terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O efeito da crise na esquerda. Artigo de Anthony Giddens


No artigo publicado no jornal La Repubblica, 07-03-2009, o sociólogo britânico Anthony Giddens analisa a realidade de esquerda mundial no panorama da crise. Giddens é professor emérito da London School of Economics e ex-professor de Cambridge. A tradução de Moisés Sbardelotto.
Fonte: Unisinos


Na grande maioria dos países europeus, a direita está hoje no poder. O continente inteiro, enfileirado com o resto do mundo industrializado, foi sacudido por uma grave crise econômica. Que perspectivas a esquerda tem para se levantar novamente? O advento da recessão lhe dará oportunidades para se reconstituir e se recuperar?

À primeira vista, a resposta à segunda pergunta parece um sim. Eis por que:

1. A crise dos mercados financeiros é um sinal evidente e catastrófico da falência do mercado. Presumia-se que a liberalização dos mercados levaria a uma distribuição eficaz dos recursos em vantagem da produção de riqueza. Ao invés disso, levou ao deslocamento e à ruína. Uma das teses clássicas da esquerda, a saber, que os mercados têm necessidade de uma regulamentação atenta, voltou à tona.

2. Pode-se acrescentar a isso que os mercados deixados sem limites podem ter impactos desastrosos no ambiente em geral. Nick Stern, autor do famoso Relatório Stern sobre as mudanças climáticas, defende que o avanço do reaquecimento global representa “o exemplo máximo de falência do mercado ao qual jamais se assistiu”.

3. Existem, portanto, as bases para um retorno do Estado e para a intervenção ativa na vida econômica, também estes parte do terreno clássico da esquerda. É provável que, no futuro, os mercados financeiros desempenhem um papel mais limitado com relação ao passado na economia no seu complexo.

4. Nas últimas duas ou três décadas, vimos uma fase de expansão da desigualdade que até países igualitários como os Estados escandinavos sofreram para frear. Essa tendência poderia ir ao encontro de inversões no momento em que são colocadas asrédeas aos mercados, submetendo-os a um maior controle. A opinião pública mudou decisivamente de atitude, posicionando-se contra os níveis de retribuição absurdos dos quais as elites financeiras e outras altas esferas de administração desfrutam. Hoje, os governos apoiam a ação de colocar limites às compensações exageradas.

5. O mesmo vale em nível internacional para a regulamentação dos paraísos fiscais. Enormes somas de dinheiro que deveriam ir para o fisco, para o bem social, se espalham pelo mundo. No período da desregulação, muito pouco foi feito para fechar ou regulamentar os paraísos fiscais, mas hoje existem pressupostos mais válidos para uma ação coordenada em nível internacional.

6. O presidente Obama, recém empossado, está tomando a iniciativa em alguns desses temas. Se a sua presidência se revelar eficaz, ou ainda melhor, se souber entusiasmar, poderemos ter um “efeito Obama” na centro-esquerda européia, como se teve um positivo “efeito Clinton” ao redor do ano 2000, que estimulou a esquerda em outros países. Na época, como se notou, em 13 dos 15 países membros da União Européia governos ou coalizões de centro-direita estavam no poder.

Deveremos, portanto, esperar que, com a deterioração da economia, prosperem os partidos de centro-esquerda? A situação não é assim tão clara, porque existem ainda fortes aspectos negativos. Sobretudo, é necessário pensar em nível intelectual e político para mostrar em que consistirá o “retorno do Estado” e para criar políticas às quais a opinião pública responda positivamente. Na ausência de um novo modo de pensar, o Estado não será capaz de garantir uma gestão mais eficaz da atividade econômica com relação ao passado.

Se a recessão for profunda e de longa duração, ela poderia ter duras consequências no plano social, agravando as tensões étnicas e sociais já existentes. Essa evolução poderia colocar em risco a própria democracia e conduzir a refluxos de autoritarismo e populismo, circunstâncias que, geralmente, favorecem o governo da direita. Entretanto, existe o risco muito real que a situação atual provoque divisões na esquerda, com um reforço da esquerda extrema anticapitalista. Em vários países, inclusive obviamente a Itália, existem já cisões significativas entre os partidos de esquerda.

Portanto, é provável que tudo isso tenha um êxito misto. Se a crise se revelar duradoura,qualquer governo no poder cairá. Mesmo se os pacotes de estímulo introduzidos em grande parte dos países se demonstrem adequados, será necessário tempo para que deem fruto. Enquanto isso, é provável que a raiva dos eleitores se reverta contra quem se encontra no poder no momento em que a situação econômica pareça direcionada a uma piora. O governo de centro-esquerda mais longevo da Europa, o Labour no Reino Unido, tem, aparentemente, poucas possibilidades de ser reconfirmado nas urnas para aquilo que seria o quarto mandato. O mesmo poderia valer para os seus homólogos na Espanha e em Portugal.

Mas se poderia verificar um final surpreendente. Justamente os sucessos eleitorais obtidos pelos governos de centro-esquerda nos últimos anos poderiam se revelar hoje contraproducentes para a esquerda. Ela será a mais atingida se se demonstrar que é verdade que os governos no poder estão particularmente em risco em uma situação de turbulência econômica.
[grifos do blog]

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Slavoj Zizek: A privatização do conhecimento intelectual. A Revolta da Burguesia Assalariada


Artigo de Slavoj Žižek (foto), no London Review of Books, reproduzido pelo sítio Viomundo, 22-01-2012. 
Fonte: UNISINOS



Como foi que Bill Gates se tornou o homem mais rico dos Estados Unidos? A riqueza dele não tem nada a ver com a Microsoft produzir bons programas a preços mais baixos que a competição, ou com ‘explorar’ seus trabalhadores com mais sucesso (a Microsoft paga um salário relativamente alto a seus trabalhadores intelectuais). Milhões de pessoas ainda compram programas da Microsoft porque a Microsoft se impôs quase como um padrão universal, praticamente monopolizando o mercado, como uma personificação do que Marx chamou de “intelecto geral”, com o que ele quis dizer conhecimento coletivo em todas as suas formas, da Ciência ao conhecimento prático. Gates privatizou eficazmente parte do intelecto geral e ficou rico ao se apropriar do aluguel deste intelecto.

A possibilidade de privatização do intelecto geral é algo que Marx nunca previu nos seus escritos a respeito do capitalismo (em grande parte porque ele negligenciou a dimensão social do capitalismo). Ainda assim, isso está no centro da luta atual sobre propriedade intelectual: na medida em que o papel do intelecto geral – baseado no conhecimento coletivo e na cooperação social – aumenta no capitalismo pós-industrial, a riqueza se acumula de forma desproporcional no trabalho gasto na sua produção. O resultado não é, como Marx parecia esperar, a autodissolução do capitalismo, mas a gradual transformação do lucro gerado pela exploração do trabalho em renda apropriada através da privatização do conhecimento.

O mesmo vale para os recursos naturais, cuja exploração é uma das principais fontes de renda do mundo. Existe uma luta permanente sobre quem fica com essa renda: os cidadãos do Terceiro Mundo ou as corporações ocidentais. É irônico que ao explicar a diferença entre trabalho (que produz valor excedente) e outras commodities (que consomem todo seu valor no uso), Marx tenha dado como exemplo o petróleo, uma commodity ‘ordinária’. Hoje, qualquer tentativa de ligar as flutuações do preço do petróleo às oscilações de seu custo de produção ou ao preço da exploração do trabalho não faria o menor sentido: o custo de produção é insignificante como proporção do preço que pagamos pelo petróleo, preço que na realidade é a renda que os donos do recurso podem extrair graças à oferta limitada de petróleo.

A consequência do aumento de produtividade causado pelo crescimento exponencial do conhecimento coletivo é uma mudança no papel do desemprego. É o próprio sucesso do capitalismo (maior eficiência, aumento de produtividade, etc.) que produz desemprego, tornando mais e mais trabalhadores inúteis: o que deveria ser uma bênção – menor necessidade de trabalho pesado – se torna uma maldição.

Ou, para explicar de outra maneira, a oportunidade de ser explorado em um emprego de longo prazo agora é experimentada como um privilégio.

O mercado mundial, como disse Fredric Jameson, é “um espaço onde todo mundo já foi um trabalhador produtivo e no qual o trabalho começou, em toda parte, a se precificar fora do sistema”. No atual processo de globalização capitalista, a categoria dos desempregados não se limita mais ao “exército industrial de reserva” de Marx; ela também inclui, como nota Jameson, “essas massas populacionais do mundo que ‘despencaram da história’, que foram deliberadamente excluídas dos projetos modernizadores do Primeiro Mundo capitalista e descartadas como casos terminais ou sem esperança: os chamados estados falidos (Congo, Somália), vítimas da fome ou de desastres ecológicos, os que caíram na armadilha pseudo-arcaica dos ‘ódios étnicos’, objetos da filantropia ou das ONGs ou alvos da guerra ao terror”.

A categoria dos desempregados foi, assim, expandida para incluir uma vasta esfera de pessoas, dos desempregados temporariamente aos que não podem mais conseguir emprego e estão permanentemente desempregados, aos habitantes de guetos e favelas (quase todos esses descartados por Marx como parte do lumpemproletariado), e finalmente todas as populações e estados excluídos do processo capitalista global, como os espaços vazios de mapas antigos.

Alguns dizem que esta nova forma de capitalismo oferece novas possibilidades de emancipação. Essa é a tese de “Multitude”, de Hardt e Negri, que tenta radicalizar Marx, afirmando que se nós simplesmente cortarmos a cabeça do capitalismo, teremos o socialismo. Marx, eles argumentam, estava limitado historicamente: ele pensou em termos de trabalho industrial centralizado, automatizado e organizado hierarquicamente. Como resultado, entendeu o “intelecto geral” como algo semelhante à agência de planejamento central; somente hoje, com o surgimento do “trabalho não-material”, uma mudança revolucionária se tornou “objetivamente possível”.

