segunda-feira, 24 de maio de 2010

Entrevista - Reinaldo Gonçalves

''A liberalização está entrincheirada. Ela não morreu e, como Fênix, ela ressurge das cinzas''


Reinaldo Gonçalves é professor titular de Economia Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entrre outros, ele é autor (em co-autoria com Luiz Filgueiras) do livro “A Economia Política do Governo Lula”. Rio de Janeiro: Editora Contraponto, 2007.
Fonte: UNISINOS



IHU On-Line - Em sua opinião, qual o resultado da recente crise do Euro? O que esse episódio revela sobre possíveis mudanças no cenário econômico mundial?

Reinaldo Gonçalves - Não há uma “crise do euro” e, sim, uma crise localizada na zona do euro. A União Européia, bem como o subsistema monetário europeu (zona do euro) é marcado por forte assimetria. A atual crise é, fundamentalmente, financeira e está localizada, principalmente, na Grécia e com risco de atingir de forma mais aguda outros países como Portugal, Irlanda e Espanha. A desvalorização do euro não é, por si só, um problema para os países europeus. Na realidade, esta desvalorização permite aumentar as exportações, ao mesmo tempo em que reduz as importações. Ou seja, a desvalorização do euro é muito útil para promover a retomada do crescimento. O problema das graves crises localizadas em países de pouca importância (como Grécia e Portugal) é que o mercado fica operando num contexto de maior incerteza frente aos cenários futuros de intervenção para enfrentar estas crises. Como estes países estão na zona do euro, os atores protagônicos são a Alemanha e a França. Por um lado, os dirigentes alemães estão focados na proteção dos seus bancos, principalmente, aqueles que fizeram operações de grande risco na periferia da Europa e que, agora, enfrentam problemas. Daí a reação do governo alemão no sentido de maior regulamentação dos seus bancos. Por outro lado, para o governo da Grécia a regionalização da crise é útil visto que seus objetivos são evitar a quebra do seu sistema financeiro (grandes bancos), obter taxas de juros internacionais menores para financiar o serviço do passivo externo e usar os esquemas plurilateral (União Européia) e multilateral (FMI). Estes esquemas permitem a obtenção de recursos externos como também legitimar medidas duras de ajuste que implicam queda do nível de bem-estar da maioria da população.

IHU On-Line - Que tipo de capitalismo surge a partir deste episódio?

Reinaldo Gonçalves - No horizonte previsível o capitalismo não sofrerá transformações importantes. A questão da regulação/intervenção versus livre mercado está na própria origem do sistema. Esta é, de fato, uma questão pendular. Ou seja, em fases ascendentes do ciclo econômico o capital pressiona e obtém maior liberdade de atuação e nas fases descendentes o Estado, atendendo às pressões dos trabalhadores, à própria necessidade de governabilidade e aos interesses do grande capital, passa a ser pró-ativo na intervenção, protecionismo e regulação. No processo de proteção frente ao “moinho satânico” do mercado, o Estado protege o grande capital nacional. Portanto, no horizonte de curto e médio prazo haverá pressão e implementação de medidas de intervenção, proteção e regulação; porém, quando o espectro de crise desaparecer do cenário, retorna a pressão para a liberalização, desregulamentação e privatização. Em outras palavras, o capital tem como um dos seus “pecados originais” a síndrome da privatização dos benefícios (próprios da fase ascendente do ciclo econômico) e da socialização dos prejuízos próprios das crises econômicas.

IHU On-Line - Quais são as conseqüências de um possível desmantelamento do estado de bem-estar social?

Reinaldo Gonçalves - As conseqüências são previsíveis. Espera-se o maior esgarçamento do tecido social (via, por exemplo, contração do grau de universalização dos direitos sociais e econômicos), piora nas condições de trabalho, maior exploração do trabalhador, concentração da riqueza e da renda e crescente tensão nas relações, processos e estruturas políticas. A institucionalidade também sofre abalos em decorrência do acirramento da disputa pelos recursos controlados pelo Estado. Ou seja, aumenta a rivalidade entre grupos e classes sociais. Isto não é, necessariamente, um problema. Ele pode ter resultados positivos. O caso recentíssimo é a tentativa do governo dos EUA de implementar uma reforma socialmente mais justa do sistema de saúde. Outro exemplo, a sociedade grega “pede a cabeça” dos dirigentes políticos que, de uma forma ou de outra, foram responsáveis pela crise recente. Na atualidade, a institucionalidade da União Européia está sofrendo as consequências da crise. Esta pode ser a oportunidade para se questionar se, efetivamente, a estratégia de ampliação do esquema implica benefícios líquidos para os atores protagônicos.

IHU On-Line - Em que medida a crise na zona do Euro pode ser exemplo para as demais economias do planeta?

Reinaldo Gonçalves - A Grécia é um “vagão de 3ª classe” no cenário internacional. Se este país não estivesse na zona do euro, a crise grega não teria um milésimo da repercussão que tem tido. Insisto que não há uma crise na zona do euro. Na Alemanha, por exemplo, há um nítido processo de recuperação. Em 2009 a renda alemã caiu 5%, mas para 2010 e 2011 as previsões são de crescimento de 1,2% e 1,7%, respectivamente. A retomada do comércio internacional é um dos fatores determinantes. A desvalorização do euro dá um reforço à enorme competitividade internacional da Alemanha. No que se refere às lições que podemos aprender com os gregos, vale destacar que não há nada de novo. De fato, o que ocorre na Grécia atualmente é um fenômeno bastante conhecido no Brasil e no restante da América Latina. Ou seja, houve aumento extraordinário do passivo externo que levou a percepção de risco a níveis críticos. Nenhuma novidade para nós, inclusive no passado recente!

IHU On-Line - Como o Brasil pode aprender com o episódio e em que medida a política econômica do governo Lula se relaciona com esta questão?

Reinaldo Gonçalves - Quanto ao presente e ao futuro do Brasil, a questão-chave é, mais uma vez, o passivo externo. A estratégia e a política econômica do governo Lula tem implicado crescimento do passivo externo do país. Déficit de transações correntes de US$ 60 bilhões em 2010 significa aumento não desprezível do passivo externo. Esta é uma cessão de direitos que envolvem fluxos de pagamento de juros, lucros e dividendos. Durante o governo Lula houve crescimento elevado do passivo externo e destes fluxos e, portanto, maiores necessidades de financiamento externo. Este é um problema estrutural e, certamente, fará parte da “herança maldita” do governo Lula. Cabe, ainda, chamar atenção para riscos futuros associados aos megaprojetos de gastos públicos associados a eventos como Copa do Mundo de futebol em 2014 e Olimpíadas em 2016. Parte da crise da Grécia é explicada pelos gastos extraordinários provocados pelas Olimpíadas em Atenas em 2004. Em sociedades com frágil institucionalidade, mega-projetos são o fértil campo de cultivo de práticas de corrupção e da incompetência. Há alta probabilidade que o Brasil cometa os mesmos erros dos gregos (endividamento interno e, principalmente, externo) que quebrarão as finanças públicas e o sistema financeiro brasileiro no pós 2014-16! Fica o alerta porque a conseqüência é o país entrar em mais uma longa trajetória de instabilidade e crise.

IHU On-Line - Qual o futuro da proposta de livre mercado, sem regulação do Estado?

Reinaldo Gonçalves - A liberalização está entrincheirada. Ela não morreu e, como Fênix, ela ressurge das cinzas. A questão central é que livre mercado e intervenção/regulação são os “dois lados da moeda” do capitalismo. É um pêndulo eterno, pelo menos enquanto durar o capitalismo! As experiências, por exemplo, da Alemanha e dos países nórdicos mostram que mais concorrência pode estar associada a mais regulação/intervenção. Nas “transformações genéticas” como o sistema chinês, onde o capitalismo mais dinâmico do planeta é comandado pelo Estado comunista, a extraordinária rivalidade no mercado internacional (no qual a China é “maratonista”) tem como contrapartida, no plano interna da China, um igualmente extraordinário aparato regulatório e interventor. Ou seja, o capitalismo “campeão mundial” é o capitalismo que tem como pilar central o Estado-nacional altamente interventor e regulador pilotado ditatorialmente por um partido comunista que aloca oportunidades de negócios para associados dos grupos dirigentes.

IHU On-Line - O que caracteriza a mudança que temos acompanhado na Europa e no mundo todo, de certa maneira, na forma de viver e trabalhar?

Reinaldo Gonçalves - Na realidade, não há nada de muito novo. É a velha história: Plus ça change, plus c´est la même m... Certamente, as tensões próprias às crises implicam piora na qualidade de vida e nas condições de trabalho. Por outro lado, há o lado positivo que é o mecanismo desafio-resposta. Ou seja, frente aos problemas, as sociedades tendem a reagir, de uma forma ou de outra. Estas reações podem ser na direção de um caminho favorável ou não. Cabem aqui duas comparações. A primeira é a Alemanha do pós I Grande Guerra, que escolheu o caminho do nazismo, da guerra, da derrota e do sofrimento. Por outro lado, no pós II Grande Guerra a Alemanha faz escolhas corretas que geraram uma das mais ricas e estáveis sociedades do mundo. A segunda comparação refere-se ao Brasil que, frente à crise do final dos anos 1920, foi capaz de dar um salto quântico e entrou na trajetória desenvolvimentista que durou até 1979. Por outro lado, o Brasil dos últimos 20 anos optou por um Modelo Liberal Periférico de segunda ou terceira classe que implica crescente vulnerabilidade externa estrutural nas esferas comercial (reprimarização), produtiva (internacionalização sem competitividade), tecnológica (ineficiência sistêmica) e financeira (liberalização e desregulamentação).

IHU On-Line - Qual sua opinião sobre programas de renda mínima no cenário econômico e financeiro mundial?

Reinaldo Gonçalves - Programas de renda mínima, transferência previdenciárias, ajustes de salário mínimo e câmbio apreciado são paliativos que mascaram a enorme concentração de riqueza e só marginalmente afetam a distribuição intra-renda do trabalhador e dos grupos de menor renda. Eles são elementos auxiliares em um processo efetivamente transformador da sociedade, mas são entraves caso eles desviem, sufoquem ou inibam os esforços de efetivas mudanças estruturais. Este fenômeno é exatamente o que está acontecendo em países como Brasil, Colômbia, Paraguai e México que seguem variações do modelo liberal periférico. Quem quiser saber mais sobre este modelo no Brasil, recomendo o livro (em co-autoria com Luiz Filgueiras) “A Economia Política do Governo Lula” (Rio de Janeiro: Editora Contraponto).

