar o ano estourando a meta: o Banco Central Europeu (BCE), Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia, Turquia, Chile, Israel e Tailândia.

A inflação, no entanto, é determinada por condicionantes internos e, principalmente, externos. Fato é que desde setembro do ano passado os preços dos alimentos e commodities deram um salto e tencionaram a inflação em todos os países, especialmente nos emergentes, que em relação aos desenvolvidos apresentam nível de crescimento econômico superior e o peso dos alimentos tem efeito maior sobre o orçamento familiar.

Segundo a Bloomberg e BC de jul/2010 a fev/2011 os preços das commodities subiram 74%. É importante observar que fazem parte das commodities alguns alimentos (milho, trigo, soja, cacau, café, açúcar, suco de laranja, gado vivo e porco).

Essa elevação internacional de preços acendeu os debates sobre a melhor forma de combate da inflação em cada país. Há uma afirmação muito difundida nas análises econômicas de que o crescimento econômico de um país acaba por acirrar o processo inflacionário, caso a oferta interna de bens e serviços não estiver atendendo as necessidades do consumo.

É importante avaliar com mais cuidado essa afirmação, pois caso aceita, o remédio mais adequado para combater a inflação é por o pé no freio no crescimento econômico, gerando queda nas vendas, produção, investimentos e desemprego.

Em economias fechadas, onde não ocorre a importação de produtos, a afirmação faz sentido, pois a falta de atendimento por parte das empresas aos consumidores leva-as naturalmente elevarem seus preços. Mas em economias abertas, a oferta é constituída da produção local e da importação. Assim, se num primeiro momento a empresa quiser remarcar seus preços pode perder mercado para o produto importado mais barato e com qualidade compatível com a necessidade do consumidor.

É o que está ocorrendo no Brasil, mas não pelo aumento de preços por parte das empresas, mas pelo barateamento dos produtos importados, pois o valor do dólar vai ficando cada vez mais barato face ao real. Um ano atrás, cada dólar valia R$ 1,76 e em abril passou a valer R$ 1,59, ou seja, o dólar se desvalorizou perante o real em 9,7%. Há dois anos essa desvalorização alcançou 28,1%.

Assim, torna-se cada vez mais difícil competir com o produto importado, que vem penetrando progressivamente no mercado brasileiro, causando problemas sérios às nossas empresas por questões alheias à sua eficiência nesta competição.

Mas o governo poderia deter esse processo? Sim, caso atuasse em cima das causas que têm criado essa supervalorização do real face ao dólar. E de que forma? Controlando o excesso de dólares que ingressam no País, através de medidas de controle desse ingresso. É o que vem fazendo os países emergentes, com destaque para a China que faz sua moeda acompanhar o valor do dólar e, com isso, consegue manter forte sua posição competitiva nas exportações, penetrando agressivamente em todos os mercados.

Mas o Brasil faz o contrário, pois estimula a entrada de dólares por uma via altamente lesiva ao País. Essa via é o presente dado aos especuladores internacionais de usufruírem lucros garantidos pelas taxas de juros que se oferece a eles. Esses lucros têm o agravante de serem isentos de imposto de renda, o que não ocorre quando a aplicação é feita internamente.

O governo vem tentando deter essa enxurrada de dólares atraída pela Selic e pela valorização do real entre o momento da aplicação e o do resgate, tributando essas aplicações com o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), mas não consegue cercar todas as formas de ingresso que escapam do IOF. Uma delas se dá através dos investimentos diretos de estrangeiros (IED), cuja finalidade seria a aplicação de longo prazo na produção, mas que não é controlada sua utilização pelo Banco Central. Os lucros financeiros auferidos são depois levados para fora do País através da conta de lucros e dividendos, prejudicando o resultado das contas externas.

Para tentar salvar a economia americana, europeia e japonesa foram injetados trilhões de dólares, euros e ienes que se deslocam para países que ofereçam maiores vantagens à reprodução do capital. No caso brasileiro o saldo de dólares vindos a título de IED só no 1º trimestre atingiu US$ 17,5 bilhões, mais do triplo do mesmo período de 2010 e o recorde histórico no País para esse período.

As diversas ações do governo para tentar conter a apreciação do real poderiam ser mais fortes, como, por exemplo, maior tributação pelo IOF e a quarentena. A não utilização dessas medidas faz supor certa conivência com a queda do dólar, que é útil no combate à inflação.