Esse trabalho não-material se estende entre dois polos:  do trabalho intelectual (a produção de ideias, textos, programas de computador, etc.) a trabalhos afetivos (desempenhados por médicos, babás e comissários de bordo). Hoje, o trabalho não-material é hegemônico, no sentido com que Marx proclamou, no capitalismo do século XIX, que a produção industrial em larga escala era hegemônica: ele se impõe não através da força dos números, mas por desempenhar um papel-chave, emblemático de toda a estrutura.

O que emerge é um vasto novo domínio chamado de “commons”: conhecimento compartilhado e novas formas de comunicação e de cooperação. Os produtos da produção não-material não são objetos, mas novas relações sociais e interpessoais; a produção não-material é biopolítica, é a produção da vida social.

Hardt e Negri descrevem aqui o processo que os atuais ideólogos do capitalismo pós-moderno celebram como a passagem da produção material para a simbólica, da lógica da hierarquia centralizadora para a lógica da auto-organização e da cooperação multicentralizada.

A diferença é que Hardt e Negri (1) são fiéis a Marx: eles tentam provar que ele estava certo, que o surgimento do intelecto geral é, a longo prazo, incompatível com o capitalismo. Os ideólogos do capitalismo pós-moderno afirmam exatamente o oposto: a teoria marxista (e a prática), argumentam, continua limitada pela lógica hierárquica do controle centralizado do estado e por isso não consegue lidar com os efeitos sociais da revolução da informação.

Existem boas razões empíricas sustentando o argumento deles: o que de fato arruinou os regimes comunistas foi sua incapacidade de se acomodar à nova lógica social sustentada pela revolução da informação. Eles tentaram dirigir a revolução, fazer dela mais um projeto em grande escala de um governo centralizado. O paradoxo é que o que Hardt e Negri celebram como uma oportunidade única para derrubar o capitalismo é comemorado pelos ideólogos da revolução da informação como o surgimento de um capitalismo novo, sem ‘fricção’.

A análise de Hardt e Negri tem alguns pontos fracos, o que nos ajuda a entender como o capitalismo tem conseguido sobreviver ao que deveria ser (em termos marxistas clássicos) uma nova organização da produção que o tornaria obsoleto. Os dois subestimaram a extensão do sucesso do capitalismo de hoje (ao menos no curto prazo) na privatização do intelecto geral, além de subestimarem a dimensão de como os trabalhadores, mais do que a própria burguesia, estão se tornando supérfluos (com um número cada vez maior de trabalhadores se tornando não apenas desempregados temporários, mas estruturalmente não-empregáveis).

Se o capitalismo antigo idealmente envolvia o empresário que investia (o seu ou emprestado) dinheiro na produção, que ele organizava e geria, e depois tirava lucro disso, um novo tipo ideal está surgindo hoje: não mais o empresário que é dono de sua companhia, mas um administrador especializado (ou um conselho de administração presidido por um CEO), que governa a empresa de propriedade dos bancos (também geridos por administradores, que não são donos do banco) ou investidores diversos.  Neste novo tipo de capitalismo ideal, a velha burguesia, tornada desfuncional, é reciclada como gerenciadora assalariada: os membros da nova burguesia recebem salários, e mesmo quando são donos de parte da empresa, ganham ações como parte de sua remuneração (“bônus” pelo seu “sucesso”).

Essa nova burguesia ainda se apropria da mais-valia, mas no formato (mistificado) do assim chamado “superávit salarial”: eles recebem bem mais que o “salário mínimo” do proletariado (quase sempre um ponto mítico de referência, cujo único exemplo real na economia global de hoje é o salário dos trabalhadores na indústria têxtil da China ou da Indonésia), e é esta distinção em relação proletário comum que determina o status da nova burguesia.

A burguesia no sentido clássico, assim, tende a desaparecer: capitalistas reaparecem como um subsetor de trabalhadores assalariados, como administradores qualificados para ganhar mais pela virtude de sua competência (por isso a avaliação pseudocientífica é crucial: ela legitima as disparidades).  Longe de se limitar aos administradores, a categoria de trabalhadores que ganha superávits salariais se estende a todo tipo de especialista, administradores, servidores públicos, médicos, advogados, jornalistas, intelectuais e artistas. O superávit assume duas formas: mais dinheiro (para gerentes, etc.), mas também menos trabalho e mais tempo livre (para – alguns – intelectuais, mas também para administradores do estado, etc.).

O processo de avaliação usado para decidir quais trabalhadores devem receber superávit salarial é um mecanismo arbitrário de poder e ideologia, sem conexão séria com a verdadeira competência; o superávit salarial existe não por razões econômicas, mas políticas: para manter uma “classe média” e preservar a estabilidade social.

A arbitrariedade na determinação da hierarquia social não é um erro, mas objetivo do sistema, com papel análogo ao da arbitrariedade no ’sucesso de mercado’.

A violência não ameaça explodir quando existe muita contingência no espaço social, mas quando se tenta eliminar a contingência. Em “La Marque du sacré”, Jean-Pierre Dupuy trata a hierarquia como um dos quatro procedimentos (“dispositivos simbólicos”) que têm como função tornar não humilhante a relação de superioridade: a própria hierarquia (uma ordem imposta externamente que me permite experimentar meu status social mais baixo de forma independente do meu valor inerente); desmistificação (o procedimento ideológico que demonstra que a sociedade não é uma meritocracia, mas o produto de disputas sociais objetivas, que me permite evitar a conclusão dolorosa de que a superioridade de alguém sobre mim é resultado dos méritos e realizações do outro); contingência (mecanismo parecido, através do qual entendemos que nossa posição na escala social depende de uma loteria natural e social; os sortudos nascem com os genes certos, em famílias ricas); e complexidade (forças incontroláveis têm consequências imprevisíveis; por exemplo, a mão invisível do mercado pode me levar ao fracasso e o meu vizinho ao sucesso, mesmo que eu trabalhe muito mais e seja bem mais inteligente).

Ao contrário do que parece, esses mecanismos não contestam ou ameaçam a hierarquia, mas a tornam mais palatável, já que “o que dispara o tumulto da inveja é a ideia de que o outro não merece a sorte que tem e não a ideia oposta – a única que se pode expressar abertamente”. Dupuy tira desta premissa a conclusão de que é um grande erro pensar que uma sociedade razoavelmente justa, que se enxerga como justa, estará livre de ressentimento: pelo contrário, é nessas sociedades que aqueles que ocupam as posições inferiores encontrarão nas explosões violentas de ressentimento um veículo para seu orgulho ferido.

Isso está conectado ao impasse que a China enfrenta hoje: o ideal das reformas de Deng era introduzir o capitalismo sem uma burguesia (já que ela formaria a nova classe dominante); agora, porém, os líderes da China estão descobrindo dolorosamente que o capitalismo sem uma hierarquia estabelecida, possibilitada pela existência de uma burguesia, gera instabilidade permanente. Então, que caminho a China seguirá?

Os ex-comunistas estão emergindo como os administradores mais eficientes do capitalismo porque sua inimizade histórica com a burguesia como classe casa perfeitamente com a tendência atual do capitalismo de se tornar um capitalismo administrativo, sem burguesia – nos dois casos, como Stalin disse faz tempo, “os quadros decidem tudo”. (Uma diferença interessante entre a China e a Rússia de hoje: na Rússia, os professores universitários têm salários ridiculamente baixos – eles já são, de fato, parte do proletariado – enquanto na China recebem um superávit salarial confortável para garantir sua docilidade).

A noção de superávit salarial também coloca sob nova ótica os constantes protestos “anticapitalistas”.  Em momentos de crise, o candidato óbvio para apertar o cinto são as classes mais baixas da burguesia assalariada: protestos políticos são seus únicos recursos se quiserem evitar se juntar ao proletariado.

Apesar de seus protestos serem, nominalmente, dirigidos contra a lógica brutal do mercado, elas estão protestando, de fato, contra a erosão gradual de sua posição econômica privilegiada (politicamente).

Em “Atlas Shrugged”, Ayn Rand tem a fantasia de fazer greve contra capitalistas “criativos”, uma fantasia que encontra realização pervertida nas greves de hoje, quase todas sustentadas por “burguesias assalariadas” movidas pelo medo de perder o superávit salarial. Esses não são protestos proletários, mas protestos contra a ameaça de ser reduzido a proletariado.

Quem tem coragem de entrar em greve hoje, quando ter um salário fixo é, em si mesmo, um privilégio? Trabalhadores com baixos salários (o que resta deles) da indústria têxtil, etc., não; mas os trabalhadores privilegiados que têm emprego garantido (professores, empregados dos transportes públicos, policiais), sim. Isso também explica a onda de protestos estudantis: sua principal motivação é, sem dúvida, o medo de que a educação superior não garanta um superávit salarial mais tarde, na vida.

Ao mesmo tempo está claro que o grande renascimento de protestos no último ano, da Primavera Árabe à Europa ocidental, do Occupy Wall Street à China, da Espanha à Grécia, não deve ser descartado meramente como uma revolta da burguesia assalariada. Cada caso deve ser analisado de acordo com seus próprios méritos. Os protestos estudantis contra a reforma universitária na Grã-Bretanha são claramente diferentes dos distúrbios de agosto, que foram um carnaval consumista de destruição, uma verdadeira explosão dos excluídos.

Pode-se argumentar que os levantes no Egito começaram, em parte,  como uma revolta da burguesia assalariada (com jovens educados protestando por conta de sua falta de perspectiva), mas este foi apenas um dos aspectos de um protesto mais amplo contra um regime opressivo. Por outro lado, o protesto não mobilizou, realmente, trabalhadores mais pobres e camponeses e a vitória eleitoral dos islâmicos deixa clara a estreita base social do protesto secular original. A Grécia é um caso especial: nas últimas décadas, foi criada uma nova burguesia assalariada (especialmente na inchada administração estatal), graças à ajuda financeira da União Europeia, e os protestos, em boa parte, foram motivados pela ameaça do fim disso.