IHU On-Line - Simplesmente condenar o capitalismo não é a saída. Que caminhos o senhor vislumbra?

Reinaldo Gonçalves - Antes de mais nada precisamos escapar das fortes limitações das visões das “raparigas em flor do keynesianismo” e dos “heróis em sangue do marxismo”. Penso que as escolhas e os caminhos são, sem dúvida, pela esquerda. Insisto que este caminho significa reconhecer que o capitalismo é um sistema irracional que inibe a capacidade do ser humano dar sentido à vida, ou seja, viver com dignidade, felicidade e liberdade. Ser de esquerda é o combate permanente por um projeto de orientação socialista. É ignorância imaginar que ser de esquerda se restringe a defender bandeiras como progresso econômico, reforma social, democracia, integração regional e interesses nacionais. O centro e a direita também defendem estas bandeiras, de uma forma ou de outra. É má-fé imaginar que a distinção entre esquerda e direita se restringe ao ideário econômico via a armadilha binária “estado versus mercado”. Defender um Estado que é capturado por grupos dirigentes corruptos não é ser de esquerda. Ser de esquerda implica combater implacavelmente estes grupos dirigentes e os setores dominantes retrógrados. Ser de esquerda implica compromisso com distribuição de riqueza (maior igualdade possível na distribuição de riqueza, renda e conhecimento), controle social do estado (combater a apropriação do estado por grupos dirigentes e grupos econômicos) e uso social do excedente econômico (tributação, planejamento e propriedade pública dos principais meios de produção). Ser de esquerda implica rejeitar tanto a política externa do “vira-lata” como a do “camaleão falante” baseada em um antiimperialismo retórico, ocasional e superficial. Ser de esquerda é contrariar o agronegócio e procurar o fortalecimento do padrão de comércio e a rejeição da reprimarização do comércio via commodities; ser de esquerda é contrariar o capital internacional e ter uma política seletiva e criteriosa em relação aos investimentos de empresas estrangeiras e não estimular e financiar com recursos públicos todo e qualquer tido de investimento externo direto; ser de esquerda é reduzir as transferências de recursos para os rentistas da dívida pública e procurar investir pesadamente na maior capacitação tecnológica com saltos quantitativos e qualitativos na educação e no sistema nacional de inovações; ser de esquerda é contrariar os bancos nacionais e os estrangeiros e controlar os fluxos financeiros internacionais e não dar tratamento especial a estes fluxos. Ser de esquerda é não fazer aliança com países avançados, como os EUA, para fechar rodadas de negociação da OMC somente para favorecer o agronegócio. Ser de esquerda é não aceitar o pagamento de pedágio para participar de fóruns internacionais de eficácia duvidosa, como o G-20 financeiro. Ser de esquerda é rejeitar reforçar o capital de instituições financeiras multilaterais como FMI e o Banco Mundial cujas políticas tendem a submeter países frágeis a práticas que atendem, principalmente, aos interesses do capital internacional. Ser de esquerda é entender que os principais adversários das transformações estruturais e de modelo estão dentro do próprio país. Ser de esquerda é reconhecer que há um enorme hiato entre o poder potencial e o poder efetivo do Brasil na arena internacional. Ser de esquerda é saber que, com as escolhas certas e as transformações estruturais, o país só terá peso efetivamente relevante no cenário internacional quando reduzir sua enorme vulnerabilidade externa estrutural e suas extraordinárias fragilidades internas, inclusive, as sociais e institucionais.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Flavio Koutzii

"O mundo está ficando difícil para ser humano"
Flavio Koutzii é sociólogo.
Fonte: Carta Maior



Mesmo assim, estes dias têm sido espetaculares: a ação do presidente do Brasil. A iniciativa da diplomacia brasileira. O atrevimento de arriscar um caminho, que talvez possa evitar a guerra. A altivez de ter independência na política externa, servindo ao Brasil e também ao mundo é uma página extraordinária da nossa história.

A dimensão fica mais nítida pela trágica e grotesca reação da grande imprensa brasileira: não apóiam, não exaltam, não valorizam, não contextualizam, desde uma perspectiva brasileira, só olham do ponto de vista da América do Norte, da Hillary, dos novos falcões americanos – uma nova transgenia democrata-republicana. É o “dark side of the moon” de Obama.

Para todos que acham que não houve golpe militar em Honduras, é natural achar que o Brasil não deve “atrapalhar” a preparação da nova invasão, desta vez no Irã, e muito menos podem aceitar uma iniciativa, que vejam só, pode ajudar a paz. E dificultar a diplomacia de guerra cada vez mais acelerada dos EUA.

A imprensa brasileira - seus jornais, rádios e tevês – já não sabem bem o que são, embora saibam muito bem o que fazem. São a gripe suína do pensamento nacional. Ficaram histéricos, mas não se dão conta, nem ouvem a estridência de seus gritos. E, na verdade, já não se sabe pelo que gritam, nesses dias espetaculares, se pelos resultados da política internacional de Lula, se pelo avanço e ultrapassagem de Dilma em relação a Serra, ou se porque seus ataques, cada vez mais intensos, produzem cada vez menos efeito.

Vale a pena observar algumas manifestações desta imprensa:

No dia 19 de maio, no Jornal da Noite, William Wack recorre a uma retrospectiva histórica, onde relembra com apoio de fotos e filmes, Nasser, Nehru, Tito como experiências de independência terceiro-mundista, que já aconteceram e não deram certo, para explicar que essa é a descendência, em 2010, da política de Lula. Ou, trocando em miúdos, toda busca de autonomia, independência nacional, construção de nação que aqueles episódios testemunharam são congenitamente equivocados. O único DNA “bom” é o DNA da obediência, do colonizado, do obediente, e toda revolta deve ser condenada.

Outro exemplo é a pergunta interativa feita no tradicional programa de debates Conversas Cruzadas, da RBS TV, sobre o tema: se o Irã iria cumprir o acordo. É uma pergunta legítima, mas típica do enfoque preferencial da produção desse programa, nem em sonhos, cogitam de fazer uma pergunta que começasse, não examinando as consequências futuras, mas os significados do gesto recente: o novo peso do Brasil na política internacional.

Perderam a noção, o sentido da grandeza, a percepção da história, o significado do gesto, o valor e o peso do Brasil, a noção da Pátria, os interesses do Mundo e da Paz.

Se fazem amnésicos, não lembram nem da história recente: as invasões das “cruzadas Bush”, dos movimentos evidentes do conservadorismo americano para invadir o Irã.

E também não se lembram do passado, pois querem eternizar as condições que fizeram das grandes nações coloniais e dos grandes países industrias do século XX os dominadores e senhores da Terra. Aliás, no mesmo jornal da Noite citado, há uma passagem que claramente indica como insensato atrevimento querer alterar a “ordem natural” das coisas. Quem tem riqueza, armas, poder, tecnologia, terá cada vez mais. Quem não tem, obedecerá cada vez mais.

É disto que se trata e é isto que Lula e o Brasil enfrentam com sensibilidade e realismo, tentando romper estes limites protegendo ao mesmo tempo a possibilidade do entendimento e da Paz. Não é para qualquer um.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Eric Toussaint

A crise na Europa e a religião do mercado


Eric Toussaint (foto) é presidente do CADTM Bélgica (Comitê pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo), doutor em Ciências Políticas na Universidade de Liége (Bélgica) e na Universidade de Paris VIII (França) em artigo na Carta Maior, 19-05-2010.
Fonte: UNISINOS


Quase todos os dirigentes políticos, sejam da esquerda tradicional ou da direita, sejam do Norte ou do Sul, confessam uma verdadeira devoção pelo mercado e, em particular, pelos mercados financeiros. Na verdade, deveríamos dizer que eles criaram uma verdadeira religião do mercado. A cada dia, em todas as casas do mundo que tem televisão ou internet, celebra-se uma missa dedicada ao deus mercado durante a divulgação da evolução das cotações da Bolsa e dos mercados financeiros. O deus Mercado envia seus sinais através do comentarista financeiro da televisão ou da imprensa escrita. Isso não acontece não somente nos países mais industrializados, mas também na maior parte do planeta. Em Shangai ou em Dakar, no Rio de Janeiro ou em Tombuctu, qualquer um pode saber quais são os “sinais enviados pelos mercados”.

Em todas as partes, os governos promoveram privatizações e criaram a ilusão de que a população poderia participar diretamente dos ritos do mercado (mediante da compra de ações) e que, como contrapartida, se beneficiaria se soubesse interpretar corretamente os sinais enviados pelo deus Mercado. Na verdade, a pequena proporção da população trabalhadora que adquiriu ações não tem o mínimo peso nas tendências de mercado.

Daqui a alguns séculos, talvez alguém leia nos livros de História que, a partir dos anos 80 do século XX, um certo culto fetichista provocou furor. A expansão assim como o poder que esse culto atingiu poderão ser relacionados com os nomes de dois chefes de Estado: Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Os livros poderão destacar ainda que esse culto se beneficiou, desde o início, da ajuda dos poderes públicos e das potências financeiras privadas. Na verdade, para que esse culto encontrasse certo eco junto às populações, foi necessário que os meios de comunicação públicos ou privados rendessem-lhe homenagens cotidianamente.

Os deuses desta religião são os Mercados Financeiros, aos quais se destinaram templos chamados Bolsa, para onde só são convidados os grandes sacerdotes e seus acólitos. O povo dos crentes, por sua vez, é convidado a entrar em comunhão com os deuses Mercados mediante a tela da TV ou do computador, o jornal, o rádio ou o guichê do banco.