Outra questão de mudança na política econômica é que o governo comprou a idéia de que há excesso de demanda que tem que ser combatido através de redução das despesas para gerar forte superávit primário (receitas menos despesas, exclusive juros). Afirma que é necessário reduzir a despesa de custeio para expandir o investimento e abrir caminho para a redução dos juros básicos.

Ora, o que está elevando a despesa são principalmente os juros. Sua redução dependa da redução da Selic, abrindo espaço para elevar investimentos e programas de distribuição de renda, que é o que mais interessa em termos de desenvolvimento econômico e social. A elevação dos investimentos favorece a melhoria da infraestrutura, e a distribuição de renda, além de ampliar o consumo, atenua o elevado déficit social.

Essa mudança de política (elevação da Selic, valorização cambial e elevado superávit primário) tem efeito favorável na inflação de curto prazo para este ano e meados do próximo, mas eleva o desemprego, o passivo fiscal e o déficit das contas externas, o que exigirá um esforço maior do governo no médio e longo prazo para conseguir manter um desenvolvimento econômico e social sustentável.

domingo, 27 de março de 2011

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Não pode ser mera coincidência

Artigo de Luiz Carlos Bresser-Pereira publicado na Folha de S.Paulo, 13.03.11.


A CARICATURA é a farsa que precede e anuncia a tragédia. "Inside job", ganhador do Oscar de melhor documentário, é uma reportagem clara, precisa e bem estruturada da crise financeira global de 2008. É um filme ao qual o espectador assiste com prazer misturado com indignação.

Começa contando a história da crise da Islândia, um pequeno país de 380 mil habitantes no meio do Atlântico Norte cujos bancos entraram em especulação financeira desenfreada, com pleno apoio dos economistas neoliberais, e ficaram devendo quase cem vezes seu capital.

Some-se a isto sua estratégia de crescimento com poupança externa que levou o deficit em conta corrente a 16% do PIB, e então entenderemos por que o país quebrou violentamente, com grande prejuízo para sua população.

A Islândia foi a caricatura do sistema financeiro mundial apoiado pela teoria econômica ortodoxa, da mesma forma que no Chile a brutal crise financeira que encerrou os nove primeiros anos do governo Pinochet e seus Chicago boys (1973-81) foi o trailer caricatural dos 30 Anos Neoliberais do Capitalismo.

Estes começaram em 1979 com a eleição de Margaret Thatcher na Grã Bretanha, contaram com o apoio firme dos economistas ortodoxos, resultaram em casos de fraude generalizada, documentada de forma impiedosa no filme, e, afinal, produziram a crise financeira que o globo conheceu em 2008.

Conheço muitos economistas neoclássicos e neoliberais que são impolutos. Mas há uma relação entre o aumento da instabilidade financeira, da especulação e da corrupção e o predomínio nas universidades dessa teoria econômica neoclássica ou ortodoxa.

Foi essa teoria, foram o modelo do equilíbrio geral e a teoria das expectativas racionais que estão no seu núcleo duro, que serviram de justificação "científica" para o neoliberalismo. A ideologia neoliberal dos mercados autorregulados e da liberalização e desregulamentação geral do sistema econômico que abriu espaço para fraudes de todo tipo foi "legitimada" pela teoria ortodoxa. Foi essa teoria que fundamentou o neoliberalismo.

Este fato é significativo, mas ainda não é suficiente para que compreendamos a relação entre a teoria e a fraude. Afinal uma teoria científica tem um compromisso com a verdade que, em princípio, a defenderia contra a corrupção.

Mas o que dizer se essa teoria não tiver compromisso com a verdade, ou seja, com a sua conformidade com o real? Se essa teoria for apenas um castelo no ar hipotéticodedutivo baseado em alguns axiomas sem validade? E se o principal desses axiomas for o de que todo homem só defende seus próprios interesses não tendo compromisso com o interesse público?

Não há, portanto, nessa teoria compromisso com a verdade, nem com a moralidade, apenas com a consistência lógica e com o autointeresse. Sei que nem tudo que é falso e autocentrado é imoral, mas a imoralidade está sempre associada à mentira e ao egoísmo.