A proletarização das camadas mais baixas da burguesia casa, no oposto extremo, com a alta remuneração irracional de administradores e banqueiros do topo (irracional como demonstraram as investigações nos EUA, já que ela tende a ser inversamente proporcional ao sucesso da companhia). Ao invés de submeter essas tendências à crítica moralizante, devemos lê-las como sinais de que o sistema capitalista não é mais capaz de uma estabilidade autorregulada – em outras palavras, ele ameaça ficar fora de controle.

 (1) Antonio Negri e Michael Hardt.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Miami se transforma para receber calorosamente os brasileiros gastadores

Por Lizette Alvarez, Miami (EUA), Tradução: George El Khouri Andolfato.
Fonte: The New York Times, em 29/12/2011


Até mesmo em uma cidade que abraçou tantas ondas de latinos a ponto de ser tratada como brincadeira de única capital sul-americana na América do Norte, nenhum grupo tem sido tão cortejado e paparicado quanto os brasileiros.

Cheios de dinheiro de uma economia em boom e apaixonados pelo luxo, os brasileiros estão visitando o sul da Florida em grande número e gastando milhões de dólares em imóveis de férias, roupas, joias, móveis, carros e arte, tudo muito mais barato aqui do que no Brasil.

Como agradecimento, os cidadãos da Flórida estão criando modos inovadores de deixar os brasileiros de língua portuguesa contentes. Corretores imobiliários, por exemplo, formaram empresas que reúnem em uma só parada decoração de interiores, serviços de concierge, assessoria jurídica e ajuda com vistos. Alguns corretores abriram escritórios no Brasil para simplificar o processo.

Cientes de que os brasileiros não gastarão à vontade a menos que se sintam em casa, os shoppings centers os atraem com funcionários que falam português para venderem vestidos Dulce & Gabbana e relógios Hublot. Até mesmo a Target coloca avisos de contratação de funcionários em português.

Os restaurantes brasileiros também estão florescendo por toda Miami, incluindo uma rede popular do Brasil –a Giraffas– que oferece pão de queijo brasileiro e cortes especiais de carne.

“Hola” e beijos no ar ainda são o padrão aqui, mas o “Oi” está perceptivelmente avançando.

“Nós viemos para Miami para investir, porque no meu país os imóveis residenciais estão muito caros”, disse Claudio Coppola Di Todaro, um investidor de fundo hedge de São Paulo, que comprou recentemente um apartamento nas Trump Towers, em Sunny Isles Beach, e outro na Trump SoHo, em Manhattan (os brasileiros também adoram Nova York). “Nós gostamos de passar férias em Miami algumas vezes por ano. Muitos brasileiros fazem isso agora.”

Enquanto os Estados Unidos e a Europa continuam enfrentando uma recessão, a economia do Brasil continua galopando à frente, movida pelas exportações, uma crescente base manufatureira e recursos naturais abundantes. O desemprego em outubro era de 5,8% e nesta semana o Brasil ultrapassou o Reino Unido, se transformando na sexta maior economia do mundo.

Os brasileiros atentos a grifes adoram usar seu dinheiro (em espécie, acima de tudo), figurando em primeiro lugar per capita em gastos entre os 10 principais grupos de turistas estrangeiros nos Estados Unidos, uma lista que inclui franceses, britânicos e alemães. Ao todo, 1,2 milhão de brasileiros visitaram em 2010 e gastaram US$ 5,9 bilhões, ou US$ 4,940 por visitante. Apenas turistas da Índia e da China gastam mais que os brasileiros, mas eles são em número bem menor e não figuram entre os 10 mais.

O Departamento do Comércio espera que o número total de turistas brasileiros será ainda maior neste ano.

O impacto econômico dos brasileiros é tão grande que os setores de turismo, restaurante e varejo, juntamente com a Câmara de Comércio dos Estados Unidos, estão fazendo lobby em Washington para permitir que os brasileiros viajem sem a necessidade de visto, como podem os cidadãos dos países da União Europeia. Em novembro, o Departamento de Estado concordou em aumentar o número de consulados para acelerar o procedimento de visto.

A American Airlines tem 52 voos por semana de cinco cidades no Brasil para Miami e fez pedido para mais rotas.

A Flórida é o Estado que mais se beneficia com a nova riqueza do Brasil e com o crescimento de sua classe média. A maioria dos brasileiros que vêm aos Estados Unidos visita a Flórida, e nos primeiros nove meses deste ano, cerca de 1,1 milhão de brasileiros gastaram US$ 1,6 bilhão no Estado, um aumento de quase 60% em comparação ao ano anterior. Entre os países estrangeiros, apenas o Canadá envia mais visitantes à Flórida.

O dinheiro dos brasileiros ajudou a ressuscitar o mercado imobiliário em Miami. Estrangeiros são responsáveis por mais da metade de todas as vendas de imóveis em Miami, e prédios de apartamentos que antes estavam vazios estão esgotando rapidamente.

“De muitas formas, os brasileiros têm sido a salvação aqui”, disse Edgardo Defortuna, presidente da Fortune International Realty, que tem escritórios no Brasil e em Miami. “O preço não é um problema para eles.”

Os brasileiros entram aqui no estilo de vida latino-americano –jantares tarde da noite e moda, alimentos e música familiares. E a relativa segurança dos Estados Unidos é um bônus. A taxa de homicídios do Rio de Janeiro, apesar de em queda, é quase três vezes maior do que a de Miami.

Ávidos por fazer compras e passar tempo com parentes e amigos, os brasileiros costumam comprar apartamentos no mesmo prédio, como o W em South Beach.

“Em Miami, eles podem vir e usar relógios caros, andar em seus conversíveis e ninguém cortará o braço deles para roubar uma joia, como acontece em casa”, disse Alexandre Piquet, um advogado brasileiro da Piquet Realty, que foi fundada por seu irmão, Cristiano, um conhecido piloto de corrida. “Aqui não temos que nos preocupar com crianças atravessando a rua e sendo sequestradas, alguns dos problemas que ainda enfrentamos lá. É a realidade.”

A Piquet Realty, aberta em 2005, dobrou seus negócios no ano passado, disse Cristiano Piquet. Alguns apartamentos que ele vende são entregues plenamente mobiliados pela Artefacto, uma proeminente empresa brasileira de design de móveis. Se os brasileiros precisam de ajuda com transações legais, impostos ou orientações sobre imigração, a empresa também oferece. Se um cliente quiser uma Ferrari, a Piquet Realty também providencia.

Como muitas empresas no sul da Flórida, a empresa promove agressivamente a si mesma no Brasil, como a junta de turismo de Miami. O governador da Flórida, Rick Scott, viajou ao Brasil neste ano em uma missão comercial.


Agora, Orlando está tentando atrair os brasileiros, que preferem os shoppings da cidade a seus parques temáticos. A Pegasus Transportation opera visitas regulares a shoppings, levando milhares de brasileiros a eles. O outlet da grife de moda Tommy Hilfiger e a loja de eletrônicos H.H. Gregg abrem cedo apenas para eles.

“Eles estão comprando tudo o que é imaginável”, disse Claudia Menezes, vice-presidente da Pegasus. “Laptops, câmeras, roupas de grife –muito Prada e Louis Vuitton.”

O gosto por gastar é o principal motivo para a batalha dos vistos estar começando a repercutir no Capitólio.

Há apenas quatro consulados americanos no Brasil, um país quase do mesmo tamanho dos Estados Unidos. Para obter um visto, muitos brasileiros precisam viajar longas distâncias para ser entrevistados no consulado. Apesar do processo oneroso, foram feitos 820 mil pedidos de visto neste ano, com uma média de espera de 50 dias –tempo demais, dizem autoridades de turismo.

Os lobistas estão pressionando o Congresso e o Departamento de Estado para mudar o processo. Caso isso não seja possível, eles pedem por mais consulados e um programa que possibilite a seleção dos requerentes de visto por meio de videoconferência. Sete projetos de lei estão tramitando no Congresso a respeito da questão do visto.

Enquanto isso, dizem as autoridades de turismo, a Europa atrai um grande número de brasileiros porque viajar para lá é muito mais fácil. A Europa Ocidental recebe 52% de todos os brasileiros que viajam ao exterior e os Estados Unidos recebem 29%.

“Seria possível dobrar o número de brasileiros nos Estados Unidos” se o visto não fosse necessário, disse Patricia Rojas, vice-presidente da Associação de Turismo dos Estados Unidos. “Nós estamos em grande desvantagem.”

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Entrevista - Gérard Duménil

 ''O mundo já ingressou na segunda fase da crise''

O economista francês Gérard Duménil é autor de vários livros e ensaios sobre o capitalismo contemporâneo. Este ano publicou, em parceria com Dominique Lévy, o livro The crisis of neoliberalism (Harvard University Press, 2011). Duménil esteve na Unicamp para uma palestra sobre a crise atual no Centro de Estudos Marxistas (Cemarx) no âmbito do programa de pós-graduação em ciência política do Instituto de Filosofia e Ciências  Humanas (IFCH) da Unicamp. Na ocasião, concedeu a entrevista que segue ao cientista político Armando Boito Júnior, professor titular do IFCH, publicada pelo jornal da Unicamp, 12 a 18 de dezembro de 2011.

Fonte: UNISINOS

Você vem pesquisando o capitalismo neoliberal há muito tempo. Na sua análise, como se deve caracterizar essa etapa atual do capitalismo?

O neoliberalismo é a nova etapa na qual ingressou o capitalismo com a transição dos anos 70 e 80. Eu e Dominique Lévy falamos de uma nova “ordem social”. Com essa expressão nós designamos a configuração de poderes relativos de classes sociais, dominações e compromissos. O neoliberalismo se caracteriza, desse modo, pelo reforço do poder das classes capitalistas em aliança com a classe dos gerentes (classe des cadres) – sobretudo as cúpulas das hierarquias e dos setores financeiros.