Até nos rincões mais recônditos do planeta, graças ao rádio ou à televisão, centenas de milhões de seres humanos, a quem se nega o direito de ter suas necessidades básicas satisfeitas, são convidados a celebrar os deuses Mercados. Aqui no Norte, na maioria dos jornais lidos pelos assalariados, pelas donas de casa e pelos desempregados, existe uma seção do tipo “onde colocar seu dinheiro”, apesar da esmagadora maioria de seus leitores e leitoras não ter nenhuma ação na Bolsa. Paga-se aos jornalistas que ajudem aos crentes a compreender os sinais enviados pelos deuses. Para aumentar o poder destes deuses sobre o espírito dos crentes, os comentaristas anunciam periodicamente que eles enviaram sinais aos governos para indicar sua satisfação ou descontentamento.

O governo e o Parlamento gregos, tendo compreendido finalmente a mensagem recebida, adotaram um plano de austeridade de choque que fará com que os debaixo paguem o custo da crise. Mas os deuses seguem descontentes com o comportamento de Espanha, Portugal, Irlanda e Itália. Seus governos também deveriam levar como oferendas importantes medidas anti-sociais para acalmá-los.

Os lugares onde os deuses angustiam-se com a manifestação de seus humores estão em Nova York, em Wall Street, na City de Londres, nas Bolsas de Paris, Frankfurt e de Tóquo. Para medir sua satisfação, inventaram-se instrumentos que levam o nome de Dow Jones em Nova York, Nikei em Tóquio, CAC40 na França, Footsie em Londres, Dax em Frankfurt ou IBEX na Espanha. Para assegurar a benevolência dos deuses, os governos sacrificam os sistemas de seguridade social no altar da Bolsa e, além disso, privatizam.

Valeria a pena perguntar-se porque foi outorgada essa dimensão religiosa a estes operadores. Eles não são nem desconhecidos nem meros espíritos. Possuem nome e domicílio: são os principais dirigentes das 200 maiores multinacionais que dominam a economia mundial com a ajuda do G7 e de instituições como o FMI – que voltou ao centro do cenário graças à crise após ter passado um tempo no purgatório.

Também atuam o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio, ainda que esta não esteja em seu melhor momento. Ninguém sabe se ela poderá ser, de novo, a escolhida dos deuses. Os governos não são uma exceção: desde a era de Reagan e Thatcher abandonaram os meios de controle que contavam para monitorar os mercados financeiros. Dominados pelos investidores institucionais (grandes bancos, fundos de pensões, companhias de seguros, hedge funds...) os governos doaram ou emprestaram aos mercados trilhões de dólares para que pudessem cavalgar de novo, depois do desastre de 2007-2008. O Banco Central Europeu, o Federal Reserve dos EUA e o Banco da Inglaterra emprestaram diariamente, com uma taxa de juro inferior à inflação, enormes capitais que os investidores institucionais se apressaram em utilizar de forma especulativa contra o euro, contra os tesouros dos Estados, etc.

Atualmente, o dinheiro pode atravessar fronteiras sem nenhuma imposição fiscal. A cada dia cerca de 3 trilhões de dólares circulam pelo mundo saltando as fronteiras. Menos de 2% desta soma é utilizada diretamente no comércio mundial ou em investimentos produtivos. Mais de 98% estão envolvidos em operações especulativas, em especial relacionadas às moedas, aos títulos da dívida ou às matérias primas. Devemos acabar com a trivialização desta lógica de morte.

É preciso criar uma nova disciplina financeira, expropriar esse setor e colocá-lo sob controle social, gravando com fortes impostos aos investidores institucionais que primeiro provocaram a crise e depois se aproveitaram dela, auditando e anulando as dívidas públicas ilegítimas, instaurando uma reforma tributária redistributiva, reduzindo radicalmente a jornada de trabalho a fim de poder se contratar massivamente, sem diminuição de salários. Em duas palavras, começar a colocar em marcha um programa anticapitalista.

domingo, 16 de maio de 2010

Antônio Flávio Pierucci

Deus quer você rico. Neopentecostais prometem a prosperidade, mas recomendam que fiéis cobrem de Deus

Deus quer ver você rico, carros na garagem, negócios prosperando, dívidas quitadas, a família unida, todos com saúde. De quebra, você leva a garantia de uma relação mística com o Espírito Santo. E ainda ganha o céu. Basta que você acredite, abra a carteira e ofereça a seu Deus tudo o que puder. Seja generoso, sincero, nada de desvios ou caixa dois, pois Deus vê tudo. A fórmula mágica, irresistível, foi desenvolvida pela igreja neopentecostal Universal do Reino de Deus e vem sendo exportada para os EUA, Portugal, América Latina e África. No Brasil, onde nasceu, o número de fiéis da Universal cresceu 681,5% entre 1991 e 2000, segundo os números do IBGE. É o maior salto dado por uma igreja no País, possivelmente no mundo. Significa 278 vezes mais do que cresceram os católicos nesse período, e quase três vezes mais que os fiéis da Assembléia de Deus, a mais numerosa das igrejas evangélicas desde o início do século passado. Se estiver mantendo o mesmo ritmo de crescimento, a Universal terá hoje mais de 8 milhões de seguidores, “colando” na Assembléia de Deus que em 2000 tinha 8,4 milhões de fiéis. A Renascer, do casal de bispo Hernandes, reunia oficialmente menos de 300 mil fiéis em 2000, hoje já fala em 2 milhões. O Brasil é hoje, de longe, o maior país pentecostal do mundo, 24 milhões de seguidores contra 5,8 milhões do segundo lugar, os EUA. O sociólogo e professor da USP Antônio Flávio Pierucci, 62 anos, especialista em religião, decifrou os números dos últimos censos e chegou a uma constatação ainda mais significativa: a maior taxa de crescimento vem se dando com as igrejas que pregam a teologia da prosperidade, como a Universal, e aquelas que pregam o milagre da cura, como a Deus é Amor - que cresceu 357,6%. Para Pierucci, “religiões vivem de promessa e se nutrem da sua autopromoção. Não adiantam nada quendo eu preciso de emprego. Não interferem nas grandes decisões que tocam nossas vidas, como as mudanças econômicas”. Abaixo, trechos do depoimento que o professor Pierucci deu ao jornal O Estado de S. Paulo, 11-02-2007.
Fonte: UNISINOS





TEMPO DAS CATEDRAIS

O pentecostalismo cresce principalmente na América Católica. No México, já há etnias indígenas inteiras convertidas. É provável que a vinda do papa ao Brasil e sua participação no Celam, a conferência latino-americana dos bispos, tenha a ver com o avanço do pentecostalismo, quem sabe uma conclamação para que os católicos sejam mais agressivos com relação aos pentecostais, especialmente os neopentecostais. Mas não acredito que sua vinda mudará a tendência de crescimento dessas igrejas. O arcebispo da Paraíba (dom Aldo Pagotto) alertou os católicos de que estariam sendo enganados pela teologia da prosperidade. O arcebispo se assustou com o ritmo e a grandiosidade do templo da Universal do Reino de Deus em João Pessoa, quando a basílica de Aparecida, por exemplo, vem sendo construída há 50 anos. Quando o Edir Macedo inaugurou o grande templo da Universal no Rio, moderníssimo, disse que sua igreja estava entrando no tempo das catedrais, assim como o catolicismo já teve o seu tempo. Ele está dizendo que sua igreja está bastante consolidada para sair das capelas e que agora construirá catedrais.

A TERCEIRA ONDA

Os neopentecostais são certamente a corrente que mais preocupa os católicos. Eles fazem parte do que se chama a terceira onda evangélica, representada principalmente por Edir Macedo, da Universal do Reino de Deus, e pelo casal Hernandez, da Renascer. Pregam a teologia da prosperidade. As primeiras evangélicas são chamadas de ‘históricas’, a Luterana, a Batista, Adventista, Metodista. Em 1901 nasce nos EUA o pentecostalismo, que chega ao Brasil em 1910 com a Assembléia de Deus e a Congregação Cristã do Brasil. É a primeira onda pentecostal, bastante conservadora. Os fiéis não se envolviam em política, eram proibidos de participar dos sindicatos, as mulheres usavam roupas longas, os homens, terninhos. A segunda onda surge nos anos 1950, com a Evangelho Quadrangular e a Cruzada de Evangelização Nacional, que passam a usar o rádio e ações públicas para se propagar de forma mais visível nas grandes cidades. Mas a grande novidade da segunda onda foi a cura, o milagre, ‘Jesus cura a doença de seu corpo, não apenas salva sua alma’. A partir daí o ritmo de crescimento do pentecostalismo no Brasil e na América Latina se acelera loucamente. David Miranda, à frente da Deus é Amor, é o principal representante dessa corrente. A terceira onda vem nos anos 70, com a teologia da prosperidade pregada por Edir Macedo, à frente da Universal, e pelos bispos Sonia e Estevam Hernandes, da Renascer. Com esses neopentecostais, há uma valorização positiva do dinheiro, e isso é uma grande novidade no mundo religioso cristão. Todas as denominações evangélicas oferecem os dons do Espírito Santo, uma experiência mística na qual o fiel mergulha numa esfera sagrada, rompendo parcialmente o seu estado de consciência. Oferecem também uma vida eterna depois da morte. A segunda onda, além da experiência mística e da vida eterna, oferece também a cura das doenças. E a terceira, mais do que o misticismo, o céu e a cura, também garante a prosperidade. É a corrente pentecostal que vem crescendo mais rapidamente. O protestantismo do século 17 dizia que Deus iria coroar de sucesso o fiel que trabalhasse. O trabalho era recompensado. Já o neopentecostalismo valoriza o dinheiro. Você dá dinheiro para a igreja e quanto maior a tua generosidade, maior a tua recompensa. Isso nunca houve. É como se fosse uma aplicação, você investe na igreja e aguarda um retorno de Deus. Isso é uma invenção dos neopentecostais, uma grande mina de ouro. Eles descobriram uma maneira de fazer as coisas de uma forma que dificulta dizer que as pessoas estão sendo enganadas. Porque vão dizer que estão dando o dinheiro porque querem, o advogado vai dizer, ‘as pessoas estão dando livremente o dinheiro, ninguém está sendo coagido fisicamente, as pessoas abrem sua carteira porque querem’. Há muitas ações na Justiça, mas quando se trata de religião, fica difícil provar que as pessoas estão sendo enganadas.