"Inside job" mostra essa imoralidade de forma viva e definitiva. E mostra que quem a justifica são sempre economistas que ensinam essa teoria sem compromisso com a realidade ou com o interesse público. Definitivamente, a correlação entre o que se ensina e o que se pratica não pode ser mera coincidência.

terça-feira, 8 de março de 2011

Vittorio Zucconi

A última fogueira das mulheres. A memória dos direitos civis


Artigo de Vittorio Zucconi, publicado no jornal La Repubblica, 06-03-2011. A tradução de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS




Foi o assustador crisol da imigração, a fundição humana na qual se fundiram para sempre os corpos, as identidades e as nacionalidades das quais nasceria a Nova York que conhecemos. Eram principalmente mulheres, italianas e ucranianas, russas e palestinas, romenas e irlandesas as costureiras que foram consumadas juntas há exatamente um século na fogueira da camisaria Triangle Shirtwaist, do Village, nos apenas 18 minutos transcorridos entre o primeiro grito de "Fogo! Fogo!" e o apagamento. No fim, foram 146 mortos, todos entre 16 e 23 anos, pequenas escravas acorrentadas às máquinas de costuras e às mesas de corte de tecido, as quais foram encontradas fundidas. Nova York teria que esperar 90 anos até o dia 11 de setembro de 2001 para sofrer uma carnificina mais horrível.

Foi a fogueira que mudou e selou o destino de uma grande cidade e de quem viveu e trabalhou dentro, segundo um projeto terrível e repetido tantas vezes na história norte-americana, periodicamente iluminada por imensos incêndios, na Chicago dos abatedouros industriais, na San Francisco dos aventureiros, na Atlanta derrotada na Guerra Civil, na Nova York selvagem do início do século XX, como se o parto doloroso dessa grande nação precisasse de uma fogueira de sinalização para começar novamente.

Mas as 129 costureiras e os seus 117 colegas masculinos do East Village pouco se importavam com história, com destinos à la Roma de Nero, de crisóis que sacudissem também as autoridades judiciárias e políticas da sua comodidade e do seu frequentemente corrupto "laissez faire".

Bessie, a russa, Peppina e Concetta, italianas, Fannie, a ucraniana – vítimas identificadas com muito trabalho e algumas apenas agora sepultadas com um nome no imenso cemitério dos "Sempre Verdes" entre o Brooklyn e o Queens por um pesquisador obcecado por esse incêndio – se importavam apenas com ganhar aquilo que o chefe da repartição decidia pagar-lhes no final de cada dia. Um dólar, dois por dia, mas nunca mais do que isso, para ficar dentro dos custos previstos pelos dois proprietários da empresa: 18 dólares a cada 12 camisas, um dólar e meio por camisa.

Poucas delas, naquele palácio de 10 andares a poucos passos da Washington Square, no coração do Village, chamado Asch Building, falavam inglês e entenderam o que significava o grito que ressoou às 16h45 de uma tarde de primavera de 1911, o dia 25 de março: "Fire! Fire!". Não que a compreensão imediata do alarme poderia fazer muita diferença para as mulheres e os homens que cortavam, costuravam, lavavam, passavam e estendiam as camisas. O sweathshop, a fábrica do suor, ocupava três andares, entre o oitavo e o décimo, e o oitavo estava bloqueado. Todas as portas estavam fechadas pelo lado de fora, e as trabalhadoras eram controladas uma a uma no final do turno, para que não roubassem utensílios, tesouras, agulhas, fios ou pedaços do precioso algodão.

O balde d'água que um empregado da contabilidade, William Bernstein, tentou derramar sobre o fogo aceso, alcançando a única torneira que funcionava no grande salão, não poderia fazer nada contra um incêndio que encontrou, talvez devido a uma bituca acesa, nos amontoados de retalhos jogados no chão, nas camisas estendidas nos arames e já secas, na madeira do piso e das mesas, o combustível ideal. Os relatos dos poucos sobreviventes, como Bernstein, que testemunhou no processo contra os dois sócios propritários da Camisaria Triângulo, condenados pro homicídio, são páginas retiradas do imaginário infernal do catecismo.

São cenas de mulheres já em chamas que corriam procurando fugir do fogo que estava queimando as saias e os cabelos, mergulhos silenciosos e sem gritos de outras que se jogavam das janelas, preferindo o suicídio, fotografias de moças "simplesmente petrificadas", disse Bernstein, incapaz de se mexer e de reagir. Imóvel na espera certa e resignada de se tornar tochas vivas ou de cair asfixiados pela fumaça. Os bombeiros, que, incrivelmente, conseguiram apagar um incêndio no oitavo andar em apenas 18 minutos, encontraram costureiras fundidas com a máquina de costura, com a qual morreram abraçadas, como se não quisessem se separar daquele utensílio que lhes havia dado um meio de vida na cidade onde haviam aportado.