No decorrer dos decênios posteriores à Segunda Guerra Mundial, as classes capitalistas viram o seu poder e suas rendas diminuírem sensivelmente na maior parte dos países. Simplificando, nós poderíamos falar numa ordem “social-democrata”. As circunstâncias criadas pela crise de 1929, a Segunda Guerra Mundial e a força internacional do movimento operário tinham conduzido ao estabelecimento dessa ordem social relativamente favorável ao desenvolvimento econômico e à melhoria das condições de vida das classes populares – operários e empregados subalternos. O termo “social-democrata” para caracterizar essa ordem social se aplicava, evidentemente, melhor à Europa que aos Estados Unidos.

Com o estabelecimento da nova ordem social neoliberal, o funcionamento do capitalismo foi radicalmente transformado: uma nova disciplina foi imposta aos trabalhadores, em matéria de condições de trabalho, poder de compra, proteção social etc., além da desregulamentação (notadamente financeira), abertura das fronteiras comerciais e a livre mobilidade dos capitais no plano internacional – liberdade de investir no exterior. Esses dois últimos aspectos colocaram todos os trabalhadores do mundo numa situação de concorrência, quaisquer que sejam os níveis de salário comparativos nos diferentes países.

No plano das relações internacionais, os primeiros decênios do pós-guerra, ainda na antiga ordem “social democrata”, foram marcados por práticas imperialistas dos países dos países centrais: no plano econômico, pressão sobre os preços das matérias-primas e exportação de capitais; no plano político, corrupção, subversão e guerra. Com a chegada do neoliberalismo, as formas imperialistas foram renovadas. É difícil julgar em termos de intensidade, fazer comparação. Em termos econômicos, a explosão dos investimentos diretos no estrangeiro na década de 1990 certamente multiplicou o fluxo de lucros extraído dos países periféricos pelas classes capitalistas do centro. O fato de os países da periferia desejarem receber esses investimentos não muda nada a natureza imperialista dessas práticas – sabe-se que todos os trabalhadores “desejam” ser explorados a ficar desempregados.

Quando em meados dos anos 90, nós introduzimos essa interpretação do neoliberalismo em termos de classe, ela suscitou pouco interesse. Mas a explosão das desigualdades sociais deu a essa interpretação a força da evidência. A particularidade da análise marxista é a referência às classes mais que a grupos sociais. Esse caráter de classe está inscrito em todas as práticas neoliberais e inclusive os keynesianos de esquerda se exprimem, agora, nesses termos. Uma recusa a essa interpretação, no entanto, ainda se mantém; muitos não aceitam o papel importante que atribuímos aos gerentes (cadres) na ordem social neoliberal.

Entre os marxistas, continua-se a recusar que o controle dos meios de produção no capitalismo moderno é assegurado conjuntamente pelas classes capitalistas e pela classe dos gerentes (classe de cadres), o que faz dessa última uma segunda componente das classes superiores. Essa recusa é ainda mais desconcertante quando se tem em mente que as rendas das categorias superiores dos gerentes (cadres) no neoliberalismo explodiram ainda mais que as rendas dos capitalistas.

Para alguns autores, o neoliberalismo foi um ajuste inevitável provocado pela crise fiscal do Estado; para outros foi o resultado, também inevitável, da globalização.

A explicação do neoliberalismo pela “crise fiscal” e frequentemente também pela inflação é a explicação da direita; é uma defesa dos interesses capitalistas. Ela especula com as inconsequências dos blocos políticos que dirigiam a ordem social do pós-guerra. Esses foram incapazes de gerir a crise dos anos 70 e preparam a cama para o neoliberalismo. Passa-se o mesmo com a explicação que apresenta o neoliberalismo como consequência da globalização. Esse argumento inverte as causalidades. O que o neoliberalismo faz é orientar a globalização, uma tendência antiga, para novas direções e acelerar o seu curso, abrindo a via para a “globalização neoliberal”. O movimento altermundialista lutou por uma outra globalização, solidária, e não baseada na exploração em proveito de uma minoria.

Você acaba de publicar, juntamente com o seu colega Dominique Lévy, um livro sobre a crise econômica atual. Na sua avaliação, qual é a natureza dessa crise?

A crise atual é uma das quatro grandes crises – crises estruturais – que o capitalismo atravessou desde o final do século XIX: a crise da década de 1890, a crise de 1929, a crise da década de 1970 e a crise atual – iniciada em 2007/2008. Essas crises são episódios de perturbação de uma duração de cerca de uma dezena de anos (para as três primeiras). Elas ocorrem com uma periodicidade de cerca de 40 anos e separam as ordens sociais que evoquei na resposta à primeira pergunta. A primeira e a terceira dessas crises, as das décadas de 1890 e de 1970, seguiram-se a fases de queda da taxa de lucro e podem ser designadas como crises de rentabilidade. As duas outras crises, a de 1929 e a atual, nós as designamos como “crises de hegemonia financeira”. São grandes explosões que ocorrem na sequência de práticas das classes superiores visando ao aumento de suas rendas e de seus poderes. Todos os procedimentos do neoliberalismo estão aqui em ação: desregulamentação financeira e globalização. O primeiro aspecto é evidente, mas a globalização foi também, como vou indicar, um fator chave da crise atual.

Queda da taxa de lucro e explosão descontrolada das práticas das classes capitalistas são dois grandes tipos de explicação das grandes crises na obra de Marx. O primeiro tipo é bem conhecido. No Livro III de O Capital, Marx defende a tese da existência de uma “tendência decrescente da taxa de lucro” inerente ao caráter da mudança tecnológica no capitalismo (a dificuldade de aumentar a produtividade do trabalho sem realizar investimentos muito custosos, o que Marx descreve como a “elevação da composição orgânica do capital”).

Note-se que Marx refuta explicitamente a imputação da queda da taxa de lucro ao aumento da concorrência. (O segundo grande tipo de explicação para as crises já aparece em esboço nos escritos de Marx da década de 1840.) No Manifesto do Partido Comunista, Marx descreve as classes capitalistas como aprendizes de feiticeiros, desenvolvendo mecanismos capitalistas sob formas e em graus perigosos e perdendo, finalmente, o controle sobre as consequências de sua ação. Os aspectos financeiros da crise atual remetem diretamente às análises do “capital fictício”, aos quais Marx consagrou longos desenvolvimentos no Livro II de O Capital, desenvolvimentos que ecoam as ideias do Manifesto. De uma maneira bem estranha, alguns marxistas só aceitam a explicação das grandes crises pela queda da rentabilidade, excluindo qualquer outra explicação, e passam a multiplicar cálculos mal fundamentados.

Mas a crise atual não é uma simples crise financeira. É a crise de uma ordem social insustentável, o neoliberalismo. Essa crise, no centro do sistema, deveria acontecer, de qualquer modo, um dia ou outro, mas ele chegou de uma maneira bem particular em 2007/2008, vinda dos Estados Unidos. Dois tipos de mecanismos convergiram. Encontramos, de uma parte, a fragilidade induzida em todos os países neoliberais pelas práticas de financeirização e de globalização (notadamente financeira), motivada pela busca desenfreada de rendimentos crescentes por parte das classes superiores, reforçada pela recusa de regulamentação. O banco central dos EUA, em particular, perdeu o controle das taxas de juros e a capacidade de conduzir políticas macroeconômicas em decorrência da globalização financeira. De outra parte, a crise foi o efeito da trajetória econômica estadunidense, uma trajetória de desequilíbrios cumulativos, que os EUA puderam manter devido à sua hegemonia internacional – contrariamente à Europa que, considerada no seu conjunto, não conheceu tais desequilíbrios.

Desde 1980, o ritmo da acumulação de capital nos Estados Unidos desacelerou no território do próprio país enquanto cresciam os investimentos diretos no exterior. A isso é necessário acrescentar: um déficit crescente do comércio exterior, uma grande elevação do consumo (da parte das camadas mais favorecidas) e um endividamento igualmente crescente das famílias. O déficit de comércio exterior (o excesso de importações frente às exportações) alimentava um fluxo de dólares para o resto do mundo que tinha como única utilização a compra de títulos estadunidenses, levando ao financiamento da economia daquele país pelos estrangeiros – uma “dívida” vis-à-vis o estrangeiro, simplificando um pouco.

Por razões econômicas que eu não explicarei aqui, o crescimento dessa dívida exterior devia ser compensado por aquele da dívida interna, a das famílias e a do Estado, a fim de sustentar a atividade no território do país. Isso foi feito encorajando o endividamento das famílias pela política de crédito e pela desregulamentação – a dívida do governo teria podido substituir o endividamento das famílias mas isso ia contra as práticas neoliberais de antes da crise. Os credores das famílias (bancos e outros) não conservavam os créditos criados, mas os revendiam sob a forma de títulos (obrigações), cuja metade, mais ou menos, foi comprada pelo resto do mundo.

De tanto emprestar às famílias para além da capacidade delas saldarem as dívidas, as inadimplências se multiplicaram desde o início do ano de 2006. A desvalorização desses créditos desestabilizou o frágil edifício financeiro, nos EUA e no mundo, sem que o banco central dos Estados Unidos estivesse em condição de restabelecer os equilíbrios no contexto de desregulamentação e de globalização que ele próprio tinha favorecido. Esse foi o fator desencadeador, mas não o fundamental, da crise – combinação de fatores financeiros (a loucura neoliberal nesse domínio) e reais (a globalização, o sobre-consumo estadunidense e o déficit do comércio exterior desse país).

Você falou em suas palestras no Brasil que a crise econômica teria entrado numa segunda fase. Como a crise vem se desenvolvendo?