COMO UMA EMPRESA

A teologia da prosperidade é americana, mas foi processada aqui e hoje é exportada. O Brasil inovou pregando em grandes espaços, ocupando a mídia e criando uma igreja-empresa. A Renascer partiu para a imagem de mídia social, tentando ganhar a classe média, os jovens, o bispo Estevam é dono da marca gospel. A Universal do Reino de Deus tem um líder extremamente carismático, que é o Edir Macedo. Tudo ali é programado como uma empresa, de cima para baixo, o soldado raso não manda nada. É bem o oposto, por exemplo, da democracia de uma igreja Batista, pequena, local, autônoma, onde os pastores e os fiéis decidem até os hinos que vão cantar. Isso é impensável na Universal, onde todos os dias o pastor presta contas online do movimento de sua igreja. Se não cumpre as metas, é mandado para uma igreja menor, se vai bem, é promovido. É todo um esquema de prêmio, promoções. David Miranda, da Deus é Amor, partiu para o espetáculo do milagre. Reúne multidões em estádios para dizer que todos ali que tiverem câncer na perna, que dêem um passo à frente, pois serão curados. E as pessoas acreditam.

COBRANDO DE DEUS

Além dos ‘desafios’, que são as ofertas em dinheiro quando você precisa de uma ajuda especial, uma cura, um negócio que vai mal, as igrejas cobram o dízimo, exatos 10% do que você declara que ganha. Como Deus vê tudo, você vai ficar morrendo de medo de estar mentindo. Esse é outro trunfo das religiões, você pode mentir para a receita, mas quem crê não mente para Deus. Na Deus é Amor do David Miranda, o dízimo é cobrado com um carnê de 12 prestações. Antes de participar da santa ceia (que é a comunhão, para os católicos), um obreiro confere se você está quites com o dízimo. Se não estiver, você não recebe a comunhão. Mas quando você dá, seja o dízimo, sejam as ofertas, você explicita a sua cobrança. Essa é outra diferença do neopentecostalismo, o fiel é levado a ser exigente com Deus, a cobrar de Deus. ‘Eu dei para você tudo que eu tinha no banco, você é fiel, você não vai me abandonar, você vai fazer isso que estou pedindo’. É um jeito de orar cobrando, nada parecido com as orações tradicionais, que pedem com humildade. E os pastores fazem essas cobranças em voz alta, para que os fiéis aprendam como se dirigir a Deus de uma forma mais reivindicante, mais altiva. E eles sempre vão cobrar de Deus, não dos pastores. Nem que você veja seu dinheiro transformado em uma mansão em Miami, isso não vai tirar de você o direito de cobrar de Deus. Também não levará você a culpar seus pastores, pois o sucesso reforça a idéia de que Deus de fato recompensa aqueles que oram, e que o dinheiro é uma coisa positiva, desejável. Por outro lado, os neopentecostais exploram a crença de que são uma minoria perseguida por uma igreja majoritária, que são discriminados pela sociedade, que a universidade brasileira tem preconceito contra eles. E quando acontecia de o Edir Macedo, por exemplo, ser acusado de lavagem de dinheiro ou sonegação de impostos, ou era mostrado atrás das grades, se dizia que era perseguição, como Cristo foi perseguido. Com isso conseguem a solidariedade daquelas igrejas evangélicas menos críticas. Os neopentecostais aprenderam a transformar doações dos fiéis em riqueza pessoal. Não se sabe ainda como isso será explicado para a receita. A Igreja Católica também tem muitos bens e as congregações têm propriedades, mas aqui se faz uma distinção entre o que é da pessoa jurídica e o que é da pessoa física. A Cúria Metropolitana, as congregações, podem ter muitos bens e imóveis, mas o arcebispo e os monges são pobres .

AVANÇO PREDADOR

O neopentecostalismo é muito mais pelo indivíduo do que pelo grupo. É assim que são feitas as conversões, por ‘contaminação’. Se um taxista de um ponto é convertido, dentro de algum tempo outros motoristas serão convertidos. A idéia é retirar o indivíduo do grupo onde ele se encontra e oferecer a ele um outro grupo, onde se sentirá inserido e valorizado, passará a acreditar e se empenhará em converter outros. O neopentecostalismo não respeita tradições nem culturas. É impiedoso com as religiões menores, como as afro-brasileiras, age como se estivesse numa guerra, disputando fiéis. Isso explica seu rápido crescimento, especialmente na periferia das grandes cidades e nas regiões onde o catolicismo não avançou. Seus pastores seguem os novos espaços onde a floresta vem sendo derrubada e novas fronteiras sendo abertas. Eles não avançam para conter, avançam porque a abertura de novas fronteiras rompe as tradições, e onde as tradições se rompem é sempre mais fácil prometer ‘nada do passado e tudo do futuro’ A idéia de preservação não combina com esse tipo de empreendedorismo evangélico. Eles são predadores, não são preservacionsitas, são uma igreja capitalista.

SEM LIDERANÇAS

É uma religião que optou por colar nos mais pobres, não como uma opção pelos excluídos, como fez a Igreja Católica, mas para convertê-los.Talvez por conta desse foco no indivíduo, não no grupo, os pentecostais e os neopentecostais não têm lideranças na sociedade civil, como a Igreja Católica tem d. Evaristo Arns. Os judeus são pouco mais de cem mil (segundo o censo de 2000) e o rabino Henry Sobel é uma estrela; a monja Cohen (os budistas são cerca de 250 mil no país) dá um grande peso aos movimentos que participa. Os pentecostais não têm isso. Há pastores evangélicos intelectuais, engajados, mas nada que venha no sentido de uma simpatia para o socialismo, uma idéia coletiva de que você tem quer solidário com as populações mais pobres.

Entre os anos de 1991 e 2000, os neopentecostais da igreja Universal tiveram um crescimento de 681,5%. As várias igrejas ou denominações evangélicas, juntas, cresceram 98,5%. Nesse período, os católicos aumentaram 2,5%, bem abaixo da taxa de crescimento da população brasileira, que foi de 15,7%. Em 2000, segundo o censo daquele ano, os católicos eram 124,9 milhões e os evangélicos, 26,2 milhões.

Se as tendências de crescimento permanecerem, o Brasil será um país com uma cara cada vez mais pentecostal. Essa sociedade será mais conservadora nas questões de moral sexual. Nas relações entre o casal, o homem ficará mais respeitoso com a mulher, como acontece em todo as igrejas protestantes. Mas esse respeito não será um respeito erotizado, portanto, viveremos em um país mais conservador.

Entrevista - Gedeon Freire de Alencar

''A Teologia da Prosperidade e o neoliberalismo são irmãos siameses''


O sociólogo Gedeon Freire de Aguiar reconhece as contribuições do pentecostalismo para a sociedade brasileira, principalmente em relação ao aumento do número de alfabetizados e à diminuição da violência doméstica. No entanto, ele faz críticas ao pentecostalismo quando afirma que o mesmo “reproduz as opressões sociais, e elas ficam pioradas porque, neste caso, têm uma ‘marca espiritual’”.  Sociólogo, presbítero da Assembleia de Deus Betesda, em São Paulo, Gedeon Freire de Alencar é diretor pedagógico do Instituto de Estudos Contemporâneos (ICEC). É mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista, com a tese "Todo poder aos pastores, todo trabalho ao povo, e todo louvor a Deus. Assembleia de Deus: origem, implantação e militância (1911-1946)".


IHU On-Line - Como o senhor descreve a relação entre as religiões pentecostais e a sociedade brasileira?

Os pentecostalismos (no plural), como qualquer outra expressão religiosa, têm acertos e erros na sua relação com a cultura. Como nos lembra Weber, em seu clássico texto Rejeições religiosas do mundo e suas direções, ou teoria dos conflitos, as religiões de salvação têm uma relação de tensão e concessão com o mundo. Portanto, com os pentecostalismos não poderia ser diferente. Sem julgamento de valores, vejamos, por exemplo, a relação entre alfabetização e pentecostalismo. Nas regiões mais pobres da sociedade aonde o pentecostalismo chegou, houve uma melhora na questão da alfabetização, ou, de outra forma, se não fosse o pentecostalismo, nosso índice seria pior. Na questão da violência doméstica, idem. Mas também tem outra contribuição em termos culturais, pois, originalmente, negava e até satanizava todas as expressões de danças, comidas, músicas e instrumentos. Portanto, é uma relação ambígua.

IHU On-Line - Quais as principais críticas que o senhor faz ao pentecostalismo hoje?

Reproduz as opressões sociais e elas ficam pioradas porque, neste caso, têm uma “marca espiritual”. E aqui cito o machismo, a discriminação de gêneros e sexos, apatia nas lutas sociais, um processo de acomodação de status e uma ênfase exagerada na solução dos problemas pessoais em detrimento da comunidade.

IHU On-Line - Como se dá a relação entre o pentecostalismo e as religiões afro?

Péssima - por culpa de ambas. Sei que corro o risco de desagradar a todos, mas não vou fugir da questão. Primeiro, todas as religiões têm dificuldade de relacionamento, pois estabelecer uma relação é identificar no outro algum valor o suficiente para ele/a ser visto e ouvido. O ecumenismo é bonito na teoria, mas é piada utópica. Segundo, teologicamente, ou sendo mais simplista, fenomenologicamente apenas, é impossível uma relação entre as duas. Nenhuma reconhece a outra, mesmo como mero fenômeno social. Terceiro, ambas são concorrentes, pois suas membresias estão na mesma camada social. Quarto, a criminalização da questão superou os limites da civilidade. Ambas são majoritariamente religiões de pobres e, esta, dentre outras, foi a razão da perseguição externa. O pentecostalismo foi absurdamente perseguido em seus primeiros anos, nos EUA e também no Brasil, pelas igrejas tradicionais, ditas cristãs, muito mais por racismo e sexismo. Uma perseguição imoral, anticristã, vergonhosa. Mas este mesmo pentecostalismo (no caso o neopentecostal), agora hegemônico e poderoso, repete de forma vergonhosa a mesma perseguição. Uma coisa é querer se diferenciar religiosamente, “se vender” como a religião melhor, mais correta etc. Outra coisa é criminalizar o outro; perseguir mesmo. Por outro lado, os cultos afros são muito competentes em termos estéticos e culturais, mas absurdamente incompetentes em racionalidade econômica. Para completar, são estupidamente divididos e inimigos entre si. Alguns optaram por um demagógico discurso vitimista e só conseguem se manter porque vivem ancorados nas sinecuras estatais. Com a desculpa (ou a culpa mesmo) de que é “cultura” e não religião, deram um tiro no pé: virou cultura alegre, vistosa, interessante para turista, mas se folclorizou. Enfeite de solenidade, alegoria de carnaval, não conseguiu articular militância e fidelização de seus membros. É dizimado mais por seus próprios erros internos que externos. Pelo andar da carruagem só vai sobrar em museu.