Muitas delas não seriam identificadas por décadas, as últimas por um século, como Elizabeth Adler, romena de 24 anos, como Maximilian Florin, russo de 23 anos, como a "morta número 85", uma desconhecida sepultada por 99 anos com essa lápide. E seria com ela que iniciaria, quase por acaso, o caminho de um historiador apaixonado por genealogia, Michael Hirsch, obcecado pelo incêndio que mudou Nova York. A "vítima número 85" acabaria sendo a irmã de uma jovem de 17 anos, sepultada em um outro cemitério, sob uma lápide que lembra misteriosamente "a irmã morta", sem outras indicações. Desse túmulo, Hirsch chegaria a uma bisneta octogenária, aposentada no Arizona. Dela, das suas confusas lembranças pessoais de tios-bisavôs perdidos no início do século XX, ele subiria a árvore da sua história e encontraria um nome, no elenco das empregadas da Camisaria Triângulo, que faleceu depois do dia 25 de março de 1911. E dali chegaria ao túmulo do cemitério do Brooklyn, finalmente dando um nome àqueles restos mortais: Maria Giuseppina Lauletti, siciliana de 20 anos.

Com ela, a lista dos mortos foi completada. Sob o monumento que lembra aquele dia, foram escritos os nomes dos últimos seis desconhecidos: Max Florin, Concetta Prestifilippo, Josephine Cammarata, Dora Evans e Fannie Rosen, de um ato de piedade foi escrito. Mas o verdadeiro memorial à fogueira das costureiras não está nesse cemitério. Está na carne viva da cidade, que o massacre mudou para sempre e que até o mais "casual" dos turistas pode ver, sem nem sabê-lo. O processo contra os dois sócios proprietários, que as autoridades da cidade perseguiram com toda a fúria e a severidade, reescreveu e impôs a normativa anti-incêndio na cidade que cresceu sem regras. Construiu e tornou obrigatórias aquelas escadas que hoje podem ser vistas pender dos edifícios mais baixos e que todo filme policial ou de terror usa para os pesadelos dos espectadores. Começou a limpeza dos tenement, aqueles prédios coletivos de aluguel, onde as ondas humanas dos novos imigrantes se empilhavam uma sobre a outra, fazendo de Nova York, no início do século passado, a cidade mais densamente povoada do mundo. As regras para a limpeza dos tenements já existiam há 10 anos, mas nem a prefeitura, nem a polícia, nem a magistratura haviam feito com que fossem respeitadas, em nome do crescimento impetuoso e da generosidade ilícita dos senhores dos cortiços. E aquelas 85 horas de trabalho por semana que as moças do oitavo andar tinham que sofrer pareceram, finalmente, intoleráveis.

As greves dos outros escravos das máquinas de costura na Philadelphia, em Baltimore, no Village e no Garment District de Manhattan, que ainda existe, mas definha na concorrência impossível dos novos escravos que cortam camisas e vestidos no Extremo Oriente, encontraram o apoio de um público que, até aquele incêndio, preferiam se inclinar por aqueles que lhes ofereciam, a qualquer preço, um trabalho.

Durante anos, e em vão, outros operários e operárias da indústria têxtil haviam organizado greves. E, em uma outra fábrica do suor de Nova York, poucos anos antes, se veria o espetáculo inaudito e aterrorizante da primeira greve convocada e organizada inteiramente por mulheres. Os ajustes salariais e as melhorias haviam recém encostado nas moças da Camisaria Triângulo, recrutadas entre as mais jovens, as mais tímidas, as mais dóceis imigrantes da Sicília, dos guetos da Ucrânia e da Rússia.

O Asch Building ainda está ali onde estava na tarde do dia 25 de março de 1911, rebatizado como Brown Building e hoje como parte da New York University, à qual foi doado. É um edifício pouco interessante, na banalidade do estilo neorrenascentista que disseminou as cidades norte-americanas com palácios semelhantes, e, nas janelas do oitavo andar, hoje sede de respeitáveis estudantes e professores de ciências, há alguns condicionadores de ar. É um lugar um pouco frio, pouco movimentado, estranhamente silencioso apesar da proximidade com a Washington Square, o coração do Village. Não entra em nenhuma foto ou videoclipe de lembrança da viagem a Nova York. Cruzam-se jovens, estudantes, principalmente moças, bonitas, sérias, sorridentes, decididas, ocupadas em viver aquele sonho que outras jovens costuraram também para elas, com a própria vida.

[grifos do blog]

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