O mundo já ingressou na segunda fase da crise. É fácil compreender as razões. A primeira fase atingiu o pico no outono de 2008, quando caíram as grandes instituições financeiras estadunidenses, quando começou a recessão e quando a crise se propagou para o resto do mundo. As lições da crise de 1929 foram bem aprendidas. Os bancos centrais intervieram massivamente para sustentar as instituições financeiras (com medo de uma repetição da crise bancária de 1932) e os déficits orçamentários dos Estados atingiram níveis excepcionais. Mas essas medidas keynesianas, estimulando a demanda, só podiam ter por efeito uma sustentação temporária da atividade. Os governos dos países do centro ainda não tomaram consciência do caráter estrutural da crise. Eles agem como se a crise tivesse sido puramente financeira, já ultrapassada; entretanto, as medidas keynesianas só criaram um sursis. Nenhuma medida antineoliberal séria foi tomada nos países do centro. São apenas políticas que visam o reforço da exploração das classes populares.

Nos Estados Unidos, a administração de Barak Obama elaborou uma lei, a lei Dodd-Frank, para regulamentar as práticas financeiras, mas os republicanos bloquearam completamente a aplicação. Em outras esferas, como gestão das empresas, exportação, déficits do comércio exterior, nada foi feito. Na Europa, a crise não é identificada como a crise do neoliberalismo. A Alemanha é apresentada como tendo provado a sustentabilidade do caminho neoliberal. A crise é imputada à incapacidade de gestão de certos Estados, notadamente a Grécia e Portugal.

Em toda parte, a direita retomou a ofensiva. Ela se atém à questão dos déficits orçamentários e da elevação da dívida pública. Ela finge não ver que a austeridade orçamentária, além da transferência, que a felicita, do peso da dívida para as classes populares, não pode senão provocar a recaída numa nova contração da atividade. Essa é a segunda fase da crise. Essa segunda fase não será a última. O novo mergulho na recessão necessitará novas políticas. Contrariamente à Europa, os Estados Unidos se lançaram massivamente no financiamento direto da dívida pública pelo banco central (o quantitative easing). Muito mais coisa será necessária, apesar da direita. Nós temos dificuldade em ver como a Europa poderá escapar disso.

É sabido que a crise econômica atingiu mais fortemente, pelo menos até agora, os EUA e a Europa. Na década de 1990, ao contrário, as crises econômicas foram mais fortes na periferia. Por que essa diferença? Como a crise atual se manifesta nas diferentes regiões do globo?

Até a segunda metade da década de 1990, o neoliberalismo produziu estragos no mundo, notadamente na América Latina e na Ásia. Mesmo hoje, as taxas de crescimento na América Latina permanecem inferiores àquelas dos primeiros decênios do pós-Segunda Guerra Mundial, e isso a despeito da redução massiva dos salários reais – que foi reduzido à metade desde a crise de 1970 em alguns países da região. Na década de 1990 – e em 2001 na Argentina – os avanços do neoliberalismo provocaram grandes crises, das quais a crise argentina é um caso emblemático.

O mundo entrou, agora, numa fase nova. A transição para o neoliberalismo provoca um tipo de “divórcio”, nos países do centro, entre os interesses das classes superiores e os do país como território econômico. O caso dos Estados Unidos é espetacular. Como eu disse, as grandes empresas desse país investem cada vez menos no território do país e, cada vez mais, no resto do mundo. A globalização levou a um deslocamento da localização da produção industrial para as periferias: na Ásia, na América Latina e, inclusive, em alguns países da África sub-saariana.

As políticas propostas pelos dois grandes da União Europeia para superar a crise têm repetido as fórmulas neoliberais. Os mercados intimidam os governos; Sarkozy e Merkel exigem mais e mais cortes orçamentários. Por que insistem em uma política que, para muitos observadores, está na origem da crise? Que resultado a aplicação de tais políticas poderá produzir?

Eu não penso de jeito nenhum que o rigor orçamentário tenha sido uma das causas da crise. Isso é a expressão de uma crença keynesiana ingênua, tão ingênua quanto à crença na capacidade dessas políticas de suscitar a saída da crise, dispensando as necessárias transformações antineoliberais. Porém, nesse contexto, as políticas que visam erradicar os déficits não deixarão de provocar uma nova queda da produção.

Muitos analistas têm destacado que os partidos, sejam eles de direita ou de esquerda, não se diferenciam muito nas propostas para enfrentar a crise. Ademais, em vários países europeus, como a Inglaterra, a Espanha e Portugal, a direita foi eleitoralmente favorecida pela crise econômica. Os movimentos sociais poderiam construir uma alternativa de poder? Qual poderia ser um programa popular para enfrentar a crise atual?

Nós não falamos dos aspectos políticos do neoliberalismo. A aliança na cúpula das hierarquias sociais entre classes capitalistas e classes dos gerentes (classes de cadres) logrou, por diversos mecanismos, afastar as classes populares da política “politiqueira”. Quero dizer: as afastou dos jogos dos partidos e dos grupos de pressão. Para as classes populares, só restou a (luta de) rua.

É preciso fazer entrar em cena grupos sociais que se encontram na “periferia” das classes dos gerentes (classes de cadres): os intelectuais e os políticos profissionais. No compromisso social dos pós-Segunda Guerra, frações relativamente importantes desses grupos eram partidárias da aliança com as classes populares (às quais elas não pertenciam), que elas apoiavam nos seus campos próprios de atuação. No contexto do colapso do movimento operário mundial, as classes capitalistas lograram, no neoliberalismo, a selar uma aliança com as classes dos gerentes – usando o recurso da remuneração, notadamente – conduzindo gradualmente esses grupos periféricos (a universidade fornece muitas ilustrações sobre esse fenômeno) no empreendimento de conquista social do neoliberalismo. A proporção de grupos sociais motivados para uma aliança com as classes populares estreitou-se consideravelmente, ficando reduzida a alguns grupos “iluminados” aos quais eu próprio pertenço.

O sofrimento das classes populares não chega ao grupo dos gerentes e, no plano político, não há mais nenhum grande partido de esquerda. Na França, sabe-se no que se tornou o Partido Socialista, completamente ganho pela “globalização”, um termo para ocultar o neoliberalismo. Algo semelhante poderíamos dizer dos democratas nos Estados Unidos e eu deixo para vocês mesmos julgarem a situação do Brasil a esse respeito.

A vida política – politiqueira – se reduz à alternância entre dois partidos não equivalentes; mas o partido que se diz de esquerda é incapaz de propor uma alternativa, para não falar da sua implementação. O voto se reduz àquilo que nós chamamos na França o “voto sanção”. A direita sucede a esquerda na Espanha, por exemplo, porque a esquerda estava no poder durante a crise; a direita não tem, evidentemente, nenhuma capacidade superior para gerir a crise.

Muitos observadores têm falado da possibilidade de extinção do euro. Você acredita que isso poderá ocorrer? Na sua avaliação, quais seriam os desfechos mais prováveis para a crise atual?

É possível que alguns países saiam da zona do euro. Isso não resolveria o problema da dívida deles, que se tornaria ainda impagável depois da desvalorização da nova moeda substituta do euro. O problema é o do cancelamento da dívida ou de sua adoção pelo banco central. A crise da dívida atingiu agora os países do centro da Europa, e será necessário que esses países tomem consciência da amplitude e da verdadeira natureza do problema.

Isso remete às características daquilo que nós chamamos a “terceira fase da crise”. Quais políticas serão adotadas face à nova recessão? Como será gerida a crise na Itália e, depois, na França? Como a Alemanha responderá à pressão dos “mercados” (as instituições financeiras internacionais)? Uma coisa é certa: essas dívidas não devem ser pagas, o que exige a transferência delas para fora dos bancos ou uma forte intervenção na sua gestão.

Agora, o ponto fundamental é a vontade dos governos dos países mais poderosos da Europa, notadamente a Alemanha, de reforçar a integração europeia (em vez de estourar a zona do euro), que se opõe à vontade de “desglobalização” de alguns. Esse debate oculta a questão central: qual Europa? Uma Europa das classes superiores ou a de um novo compromisso de esquerda?

Entrevista - Reinaldo Gonçalves

Os rumos do capitalismo global: locomotivas voltam para os trilhos, vagões descarrilam. Crises econômicas têm quatro manifestações distintas: real, financeira, fiscal e cambial. No médio prazo os EUA e países desenvolvidos da Europa devem sair da crise. Já o Brasil será atingido se não houver mudanças significativas na estratégia e política econômicas

Por: Graziela Wolfart e Márcia Junges
Fonte: UNISINOS

Economista Reinaldo Gonçalves, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Gonçalves é formado em Economia/UFRJ, Mestre em Economia/FGV-RJ e Doutor em Letters and Social Sciences pela University of Reading/Inglaterra. Atualmente leciona na UFRJ. É autor de Economia internacional. Teoria e experiência brasileira (Rio de Janeiro: Elsevier, 2004) e Economia política internacional. Fundamentos teóricos e as relações internacionais do Brasil (Rio de Janeiro: Elsevier, 2005). Publicou também com Luís Filgueiras, o livro A economia política do governo Lula (Rio de Janeiro: Contraponto, 2007).

IHU On-Line – Quais são as perspectivas para o Brasil frente a crise econômica?

Reinaldo Gonçalves – Há risco crescente de que o número de países atingidos por crises econômicas aumente. No entanto, o cenário mais provável é que os Estados Unidos e os principais países desenvolvidos da Europa saiam da crise atual no médio prazo. O Brasil, porém, tende a ser atingido pela crise se não ocorrerem mudanças significativas na estratégia e na política econômicas. Assim, o cenário atual parece indicar que as locomotivas voltarão para os trilhos e o vagão de terceira classe descarrilará mais uma vez.

IHU On-Line – Por que ocorrem essas crises no capitalismo reiteradamente? Isso aponta para o esgotamento desse sistema?