IHU On-Line - Que relação podemos estabelecer entre a teologia da prosperidade e o neoliberalismo econômico?

Toda teologia tem a cara de seu tempo - mesmo que teólogos se digam inspirados (apenas) por Deus. O teólogo é um leitor de seu tempo. Alguns são bons leitores, outros péssimos. Então, teologia da prosperidade e neoliberalismo é, como diz o provérbio popular, a casa e o botão. São irmãos siameses. Um não existiria sem o outro. Não vou me atrever a avaliar a teologia ou a economia, pois entendo pouco dos dois, mas diria apenas mais uma coisa: por que o neoliberalismo não nasceu, por exemplo, no final da década de 20? Não existia, absolutamente, ambiente para isso. Da mesma forma como a teologia da prosperidade jamais teria surgido, no Brasil, na década de 70. Não havia condições econômicas e sociais propícias. Isso poderia ser dito de outras teologias e de outras épocas similares.

IHU On-Line - Em que sentido podemos perceber nas religiões neopentecostais uma ética relativista e uma estética consumista, como o senhor apontou em uma entrevista já em 2006?

Um dos critérios - quase único - de nosso tempo é o quantitativo. “O fetiche de quantidade”, como disse Renato Mezan, no caderno Mais, Folha de S. Paulo, semana passada. Tudo é medido em números, e estes funcionam como oráculo divino. Por que este livro é bom? Porque vendeu muito. E este é melhor que outro porque vendeu mais ainda. Então, por que este louvor, música, pregação e igreja são melhores e estão certos, mais que outra(s)? Porque vendeu mais. Têm mais gente. Ter mais público quantitativamente é o grande critério de validação. Daí quem é o elemento fundante e final da coisa: o consumo. Por isso, benções são consumidas, louvores vendidos, pregações compradas. Igrejas são da moda – e o céu (ou o inferno para quem acredita...) é o limite. Conclusão - perdão pelo lugar comum - tudo é relativo. A ética é então muito mais conveniência que convicção; muito mais funcionalidade que fundamento. Qual a ética que rege este modelo? A do possível, dos fins justificando os meios. Não se tem mais a priori um bem maior definido e fundante, mas uma relatividade funcional de que, dependendo da “necessidade”, vale qualquer coisa. Se posso pagar a benção, comprar o louvor, transformar em moda a adoração, toda embalada para consumo de indivíduos, quem é que pode, em última instância, definir o objetivo? E Deus - seja lá ele quem for - não se meta a querer mudar o projeto.

IHU On-Line - Como entender a ênfase escatológica pregada pelas religiões pentecostais?

Nas igrejas pentecostais mais periféricas (domingo passado, vi isso pessoalmente) a mensagem escatológica ainda é forte, já nas igrejas de classe média e, principalmente, nas neopentecostais, o discurso escatológico está fora de moda. Simples, se Jesus voltar agora vai estragar a festa! O pentecostalismo, fenômeno típico da passagem do século XIX para o XX é absolutamente escatológico. Nasce no período das grandes guerras. Ademais, como religião de pobres, o sonho é escapar da miséria. É fácil para um intelectual de esquerda ridicularizar isso como alienação, mas, fazendo algum esforço para compreender “de dentro”, a doutrina escatológica também pode ser uma esperança. O céu é um projeto de justiça e paz.

IHU On-Line - Como a Assembleia de Deus se posiciona em relação ao pentecostalismo?

A Assembleia de Deus é uma igreja pentecostal. Aliás, não existe a Assembleia de Deus no singular, mas Assembleias. São muitas, variadas, autônomas, e, às vezes, inimigas entre si. Mas, majoritariamente são pentecostais, e como o universo assembleiano é vasto, há desde assembleias clássicas e tradicionais às mais neopentecostais e folclóricas possíveis. Teoricamente, pentecostal é quem aceita a contemporaneidade da doutrina do Espírito Santo. Mas a complicação é imediata: qual doutrina? Por exemplo, o falar em línguas e o exorcismo. Muitas igrejas hoje não têm mais estas marcas, ou só tem uma, como a Igreja Universal do Reino de Deus, que só dá ênfase ao exorcismo. Enfim, há muito que pentecostalismo não é mais apenas uma designação doutrinária, mas uma definição sociológica, e mesmo esta, atualmente, não é consenso.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Antônio Gois

Negros ainda são vítimas de escravidão

Artigo de Antônio Gois publicado no jornal Folha de S. Paulo, 13-05-2010.
Fonte: UNISINOS


É o que mostra um estudo do economista Marcelo Paixão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, feito a partir do cadastro de beneficiados pelo Bolsa Família incluídos no programa após ações de fiscalização que flagraram trabalhadores em situações que, para a ONU, são consideradas formas contemporâneas de escravidão.

São pessoas trabalhando em situações degradantes, com jornada exaustiva, dívidas com o empregador -que o impedem de largar o posto - e correndo riscos de serem mortas.

Paixão, que publica anualmente um Relatório de Desigualdades Raciais (ed. Garamond), diz que foi a primeira vez em que conseguiu investigar a cor ou raça desses trabalhadores, graças à inclusão do grupo no Bolsa Família.

Os autodeclarados pretos e pardos - que Paixão soma em seu estudo, classificando como negros - representavam 73% desse grupo, apesar de serem 51% da população total do Brasil. Tal como nas pesquisas do IBGE, é o próprio entrevistado que, a partir de cinco opções (branco, preto, pardo, amarelo ou indígena) define sua cor.

Para o economista, "a cor do escravo de ontem se reproduz nos dias de hoje. Os negros e índios, escravos do passado, continuam sendo alvo de situações em que são obrigados a trabalhar sem direito ao próprio salário. É como se a escravidão se mantivesse como memória".

Pretos e pardos são maioria entre a população mais pobre. Segundo o IBGE, entre os brasileiros que se encontravam entre os 10% mais pobres, 74% se diziam pretos ou pardos.

Para Paixão, ainda que hoje a cor não seja o único fator a determinar que um trabalhador esteja numa condição análoga à escravidão, o dado sugere que ser preto ou pardo eleva consideravalmente a probabilidade.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Cândido Grzybowski

Bens comuns e Bem viver

Cândido Grzybowski  é sociólogo, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase)
Fonte: ADITAL 


A crise climática virou senso comum. Com isso, vivemos um daqueles momentos raros da história humana em que é possível instaurar um debate sobre os próprios fundamentos do nosso modo de vida. Basta extrair do senso comum o bom senso transformador, no exato sentido que lhe deu Gramsci, falando da constituição de movimentos irresistíveis de transformação com capacidade de conquista de hegemonia na sociedade - reconhecimento e convencimento político e cultural da legitimidade e justeza da causa por amplos setores no interior da sociedade civil, o berço da cidadania.

A civilização dominante - em que a riqueza de um povo é medida por ter sempre mais e mais bens, pela renda per capita, pela acumulação e crescimento do PIB - foi feita a pau e fogo, literalmente, durante alguns séculos da recente história humana. Conquista e colonização, com escravidão de povos inteiros; revolução industrial e um modo de vida baseado no produtivismo e consumismo sem limites; imperialismos e guerras, mudando de mãos e territórios, foram se sucedendo na medida da necessidade, para garantir a dominação da tal civilização, até hoje. A globalização capitalista das últimas décadas virou referência para praticamente toda a humanidade.

Apesar do seu fascínio, conquistando corações e mentes quase sem fronteiras, o fato é que o estilo de vida dessa civilização tem a exclusão social e a destruição ambiental como pressuposto incontornável. Daí a importância do senso comum sobre a crise ambiental. Começa a surgir a consciência que assim não dá, o planeta não suporta. Seriam necessários cinco planetas para a humanidade inteira, os 7 bilhões que somos, terem o nível médio dos norteamericanos. Pior, o tal footprint - a pegada ecológica - aponta que o planeta não teria recursos para prover a humanidade inteira se o padrão fosse a média brasileira. O jeito é mudar. Mas eticamente não dá para salvar o planeta e esquecer a humanidade. Como conciliar uma agenda de justiça social e justiça ambiental? Eis a grande questão para a cidadania e a democracia. Esse é o bom senso a extrair como agenda transformadora no momento histórico que vivemos.

Crise da civilização

Atrás da crise climática precisamos mostrar a própria crise de civilização. Temos que começar questionando os princípios e valores que embasam a ideia da qualidade de vida produzidos pelo produtivismo e consumismo. Mais, temos que reconstruir o elo perdido com a biosfera e a ética, que a ciência e a tecnologia romperam. É indiscutível o enorme poder de domínio da natureza e da vida pela ciência e tecnologia materializadas em meios de produção e na industrialização de todos os setores da atividade humana. Mas seu avanço se deu às custas da natureza, usando-a de forma destrutiva, não sustentável, em termos ambientais e em termos sociais. Essa civilização intensiva em carbono e matéria está provocando o desastre climático. Precisamos começar por descarbonizar, desmaterializar, relocalizar a economia - produzir aqui, com as possibilidades daqui, para consumir aqui. Trata-se de parar de buscar o crescimento a todo custo e se voltar mais à felicidade humana, reencontrar-se e reinserir-se como parte de toda a vida natural e do seu ciclo regenerativo. Estamos diante de um imperativo ético, da vida no planeta, de toda a vida, desta e de gerações futuras. A condição é sair de uma civilização do ter e acumular e buscar o bem viver, com todos os direitos humanos para todos os seres humanos, respeitando os direitos da própria "mãe" natureza, patrimônio comum da vida.

A mudança de mentalidades e práticas traz ao centro da questão os bens comuns, os bens que são de toda a coletividade. O bem viver tem como pressuposto o compartilhamento dos bens comuns, como condição da vida. Organizar a sociedade em torno aos bens comuns é revalorizar a coletividade como condição da própria sustentabilidade. Cabe à coletividade zelar pelo acesso de todos(as) e pela conservação e uso sustentável de seus bens comuns. Mais, é a participação em igualdade de condições de todos(as) os(as) integrantes da coletividade, democraticamente, que garantirá o caráter de bens comuns e do bem viver coletivo. Estamos diante de uma junção fundamental entre bases da vida e democracia, entre justiça ambiental e justiça social, com participação ativa da cidadania.

São bens comuns o que recebemos como dom da natureza: a água e a chuva, as nascentes, os rios e os mares, os ventos e o sol, o clima e a atmosfera como um todo, a biodiversidade, os solos e sua fertilidade, os minerais. A lista é imensa e o modo de acesso e uso deles é uma questão fundamental da qualidade de vida, com sustentabilidade e justiça, na perspectiva do bem viver. Alguns são finitos, como os recursos minerais, entre eles o carvão mineral, o petróleo e o gás, fruto de decomposição de matéria orgânica ao longo de milhões de anos. Outros são em estoque dado, como a água. Outros, como o sol e os ventos, são recursos ilimitados.

Ocorre que os bens comuns naturais, como patrimônio de toda humanidade, estão desigualmente distribuídos no planeta. Isso marca as possibilidades e as diferentes culturas dos povos. Mas impõe uma questão ética e de justiça: como compartir entre todos e todas os bens comuns naturais? Um absurdo inventado pela humanidade e particularmente expandido pelo capitalismo capturou grande parte dos bens naturais como propriedade de indivíduos, grupos e povos. Na origem, propriedade dos mais fortes, transformada em direito garantido pelas leis e tribunais.

Alguns bens comuns são únicos, como as belezas naturais e os grandes ecossistemas que regulam o próprio clima do planeta, como as grandes florestas tropicais, as estepes, os pólos, as cordilheiras geladas. A sua divisão ou mau uso pode levar à destruição, afetando o conjunto da vida e da humanidade. A sua gestão como patrimônio da humanidade é incontornável. Mas tal imposição é também necessária na exploração e uso de energia fóssil, na medida que a sua queima descontrolada e desigual afeta o clima de todos, revela injustiça climática.

Manifestações culturais

Bens comuns, porém, não são só naturais. A genialidade coletiva da humanidade gestou, ao longo do tempo, bens comuns de fundamental importância para o bem viver: as diferentes manifestações culturais, as línguas, as filosofias e as religiões, a educação, a informação e a comunicação, a ciência e a técnica. São bens comuns ilimitados, que quanto mais se compartem mais crescem. Eles são a fronteira de expansão do bem viver, da felicidade humana.

Esses bens comuns são ameaçados pela propriedade intelectual, um artifício do capitalismo para tornar escasso e vendável o ilimitado. O exemplo mais notável, no momento, é o que se passa com a revolução das tecnologias de informação e comunicação, em particular internet e software. A luta entre software livre e software proprietário - Linux contra Microsoft - é entre o bem comum e a propriedade intelectual. Extensivamente, se pode dizer que, na comunicação, a mídia em geral está diante da possibilidade de expansão ilimitada da "mídia cidadã", livre, pautada pelo bem comum, versus "mídia proprietária", dos donos privados dos meios.

Cidades

A tragédia que se abateu sobre o Rio de Janeiro deve nos fazer pensar sobre como tratamos a cidade. As cidades são um bem comum em permanente mudança e, a seu modo, bens únicos. Já temos as reconhecidas cidades históricas, tratadas como patrimônio cultural da humanidade. Mas as cidades, todas, são bens comuns, bens de todos(as) os(as) seus(suas) moradores(as). Por isso, é legítima a reivindicação do direito à cidade para todos(as) que nela vivem. Não basta considerar as vias de comunicação, as ruas e avenidas e as praças e parques como bens públicos fundamentais, como os únicos bens comuns das cidades. As capacidades aí existentes, as instituições criadas ao longo do tempo, a sinergia criadora do coletivo, enfim, são muitos os aspectos que tornam a cidade um bem coletivo, comum, de todos e todas. Seu usufruto coletivo, o compartir a cidade, só aumenta seu valor como bem comum.

Mas existem os problemas, não só os evidentes - como os que acompanhamos durante a tragédia do Rio -, mas os relativos a privilégios, exclusões, segregações, enfim, práticas privatistas, discriminatórias e individualistas, assim como políticas públicas orientadas segundo os interesses dos mais poderosos.

A cidade como um bem comum e território único, como sítio natural em simbiose com a construção humana ao longo de gerações, é o fundamento de uma nova economia e um novo poder, localizados, para construir as bases do bem viver, democráticas e sustentáveis.

domingo, 11 de abril de 2010

Washington Araújo

Paixão conservadora pelo obscurantismo

Artigo de Washington Araújo,  jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil, Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org. Email - wlaraujo9@gmail.com.
Fonte: Carta Maior



Jornais e revistas de grande circulação, redes de TV e rádio com os maiores índices de audiência continuam se alinhando com as forças do atraso, mesmo em seu momento de maior refluxo. Em um tempo em que o mercado demonstra ser incapaz de prover solução aos graves problemas que afligem a maior parte da população, esses veículos parecem inteiramente desnorteados ao ver seu prestígio, poder de influência e capacidade de influenciar opiniões em franco declínio.

Se há dez ou quinze anos um escândalo tinha sempre sobrevida para freqüentar as capas das revistas semanais, primeiras páginas dos jornalões e lugar de destaque na escalada dos maiores telejornais da noite, hoje os escândalos têm vida curta, começam como pequenas ondas e, como elas, terminam sem nunca alcançarem o apogeu. Acontece que escândalos fabricados nascem com prazo de validade vencido. E se conseguem repercutir por três dias, uma ou duas semanas, já é um feito e tanto. O expediente, de tão usado, perdeu o impacto; as pessoas comuns torcem a boca, esboçam sorriso maroto e nem se dão mais ao trabalho de acompanhar a história.

Tema vital

O conservadorismo mostra sua cara quando insiste em menosprezar a legitimidade de, por exemplo, o Bolsa Família. E o rotula como Bolsa Esmola, Bolsa Mendicância e Bolsa Vagabundagem. E apresenta-se de corpo inteiro quando rechaça políticas de ação afirmativa como a de garantir aos afrodescendentes, aos índios, aos ciganos, facilidades para o acesso à educação universitária.

Como muitos medicamentos, o conservadorismo tem como princípio ativo o olhar de soberba, de cima para baixo, a não aceitação que o pessoal do andar de baixo tem os mesmos direitos que os do andar de cima, que a lei é soberana para todos e que a esta todos devem se submeter. O conservadorismo chega a ser um estilo de vida, uma forma de lutar contra qualquer forma de inclusão, seja social, cultural, digital.

A mídia potencializa o conservadorismo quando criminaliza movimentos sociais e interdita o debate sobre liberdade de expressão criando cortinas de fumaça em torno do que deseja, realmente, preservar. E o que ela anseia com todas as suas forças e meios nada mais é que perpetuar a concentração da propriedade dos meios de comunicação, mantendo como cláusula pétrea de sua atividade a compreensão de que, ao contrário do que reza a Constituição federal, não compete ao Estado lançar seus olhos sobre os meios de comunicação que atuam no segmento do rádio e da televisão.

Em outras palavras, pode-se afirmar que qualquer mudança no modus operandi do Estado em relação a este tema vital para a sociedade seria visto como crime de lesa-pátria. Há que se manter aquele conceito de propriedade vigente por tanto tempo à época do Brasil Colônia – o das sesmarias.

Interesses ocultos

Não podemos esquecer que a grande mídia sente uma atração fatal pelas forças do atraso, pelo endeusamento do mercado, pela negligência dos direitos dos oprimidos. No caso do Brasil, estou bem convencido que a grande mídia brasileira é...

** ... a mesma mídia que foi contra o governo de Getúlio Vargas e seu projeto nacionalista e popular, levando-o ao suicídio;

**... a mesma mídia que se posicionou fortemente contra o governo de Juscelino Kubitschek;

**... a mesma mídia que apoiou o golpe militar de 1964;

**... a mesma mídia que apoiou a ditadura (e hoje tenta reescrever a história dizendo que foi contra a ditadura ou ocultando que lhe foi favorável);

**... a mesma mídia que abafou a inspiradora campanha das "Diretas já!", engolfando o Brasil de norte a sul;

**... a mesma mídia que na eleição de 1989 tentou convencer a população que o Lula e o PT eram responsáveis pelo seqüestro do empresário Abílio Diniz;

**... a mesma mídia que apoiou Fernando Collor e editou o debate final naquela eleição em favor dele;

**... a mesma mídia que abafou a crise econômica e o fato de que o Brasil estava quebrado durante a eleição de 1998, favorecendo decisivamente a reeleição do presidente;

**... a mesma mídia que publicou ficha apócrifa de Dilma Rousseff como se fosse original dos arquivos da ditadura;

**... a mesma mídia que assacou de forma impiedosa contra a honra e os valores morais do presidente da República no sórdido episódio protagonizado por Cesar Benjamin;

**... a mesma mídia que boicotou solenemente (e desmereceu) a 1ª Conferência Nacional da Comunicação, e que apoiou de maneira irrestrita e apaixonada o 1º Fórum Democracia & Liberdade de Expressão, patrocinado por seu Instituto Millenium;

**... a mesma mídia que se aproveita da liberdade democrática para servir a interesses ocultos, geralmente manipulando as informações e o conhecimento, visando produzir apenas indivíduos dotados de opiniões, não de conhecimento, nem de sabedoria.

Estrago irremediável

O debate que interessa às massas da humanidade mudou de eixo há mais de 20 anos. Enquanto corpos editoriais foram conservados no formol do falso intelectualismo, o mundo girou e a Lusitana – aquela famosa empresa carioca de mudanças – rodou muito. Só a mídia não viu. Ou não quis ver. Ou se fez de rogada.