Reinaldo Gonçalves – Crise é a irmã mais nova da instabilidade. Ela é filha natural do capitalismo. Instabilidade, no capitalismo, significa alternância de situações de prosperidade e crise. Os economistas chamam de fases esses fenômenos – ascendentes e descendentea – do ciclo econômico. Na fase descendente, surge a crise econômica, que é a perda ou risco crescente de perda de renda e bem-estar por parte de parcela expressiva da sociedade. Crise, portanto, é fase difícil ou grave da evolução dos processos, estruturas e relações econômicas.

Há crise real quando o processo de geração de renda e emprego apresenta significativa desaceleração ou retrocesso (recessão). Há crise financeira quando as estruturas de financiamento de indivíduos e empresas são rompidas ou não funcionam de modo adequado. Isto é, ocorrem problemas graves nos bancos e mercado de capitais. Há crise fiscal quando o governo tem dificuldade para expandir a dívida pública (mercado de títulos públicos). Há crise cambial ou de contas externas quando relações comerciais e financeiras com outros países são restringidas, o que impede a geração de renda no país e o financiamento dos gastos no exterior.

Crises no capitalismo também ocorrem porque a ânsia de riqueza e renda (fenômeno também chamado de “espírito animal” do capitalista) gera variações extraordinárias de preços de bens (petróleo e outros), moedas (dólar, euro, etc.) e ativos financeiros (ações e outros) e reais (exemplo, imóveis). O aumento extraordinário de preços é conhecido como formação de “bolhas”. O resultado da especulação é que as “bolhas” explodem quando há reversão de expectativas e, nesse momento, há eclosão de crise. Riquezas desaparecem de um dia para outro. Os que perderam riqueza contraem seus gastos, os endividados quebram, os trabalhadores são demitidos e o lucro do capitalista desaparece.

IHU On-Line – Quais são os motivos que levaram a essa crise econômica internacional? Em termos gerais, o que causa as crises dessa natureza?

Reinaldo Gonçalves – A principal causa da atual crise econômica internacional é a ruptura do sistema de financiamento de imóveis nos Estados Unidos em 2007 e 2008. Nesse país houve ampla oferta de financiamento para a compra de imóveis, inclusive para aqueles sem poupança ou renda adequadas (crédito subprime, ou grande risco de crédito). A onda de inadimplência – calote – levou à queda dos preços dos imóveis (38% entre junho de 2006 e junho de 2011) e à quebra de parte do sistema financeiro da maior economia do mundo em 2008 e 2009.

Entretanto, crises econômicas também são causadas por erros de política de governo que, em geral, atendem grupos de interesses capitalistas. Houve avanço significativo de liberalização e desregulamentação financeira mundial nas duas últimas décadas. Esse processo implicou crescimento extraordinário dos fluxos internacionais de capitais, e isso interconectou os diversos sistemas financeiros nacionais. Com essa interdependência, problemas graves em um país importante como os Estados Unidos são transmitidos para o resto do mundo. Portanto, vários governos erraram quando tomaram decisões que promoveram essa liberalização financeira internacional.

Governos também erram quando estimulam uma expansão extraordinária do crédito e, portanto, do endividamento de indivíduos e empresas. Ou quando elevam a dívida pública para níveis insustentáveis. Ou ainda quando deixam em níveis inadequados, por muito tempo, variáveis macroeconômicas fundamentais, como taxa de juro e taxa de câmbio. Os governos dos Estados Unidos, de países da Europa e do Brasil cometeram esses erros nos últimos anos – se não todos, ao menos alguns.

Evidentemente, há outras causas de crises econômicas que não são próprias do capitalismo. É o caso dos desastres naturais. Quebras de produção agrícola, terremotos, maremotos e guerras ocorrem em qualquer sistema econômico. Para ilustrar, basta lembrar que o Japão deve sofrer queda de renda em decorrência do terremoto e do tsunami ocorridos em março de 2011.

IHU On-Line – Há diferentes tipos de crises econômicas? Quais são suas características?

Reinaldo Gonçalves – Crises econômicas têm quatro manifestações distintas: real, financeira, fiscal e cambial. A grande maioria das crises capitalistas são crises reais, ou seja, resultam da volatilidade do comportamento dos capitalistas quanto às decisões de investimento produtivo. Há crise real quando a redução dos investimentos trava a geração de renda e emprego. Também há a crise financeira, como a que aconteceu nos Estados Unidos em 2008 e resultou da quebra do mercado subprime de imóveis. A crise financeira gerou crise real: a taxa de desemprego praticamente dobrou nos últimos cinco anos naquele país, e está previsto fraco desempenho econômico em 2011 e 2012.

A crise fiscal se manifesta quando o governo tem dificuldade para financiar seus gastos, em função do elevado nível de endividamento público, entre outros fatores. A crise atual na Europa é marcada pela grande dificuldade que governos de países como Grécia, Portugal e Irlanda enfrentam para pagar sua dívida pública e obter novos empréstimos. Em geral, a crise fiscal é precedida por crescimento extraordinário dos gastos públicos, seja para financiar infraestrutura (como as obras das Olimpíadas em Atenas, na Grécia, em 2004), seja para enfrentar crises financeiras e crises reais (o que ocorreu a partir de 2008).

Os países em desenvolvimento sofrem, em particular, crise cambial. Nesse caso, ocorre o problema de dificuldade de obtenção de financiamento externo, que provoca elevação extraordinária da taxa de câmbio (desvalorizando a moeda nacional). Isso ocorreu no Brasil no segundo semestre de 2008, logo após a eclosão da crise financeira nos Estados Unidos: a taxa de câmbio (valor do dólar) saltou de R$ 1,70 em julho para mais de R$ 2,50 em dezembro. Em consequência, grandes empresas (Sadia e Aracruz) e bancos (Unibanco e Votorantim) tiveram sérios problemas, que resultaram em fusões e aquisições. As crises cambial e financeira provocaram crise real, visto que a renda per capita brasileira caiu 1,8% em 2009.

Nos países desenvolvidos, a situação atual é de séria crise econômica. Na Europa, há desaceleração do crescimento da renda e, portanto, risco de crise real ainda maior no futuro próximo. Os índices de desemprego estão muito elevados em inúmeros países. Há séria crise fiscal com altos níveis de endividamento público. Há ainda riscos quanto à saúde do sistema financeiro: os bancos estão muitos expostos, porque emprestaram muito para indivíduos, empresas e governos que agora estão com dificuldades para saldar seus compromissos.

Crise real

Nos Estados Unidos, há crise real com forte perda de confiança e, portanto, expectativas desfavoráveis que comprometem o investimento privado e a geração de emprego. Também se prevê desaceleração do crescimento econômico naquele país. Há ainda problemas remanescentes da crise do subprime hipotecário, pois as dívidas de hipotecas imobiliárias que foram renegociadas ainda podem se transformar em calote. E as dificuldades do governo em relação ao endividamento público têm sido crescentes. Portanto, Estados Unidos e Europa combinam elementos de crise real, financeira e fiscal. O Japão, por sua vez, é o país desenvolvido com maior nível relativo de endividamento público.

Nos países emergentes, a situação é bastante diferente, embora existam fatores comuns, como os riscos decorrentes da desaceleração do comércio internacional e da volatilidade dos fluxos financeiros internacionais. Países como a China, de um lado, protegem-se com elevados níveis de competitividade internacional e baixa dependência em relação a recursos financeiros externos. De outro lado, no Brasil esses riscos são particularmente elevados, porque o país depende significativamente da exportação de produtos básicos (minério de ferro, carne, soja e outros) e da captação de recursos externos para sustentar seu crescente e elevado déficit nas contas externas (as transações comerciais, de serviços e financeiras com os outros países). Ou seja, as despesas do Brasil em moedas estrangeiras são maiores do que as suas receitas. Em 2010 o país precisou captar 48 bilhões de dólares para fechar suas contas externas. Em 2011 este “buraco” pode superar 55 bilhões. Portanto, há crescente risco de crise cambial, que tende a causar crises financeira, real e fiscal.

IHU On-Line – Qual é o cenário mais provável a médio prazo para os Estados Unidos e a Europa? Que meios de superação estão sendo pensados?

Reinaldo Gonçalves – Se, por um lado, é certo que instabilidade e crise são próprias ao capitalismo, também é verdadeiro que esse sistema econômico desenvolveu mecanismos para superar crises. Por esta e outras razões, o capitalismo, marcado por desperdício, injustiça e instabilidade, sobrevive e avança há séculos. Nos últimos três anos, os principais países desenvolvidos perderam graus de liberdade na aplicação de políticas macroeconômicas convencionais (redução de juros e aumento de gastos públicos). Entretanto, esses países dispõem de pelo menos quatro instrumentos de grande impacto na economia: progresso técnico, competitividade internacional, distribuição de renda e guerra. Portanto, pode-se prever, de modo otimista, que os principais países capitalistas retomarão a fase ascendente em médio prazo (de dois a três anos). Este argumento aplica-se às principais economias capitalistas do mundo (EUA, Alemanha, França e Japão). É bem verdade que economias pouco importantes (Grécia, Portugal, etc.) continuarão em crise.

O progresso técnico implica aumento de produtividade e lançamento de novos produtos, que elevam a massa de lucros. Há, então, estímulo para os investimentos dos capitalistas. A competitividade internacional permite vender mais produtos no mercado internacional. A guerra impulsiona os gastos bélicos e, portanto, a geração de renda e emprego, além de estimular o progresso tecnológico. Nesse sentido, Afeganistão, Iraque e Líbia são oportunidades extraordinárias, além de outras que podem ser criadas (Paquistão, Irã, Síria, etc.). E o processo de distribuição de riqueza e renda gera ampliação do consumo dos trabalhadores. Entretanto, é pouco provável que ocorra este processo no horizonte previsível. Muito pelo contrário, parte expressiva do ajuste frente às crises deve recair sobre os grupos de menor renda.