O leitor escolhe a situação. A grande imprensa divulgou o momento mesmo em que foi derrubado o muro de Berlim, mas não captou o evento em sua inteireza, em sua magnitude. Com a queda do reboco do infausto muro o mundo se libertou da opressão ideológica e mesmo que o capitalismo tenha se autodeclarado vencedor, a verdade é que não houve vencedores, apenas vencidos. Há muito que o capitalismo deixou de prover soluções duradouras para a manutenção da paz no mundo, há muito que o sistema renunciou à missão de saciar a fome que aprisiona 2/3 da espécie humana, há muito que se esvaziou o papel da Organização das Nações Unidas como símbolo de equilíbrio da ordem mundial.

Nada disso foi manchete porque nada disso foi notícia para um jornalismo ávido por sensação e alheio a percepções; para uma mídia ciosa por manter seu próprio muro de Berlim, tão bem simbolizado por seu extremo partidarismo, por sua cruel parcialidade na hora de decidir o que pode e o que não pode ser tratado como notícia.

Essa mídia, que tantas vezes avocou para si a missão de tribunal plenipotenciário e que deveria ter por obrigação informar a população, assume a missão de julgar e condenar desafetos políticos, lançando na fogueira da cobertura jornalística precária e tendenciosa pessoas que deram o melhor de si para construir um país mais justo. Do mesmo jeito como atuaram no escabroso caso da Escola de Base, em São Paulo. Ali tudo teve início, é bom recordar, para não esquecermos do quão abusiva pode ser a mídia, quando "duas mães de alunos dessa escola deram queixa na delegacia de que seus filhos de quatro e cinco anos estariam sendo molestados sexualmente na escola, e talvez, levados numa Kombi para orgias num motel, onde seriam fotografados e filmados". O delegado de plantão, não apenas acolheu a denúncia como teve a iniciativa de alardear junto à imprensa o teor da denúncia demolidora, antecipando uma condenação dos donos da Escola Base, Maria Aparecida Shimada e seu marido, Icushiro Shimada.

Resumo da história: só no final do inquérito, dez anos depois, os proprietários foram declarados inocentes.

Neste caso específico com exceção do jornal Diário Popular, fizeram parte da onda acusatória contra os proprietários e funcionários da Escola Base a Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, SBT, TV Globo, Veja, TV Record, Rádio e TV Bandeirantes e IstoÉ. Escrevendo sobre o caso, o psicanalista Raimundo de Lima destacou que "as indenizações obtidas por danos psicológicos, morais e materiais não conseguirão reverter o que eles perderam de saúde, de dignidade, de imagem pessoal e profissional limpa perante a sociedade. Não conseguirão reaproximar casais, pais e filhos e amigos, todos afastados pela contaminação do veneno da delação e da acusação vazia".

Lições de Reich

A execração pública dos proprietários da Escola Base foi um dos episódios mais perversos protagonizados pela grande imprensa brasileira. O caso mostrou à larga quão insidiosa pode ser a imprensa quando descuida de seu dever básico – a busca da verdade. Guardando-se as proporções, o sofrimento causado aos donos da Escola Base guarda paralelos com aquele sofrido pelo capitão Alfred Dreyffus, na França, no limiar do século 19. Neste episódio as honras da justiça foram feitas por um cidadão extraordinário, o escritor Émile Zola. A ele, tão somente, coube a missão de reconstruir os pilares da justiça e seu libelo "J´Accuse!" (Eu acuso!) é uma das mais instigantes peças jamais escritas em defesa da justiça e da liberdade humana. Conta-se que, ao insurgir-se contra a imprensa francesa e contra as forças armadas da França, Zola dedicou o melhor dos seus talentos, seu tempo, suas finanças, sua saúde. E é fato que enquanto na fria madrugada parisiense uma luz bruxuleava (sempre quis usar esta palavra!) no andar térreo da casa do notável escritor, isso era sinal de que a consciência da França estava acesa.

Deixemos São Paulo e Paris de lado e voltemos ao tema. Pois bem, não se trata de ser de direita ou de esquerda porque essa discussão há muito passou a se assemelhar àquelas infindáveis discussões para saber qual era o sexo dos anjos. O debate atual – e aquele que realmente importa – é o existente entre os que têm (educação superior, cargos, títulos, riqueza) e os que não têm (saneamento básico, educação formal, emprego). Neste debate o papel da imprensa é crucial. Porque precisamos tratar mais do mundo que queremos do que do mundo que temos. Pensar hoje nas gerações futuras. Mas como fazer isso se, lamentavelmente, sabemos quão conservadora é a nossa grande imprensa, quão imediatista, quão dissociada da defesa dos valores humanos ela vem se mostrando?

O austríaco Wilhelm Reich (1897-1957), considerado gênio por alguns e louco por outros, foi o maior revolucionário da Psicologia do século 20. Pioneiro da revolução sexual, precursor dos movimentos ecológicos e da psiquiatria biossocial, Reich desenvolveu também artefatos usados na cura do câncer e na diminuição dos efeitos negativos da energia nuclear. É dele uma frase que tem me incendiado a imaginação sempre que me ponho a pensar sobre a mídia que temos e aquela que gostaríamos de ter. Eis a frase:

"Cada ato mesquinho nosso faz retroceder mil passos qualquer esperança que possa restar quanto ao nosso futuro".

terça-feira, 23 de março de 2010

Pensar a crise com Emmanuel Mounier

"Emmanuel Mounier (foto), fundador da revista Esprit, prematuramente falecido aos 45 anos, no dia 22 de março de 1950, se dedicou, diante da 'grande crise', a uma análise espectral da desordem econômica, tendo ao mesmo tempo a preocupação de perscrutar suas causas profundas, que são, a seu ver, da ordem do 'espiritual'." Essa é a opinião de Guy Coq, presidente da Association des Amis d'Emmanuel Mounier, Jacques Delors, ex-presidente da Comissão Europeia, e Jacques Le Goff, professor de direito público da Universidade de Brest, em artigo para o jornal Le Monde, 22-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS




 
Michel Serres compara a crise atual a uma falha gigantesca no nível das placas profundas que se movem lentamente e se rompem imprevistamente nos abismos tectônicos invisíveis. Seria um erro, diz, localizar seu epicentro na superfície, no visível financeiro e econômico. Situa-se em um nível muito mais profundo, na escolha dos valores de orientação que constituem o ethos de um tipo de sociedade, no sentido contrário de acreditar que uma sociedade viva só de pão e de jogos, de economia e de espetáculo, de poder de aquisição e de mídia. Uma opção tão indigente expõe fatalmente um grave desvio.

Lendo Michel Serres, pensa-se em Emmanuel Mounier, fundador da revista Esprit, prematuramente falecido aos 45 anos, no dia 22 de março de 1950. Diante da grande crise, ele se dedicou a uma análise espectral da desordem econômica, tendo ao mesmo tempo a preocupação de perscrutar suas causas profundas, que são, a seu ver, da ordem do espiritual.

Sem conotação religiosa explícita, essa palavra designa o conjunto das escolhas antropológicas que estão no fundamento de uma sociedade. Responde à pergunta que quase se perdeu de vista: que tipo de existência individual e coletiva queremos, que não se feche na busca vã de uma "felicidade" reduzida à maximização do prazer, do poder, do dinheiro, do corpo ou do conforto? De onde deriva o fato de que as condições de acesso ao bem-estar tenham se transformado em fins tirânicos?

Um discurso de uma boa alma, se dirá, indiferente ao drama daqueles que se chocam com as dificuldades da existência! Nada disso. Geralmente só aqueles que não são mais obsessionados pela neurose do pão cotidiano desprezam o aspecto econômico, lembra Mounier. Para convencê-los, seria preferível um passeio pela periferia do que argumentos. Mas logo acrescenta: Disso não deriva que os valores econômicos sejam superiores aos outros: o primado do aspecto econômico é uma desordem histórica da qual é preciso sair.

E essa desordem estabelecida resulta, a seu ver, de um erro inicial sobre o homem, de uma terrível subversão, da qual ele encontra três manifestações patológicass:

1. O autismo do mercado que, sob a aparência de uma pseudoneutralidade moral, se elevou a timoneiro da sociedade com a usurpação das funções de governo. Se lhes cabia contribuir com a regulação dos fluxos, por que então esse motor cego por natureza se arrogou a condução das coisas humanas, senão graças à abdicação do político em nível nacional e internacional e à renúncia da sociedade? Tendo se tornado um barco à deriva, não é preciso se admirar que a economia capitalista tenda a se organizar completamente, fora da pessoa, sobre um fim quantitativo, impessoal e exclusivo.

Privado de uma direção razoável e de esfriamento pelo social, pelo ecológico, pelo cultural, pelo ético, esse motor chegou naturalmente a se levantar como instância suprema de sentido, ao preço de um nonsense destrutivo que está quase hipotecando o próprio futuro do planeta. O homem contemporâneo se crê absurdo. Talvez seja só insensato.

2. Nada revela melhor essa falta de regras do que a tendência tão geral de eliminar qualquer pergunta sobre o que Mounier chamava de ordem das necessidades, sobre o conteúdo da riqueza. Quais são as necessidades humanas cuja satisfação contribui com a realização da nossa vocação em uma perspectiva de cumprimento?

Pergunta estranha, se dirá! Na democracia, não cabe talvez a qualquer um saber onde se encontra a sua própria felicidade? E com qual direito uma sociedade se atribuiria a competência em um âmbito que cabe à livre disposição de cada cidadão? Viu-se qual resultado se obteve nos regimes que pretendiam impôr uma nova hierarquia das necessidades que se considerava derivar de um projeto libertador!

Não se trata disso. A preocupação de Mounier, como mais tarde a de Jacques Ellul, de Ivan Illich ou até de Jean Baudrillard, objetivava destruir o quieto torpor que nos faz considerar como livre o que, na realidade, é só uma normalidade imposta por uma mecânica louca, que se joga sobre o duplo registro da sedução e do sentido de culpa. E isso ao preço de uma corrida desenfreada a satisfações sempre mais fictícias e ao preço do esquecimento das necessidades fora do mercado, fora das relações monetárias: a atenção, a disponibilidade, a qualidade das relações interindividuais e sociais, a presença e o empenho na pólis, todos valores que fogem à ordem do quantificável e que se referem ao essencial.

A força de reflexão do fundador da Esprit está na sua capacidade de sacudir e de desencantar para nos arrancar do sonho de olhos abertos gerador de inquietação, de tensão estéril, de indisponibilidade seja com relação aos outros, seja com relação a si mesmo, em resumo, da alienação, para recolocar os pés sobre o chão do indispensável, sobre o núcleo duro da pessoa, em que o espiritual, verdadeira infra-estrutura, diz ele, encontra o seu lugar. Sem ponto de vista externo ao sistema, nada é possível.

3. É também a condição de libertação com relação ao trabalho. De onde vem de fato a manutenção da sua influência anormalmente intensa sobre a sociedade senão, por uma parte essencial, da espiral constantemente ascendente das necessidades e dos desejos infinitos? Trabalhar mais para ganhar mais é a sua máxima. Mas para que serve tudo isso quando o nível de vida alcançado é satisfatório? Para que serve?, dizia Jacques Ellul. É o problema não da frugalidade, mas da moderação dos desejos materiais além de um certo limiar. Mounier indicava a direção. Regular o consumo sobre uma ética das necessidade humanas recolocada na perspectiva total da pessoa.

Essas afirmações remontam a 1936. A sua pertinência provavelmente nunca foi tão forte.

domingo, 21 de março de 2010

Luís Carlos Lopes

Moral, política e humanidade

Vivemos em um mundo que tenta padronizar a todos, transformados em algo próximo às mercadorias que estão disponíveis na modernidade. Urge que estes objetos sejam usados a favor da espécie e não como armas de autodestruição coletiva. Artigo de Luís Carlos Lopes,  professor e autor do livro "Tv, poder e substância: a espiral da intriga", dentre outros.
Fonte: Carta Maior



Todo o ser humano é único e original. Não há ninguém que seja, com exceção dos embustes que induzem ao erro, uma cópia exata de outra pessoa. Os gêmeos univitelinos são muito parecidos, entretanto, são pessoas únicas, por vezes muito diferentes entre si, apesar de fisicamente bastante semelhantes. Mesmo que a ciência, nos limites de hoje, permita a clonagem dos genes de uma pessoa e consiga teoricamente fazer uma cópia exata de alguém, não é possível copiar as memórias e o caráter de cada um. Se no futuro, como se vê na ficção, torna-se viável enxertar as memórias retiradas de outros, transferir o caráter de alguém seria uma operação de difícil realização.

O cerne do caráter de cada indivíduo está na moral, isto é, naquilo que ele acredita como certo ou errado e no modo que ele utiliza o que sabe. Muitos conhecem as mesmas coisas, mas tiram conclusões diferentes, por vezes, opostas. Não há como imaginar a clonagem da capacidade humana de decidir, de interpretar e de escolher o seu próprio caminho, dentro dos limites disponíveis para tal. A unicidade e originalidade de cada um são reafirmadas na multiplicidade de caminhos escolhidos nos mesmos contextos ou em situações diferentes.

É verdade que as pessoas podem deixar para outros a prerrogativa de tomar decisões. É comum que existam seres humanos que se achem incapazes de decidir suas próprias vidas. A moral convencional ensina que os soberanos, os pais, os mestres e os deuses são mais aptos. Entretanto, não há como evitar que alguns se rebelem contra qualquer tipo de autoridade que lhes oprima e que busquem trilhar seus próprios caminhos na vida. Os regimes tirânicos e as democracias formais do tempo presente estão longe de dar a todos a mais completa liberdade de decisão. O voto pode ser comprado e a guerra decidida em gabinetes fechados. A opinião comum é uma mercadoria especial comercializada livremente na modernidade. Trata-se do principal artigo vendido nas mídias contemporâneas. Nem sempre os vendedores conseguem sucesso total. Mas, tentam diariamente vender ou revender.

A unicidade e a originalidade das pessoas são fatos de grande impacto social. Estabelecem diferenças e modulam o caráter complementar de cada indivíduo no tecido social. Nem todos conseguem aprender a tocar instrumentos, cantar de modo virtuoso ou se rebelar contra a ordem. Existem, felizmente, os mais corajosos e os mais inteligentes. Há quem tenha mais força e proteja os mais fracos, bem como, estão sempre presentes os mais empáticos, isto é, os capazes de sentir o mesmo que os outros sentem. Apenas, alguns são individualistas, irascíveis e antipáticos. A grande maioria prefere viver junto aos seus, tal como seus antepassados, ou buscar um novo espaço onde sejam mais bem acolhidos. O gregarismo é uma das qualidades da espécie. Este traço permitiu que ela chegasse ao tempo presente, depois de mais um milhão de anos de evolução.

Este mesmo traço gregário levou que na França do século XVIII se entendesse que todos os homens eram iguais em essência. Ninguém seria melhor do que os outros por descender de uma família aristocrática, por ter “sangue azul”. A igualdade entre os homens, a partir da Revolução de 1789, foi compreendida de vários modos. Os liberais a viram como a igualdade frente à lei e o novo tipo de Estado eleito pelo povo. Outros estenderam o conceito à idéia de igualdade social que viria a desabrochar no século seguinte, nos ideais socialistas. Muito rapidamente, os liberais e outros assemelhados tornaram-se tão cínicos quanto os velhos aristocratas, aceitando o princípio de se usar artifícios da lei para protegerem os seus pares. Alguns privilégios aristocráticos foram transferidos sem qualquer pudor para as novas classes burguesas e proprietárias. Nos países onde jamais houve uma revolução, é comum que eles se achem parte de uma nova espécie de nobreza, obviamente, de araque.

A unicidade e a originalidade dos seres humanos existem para o bem e para o mal. Adorno falou em um de seus textos que os nazifascistas mais disciplinados não eram pessoas comuns. Portavam certas características que permitiam a assunção desta ideologia. Não é qualquer pessoa que pode ser um torturador ou alguém especializado em mentir sistematicamente através de um meio de comunicação qualquer. As pessoas são recrutadas para certas funções por terem características que as tornam aptas para desenvolver as tarefas requeridas. A flexibilidade moral permite que algumas pessoas façam coisas repugnantes aos olhos dos demais seres humanos. Existem os ainda piores que decidem e mandam outros executar o que sujaria suas mãos de sangue.

A não ser nos casos em que a loucura se instala de modo devastador, as pessoas sabem o fundamental do que é certo e do que é errado. A humanidade produziu padrões histórico-culturais que ensinam a todos que não se deve matar ninguém, sem que exista um motivo muito forte para tal. O roubo e o furto só são humanísticamente aceitáveis, quando se vinculam a atos de justiça social ou relacionados à manutenção da sobrevivência. A apropriação de coisas dos outros da mesma comunidade, tal como fazem os corruptos, é algo moralmente insustentável. A intriga e a cizânia são repudiadas há muito tempo, infelizmente, continuam sendo fortemente usadas pelas mídias e por algumas pessoas como recurso de manipulação.

A pilhagem dos inimigos sempre foi justificada como ato de guerra, como uma forma de castigar duplamente e duramente os derrotados. Mas, foi comum a ambigüidade no assunto, quanto mais os inimigos eram próximos de seus antagonistas. Foi preciso que fosse inventado o racismo, isto é, o ódio étnico e a idéia de povos superiores e inferiores para justificar a barbárie em suas múltiplas variações antigas e atuais. As ditaduras latino-americanas esconderam as torturas que praticavam e os que executaram – os desaparecidos – por não poderem assumir publicamente os seus crimes, temendo a condenação política e moral de seus atos. Sabiam que não poderiam, no mundo do pós-guerra, sustentar publicamente a barbaridade praticada. Mesmo no nazifascismo, bem menos “cuidadoso”, nem tudo era de amplo conhecimento público. A verdade dos campos de concentração era conhecida por uma grande quantidade de pessoas que viviam nos países invasores e ocupados, entretanto, o mundo só veio saber detalhes quando a guerra acabou, em 1945.

Quebrar o gregarismo humano consiste em romper com a própria natureza humana, na essência cooperativa e capaz de enormes sacrifícios para ajudar o outro. Viu-se, no episódio do Haiti, como antigos ódios étnicos podem ficar em suspenso, mesmo que por um átimo, quando o cerne da sobrevivência humana é afetado. Há alguma hipocrisia nisto tudo? Sim, ela existe. Por outro lado, as tragédias dos outros acabam por comover e criar a compaixão em corações embrutecidos pela propaganda e pelas crenças nas superioridades de alguns povos sobre outros.

A esperança que mora no fundo da caixa de Pandora é que a unicidade e a originalidade de cada ser produzam os que contribuam para melhorar o destino da humanidade. Sabe-se que é comum acontecer o contrário. Há um esforço da tradição e da conservação de impedir que as novas gerações levantem a bandeira da mudança. Vive-se em um mundo que tenta padronizar a todos, transformados, na lógica do espelho, em algo próximo às mercadorias que estão disponíveis na modernidade. Elas não são simples artefatos agregados às pessoas. São muito mais do que isso. Estes objetos representam o trabalho humano concentrado em uma coisa, bem como, a palavra materializada em minerais e compostos de origem orgânica. Urge que sejam usados a favor da espécie e não como armas de autodestruição coletiva. Recuperar uma moral de interesse coletivo significa também problematizar o mundo atual.

[grifos do blog]

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É um espaço de encontro para reflexão teológica tendo em vista contribuir para a construção de uma rede mundial de teologias contextuais marcadas por perspectivas de libertação, paz e justiça. O FMTL se reconhece como resultado do movimento ecumênico e do diálogo das diferentes teologias contemporâneas identificadas com processos de transformação da sociedade. Acontecerá entre os dias 21 a 25 de janeiro em Bélem, Pará, e discutirá o tema "Água - Terra - Teologia para outro Mundo possível". Mais informações, clicar na figura.

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Estranha metamorfose: os economistas e jornalistas que defenderam, durante décadas, as supostas qualidades do mercado, agora camuflam suas posições. Ou — pior — viram a casaca e, para não perder terreno, fingem esquecer de tudo o que sempre disseram. Para ler, clicar na figura.

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