Países em desenvolvimento, como o Brasil, em geral não dispõem desses instrumentos. A exceção é a distribuição de renda com base em políticas assistencialistas, benefícios da previdência e salário mínimo, que levam a aumento do consumo. O Brasil, além disso, apresenta crescente déficit nas contas externas e elevado passivo externo (o montante aplicado no país por estrangeiros é quatro vezes maior que as reservas internacionais brasileiras). Portanto, o país está preso a uma trajetória de crescente risco de crise cambial que, invariavelmente, resulta em crises real, financeira e fiscal.

Em síntese, o cenário mais provável no médio prazo é, de um lado, os Estados Unidos e países europeus importantes saírem da crise. De outro, se não houver mudanças significativas de estratégias e política, o Brasil, país marcado por enormes fragilidades e vulnerabilidades, tende a sofrer crise cambial e afundar em crises de todos os tipos. As locomotivas voltam para os trilhos e o vagão de 3ª classe descarrila mais uma vez.

domingo, 23 de outubro de 2011

Entrevista - Paulo Nogueira Batista Jr


'Ortodoxo', Nogueira Batista defende disciplina fiscal
A entrevista com Paulo Nogueira Batista Jr é de Assis Moreira, e foi publicada pelo jornal Valor, 18-10-2011.
Fonte: UNISINOS

Dá para escapar de nova recessão global?

O quadro hoje nos países desenvolvidos é de recessão, estagnação ou crescimento muito lento, com desemprego alto. E nos emergentes há uma desaceleração do crescimento, mesmo na China. Uma nova recessão mundial é possível, mas não é inevitável.

A China caminha para aterrissagem forçada?

Há um risco. Mas há 20 anos que escuto falar de risco de aterrissagem forçada da China e não aconteceu. Há vulnerabilidades na China, sim, no sistema financeiro e parece haver bolhas importantes nos mercados imobiliários. Mas o que está aparecendo são sinais de uma certa desaceleração. E como há inflação mais alta do que havia há dois, três anos, é difícil imaginar que a China possa responder à desaceleração interna e mundial com um impulso tão forte como o que ela deu em 2008 como parte da reação à crise global. A China está numa posição forte e, comparado a países desenvolvidos, então, nem se fala. Mas também tem menos munição do que tinha em 2008-2009. A escassez da munição é muito mais nítida na Europa, nos EUA, mas também se nota no caso da China. O impacto [para o Brasil] depende do tipo e da extensão do problema chinês. Se for desaceleração muito forte, vai afetar commodities. A China é nosso maior parceiro comercial e nossas exportações são sobretudo de commodities.

O cenário se deteriora, mas o Ministério da Fazenda projeta crescimento maior, de 5% em 2012, no Brasil. Quais ajustes são necessários para isso?

É importante que o Brasil tenha uma competitividade internacional mais forte. É bem vinda uma certa depreciação cambial, que começou a ocorrer com essa turbulência, desde que não seja muito rápida. A competição entre os países no mercado internacional vai se intensificar com o agravamento da situação mundial e vamos precisar de mecanismos eficazes de defesa contra concorrência desleal e subsídios abusivos. O Brasil já está caminhando nessa direção.

E no plano macro?

No plano macro, é importante o Brasil mudar sua 'policy mix', reduzir gradualmente a taxa de juro que vai ajudar inclusive as finanças públicas e o câmbio, empurrar o câmbio no sentido de uma certa depreciação. Mas, para que isso seja viável, é importante manter uma política fiscal muito disciplinada. Muitas vezes se diz no Brasil e em outros lugares que ajuste fiscal é politica ortodoxa. Pode ser, quem quiser use esse adjetivo. Mas é importante que se entenda que a única forma de o Estado nacional ficar independente dos mercados é controlando seu déficit e sua dívida.

Isso é o que diz François Hollande, o candidato socialista a presidência da França, que é chamado de "esquerda mole".

Ah, é? Eu não sabia. Mas é a grande realidade. Se o Estado nacional tiver déficit alto, dívida alta, cai nas mãos dos mercados. É indispensável que o Estado tenha controle de suas contas para ter raio de manobra, para fazer políticas sociais, distributivas, de investimento e desenvolvimento. Se quiserem chamar isso de ortodoxo, chamem, mas o importante é isso. O que não é bom no Brasil é essa combinação de câmbio valorizado e juro alto. Isso deprime a atividade, reduz a competitividade da economia, onera as contas públicas, aumenta o déficit. Se conseguirmos caminhar na direção, como já estamos, de juros mais próximos da média mundial, política fiscal forte, com câmbio um pouco mais depreciado e políticas de defesa comercial e de competitividade internacional, o Brasil pode, sim, continuar crescendo apesar do cenário internacional difícil.

A guerra cambial pode se agravar?

Estamos em plena guerra cambial. Você mora na Suíça, não? Se há seis meses alguém falasse que a Suíça adotaria teto para câmbio com o euro, ninguém acreditaria. Em todos os períodos de grande dificuldade econômica, desemprego alto, a tendência é aumentar a guerra cambial e a comercial. Estamos vivendo os dois fenômenos. Por isso é importante o Brasil ter política cambial competitiva e mecanismos de promoção da competição internacional do país.

O câmbio chegou a R$ 1,95 e voltou a R$ 1,75. É um nível bom?

Não acho que se possa fixar meta para taxa de câmbio. Apenas se você observar o que aconteceu nos anos recentes, o real foi das moedas que mais se valorizou. Isso não foi bom para o Brasil. Só não se valorizou mais porque o Banco Central e o Ministério da Fazenda atuaram várias vezes para conter essa valorização, que mesmo assim continuou. E só agora, com a intensificação da crise na área do euro, houve reversão parcial.

Essa reversão pode continuar?

Se houver uma tranquilização da situação na Europa, com uma cúpula europeia de 23 de outubro e a cúpula do G-20 de Cannes muito bem sucedidas, o cenário mais provável é de volta ao quadro anterior, em que o Brasil vai estar sofrendo de excesso de liquidez. Por quê? Porque todos os principais bancos centrais, inclusive o Banco Central Europeu, estão com políticas monetárias super expansionistas, provendo liquidez abundantemente, com taxas de juros muito baixas, negativas em termos reais. Se a crise aguda for debelada, provavelmente voltará o cenário de o real ser uma moeda atraente. Daí porque é importante uma redução gradativa do juro e manter política fiscal forte.

A Europa mapeou o que fazer para combater sua crise, mas falta decidir. No caso do sistema financeiro, a tendência é de grande contração dos bancos e do crédito?

Pela avaliação que se tem, muitos bancos europeus precisam reforçar seu capital. Se os bancos resolverem responder a essa necessidade vendendo ativos, isso vai provocar contração do crédito e agravar o movimento recessivo que se desenha na Europa. E como a Europa tem importância ainda grande, embora declinante, haverá repercussão internacional. O que se quer é reforçar o capital e não levar os bancos a reduzir ativos. Se vários bancos simultaneamente reduzirem ativos, o efeito será forte.

Que impacto essa situação dos bancos europeus pode ter no Brasil?

Fatalmente, uma crise na Europa tem efeito em partes do mundo, inclusive no Brasil, e no nosso caso o canal é financeiro. O Brasil tem que estar muito atento, e creio que está, para a situação das filiais de bancos estrangeiros no país, inclusive europeus. As autoridades de supervisão bancária têm que acompanhar muito bem esses bancos e acredito que estejam acompanhando com cuidado. Como a situação é muito tensa no mercado bancário internacional, e especialmente na Europa, isso é básico.

A proposta brasileira de reforçar a capacidade financeira do FMI é contestada agora por desenvolvidos. Qual a chance de a proposta decolar em Cannes?

Essa ideia é defensável porque, num momento de crise grave, se os países mostram capacidade de atuação conjunta, é importante e os recursos podem inclusive nunca precisar ser usados. O Brasil passou por muitas crises e uma conclusão que os brasileiros tiraram foi de que numa crise, especialmente financeira, o governo tem que reagir de maneira além do que se espera para conter a crise. Até agora, os europeus têm feito o contrário. É necessário agir rápido. No caso do FMI, existem USS 400 bilhões [para empréstimos], talvez seja suficiente, mas numa situação tão vulnerável seria mais prudente criar uma linha de defesa adicional.

Os recursos adicionais para o FMI seriam da ordem de centenas de bilhões de dólares?

Sim, mas isso tudo tem que ser avaliado. É prematuro falar [em cifras], mas para ter efeito teria de ser um valor expressivo.

Antonio Delfim Netto

Homem e trabalho

Artigo de Antonio Delfim Netto, economista, em artigo publicado no jornal Valor, 18-10-2011.
Fonte: UNISINOS


Uma das construções mais impressionantes de Marx é a sua leitura do papel do trabalho nos "Manuscritos" de 1844, antes dele ter sido seduzido por Ricardo. O trabalho é o processo pelo qual o homem se produz e projeta fora dele as condições de sua existência e a sua capacidade de transformar o mundo.

A organização social em que vivemos é produto de um processo histórico. O homem, ao construir o mundo com seu trabalho, exerce uma pressão seletiva no sentido de aumentar a sua liberdade de expressão, o que exige cada vez maior eficácia produtiva. Há uma evolução simultânea, civilizatória e quase biológica, que amplia o altruísmo e a solidariedade social, exatamente porque a cooperação é mais "produtiva" e libera mais tempo para a expressão criativa do homem.

No atual estágio evolutivo, a sociedade divide-se entre os que têm capital e "empregam" o trabalho em troca de salário, e os que detêm a força de trabalho e só podem utilizá-la "alugando-a" ao capital, em troca de salário. Com as políticas sociais, o Estado do Bem-Estar transformou (transitoriamente!) o sistema salarial alienante de Marx no símbolo da segurança do trabalho. Ele dá, por sua vez, a garantia para o funcionamento das instituições da nossa organização social, particularmente os mercados e a propriedade privada.

Os economistas precisam incorporar, como disse Mauss ("Sociologie et Anthropologie", 1950), que o trabalho é o "fato global". O desemprego involuntário é o impedimento insuperável do cidadão de incorporar-se à sociedade. Por motivos que independem de sua vontade, ele não pode sustentar honestamente a si e à sua família. O desemprego involuntário é o "mal social global"! Não importam as filosofias ou as ideologias. No presente estágio evolutivo da organização social que o homem continua procurando para fazer florescer plenamente a sua humanidade, é a natureza e a qualidade do seu trabalho que o coloca na sua posição social e econômica, que afeta sua situação física e emocional e que determina o nível do seu bem-estar.

É com esse sentido do papel do trabalho, com o qual o homem se constrói e produz um mundo onde tenta acomodar-se numa estrutura social conveniente, que devemos entender os protestos dos "indignados com Wall Street", que se espalham por todo os EUA. Não se trata de "excluídos" sociais (talvez alguns deles o sejam), mas de cidadãos honestos, educados e que até bem pouco tempo tinham a oportunidade de ganhar a sua vida, sustentar a sua família, educar seus filhos, comprar sua casa, realizar, enfim, o "sonho americano", com o qual os EUA venderam o lago azul ao mundo.

É verdade que alguns deles já estão na terceira geração vivendo à custa dos outros, graças à miopia e inércia de um Estado do Bem-Estar distraído, o que faz a força do "Tea Party". Mas é verdade, também, que a renda média do americano não cresce desde 1996 e que a distribuição de renda tem piorado. Nada disso, entretanto, acendeu o fogo. O agente eficiente foi o nível de desemprego de quase 10% por tempo longo e que parece não ter fim. O agente eficiente foi a proteção ao sistema financeiro a cujos responsáveis o governo protegeu de forma abusiva e entregou a execução das hipotecas, à custa de 25 milhões que perderam a âncora social do emprego organizado.

"Ocupar Wall Street" é menos um protesto contra a economia de mercado e seus problemas, do que o profundo sentimento de injustiça social derivado da incapacidade do governo e do Banco Central, que permitiram, sob seus olhos complacentes, a destruição do emprego e do patrimônio de incautos cidadãos, assaltados livremente por um sistema financeiro desinibido com suas "inovações".

O efeito final desse movimento será medido nas eleições de novembro de 2012. A resposta imediata de Washington deve ser pequena a não ser, talvez, acender o espírito de urgência do Executivo e estimular a resistência dos republicanos para continuar a expô-lo como "responsável" pela crise. Mas o desconforto é enorme. O presidente Obama referiu-se a ele ligeira e quase temerosamente. O secretário do Tesouro Geithner empurrou a culpa para o sistema financeiro, que "aumentou as tarifas bancárias em resposta aos novos controles de Wall Street e aumentou a já existente irritação popular contra ele". E o presidente do Fed, Bernanke, com aquela figura de Papai Noel arrependido, limitou-se a afirmar que "as pessoas estão descontentes com o estado da economia. Elas reprovam - e não sem razão - o setor financeiro pela situação em que nos encontramos e estão descontentes com a resposta das autoridades". Que autoridades? Obama, Geithner e Bernanke!

Quando se trata de entender o verdadeiro papel do trabalho, os economistas do "mainstream" saem mal na foto: tratam-no como um "fator de produção", sujeito às leis da oferta e da procura. Por definição não há desemprego "involuntário". Como disse um economista que viria a ser nobelista, o desemprego em massa é apenas manifestação de "vagabundagem da classe trabalhadora".

Na mais recente versão do "The Palgrave Dictionary on Economics" (2008), não há uma entrada para "trabalho". Ela é dissolvida e desidratada em "disciplina do trabalho" e "economia do trabalho", com ênfase no "capital humano". Trata-se do mesmo artigo da 1ª edição (1987), ao qual se acrescentou o apêndice "As Novas Perspectivas da Economia do Trabalho". Tudo muito pobre, técnico, abstrato e sem história, como se a economia de mercado - codinome do atual capitalismo - estivesse escrito no Big-Bang e destinada a nos acompanhar até o fim dos tempos...

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Valéria Silva

As juventudes, o #contraoaumento e a política dos novos tempos






Valéria Silva é Doutora em Sociologia Política. Professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Arqueologia-PPGAArq-UFPI. Membro do Núcleo de Pesquisa sobre Crianças, Adolescentes e Jovens-NUPEC-UFPI.



Teresina experimenta um momento ímpar, porém, já vivido por outras capitais brasileiras. As manifestações juvenis contra o aumento da passagem do ônibus dos últimos dias têm-se constituído num cenário político particular da vida da cidade, conferindo-lhe rotinas e dinâmicas inéditas. O movimento só encontra similares nos idos dos anos 80 quando os estudantes ocuparam quase as mesmas ruas e praças denunciando a opressão do regime militar.

O movimento pelo transporte poderia ser analisado por vários ângulos, posto que pleno de sentidos sociais, políticos, culturais, econômicos. Aqui priorizo olhá-lo pelo enfoque político,dimensão através da qual os atores implicados mais fortemente se puseram em cena, dando corpo à disputa de interesses variados.

Primeiramente, entendo que as manifestações ocorridas, embora com existência própria e marcadas por especificidades, não podem ser vistas apartadas do Movimento Passe Livre-MPL, há algum tempo, campo de militância de alguns segmentos estudantis do Brasil. Vejo estreita correspondência entre a cultura política consolidada nas manifestações do MPL de Salvador, de Florianópolis e outras capitais e os contornos obtidos pelo #Contraoaumento de Teresina. Existe um nexo, um fio que articula a luta dos jovens e penso, inclusive, que é desse ponto de vista que deve ser olhado, por exemplo, o significado político maior da demanda básica da luta posta na rua: a redução do preço da passagem do ônibus.

Demandar o direito de não pagar a passagem - ou de ter o seu preço estabelecido em patamares toleráveis - remete-nos imediatamente a um direito civil básico do pacto social estabelecido numa democracia, que é o direito de ir e vir. Nossa Constituição Federal consagra como livre o direito de locomoção. Sabemos, por outro lado, que na realidade das grandes cidades, das sociedades complexas a operacionalização desse direito implica em que uma série de condicionantes seja atendida, tais como a indispensável disponibilidade de meios para torná-la possível quando a locomoção situa-se para além da capacidade física de cada um. Desse modo,questionar o preço da passagem é, antes, questionar até que ponto a fruição deste direito se mostra real, factível nos termos vivenciados em nossa sociedade; é questionar a existência concreta da suposta liberdade de ir e vir.

Um segundo desdobramento diz respeito aos principais atores da reivindicação, os estudantes. O movimento parece deixar entender que as juventudes estudantis, tomadas pela sociedade como responsáveis pela continuidade social, demandam nas ruas que o alto custo do preparo dessas novas gerações deixe de ser administrado individualizada e arduamente pelas famílias. Que a tarefa passe a ser também do Estado, responsável pela gestão dos bens e serviços financiados publicamente, e de alguns setores da sociedade, os quais acessam as maiores parcelas da riqueza social, no caso, o empresariado do setor. O corolário da atitude é a desconstrução do entendimento naturalizado de que a formação daqueles que nos substituirão coletivamente é de responsabilidade exclusiva do núcleo familiar.

Na luta empreendida, os jovens apontam modelos de política que viessem a atender suas necessidades atuais: negam para si a assunção do ônus do transporte por se reconhecerem sujeitos de direito quanto à proteção que o Estado brasileiro os promete em discursos e textos legais, como o Estatuto da Criança e do Adolescente-ECA. Recusam as saídas paliativas para a problemática vivenciada, como as políticas públicas compensatórias, como o bolsa-família, ou repressoras, como as tais medidas sócio-educativas. Reivindicam mais a liberdade de trânsito na cidade do que as condições para pagarem o cobrado pelo empresariado, mais a oportunidade de freqüentar a escola de qualidade do que vagas em empregos/trabalhos precoces, precarizados e vazios de sentido.

As juventudes parecem cobrar das instituições o cumprimento cabal de suas responsabilidades, aclarando os campos de luta e rompendo, nesse sentido, a perspectiva de adequação à política hegemônica de Estado. Desse modo, assumem-se como pessoas em formação e afirmam, na participação política de resistência, a condição de sujeitos dos seus próprios destinos.

Por outro lado, os jovens passaram a colocar sob suas miras o capital. A cobrança direta que fazem dos setores privados introduz aos levantes uma característica nova em relação aos movimentos sociais juvenis de décadas atrás, os quais focavam apenas o Estado como interlocutor e adversário político. Adotar, numa luta concreta, o capital como adversário direto coloca o movimento pelo transporte em aproximação com os movimentos juvenis mundiais contemporâneos,os quais – organizados sob as mais diferentes maneiras – se insurgem contra outras expressões do capital, presentes nesse novo mundo que povoamos. O enfrentamento de questões relativas à exclusão social, tão crônicas e triviais para nós, no Brasil e no Piauí, se expressa nas ruas a partir de uma nova leitura, extensiva ao coletivo local e estimulada pelos movimentos mundiais e nacionais de resistência ao capital sem pátria e igualmente virulento.

Até onde consigo ver, os agentes privados têm decodificado perfeitamente o sentido das lutas e têm organizado sua reação à altura do risco urdido pela audácia juvenil. Só por essa razão poderemos compreender a força repressiva que se alastra sobre os jovens de Teresina e do Brasil afora. É a defesa intransigente de um território comum e “intocável”, onde estão blindados políticos e seus interesses eleitorais x empresários beneficiários de gestões apartadas dos interesses sociais básicos, ambos orquestrando a manutenção do establishment.

As juventudes na rua operam uma síntese potente entre o novo e o velho, ao tempo em que desenham um presente/futuro onde nos substituem/substituirão confiantemente. Para quem acreditava que os jovens estavam “mortos” fica a reflexão: novos tempos, novos sujeitos, novas lutas.

Projeto Excelências


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